2011-04-09

Curar os ferimentos sem nutrir ódio pelos que nos feriram


Ganhar e perder são dois lados de um mesmo caminho. (...) Quando alguém nos magoa, nós só temos duas possibilidades. A vingança ou o perdão. A primeira nos tornará felizes por algumas horas, ou até mesmo por alguns dias. A segunda nos possibilitará uma felicidade que poderá durar a vida inteira.
(...) A escolha do filtro é determinante para o que conseguimos como resultado final. A vida é dura em todo canto. É dura em mim, é dura em você, é dura em todos nós. O sofrimento é normativo na condição humana. Há sempre uma dor sendo gestada, sendo sofrida em algum canto deste imenso mundo.
Agora, neste instante em que lhe escrevo, e no instante em que me lerá, muitas sensibilidades estão sendo feridas, machucadas. O destino do mundo depende da maneira como essas pessoas reagirão ao que lhes fere. O todo estará fomentado na pequena parte.
Há pessoas que escolhem a vingança. Eu compreendo. Já agi muitas vezes assim. A vingança nos presenteia com uma satisfação temporária. Ela nos faz pensar que a perda diminui de tamanho. Ilusão. O que está perdido não pode mais voltar. A vingança não pode apagar as consequências que já ficaram marcadas em nós. [Matar nunca resolve o problema da solidão. Escolher a violência, especialmente aos indefesos e inocentes, não faz sair do fosso da rejeição]. Fechar-se para o mundo, privando-se para a possibilidade de amar e ser amado é uma forma que muitos escolhem para se vingar. Optam por um caminho tortuoso, difícil de ser trilhado. O ódio é um sentimento cansativo, pois gera peso na mente que o administra. A criatura odiada ocupa um espaço imenso na mente que odeia. O ódio é um veneno perigoso que nos mata aos poucos. Sua ação é lenta, mas constante. 
Diferente é a experiência do perdão. O perdão consiste numa reconciliação amorosa com os fatos e pessoas que nos machucaram. É um recurso terapêutico, pois através dele nós expulsamos da mente os motivos que nos oprimem. (...) As mais sangrentas de todas as prisões são aquelas que construímos dentro de nós mesmos. É o lugar onde trancafiamos a vida que não deu certo. É o calabouço onde resguardamos as palavras que nos machucaram, as pessoas que nos feriram. É nessa prisão que fabricamos os ódios que sentimos. É nesse lugar sombrio que nutrimos o sangue que nos assassina. É nele que está o motor que nos move e nos braços desumanos da morte.
O resultado da vida depende de nossas escolhas. A da vingança e a do perdão. A avenida que escolhemos trilhar ficará registrada nas memórias de nossa vida. O que somos e seremos depende do caminho escolhido. Eu continuo desejoso de manter minha alma “conquistável”. Peço a Deus que não retire o seu Espírito de mim. É Ele que me ajuda a discernir a natureza dos caminhos. É Ele que me ajuda a discernir o que fazer com o gomo da corda que a vida me oferece cada dia. Quero viver os versos de William Erneste Henley, mas não quero que essa vivência seja resultado de um revanchismo. Quero que minha radical decisão pela liberdade seja fruto do meu muito amar.
Cabeças sangrentas nem sempre estão eretas. O ferimento é justificativa fácil para os que não estão dispostos ao recomeço. Não quero ser assim. Quero [ – através do amor e do perdão - ] curar os meus ferimentos sem a necessidade de nutrir ódios pelos que me feriram. Essa é uma forma simples e eficaz de beneficiar o mundo com a minha presença. Haverá sempre uma proteção para aqueles que verdadeiramente estão empenhados na promoção da bondade.   
Autor e Fonte: Fábio de Melo, Sacerdote católico da Diocese de Taubaté (SP), Mestre em Teologia Sistemática, Cantor e compositor. Cartas entre Amigos, 2010.    

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