2011-05-25

O prazer do ócio em época de urbanidade

Sempre recebo sugestões para ocupar horas vagas com atividades extras, algo rentável, imperdível ou fora de série. E houve um tempo – não distante – em que eu de fato acumulava tarefas profissionais. Durante meses, não vivia; simplesmente funcionava. Perdia a consciência do corpo, pensando na saúde como se ela fosse um mero combustível para que a máquina em que eu me transformara pudesse continuar. Obedecia ao relógio, sentindo imensa culpa com atrasos, e esperava o domingo para soltar um pouco o fôlego. Mesmo assim, lembrava que a diversão gerava compromissos acumulados, com mais pressa e menos descanso nos dias seguintes.

O que aconteceu para que eu percebesse que essa mecanização era absurda e nada compensava o lazer perdido? Será que estive numa fronteira perigosa, correndo riscos sérios por algum motivo, e nessa ocasião iluminei-me? Ou, ao contrário, fui na direção oposta da espiritualidade, com uma mudança guiada pelo dinheiro, uma loteria súbita que me permitisse recusar qualquer renda extra? Nenhum desses extremos foi a causa. Simplesmente enxerguei o abismo que havia entre o período de férias e o resto do ano. Numa etapa eu era feliz; na outra, não.

Claro que chegar a esse dualismo não foi fácil. Nos momentos de lazer, eu tinha uma espécie de abstinência do trabalho e me sentia vazia ou – pior – impregnada de uma auto-rejeição, como se desenvolvesse uma paranoia de me sentir inútil. O meu valor estava atrelado à eficiência, à produção, aos resultados que nasciam com o trabalho... Ora, mas existe um limite para o molde que a sociedade impõe ao sujeito! Nunca quis ser um produto, número ou peça de qualquer coisa. Queria, antes, satisfazer aquela emoção que experimentava durante as férias: a descoberta do ócio. O ócio de uma criança que brinca sem prazo para terminar. O ócio de um bicho, de um pássaro com seus trinados que são só beleza, e não subsistência.

Há quem pense que hora livre é sinônimo de tédio e o moto-contínuo do trabalho serve para driblar os pensamentos ou a necessidade de tomar decisões. Pois a esses eu digo que o ócio não é ficar sem fazer nada; ao contrário, é fazer o que se quer, na hora em que dá vontade. Lógico que existem pessoas que não sabem o que querem e desconhecem as próprias vontades. O trabalho, então, automatiza, afasta o mistério de olhar para si mesmo – e, quem sabe, assustar-se. Para essas criaturas, talvez não exista saída: condenaram-se à própria falta de criatividade.

Mas relaxar pode ser tão simples! Tomar um sorvete, ir ao cinema por impulso, telefonar para um amigo, ler um livro, passear... Para desfrutar dessas coisas, não é preciso grande empenho. O ócio funciona espontaneamente, semelhante a alguém que mergulha num cochilo, sem se dar conta, sem preparo. O prazer que daí surge parece óbvio, mas é difícil de se conseguir, nestas épocas de urbanidade. Ficar à toa, sem remorsos, chega a ser uma dádiva – algo muito próximo da felicidade.

Fonte: Tércia Montenegro - Escritora, fotógrafa e professora da UFC – Publicado no Jornal O Povo (Opinião), 25 de maio de 2011 (Prazer do ócio).


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