"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2011-05-31

Qual a razão dos teus louvores, de tua alegria, Maria?


Maria é um exemplo feliz de vivência da alegria cristã. Não conseguimos imaginá-la de outra forma. Mas esta maneira de viver tem, felizmente, uma explicação: ela fora alvo da visita gratuita de Deus e de seus favores, preenchida da Sua graça e tornada digna de receber o Filho de Deus encarnado. E tudo isto passou por sua resposta generosa, por sua aceitação ao projeto de Deus, à vocação do céu para a sua vida. Tal vocação, podemos assim dizer, é também a nossa: deixar Jesus ser gestado dentro de nós pelo poder do Espírito Santo, mediante a fé. A visita de Deus na alma é mesmo uma “revolução”, numa linguagem científica, um “big-bang” de alegria. Quem não se lembra de Francisco de Assis, o que lhe aconteceu após a sua forte experiência de Deus, após ser preenchido por uma graça infusa extraordinária, fora conduzido pelo desejo de louvar a Deus aos bosques e lá cantava, dançava e exaltava o nome de Deus. No fim da vida, não tendo mais a mesma saúde da juventude, deitado no leito, fazia de dois gravetos o seu violino com o qual cantava para os irmãos e os desconcertava porque não entendiam como alguém se preparasse para a morte daquela forma (Irmão de Assis, Cap.1). 
Algumas linhas pessoais de Bento XVI, lidas e meditadas recentemente, diziam: “O Cristianismo confere alegria, alarga horizontes” (Luz do Mundo, parte I, 1). Quando vemos Maria correr apressadamente ao encontro de Isabel para partilhar de sua alegria e ser solidária com sua prima também grávida e já com seis meses e, por sua vez, já idosa (cf. Lc 1, 39ss), vem-nos inevitavelmente à memória a figura de algumas outras mulheres e homens de Deus ao vivenciar a “pressa” em partilhar o melhor que receberam, o próprio Deus. Quem não se lembra de Teresa de Ávila na sua pressa para evangelizar, em Teresinha na corrida pela santidade, em Madre Teresa de Calcutá no desejo de ir ao encontro dos pobres e em João Paulo II que desejava tanto estar com os jovens? Quem de nós não se lembra de Chiara Lubich (Fund. Dos Focolares) na sua sede pela unidade de todos os homens? Quantos ainda de nós somos testemunhas de homens e mulheres inflamados pela evangelização como Monsenhor Jonas Abib, Moysés Azevedo e Maria Emmir?  “Quem encontrou a Cristo não pode guardá-Lo para si, apressa-se em comunicar aos outros” (Deus Caritas Est, Bento XVI).  E o faz com alegria!
O texto não diz que Maria dançou na presença de Isabel, mas sabemos que o seu Canto a Deus, o Magnificat, foi um canto festivo, de exultação ao nome de Deus, de júbilo, de intensa gratidão, algo que só acontece em quem faz a experiência de ser amado, visitado e favorecido pelos dons de Deus, assim, sem nada merecer, reconhecendo-se “um nada preenchido pelo Tudo”. Maria cantou alegremente e imaginamos a expressão do seu corpo, de sua face, de suas mãos, tudo era manifestação de Deus. A Igreja reza com a expressão de Maria de forma linda e profunda: “Vem, trazendo o Pequenino para o mundo nele crer. A razão dos teus louvores, possam todos conhecer” (Oração das Horas, Hino das Laudes da Festa da Visitação). Maria, Virgem da Visitação, modelo de alegria cristã, modelo de amor partilhado, de caridade fraterna, de missão, de comunhão, vem à casa do nosso coração, canta e dança a misericórdia de Deus, pois, mais do que nunca, estamos outra vez necessitados de saber a razão dos teus louvores. Apressa-te, Mãezinha, e que ao Te felicitarmos, sejamos também repletos do Espírito Santo para que, apressados, corramos ao encontro dos que precisam conhecer o Teu Filho, Jesus Cristo.
Antonio Marcos

2011-05-30

A “ética do guerreiro” para o cristão


A literatura bíblica do Antigo Testamento se valeu tantas vezes do termo “valente guerreiro” atribuído ao Senhor, Deus de Israel, Aquele que vence todas as batalhas. A certeza de que Deus estava no acampamento, a caminhar com o seu povo, era certeza de que a batalha seria ganha, ainda que o exército inimigo fosse de proporção superior em efetivo. “Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva” (Sf 3,16-17a). É constitutiva às palavras de ordem do Senhor a exortação referente ao desânimo. É preciso vencê-lo antes de qualquer coisa! O desânimo parecia bloquear a ação de Deus, porque vencê-lo requer uma parcela significativa da vontade humana. E Deus só age em nós se deixamos!
Volta em nossos dias, mais do que nunca, certa tendência a se cultivar um estado de desânimo que se impreguina nos corações e almas de bons cristãos. O agravante é que nem sempre decorre de contextos reais de penúrias, doenças ou dores de caráter relacional, mas provém de uma não orientação da vida, da ausência daquele núcleo de sentido e relação íntima com Deus, do qual emana a impressionante força com que muitos atravessam a tempestade do sofrimento com esperança, não se deixando levar pelo desânimo porque ele é capaz de destruir tudo, inclusive a obra já erguida, embora não ainda acabada. O desânimo se instala fácil quando a nossa amizade com Deus, a experiência de ser amado por ele não é forte suficiente para nos lançar na certeza de que está conosco, aconteça o que acontecer. É fascinante ver o profeta Sofonias dizer que “Deus nos renova porque ele é todo alegria por nossa causa, por isso nos salva” (v.17b). O convite contínuo para que louvemos a Deus não significa que estamos fugindo da vida como pensam muitos, ou que estamos alienados, jamais! Louvamos a Deus porque ele nos ama, porque também exulta de alegria quando nos vê não sem desafios, mas sem o desânimo. Louvamos a Deus porque nascemos para isso e é também o amor que nos move.
Fala-se hoje de uma “ética do guerreiro”, ou seja, a “lei que favorece o ganhar sempre”. Porém, a ética do guerreiro para o cristão deve ser a ética do amor, da caridade cristã, do perdão, do recomeço, da esperança desconcertante em si mesmo, no outro, no mundo, na Igreja e no projeto salvífico de Deus para o homem. E a caridade, a caridade de Cristo, perde e ganha. Perder também faz parte desta ética, mas o desânimo, este é um corpo estranho ao núcleo da fé, não faz parte. “Coragem! Não temais!”, dizia sempre João Paulo II, dando eco ao Evangelho, gritando sobre os telhados para que o homem de fé não se abata, pois o valente guerreiro se permitiu passar na cruz e mostrou onde está a sua força, “amor ao extremo” (cf. Jo 13,1). Bendita perda que nos proporcionou incalculável ganho, a salvação!  
Antonio Marcos

Prontos para o fim...


Bem sabemos que em nossos dias de tantas ansiedades, os anúncios de fim de mundo vão sempre emergindo com mais força e banalidade. Os rumores desconcertam até “os crentes” que parecem sofrer de uma amnésia das promessas de Deus, se é que estas promessas ainda estão vivas dentro de nós, nesse caso, trata-se de um paradoxo.  O fato é que as promessas no âmbito da fé precisam estar em comunhão com a Palavra de Deus e receber a seiva revigorante mediante este tronco. Há uma promessa real de “um fim” prescrito nas Sagradas Escrituras (cf. Mt 25,31-46), no entanto, o que deve anteceder este fim é mesmo a nossa vida cada dia distante do pecado. “O amor a si mesmo a ponto de desprezar o amor de Deus”, a decisão de “inventar a própria felicidade” parece mesmo uma tentação forte em nossos dias.  Mas cá entre nós, quanto desconforto intelectual e espiritual quando se escuta falar do “pecado”, não é verdade? Sem dúvida! Mas ele existe porque a nossa própria condição humana o atesta.
Olhamos para nós e vemos que nem sempre predomina um amor autêntico, mas a sujeira moral, a mentira, o ódio e as tantas formas de violentar o próximo. Ainda que uma pessoa diga não reconhecer tais mazelas nela, não quer dizer que não seja pecadora (cf. 1Jo 1,8). Daí que as explicações subjetivas para ocultar a doutrina sobre o pecado é falha. Os consultórios e as palestras de auto-ajuda têm sua importância, mas a verdadeira reconciliação consigo e com o outro é Jesus quem pode operar. “Só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério do homem” (Conc. Vaticano II, GS, 22). Evidentemente aqui não se trata de dizer que “os não crentes” não possam ser felizes, não é isso, mas que a felicidade dos que creem e dos não creem não pode estar dissociada daquele imã interior que atrai a consciência e a desperta para que se “faça o bem e evite o mal”.
“O ser humano, apesar de pecador, continua sendo capaz de fazer o bem, à medida que colabora livremente com a graça de Deus”. A verdade fundamental é que Cristo conquistou para nós a graça que perdoa, que converte e santifica, põe-nos novamente na direção certa: a vida plena com Deus. Ninguém se liberta da escravidão do pecado simplesmente pelos esforços próprios. Eles precisam da graça de Deus. Não há transformação de vida se Jesus não cruzar o nosso caminho, entrar no cortejo, “tocar e convidar o morto à vida”. Somente isto faz com que o pecado não seja mais um parceiro a andar de  mãos dadas conosco. Sair do pecado é estar pronto para o fim do mundo, seja o verdadeiro de que fala Jesus, sejam ainda aqueles que a toda hora são simulados. Nada mais precisamos temer! Assim viveram e morreram os santos: inimigos do pecado e destemidos de qualquer coisa! 
Antonio Marcos

2011-05-29

O mundo espera de nós um amor concreto

Os apóstolos caminharam mais ou menos três anos com Jesus e não entenderam muito de sua mensagem. Foi necessário a morte e a Ressurreição de Cristo para que o véu dos olhos caísse e assim enxergassem a grandeza de Jesus. Nós caminhamos com Cristo, escutamos a sua palavra e, mesmo assim, não compreendemos toda a beleza do anúncio do Evangelho. Ao lado de Jesus nos sentimos reavivados na fé e percebemos a necessidade de nos unirmos a Ele, que nos chama para fazer o bem a todos e amar-nos uns aos outros. Caminhamos para a maturidade da fé, precisamos mergulhar de corpo inteiro no oceano do amor e nos embeber pela misericórdia de Deus.

O mundo fixa o olhar sobre nós, nos questiona, pede-nos uma resposta e que sejamos mais coerentes com a palavra de Jesus. A base de todos os mandamentos é: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Isto é o que o mundo espera de nós. O amor concreto, feito carne, que é capaz de derrubar todas as paredes e construir a casa da fraternidade e da solidariedade. Deixemos que este domingo de Páscoa nos ilumine e nos enterneça o coração e a mente.

Fonte: Frei Patrício Sciadini. Comentário à Liturgia do VI Domingo de Páscoa – Pão da Vida, Edições Shalom.

O Espírito Santo nos torna capazes de reconhecer a verdade

Diz o texto de Atos dos Apóstolos 8, 5-8.14-17: “Pedro e João impuseram-lhe as mãos, e eles receberam o Espírito Santo”. Este gesto simples, mas tão eclesial e divino que encontramos no Antigo e Novo Testamento é um gesto consecratório, pelo qual Deus toma posse de alguém e o torna sua propriedade exclusiva e o dispõe para o seu serviço. O Espírito Santo consagrada, infunde coragem, ilumina e nos torna capazes de reconhecer a verdade. O Evangelho deve ser difundido por todos os cantos da terra. A visita de Pedro e João a Samaria manifesta como a comunidade dos apóstolos tem consciência de que a Palavra de Jesus não pode ser “restrita a um pequeno grupo”, mas deve ser dirigida a todos. Quem converte é Deus, mas nós somos instrumentos de conversão e anúncio.

Fonte: Frei Patrício Sciadini. Comentário à Liturgia do VI Domingo de Páscoa – Pão da Vida, Edições Shalom.

O testemunho, a única forma de alcançar os “não crentes”

Qual é o lugar em que deve ser anunciado o Evangelho? Em todos os lugares. Nenhum lugar pode ser eliminado, onde houver uma pessoa, o Evangelho deve chegar. Claro que a metodologia e pedagogia do anúncio deve sempre mudar. Hoje a fé entra pelo ouvido, do corpo e do coração, mas nunca pela imposição. É urgente o forte testemunho de quem aceita Jesus na sua vida, é a única forma para que os “não crentes” se decidam a ser seguidores de Cristo.

Fonte: Frei Patrício Sciadini. Comentário à Liturgia do VI Domingo de Páscoa – Pão da Vida, Edições Shalom.

Ninguém está fora do amor de Cristo

O texto de 1Pedro 3, 15-18 mostra como o apóstolo Pedro nos encanta com seu estilo simples e convincente. Ele sabe como bater à porta do nosso coração; Ele nos pede que saibamos dar “razão da nossa esperança”, mas também da fé e do amor. Dar razão da esperança, da fé e do amor é santificar os nossos corações, deixando que a Palavra de Deus penetre em nós e nos fecunde. Jesus morreu “a fim de nos conduzir a Deus”. Ele morreu por todos, justos e injustos, ninguém está fora do amor de Cristo.

Fonte: Frei Patrício Sciadini. Comentário à Liturgia do VI Domingo de Páscoa – Pão da Vida, Edições Shalom.

Quem ama de verdade não duvida da pessoa amada

“Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama” (Jo 14, 15-21). Não há sofrimento maior para uma pessoa que quer crer, mas não consegue. Tenho certeza de que muitos ateus sofrem terrivelmente por não conseguir crer e, para esconder o próprio sofrimento, tomam o caminho da negação de Deus e da fuga. Que ama de verdade torna-se incapaz de duvidar da pessoa amada. O amor se dilata, expande-se, por isso é capaz de amar quem acolhe a Palavra e a vive. O que o mundo espera daqueles que aceitam a fé e dizem que creem? Testemunho, fidelidade e martírio. Os discursos se leem nos livros, mas a fé se lê na vida. Estamos nos últimos dias de maio, caminhemos com Maria que crê. Para todas as “isabéis” que esperam ajuda, coloquemo-nos a caminho para dizer que amamos, não com palavras, mas com a vida.

Fonte: Frei Patrício Sciadini. Comentário à Liturgia do VI Domingo de Páscoa – Pão da Vida, Edições Shalom.

2011-05-25

O prazer do ócio em época de urbanidade

Sempre recebo sugestões para ocupar horas vagas com atividades extras, algo rentável, imperdível ou fora de série. E houve um tempo – não distante – em que eu de fato acumulava tarefas profissionais. Durante meses, não vivia; simplesmente funcionava. Perdia a consciência do corpo, pensando na saúde como se ela fosse um mero combustível para que a máquina em que eu me transformara pudesse continuar. Obedecia ao relógio, sentindo imensa culpa com atrasos, e esperava o domingo para soltar um pouco o fôlego. Mesmo assim, lembrava que a diversão gerava compromissos acumulados, com mais pressa e menos descanso nos dias seguintes.

O que aconteceu para que eu percebesse que essa mecanização era absurda e nada compensava o lazer perdido? Será que estive numa fronteira perigosa, correndo riscos sérios por algum motivo, e nessa ocasião iluminei-me? Ou, ao contrário, fui na direção oposta da espiritualidade, com uma mudança guiada pelo dinheiro, uma loteria súbita que me permitisse recusar qualquer renda extra? Nenhum desses extremos foi a causa. Simplesmente enxerguei o abismo que havia entre o período de férias e o resto do ano. Numa etapa eu era feliz; na outra, não.

Claro que chegar a esse dualismo não foi fácil. Nos momentos de lazer, eu tinha uma espécie de abstinência do trabalho e me sentia vazia ou – pior – impregnada de uma auto-rejeição, como se desenvolvesse uma paranoia de me sentir inútil. O meu valor estava atrelado à eficiência, à produção, aos resultados que nasciam com o trabalho... Ora, mas existe um limite para o molde que a sociedade impõe ao sujeito! Nunca quis ser um produto, número ou peça de qualquer coisa. Queria, antes, satisfazer aquela emoção que experimentava durante as férias: a descoberta do ócio. O ócio de uma criança que brinca sem prazo para terminar. O ócio de um bicho, de um pássaro com seus trinados que são só beleza, e não subsistência.

Há quem pense que hora livre é sinônimo de tédio e o moto-contínuo do trabalho serve para driblar os pensamentos ou a necessidade de tomar decisões. Pois a esses eu digo que o ócio não é ficar sem fazer nada; ao contrário, é fazer o que se quer, na hora em que dá vontade. Lógico que existem pessoas que não sabem o que querem e desconhecem as próprias vontades. O trabalho, então, automatiza, afasta o mistério de olhar para si mesmo – e, quem sabe, assustar-se. Para essas criaturas, talvez não exista saída: condenaram-se à própria falta de criatividade.

Mas relaxar pode ser tão simples! Tomar um sorvete, ir ao cinema por impulso, telefonar para um amigo, ler um livro, passear... Para desfrutar dessas coisas, não é preciso grande empenho. O ócio funciona espontaneamente, semelhante a alguém que mergulha num cochilo, sem se dar conta, sem preparo. O prazer que daí surge parece óbvio, mas é difícil de se conseguir, nestas épocas de urbanidade. Ficar à toa, sem remorsos, chega a ser uma dádiva – algo muito próximo da felicidade.

Fonte: Tércia Montenegro - Escritora, fotógrafa e professora da UFC – Publicado no Jornal O Povo (Opinião), 25 de maio de 2011 (Prazer do ócio).


2011-05-24

Os detalhes no acasalamento do amor


Situando a convivência do casal no vínculo matrimonial, jamais podemos deixa de evidenciar os valores que dão contorno e sustentabilidade a esta experiência chamada sempre ao estado de vida definitiva. Os amantes querem a escolha continuada um do outro, preservada e cultivada pelos detalhes, mais do que pelos grandes milagres. Este grande milagre já é uma realidade que precisa apenas ser aceita e acolhida concretamente no modo de viver, a graça de Deus. Mas este grande milagre se desdobra em vivência refeita, recriada, reinventada cada dia, não “se suportando”, mas se descobrindo nos limites com a abertura para novos fascínios.  Os amantes se experimentam na prova, nos desgastes inevitáveis, mas labutas comuns de uma vida comunitária, mas os detalhes parecem sempre os mais lembrados quando a memória precisa fazer resgate de uma história de amor continuada e concluída. Se Deus gosta de cuidar dos detalhes de nossa vida, também gosta e deseja que cuidemos dos detalhes da história do acasalamento do amor no espaço chamado duas vidas e um único amor.
Antonio Marcos

A grandeza na pequenez


Do diálogo entre dois amigos: o médico (Marco Polo) e o mendigo (Falcão)...
Falcão fitou vagarosamente o amigo e, como se estivesse iluminado, disse: - Há dois tipos de Deus: um que criou os homens, e outro que os homens criaram. Para mim, os filósofos (Marx, Nietzsche e Sartre) não acreditavam no Deus criado pelos homens. Eles foram contra a religiosidade da sua época, que dilacerava os direitos humanos, mas não são ateus puros. Todavia não posso falar por eles
O jovem (amigo médico) pensou e inquiriu:
 - Quem somos? O que somos? Para onde vamos? Frequentemente me faço tais perguntas. Quanto mais as faço, mais me perco, e quanto mais me perco, mais procuro me achar.
Em seguida Falcão emendou:
 - Olhe para as pessoas ao nosso redor. O que você vê? Pessoas de ternos, mulheres bem vestidas, jovens exibindo seus tênis, adolescentes arrumando o cabelo, enfim, pessoas transitando.
 - A maioria dessas pessoas vive porque respira. Não perguntam mais “quem são?”, “o que são?”. Estão entorpecidas pelo sistema. O ser humano atual não houve o grito da sua maior crise. Cala sua angústia porque tem medo de ser perder num emaranhado de dúvidas sobre seu próprio ser. No começo do século XX, a ciência prometeu ser o deus do Homo sapiens e responder a essas perguntas. Mas ela nos traiu.
 - Por que nos traiu?
Primeiro porque não desvendou quem somos; continuamos a ser um enigma, uma gota que por um instante aparece e logo se dissipa o palco da existência.Segundo, porque, apesar do salto da tecnologia, ela não resolveu os problemas humanos fundamentais. A violência, a fome, a discriminação, a intolerância e as misérias psíquicas não foram debeladas. A ciência é um produto do ser humano e não um deus do ser humano. Use-a e não seja usado por ela.
Ao esquadrinhar sua inteligência, Marco Polo confessou honestamente:
 - O orgulho é um vírus que contagia a minha mente. Contagia a todos. Até um psicótico tem ideias de grandeza. Será que é possível destruir o orgulho? Não creio. Nossa maior tarefa é controlá-lo.
Para finalizar a complexa aula, voltou-se para face do jovem amigo e completou:
 - A sabedoria de um ser humano não é definida pelo quanto ele sabe, mas pelo quanto ele tem consciência de que não sabe...
Marco Polo incorporou com impacto esta frase. Precisava discerni-la, bem como todo o conhecimento que abordaram. Sua mente tornou-se um caldeirão de ideais. Resolveu que era o momento de partir. Um pouco atordoado, despediu-se de Falcão e saiu. O sol do entardecer reluzia sobre ele e projetava sua sombra sobre o solo. A sombra estava grandiosa. A distorção da imagem o convidou à autoanálise.
Sempre quis ser grande, uma estrela com astros gravitando em sua órbita. Percebeu que a busca da fama era uma tolice. Concluiu que precisava reduzir sua sombra social. Precisava aprender a encontrar grandeza na sua pequenez.
Fonte: Augusto Cury. O Futuro da Humanidade, Cap. X, 2005. (O negrito é nosso).

Quando a dor se torna indispensável


É verdade, sem a dor, não seríamos capazes de nos arrepender com contrição. Como sabemos, o pecado é um afastamento voluntário de nós para com Deus, do Deus que nos criou, que nos deu tudo, que tudo providencia para nós, que zela pela nossa felicidade e santificação. O pecado é, no fundo, uma ingratidão a Deus. É deixar de dar a Deus – ou negar-se a dar a Deus – o amor e a gratidão que lhe devemos pelo simples fato de nos ter criado e de nos manter vivos. Quando não somos gratos, não conseguimos ver a beleza, a bondade, o amor de Deus por nós. Em consequência, não Lhe obedecemos, não fazemos Sua vontade, vivemos como se Ele não existisse. Essa indiferença cruel deveria nos causar uma imensa dor, pois é indiferença para com Aquele que nos criou e nos deu tudo. Sem essa dor, ainda que saibamos que fizemos algo errado, ainda que apresentemos uma longa lista de pecados na confissão, sem essa dor, não há “contrição pelos pecados”, que consiste em arrependimento não vem acompanhado por essa dor, é provável que voltemos a pecar com muita facilidade. Quando a dor da contrição o acompanha, é mais difícil cometer o mesmo pecado. Quem peca muito, ama pouco. 
Fonte: Maria Emmir. 5 Passos para transformar a Dor em Amor, Edições Shalom, 2011.

Quando as coisas de Deus vão contra a nossa própria vontade


Responda-nos, Santo Padre: O Senhor não queria tornar-se bispo, não queria tronar-se prefeito, não queria tornar-se Papa. Não se experimenta um pouco de desespero, quando se pensa nas coisas que sempre acontecem contra a própria vontade?
O fato é este: quando se diz “sim” no momento da ordenação sacerdotal, pode-se também ter uma ideia do que poderia ser o próprio carisma, mas também se sabe o seguinte: “Coloquei-me nas mãos do bispo e, no final das contas, nas mãos do Senhor. Não posso escolher o que quero. Por fim, devo deixar-me guiar”.
Na realidade, pensava que meu carisma fosse ser professor de teologia, e fui feliz quando este meu sonho se realizou. No entanto, tinha bem claro diante dos olhos este ponto: “Estou nas mãos do Senhor e devo levar em conta a possibilidade de dever fazer coisas que jamais quis”. Nesse sentido, certamente foi uma contínua surpresa ser “arrancado” de onde estava e já não poder continuar o próprio caminho. Contudo, conforme disse, naquele “sim” fundamental estava também incluído isso: “Estou à disposição do Senhor e, talvez um dia, devesse também fazer coisas que não gostaria de fazer”.
Fonte: Bento XVI (Entrevista com Peter Seewald). Luz do mundo, 2011.  

O “fim do mundo” como a última notícia



Assim reza a Igreja neste Tempo de Páscoa: “Ó Deus, que pela ressurreição do Cristo nos renovais para a vida eterna, dai ao vosso povo constância na fé e na esperança, para que jamais duvide das vossas promessas” (Oração do Dia, Terça-feira da 5ª semana da Páscoa). A súplica da Igreja a Deus é para que nós, os que cremos e fomos renovados pela certeza da ressurreição de Jesus, e tendo nos colocado a caminho da vida eterna, não venhamos a fraquejar em outras certezas fundamentais, de forma especial, nas promessas de Deus, quer para a comunidade da qual fazemos parte, a Igreja e a nossa família, quer para a nossa própria vida, que traz uma história marcada por alegrias e sombras.
A pergunta é: por que nos permitimos ser assolados pela volubilidade dos fatos e acontecimentos? Por que os rumores de “fim de mundo”, por sua vez alguns tão superficiais, são suficientes para o assombro e o medo de tanta gente que se diz ter fé, que se diz cristã e crente nas promessas de Cristo? Qual é mesmo este Cristo no qual dizemos seguir? Qual é mesma esta fé? Onde ela está sendo nutrida e com qual constância? O que é ter fé, afinal, nas promessas de Deus? Tais perguntas, sem dúvida, são primeiramente para quem vos escreve. Se a dúvida já nos parece – segundo a oração da Igreja – “um perigo”, imaginemos a vulnerabilidade de nossas convicções religiosas, a fácil desestabilidade com que nossa caminhada de fé se encontra quando nos sobrevêm os rumores antigos e sempre novos de que Ele, o Messias, está aqui e ali. Tenha o Senhor misericórdia de nós!
Sim, Deus está aqui, está neste mundo, caminha conosco no Cristo Ressuscitado porque sua fidelidade permanece para sempre, Seu amor e amizade com o homem redimido não muda. Esta é a fé da Igreja. Deus participa da vida do homem e continua a guiar a obra da Criação, não obstante a prepotência do homem e seus constantes “não”. Cristo voltará para julgar os vivos e os mortos e todos os olhos contemplaram tal mistério. No entanto, quão frágil é a nossa fé, por isso ajuda-nos, Senhor, ao menos a aprender a rezar pedindo fé e esperança, porque “acreditar no que não se pode ver” parece ato de violência para alguns corações. Nunca fomos tão inteligentes, tão modernos, tão técnicos, tão atualizados na última notícia... Da mesma forma, nunca fomos tão “analfabetos” no conhecimento da verdade e tão “distraídos” na vivência da fé. Ensina-nos a rezar, a viver e a amar, pois é isto que nos atualiza a tua ressurreição.
Antonio Marcos

2011-05-20

Evangelho não modificado, mas traduzido para os ouvintes modernos


A Faculdade Católica de Fortaleza, FCF, em parceria com a CNBB, realizou entre os dias 17 e 19 de maio de 2011, o II Forum Brasileiro de Cultura, com o tema: “Desafios da Cultura para a Ação Evangelizadora”. Os colabodores conferencistas, dentre eles sacerdotes, bispos, teólogos, filósofos e sociólogos, abordaram temáticas de grande atualidade, favorecendo assim uma visão madura da realidade e proporcionando luzes de mudanças, especialmente no que diz respeito à presença da Religião na Cultura pós-moderna.
Destacamos aqui alguns pontos de reflexão a partir das abordagens:

1.    O tecnicismo do mundo não consegue responder às questões fundamentais da vida humana no tocante à realização do sentido de vida para o homem. Daí que o Cristianismo não só está nas nossas raízes ocidentais, mas precisa dá contorno vivencial e não apenas “defender o dogma”; O Cristianismo continua capaz de iluminar as grandes questões da vida, como os dramas e as buscas do coração do homem;

2.    A evangelização em nossos dias, em vez de difundir a Religião, deve preocupar-se com a “ética do Amor”, a ética do Evangelho. E assim, diante das pessoas “não religiosas”, saber identificar e valorizar o quanto muitas são profundamente cristãs; A partir daqui se pode melhor trabalhar o preconceito no Brasil e questionar as atitudes individuais, sociais e políticas de quem se diz “cristão confesso, evangélico e católico”;

3.    Fala-se da retomada do fenômeno religioso, no entanto, observam-se três aspectos: 1 – A privatização da fé: o extremo da individualização da vivência da fé, favorecendo assim em demasia o emocional; 2 – O trânsito religioso: a inconsistência da experiência religiosa, a vulnerabilidade na adesão a uma identidade religiosa e comunitária, ou seja, muda-se facilmente de religião conforme as necessidades pessoais, e 3 – O alargamento da Religião: um aspecto positivo, que é a presença da religião nas outras esferas da vida, tais como a Biologia, a Psicologia etc.;

4.    A sociedade ocidental e brasileira não é desprovida de “Metafísica”, da inserção das questões fundamentais da vida do homem no aspecto transcendente, tanto que vemos hoje os segmentos da sociedade “criando, produzindo” suas explicações para a vida, seus desafios e mistérios, não esperando mais pelas explicações pré-prontas. No entanto, é preciso ir de encontro a esta sociedade com um “Evangelho não modificado”, mas traduzido para os ouvintes modernos. Não estamos diante de um “homem difícil à escuta”, mas que se vê seduzido e conquistado por outros modelos de vida e felicidade. O Evangelho tem a força de conquistar e preencher este homem, mas precisa tornar-se atraente por quem o manipula;

5.    O Estado Laico se apresenta como a única garantia de uma boa convivência, mas isso não significa que a Religião Cristã esteja fora desta convivência e de favorecer a configuração da mesma, desde que leve em consideração a consciência e a liberdade do homem como valores irrenunciáveis. A Religião é um valor fundamental, tem valores éticos, mas precisa dialogar, não impor; conquistar, não excluir os diferentes; Traduzir seu conteúdo, não defender a qualquer custo simplesmente argumentos. A ética do amor precisa sobrepor-se à ética da razão. Somente o amor é capaz de remediar o mundo; Isso não faz regredir a identidade cristã, porque, segundo ela, sua essência não é o dogma, mas uma Pessoa, Jesus Cristo;

6.    A cultura pós-moderna está marcada inegavelmente pelas novas configurações midiáticas, por uma técnica que só avança cada dia nas suas novidades, da mesma forma o volume de informações que favorece o “avizinhamento das culturas”, interfere no conhecimento e na forma de apreendê-lo. Nesse sentido a evangelização dentro desta cultura precisa ter “olhos e ousadia” maiores. Não podemos perder a nossa identidade cristã e nem acharmos que temos que cuidar só dos batizados. Jesus é para o mundo, mas os que creem e para os que não creem principalmente. Evangelização pede missão maior, compromisso, estratégia, adesão pessoal, testemunho, vida comunitária e perseverança no diálogo e na esperança;

7. Por fim, a presença da Religião na cultura pós-moderna pede compromisso com as outras dimensões da defesa da vida, a humana e também a vida da natureza. A defesa da dignidade do ser humano é a causa maior de nossos esforços, porque só podemos pensar o homem feliz, crente e caminhando para um progresso social, cultural e religioso se este homem viver, e viver dignamente. Ao lado deste valor está exatamente a assistência aos mais esquecidos, o amor e o cuidado pelos pobres. Temos de ficar ao lado dos mais indefesos e vulneráveis, mas que têm o mesmo potencial e dignidade de pessoa, de cidadãos e filhos de Deus.
Antonio Marcos (Conforme minhas anotações nos dias 18 e 19)
Imagem: Auditório da Católica

2011-05-17

As frases de Deus na nossa parede


Partir para as iniciativas é melhor que ficar a reclamar por aquilo que não temos mais, assim pensei depois de ler “Quem mexeu no meu Queijo?”. É verdade que tais iniciativas podem não corresponder em seus resultados com aquilo que desejamos, no entanto, seja qual for a iniciativa, será melhor que ficarmos inertes, acomodados, deleitados em nossas ausências.
As iniciativas para o bem, para o crescimento pessoal em todos os sentidos estimulam aquela singular capacidade que tem o homem por não se deixar vencer pelas dificuldades, por maiores que sejam. São elementos estimulantes à auto-estima, provocando assim um novo vigor do corpo e da alma. Os passos iniciados, ou reiniciados, devem estar acompanhados daquela salutar consciência de que aprendemos não com os erros – como diz o filósofo Mário Cortella -, mas com a “correção dos erros”. Esse aprendizado deve nos gerar reflexão para então reprogramarmos os dias pra frente, levando em conta que as vicissitudes humanas estarão sempre sujeitas a cruzarem nossa vida qualquer hora.
O processo de ressignificação das opções, a partir da responsabilidade em assumi-las com tranquilidade e esperança, é mesmo algo indispensável, e uma vez bem vivido é capaz de nos levar a um estado existencial de verdadeira felicidade. Para nós que cremos temos o indispensável auxílio da graça de Deus e de todos os meios eficazes de reconstrução de uma vida. Porém, que se diga: o insensato é aquele que acredita que tudo está sob o seu controle e assim cai no ridículo de não desconfiar de si mesmo. “O orgulho do homem o humilha, mas o pobre de espírito torna-se honrado” (Pv 29,23).
Necessário é sempre recomeçar a partir da situação ou do lugar em que estejamos. O desconhecido nos causa medo, mas o medo tem sua vantagem quando gera prudência equilibrada e melhor nos ajuda concentrar nossas forças nas possibilidades positivas. Que o medo não nos vença, ainda que este consista no descrédito a nós por parte do que mais contávamos como apoio. Cada um tem sua parede – a exemplo dos homenzinhos Hem e Haw -  onde se deve escrever as suas frases, os seus axiomas e olhá-los com esperança e fé, usá-las como estímulo, especialmente quando chegar a hora que se precisa buscar outra fonte de queijo, que o diga Haw. É bom que escrevamos nossas frases, melhor ainda é deixar Deus também escrever as suas frases na nossa parede.
Não fiquemos a reclamar a ausência de nosso queijo roubado, embora tal ausência seja algo concreto, tenha seu preço de dor e perda na vida, mas prosseguir, acreditar outra vez na felicidade é um direito inalienável de cada ser humano vivente. Procurar a felicidade é questão de sobrevivência, e estar a caminho é o mais essencial. “Quem demora a observar os ventos não semeia; nem faz colheita quem fica olhando as nuvens. (...) Não conhecemos todas as ações de Deus, mas ele age sempre” (cf. Eclo 11, 4-6). É verdade, Deus age, Deus escreve sempre suas maravilhosas linhas na nossa parede.
Antonio Marcos