2011-04-22

Deus continua sendo seu Deus apesar de tudo

“Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. É fácil entender a reação de Lucas. O grito angustioso de Jesus, queixando-se a Deus por causa do seu abandono, torna-se duro para ele. Marcos não tivera nenhum problema em pô-lo na boca de Jesus (“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”), mas talvez alguns o pudessem interpretar mal. Então, com grande liberdade, substitui-o por outras palavras, a seu ver mais adequadas: “Pai, em tuas mãos abandono minha vida”. Era preciso ficar claro que a angústia vivida por Jesus não havia anulado em nenhum momento sua atitude de confiança e abandono total ao Pai. Nada nem ninguém pudera separá-lo dele. Ao terminar sua vida, Jesus entregou-se confiante a esse Pai que estivera na origem de toda a sua atuação. Lucas queria deixar isso claro. 

No entanto, apesar de todas as suas reservas, o grito conservado por Marcos: Eloí, Eloí, lema sabactani!, ou seja, “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”, é sem dúvida, o mais antigo na tradição cristã e poderia remontar ao próprio Jesus. Estas palavras, pronunciadas em aramaico, língua materna de Jesus, e gritadas no meio da solidão e do abandono total, são de uma sinceridade esmagadora. Se Jesus não as tivesse pronunciado, ter-se-ia alguém na comunidade cristã atrevido a pô-las em seus lábios? 

Jesus morre numa solidão total. Foi condenado pelas autoridades do templo. O povo não o defendeu. Os seus fugiram. Ao seu redor só ouve zombarias e desprezo. Apesar de seus gritos ao Pai no horto do Getsêmani, Deus não veio em sua ajuda. Seu Pai querido o abandonou a uma morte ignominiosa. Por quê? Jesus não chama Deus de Abbá, Pai, sua expressão habitual e familiar. Chama-o de Eloí, “Meu Deus”, como todos os seres humanos. Sua invocação não deixa de ser uma expressão de confiança: Meu Deus! Deus continua sendo seu Deus apesar de tudo. Jesus não duvida de sua existência nem de seu poder para salvá-lo. Queixa-se de seu silêncio: onde está? Por que se cala? Por que o abandona precisamente no momento em que mais precisa dele? 

Jesus morre na noite mais escura. Não entra na morte iluminado por uma revelação sublime. Morre com um “por quê?” nos lábios. Tudo fica agora nas mãos do Pai. 

Autor e Fonte: José Antônio Pagola. Jesus, aproximação histórica (Mártir do Reino de Deus), 2010.

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