2011-04-09

A verdade é que ninguém é por acaso!


A Teologia me ensinou que um ser humano só pode alcançar a inteireza do que é à medida que se possui. Nascemos indivíduos. Só podemos nos tornar pessoas à medida que nos exercitamos na edificação dos dois pilares: posse de si e disposição ao outro.
Acho interessante. Só pode se oferecer verdadeiramente aquele que já dispõe de si. Instigante forma de interpretar a autonomia. A Antropologia Cristã situa o conceito de pessoa a partir de dois pilares. Ser pessoa é estar na posse do que é, oferecendo-se aos outros. Essa oferenda fomenta a fraternidade, gera realização, transforma o mundo.
Um trecho do poema de William Ernest Henley, versos que o acalentaram nas noites frias da prisão, diz:
“Do breu da noite que não se dissolve
A me envolver em nuvem negra,
A qualquer deus – se algum me ouve,
Agradeço por minha alma que não se verga.
(...) Embora estreito o portão, sigo adiante,
Mesmo tendo ao lado o castigo e o desatino,
Da minha alma eu sou o comandante;
Eu sou o senhor do meu destino”.
Os versos de Henley parecem mergulhados num contexto de subversão. Parecem nascidos de um coração que viu de perto os terrores da privação. A alma agora “que não se verga” parece cansada de enganos e cativeiros. Eu compreendo. A agressividade de uma pessoa costuma estar diretamente ligada à crueldade velada da pergunta. Vejo isso pelas minhas andanças. Os ateus mais agressivos que encontrei nasceram de sensibilidades feridas. Os criminosos também. Há sempre um fato determinante, de fundo, velado, gerando a resposta aparentemente incoerente. A verdade é que ninguém é por acaso.
Ao ler os versos de Henley, outra impressão não tive. A beleza das palavras não oculta os motivos tristes que o levaram a desejar tanta autonomia. O poeta, na tentativa de tentar se possuir, resolve fechar as portas para a possibilidade de ser conquistado. Os seus versos nos dão a entender que o tempo do poema é antecedido por um contexto de cativeiro. Por isso ele se reveste de uma couraça. A proteção só tem um objetivo: evitar qualquer forma de derrota. O medo de perder lhe fechou para a possibilidade de ganhar.
É provável que ele tenha perdido muito na vida. Perdeu sem enxergar o ganho que costuma morar no avesso da perda. Perdeu demais. Perdeu mais do que deveria. Perdeu tanto que desaprendeu de ganhar. Diante do desaprendizado só há uma possibilidade: fechar todas as aberturas. Viver ensimesmado é uma estratégia. Tentativa de cessar as perdas. É como se o isolamento fosse capaz de paralisar o nascimento das desarmonias do mundo. 
É preciso interpretar o avesso dos próprios prejuízos como lugar de aperfeiçoamento e superação, mas muitos não o conseguem. Cresceram imersos no contexto da falta, da ausência. Não aprenderam a vida da teoria que me move. É natural que uma pessoa que tenha perdido tanto na vida venha a considerar a esperança uma teoria bonita, e nada mais.
Autor e Fonte: Fábio de Melo, Sacerdote católico da Diocese de Taubaté (SP), Mestre em Teologia Sistemática, Cantor e compositor. Cartas entre Amigos, 2010.  

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