A “ética do guerreiro” para o cristão

Escrito Por Antonio Marcos na segunda-feira, maio 30, 2011 Sem Comentários

A literatura bíblica do Antigo Testamento se valeu tantas vezes do termo “valente guerreiro” atribuído ao Senhor, Deus de Israel, Aquele que vence todas as batalhas. A certeza de que Deus estava no acampamento, a caminhar com o seu povo, era certeza de que a batalha seria ganha, ainda que o exército inimigo fosse de proporção superior em efetivo. “Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva” (Sf 3,16-17a). É constitutiva às palavras de ordem do Senhor a exortação referente ao desânimo. É preciso vencê-lo antes de qualquer coisa! O desânimo parecia bloquear a ação de Deus, porque vencê-lo requer uma parcela significativa da vontade humana. E Deus só age em nós se deixamos!
Volta em nossos dias, mais do que nunca, certa tendência a se cultivar um estado de desânimo que se impreguina nos corações e almas de bons cristãos. O agravante é que nem sempre decorre de contextos reais de penúrias, doenças ou dores de caráter relacional, mas provém de uma não orientação da vida, da ausência daquele núcleo de sentido e relação íntima com Deus, do qual emana a impressionante força com que muitos atravessam a tempestade do sofrimento com esperança, não se deixando levar pelo desânimo porque ele é capaz de destruir tudo, inclusive a obra já erguida, embora não ainda acabada. O desânimo se instala fácil quando a nossa amizade com Deus, a experiência de ser amado por ele não é forte suficiente para nos lançar na certeza de que está conosco, aconteça o que acontecer. É fascinante ver o profeta Sofonias dizer que “Deus nos renova porque ele é todo alegria por nossa causa, por isso nos salva” (v.17b). O convite contínuo para que louvemos a Deus não significa que estamos fugindo da vida como pensam muitos, ou que estamos alienados, jamais! Louvamos a Deus porque ele nos ama, porque também exulta de alegria quando nos vê não sem desafios, mas sem o desânimo. Louvamos a Deus porque nascemos para isso e é também o amor que nos move.
Fala-se hoje de uma “ética do guerreiro”, ou seja, a “lei que favorece o ganhar sempre”. Porém, a ética do guerreiro para o cristão deve ser a ética do amor, da caridade cristã, do perdão, do recomeço, da esperança desconcertante em si mesmo, no outro, no mundo, na Igreja e no projeto salvífico de Deus para o homem. E a caridade, a caridade de Cristo, perde e ganha. Perder também faz parte desta ética, mas o desânimo, este é um corpo estranho ao núcleo da fé, não faz parte. “Coragem! Não temais!”, dizia sempre João Paulo II, dando eco ao Evangelho, gritando sobre os telhados para que o homem de fé não se abata, pois o valente guerreiro se permitiu passar na cruz e mostrou onde está a sua força, “amor ao extremo” (cf. Jo 13,1). Bendita perda que nos proporcionou incalculável ganho, a salvação!  
Antonio Marcos