2011-04-02

Os olhos do amor


O amor é cego? Pois é, a gente costuma dizer que a caridade em nós não deve olhar a quem é praticada, que devemos viver a gratuidade do amor sem esperar algo em troca ou que podemos amar uma pessoa sem se importar com os seus erros e "ofensas". Isto tem o seu lado positivo e coerente, sem dúvida, porém, o exercício do amor como dom divino não dispensa a consciência e a lucidez que ajudam a identificar a quem dedicamos o nosso amor e o porquê de continuarmos a amar esta ou aquela pessoa. Não se trata de técnica racional, mas de conexão com o amor de Deus. Daí que amamos a quem queremos bem, é verdade! Mas, também devemos amar conscientes da nossa decisão de amar a quem “não queremos bem”, ou a quem, por algum motivo, nos tenha feito o mal ou que compartilhe uma convivência desafiante conosco.  Isto só é possível mediante a graça operante de Deus em nós
O amor consciente enxerga - e como enxerga! -, mas não para excluir os “difíceis”, mas para que o dom do amor em nós impulsione a nossa decisão de amar de forma livre. Este tipo de amor, pelo incrível que pareça, sabe equilibradamente identificar as virtudes do outro e se fixar nelas, não permitindo que as fraquezas dessa pessoa nos convençam de que são maiores que suas virtudes, porque o outro é Imagem e Semelhança de Deus. O amor consciente enxerga para ajudar o outro a ver a sua verdade que, por sua vez, pode estar sendo não merecedora do nosso amor. Esta é a explicação para não acharmos que o “amor justifique o masoquismo” e o faz de conta que não vejo as fraquezas do outro. Não é isso! O amor de Deus em nós necessariamente tem a sua dimensão redentora, e onde há processo de redenção, há cruz, há sacrifício, altruísmo, renúncia, morte e ressurreição. A redenção operada pelo amor em nós inquieta os outros às mudanças
Às vezes escutamos: “Tal pessoa parece ter prazer de fazer o mal aos outros, por isso não consigo enxergar-lhe coisas boas”. Entendemos perfeitamente, porque penso que quase todos nós já tivemos tal constatação de alguém ou já fomos vítimas de pessoas assim. Entretanto, a questão está no tipo de amor que cultivamos, se o nosso tão contingente, marcado por nossas carências e feridas, se pelo “amor” que nos ensina as novelas, os romances coloridos, os “big brother” da vida, ou se o nosso amor é aquele que nos ensinou Jesus Cristo, o Evangelho, os santos, talvez os nossos pais e tantas pessoas que nos ajudaram a ver o rosto de Deus através da fé. Este amor é perceptível em nós e as pessoas o identificam, porque também anseiam vivê-lo! Não temos “todas as explicações” para o objeto do nosso amor, quando existe a reta intenção de querer o bem e a felicidade para o outro, mas, devemos ter a consciente necessidade de que o amor em nós adquira sempre os olhos de Deus. 
Antonio Marcos

0 comentários:

Postar um comentário