Evangelho não modificado, mas traduzido para os ouvintes modernos

Escrito Por Antonio Marcos na sexta-feira, maio 20, 2011 Sem Comentários

A Faculdade Católica de Fortaleza, FCF, em parceria com a CNBB, realizou entre os dias 17 e 19 de maio de 2011, o II Forum Brasileiro de Cultura, com o tema: “Desafios da Cultura para a Ação Evangelizadora”. Os colabodores conferencistas, dentre eles sacerdotes, bispos, teólogos, filósofos e sociólogos, abordaram temáticas de grande atualidade, favorecendo assim uma visão madura da realidade e proporcionando luzes de mudanças, especialmente no que diz respeito à presença da Religião na Cultura pós-moderna.
Destacamos aqui alguns pontos de reflexão a partir das abordagens:

1.    O tecnicismo do mundo não consegue responder às questões fundamentais da vida humana no tocante à realização do sentido de vida para o homem. Daí que o Cristianismo não só está nas nossas raízes ocidentais, mas precisa dá contorno vivencial e não apenas “defender o dogma”; O Cristianismo continua capaz de iluminar as grandes questões da vida, como os dramas e as buscas do coração do homem;

2.    A evangelização em nossos dias, em vez de difundir a Religião, deve preocupar-se com a “ética do Amor”, a ética do Evangelho. E assim, diante das pessoas “não religiosas”, saber identificar e valorizar o quanto muitas são profundamente cristãs; A partir daqui se pode melhor trabalhar o preconceito no Brasil e questionar as atitudes individuais, sociais e políticas de quem se diz “cristão confesso, evangélico e católico”;

3.    Fala-se da retomada do fenômeno religioso, no entanto, observam-se três aspectos: 1 – A privatização da fé: o extremo da individualização da vivência da fé, favorecendo assim em demasia o emocional; 2 – O trânsito religioso: a inconsistência da experiência religiosa, a vulnerabilidade na adesão a uma identidade religiosa e comunitária, ou seja, muda-se facilmente de religião conforme as necessidades pessoais, e 3 – O alargamento da Religião: um aspecto positivo, que é a presença da religião nas outras esferas da vida, tais como a Biologia, a Psicologia etc.;

4.    A sociedade ocidental e brasileira não é desprovida de “Metafísica”, da inserção das questões fundamentais da vida do homem no aspecto transcendente, tanto que vemos hoje os segmentos da sociedade “criando, produzindo” suas explicações para a vida, seus desafios e mistérios, não esperando mais pelas explicações pré-prontas. No entanto, é preciso ir de encontro a esta sociedade com um “Evangelho não modificado”, mas traduzido para os ouvintes modernos. Não estamos diante de um “homem difícil à escuta”, mas que se vê seduzido e conquistado por outros modelos de vida e felicidade. O Evangelho tem a força de conquistar e preencher este homem, mas precisa tornar-se atraente por quem o manipula;

5.    O Estado Laico se apresenta como a única garantia de uma boa convivência, mas isso não significa que a Religião Cristã esteja fora desta convivência e de favorecer a configuração da mesma, desde que leve em consideração a consciência e a liberdade do homem como valores irrenunciáveis. A Religião é um valor fundamental, tem valores éticos, mas precisa dialogar, não impor; conquistar, não excluir os diferentes; Traduzir seu conteúdo, não defender a qualquer custo simplesmente argumentos. A ética do amor precisa sobrepor-se à ética da razão. Somente o amor é capaz de remediar o mundo; Isso não faz regredir a identidade cristã, porque, segundo ela, sua essência não é o dogma, mas uma Pessoa, Jesus Cristo;

6.    A cultura pós-moderna está marcada inegavelmente pelas novas configurações midiáticas, por uma técnica que só avança cada dia nas suas novidades, da mesma forma o volume de informações que favorece o “avizinhamento das culturas”, interfere no conhecimento e na forma de apreendê-lo. Nesse sentido a evangelização dentro desta cultura precisa ter “olhos e ousadia” maiores. Não podemos perder a nossa identidade cristã e nem acharmos que temos que cuidar só dos batizados. Jesus é para o mundo, mas os que creem e para os que não creem principalmente. Evangelização pede missão maior, compromisso, estratégia, adesão pessoal, testemunho, vida comunitária e perseverança no diálogo e na esperança;

7. Por fim, a presença da Religião na cultura pós-moderna pede compromisso com as outras dimensões da defesa da vida, a humana e também a vida da natureza. A defesa da dignidade do ser humano é a causa maior de nossos esforços, porque só podemos pensar o homem feliz, crente e caminhando para um progresso social, cultural e religioso se este homem viver, e viver dignamente. Ao lado deste valor está exatamente a assistência aos mais esquecidos, o amor e o cuidado pelos pobres. Temos de ficar ao lado dos mais indefesos e vulneráveis, mas que têm o mesmo potencial e dignidade de pessoa, de cidadãos e filhos de Deus.
Antonio Marcos (Conforme minhas anotações nos dias 18 e 19)
Imagem: Auditório da Católica