Quero terminar minha obra. Sinto sede de Deus

Escrito Por Antonio Marcos na sexta-feira, abril 22, 2011 Sem Comentários
O silêncio de Jesus durante suas últimas horas é surpreendente. No entanto, no final, Jesus morre “lançando um forte grito”. Este grito inarticulado é a recordação mais segura da tradição. Os Cristãos nunca o esqueceram. Três evangelistas põem, além disso, na boca de Jesus moribundo três palavras diferentes, inspiradas em outros tantos salmos: de acordo com Marcos (= Mateus), Jesus grita com voz forte: “Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonastes?” Lucas, no entanto, ignora estas palavras e diz que Jesus grita: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. De acordo com João, pouco antes de morrer, Jesus diz: “Tenho sede” e, depois de beber o vinagre que lhe ofereceram, exclamou: “Tudo está cumprido”. O que podemos dizer destas palavras Foram pronunciadas por Jesus? São palavras cristãs que ns convidam a penetrar o mistério do silêncio de Jesus, rompido somente no final por seu grito surpreendente?

Não é difícil entender a descrição que nos é apresentada por João, o evangelista mais tardio. De acordo com sua visão teológica, “ser elevado à cruz” é para Jesus “retornar ao Pai” e entrar em sua glória. Por isso seu relato da paixão é a marcha serena e solene de Jesus para a morte. Não há angústia nem espanto. Não há resistência a beber o cálice amargo da cruz: “A taça que o Pai me ofereceu, por caso não hei de bebê-la?” A morte de Jesus não é se não a coroação de seu desejo mais profundo. Assim o expressa ele: “Tenho sede”, quero terminar minha obra; sinto sede de Deus, quero entrar já em sua glória. Por isso, depois de beber o vinagre que lhe oferecerem, Jesus exclama: “Tudo está cumprido”. Ele foi fiel até o fim. Sua morte não é a descida ao sheol, e sim sua “passagem deste mundo para o Pai”. Nas comunidades cristãs ninguém o punha em dúvida. 

Autor e Fonte: José Antônio Pagola. Jesus, aproximação histórica (Mártir do Reino de Deus), 2010.