"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2011-04-30

Uma forma maravilhosa de Jesus abraçar os jovens

PARTE 4 - Esta publicação corresponde a uma “partilha” (conforme minhas anotações) do Curso para os jovens sobre a “vida e vocação de João Paulo II”, ministrado no Renascer 2011, por Moysés Azevedo (Fundador da Comunidade Católica Shalom).

No Ano Internacional da Juventude, 1985, o papa João Paulo II dá um presente aos jovens, a cruz. Esta seria o símbolo maior das Jornadas Mundiais da Juventude. Por que a cruz? O papa a vê não como sinal de desgraça, mas o instrumento por meio do qual Cristo amou até o fim cada um de nós, salvando-nos da morte e nos conquistando a vida. E os jovens, segundo o papa, deveriam ser os guardiões da cruz, as sentinelas. A partir de então a cruz passou a percorrer o mundo e estar presente em cada encontro dos jovens com o Santo Padre. 

Sempre que João Paulo II se encontrava com os jovens era visível a sua alegria e confiança neles. Da mesma forma o seu amor pelas crianças era algo muito contagiante, inclusive o próprio papa contava que foi uma criança que o salvou da morte. De fato, no exato momento que pega uma criança nas mãos, naquele ano de 1980, na Praça de São Pedro, e quando se abaixa para devolvê-la à mãe é atingido por um tiro. Disseram os médicos que essa inclinação evitou que o tiro fosse fatal. 

Conto-lhes agora uma cena muito significativa que se deu no ano 2000, Jornada Mundial da Juventude em Roma, quando um jovem argentino, num instante de falha da segurança, ele furou o cerco, driblou os guardas e correu em direção ao Papa João Paulo II que se encontrava sentado na sua cadeira a quase 100 metros de distância. O jovem corria, a segurança corria atrás e o papa apenas observava. Quando chegou perto do Santo Padre o jovem se ajoelhou e o abraçou já em lágrimas. O papa também o abraçou! Chegando os seguranças puxavam o jovem por um braço e o papa o segurava por outro, uma imagem que não esqueci nunca. Podemos fazer uma interpretação importante: Cristo abraça vocês e o faz mediante a Sua Igreja, enquanto o mundo quer retirá-los da vida, da fé, do abraço de Deus. 

Outras imagens marcantes e até de natureza jocosa, engraçada. Por exemplo, na Jornada de Roma João Paulo II já usava a sua “bengala de apoio” devido sua idade, mas fazia os jovens rirem quando a manuseava na mão em movimentos circulares e sorrindo. Ao verem esta cena eles gritavam: “O papa é jovem. Nós te amamos e beijamos!” Respondeu-lhes João Paulo II: “Eu também beijo vocês, mas nada de ciúme!” Tudo isso foi uma forma maravilhosa de Deus atrair os jovens, de Jesus abraçá-los por meio do testemunho da vida de João Paulo II e da fé da Igreja. Eles tocaram em Jesus Cristo ressuscitado através do amor e da oferta de vida deste homem de Deus. 

Por Antonio Marcos

2011-04-29

Também os jovens ateus queriam ouvir João Paulo II falar de Deus


PARTE 3 - Esta publicação corresponde a uma “partilha” (conforme minhas anotações) do Curso para os jovens sobre a “vida e vocação de João Paulo II”, ministrado no Renascer 2011, por Moysés Azevedo (Fundador da Comunidade Católica Shalom).
Quando o Bispo Woityla foi eleito papa em 1978, escolheu como nome João Paulo II. Seu jeito de ser, seu carisma pessoal permaneceu o mesmo. Como Sumo Pontífice age de forma diferente na relação com os fiéis quando quebra protocolos e aproxima a relação do papa com o povo. Evidentemente isto se torna mais possível e evidente através da sua amizade aos jovens, a quem disse sempre: “Vocês são a esperança da Igreja. Vocês são a minha esperança!”
Quando iniciou a visita às paróquias de Roma logo manifestou o desejo de encontrar-se com os jovens. Fazia questão em cada visita de dirigir uma palavra de ânimo e esperança a eles. Certo dia, em uma dessas visitas pastorais, respondia às perguntas de jovens diferenciados em suas crenças ali presentes. Um deles, tendo a oportunidade de falar ao papa, disse-lhe: “Santo Padre, sou ateu, e pergunto-lhe: quem é este seu Deus? Fale-me dele!” O protocolo dizia que não havia mais tempo e que a reposta do papa ficaria para outra oportunidade, porém, João Paulo II não obedeceu e fez questão de falar francamente do amor de Deus na criação do homem e na oferta do Seu Filho para nos salvar. Mas queria ficar ali e responder as outras perguntas daquele jovem ateu. Infelizmente não foi possível e ficou sofrido.
Ao terminar aquele momento João Paulo II pediu para que um determinado Cardeal procurasse aquele jovem e pedisse desculpas em seu nome por não poder ficar mais tempo. A partir deste dia o papa tomou a decisão de criar uma oportunidade para dar uma resposta aos anseios mais profundos dos jovens, pois entendeu que as perguntas dos jovens são as mais importantes e elas devem ser respondidas. Logo em seguida veio a ideia do primeiro grande encontro com os jovens, Paris 1980, nasce a Primeira Jornada Mundial da Juventude.
Por que os jovens eram tão atraídos pelo papa João Paulo II?
Na verdade, não há grandes segredos, mas uma única verdade fundamental: há muito tempo na Igreja não se falava de Deus aos jovens de forma tão atraente. Diante de João Paulo II os jovens escutavam as palavras sobre Deus e sobre o amor cristão e riam. O Evangelho de Jesus Cristo lhes parecia outra vez acessível! E bem se sabe que o papa não ajustava a mensagem cristã para ser aceito, mas era ousado, profético e não tinha medo de propor aos jovens a radicalidade do seguimento a Cristo. Ele bem sabia por experiência própria que os jovens anseiam por altos ideais e o Evangelho é a única medida à altura de nossas procuras.
O Evangelho pregado pelo papa João Paulo II não era “água com açúcar” como medida para agradar, mas era a força e a graça da vida de Cristo. Ele tinha plena consciência de que somente o projeto da vida de Jesus responde plenamente aos desafios da juventude, especialmente quando se aspira viver as relações humanas sadias, a corporeidade como dom de Deus, a sexualidade, a amizade, a profissão e o amor.  Jesus Cristo era vivo na pessoa do papa e por isso sabia atrair, encantar, seduzir, despertá-los para a vida cristã e a vocação à santidade.
Por Antonio Marcos

2011-04-28

Padre Karol Woityla: coração em Deus e nos jovens!


PARTE 2 - Esta publicação corresponde a uma “partilha” (conforme minhas anotações) do Curso para os jovens sobre a “vida e vocação de João Paulo II”, ministrado no Renascer 2011, por Moysés Azevedo (Fundador da Comunidade Católica Shalom).
O jovem Karol Woityla, diante dos muitos desafios que enfrentava sua geração e das seduções para se trilhar um caminho fácil, mas tortuoso, e mesmo sendo tão habilidoso em suas virtudes e talentos, não pôs sua esperança nessas realidades, mas continuou sua procura por um ideal que preenchesse plenamente e dignamente sua existência, de forma que se convertesse em frutos para os seus contemporâneos, para a sua nação, para o mundo.
No final do seu curso acadêmico, tendo sido escolhido o orador da turma, após terminar suas carismáticas palavras, o cardeal chanceler lá presente, pergunta-lhe: “Não pensas em ser padre?” Pergunta esta que não foi lhe dirigida uma única vez, mas algumas. O fato é que o coração do jovem Karol já se encontrava seduzido pelo amor de Deus. A literatura e os dons artísticos não o encantaram tanto quanto a beleza do ideal do Evangelho. Essa conquista o faz decidir-se ainda tão jovem pelo ingresso no seminário para iniciar sua formação para o sacerdócio. Seus estudos se deram no seminário clandestino devido as invasões nazistas na sua sofrida Polônia.
Um Padre atleta e apaixonado pelos jovens
Karol sempre foi um apaixonado pelo esporte. Um jovem completo, virtuoso, forte, cheio de possibilidades para uma carreira brilhante, um casamento feliz, mas se sente chamado ao sacerdócio e responde generosamente sim, mesmo em meio a tantos desafios culturais, políticos e religiosos.
Seu amor pelos jovens vem desde sua juventude e, quando se tornou um padre, sua relação com eles apenas se intensificou. Gostava de organizá-los para diversas atividades intelectuais e religiosas, usando muitas vezes a natureza como ambiente mais favorável. Pode-se dizer que Karol fez parte dos criadores das “universidades volantes”, ou seja, grupos de jovens que se reunião voluntariamente e em lugares diversos para refletirem a razão e a fé. O padre Karol dava-lhes aula de filosofia e de moral cristã. Extraordinária era a sua capacidade intelectual, ao mesmo tempo acessível e capaz de conquistar seus ouvintes.
Padre Karol se tornou amigo e pai amado dos jovens desde cedo. Foi deles que recebeu o apelido de Lolek (no Polonês Karol = Carlos, e o seu diminutivo é Carlinhos = Lolek). Os jovens o chamavam carinhosamente de “tio Lolek”. Seus biógrafos contam que quando padre Karol foi chamado para ser comunicado da nomeação da Santa Sé para ser bispo, coincidiu que se encontrava nas montanhas vivendo suas férias junto dos jovens. Despediu-se depressa e foi ao encontro do seu pastor. Uma vez lhe comunicado a notícia da nomeação, fez um único pedido ao seu bispo: “Permita-me voltar para junto dos jovens e concluir minhas férias com eles. Depois a gente cuida dessas outras coisas!” O coração do padre Karol estava em Deus e nos jovens, um belo testemunho que nos comove.
Por Antonio Marcos

2011-04-27

Karol Woityla aprende cedo: “tudo passa, só Deus permanece para sempre!”


PARTE 1 - Esta publicação corresponde a uma “partilha” (conforme minhas anotações) do Curso para os jovens sobre a “vida e vocação de João Paulo II”, ministrado no Renascer 2011, por Moysés Azevedo (Fundador da Comunidade Católica Shalom).
Caros jovens, falaremos um pouco do mistério e das vicissitudes da vida e vocação de Karol Woityla, na esperança de que vos seja útil também para a vossa vida e vossas decisões. O contexto histórico no qual veio ao mundo Karol é o do pós-guerra (18 de maio de 1920), portanto, contexto desafiante também na sua Polônia que, embora recentemente tendo conquistada sua independência como Nação livre, viu as consequências duras da guerra. Não bastando isso, mais adiante viria a opressão do Regime Totalitário alemão Nazista e os horrores da Segunda Guerra Mundial.
Pois bem, o mais duro de tudo isso é a disseminação de um terrível “regime de ateísmo” nessas sociedades. A vida de Karol como jovem não foi bem normal como a de qualquer um jovem porque estava longe de se viver em democracia e tendo como bandeira a liberdade de expressão, cultural e religiosa como temos hoje. Entretanto, o jovem Karol – apesar da perda dos seus familiares - parece trazer consigo um dinamismo impressionante e ao mesmo tempo um desejo profundo por um ideal que balizasse sua vida. Suas extraordinárias habilidades humanas e intelectuais o colocam em destaque onde quer que atue. Um jovem como você que não se diferencia pelo desejo de um ideal que dê sentido e corresponda às suas aspirações de felicidade para si, para a sua nação e para o mundo.
Uma coisa Karol adquiriu muito cedo com a sua sensibilidade de sentir as angústias do homem: as ideologias são capazes de alienar os jovens e levá-los à morte, ao nada, ao vazio de vida. Aquele jovem passou a viver uma “santa angústia”, a de não aceitar colocar suas esperanças nessas realidades, mas de entender que Deus não pode jamais estar fora dos planos de felicidade do homem. Importante ressaltar que tão decisivo para ele foi o encontro com amigos que o ajudaram a encontrar os passos de Deus. Isso vale pra nossa vida e nossas relações hoje. Não sejamos caminhos de morte para os nossos amigos, para os que se aproximam de nós, mas caminho que indique a direção para Deus. Um amigo leigo de Karol veio a tornar-se seu “mestre espiritual” e, felizmente, coloca-o no caminho da espiritualidade de Santa Teresa de Ávila, com quem aprende que “tudo passa, só Deus permanece para sempre”.
Por Antonio Marcos

2011-04-24

Jesus está vivo. Deus o ressuscitou!

Chegou a “grande hora!” Amanheceu o Dia da nossa Páscoa. Cristo Ressuscitou! Contaram-nos as mulheres depois de terem encontrado o túmulo vazio, de que Ele não está mais lá. Ressuscitou como disse! Mas nós cremos, sinceramente, a exemplo das mulheres, não porque simplesmente o túmulo está vazio, mas porque nos foi revelado pelo mensageiro de Deus, portanto, nossa fé no ressuscitado não vem de uma constatação, mas de um anúncio, desta revelação fundamental e indispensável. Sem esta fé o túmulo vazio não diria nada para nós, como não o diz para muitos de nossos dias. “Jesus está vivo. Deus o ressuscitou!” E a ressurreição é assim para nós uma graça de Deus (e não um truque psicológico ou científico); a ressurreição é um encontro com a Pessoa de Jesus, uma experiência com o Ressuscitado que passou pela cruz. “Jesus está vivo. Deus o ressuscitou!” A vida tragou a morte e o amor tem agora a última palavra sobre as misérias da vida humana. “Jesus está vivo. Deus o ressuscitou!” E sei bem que este testemunho chegou até mim por meio da Igreja, dos homens e mulheres que deixaram Jesus viver em suas existências e assim testemunharam que o poder de Deus é infinitamente maior que as suas mortes. Daí que sei que a melhor maneira de anunciar a Ressurreição de Cristo é com a conversão da minha vida a Ele, porque Cristo faz novas todas as coisas. Que os homens de nossos dias, por sua vez, tão sedentos de Deus, possam encontrar em nós muito mais que um túmulo vazio, mas Jesus Ressuscitado vivendo em nós. Dê-nos esta graça, Senhor!
Feliz Páscoa!
Antonio Marcos 

Com Jesus é possível um mundo diferente

O relato do sepulcro vazio, tal como está recolhido no final dos escritos evangélicos, contém uma mensagem de grande importância: é um erro procurar o crucificado num sepulcro vazio; ele não está ali; não pertence ao mundo dos mortos. É um equívoco prestar-lhe homenagens de admiração e reconhecimento por seu passado. Ele ressuscitou. Está mais cheio de vida do que nunca.
É preciso “retornar à Galiléia” para seguir seus passos: é preciso viver curando os que sofrem, escolhendo os excluídos, perdoando os pecadores, defendendo as mulheres e abençoando as crianças; é preciso fazer refeições abertas a todos e entrar nas casas anunciando a paz; é preciso contar parábolas sobre a bondade de Deus e denunciar toda religião que vá contra a felicidade das pessoas; é preciso continuar anunciando que o reino de Deus está próximo.
Com Jesus é possível um mundo diferente, mais amável, mais digno e justo. Há esperança para todos: “Retornai à Galiléia. Ele virá à vossa frente. Ali o vereis”.
Autor e fonte: José Antônio Pagola. Jesus, aproximação histórica (“Ressuscitado por Deus”), 2010.

O mistério das quatro noites da nossa salvação


Queridos irmãos e irmãs, amigos leitores deste espaço de fé, chegou para nós o amanhecer do Grande Dia, a Páscoa da Ressurreição, e ela teve início quando “ainda era noite” (Mc 16,2), por isso também vivida pela Igreja na Solene Vigília Pascal, a mãe de todas as Vigílias. A simbologia usada nesta Santa Missa é, por assim dizer, muito importante para nós cristãos católicos, especialmente por já celebrarmos a Ressurreição do Senhor e pela oportunidade de renovarmos nossas promessas batismais. Cantamos solenemente: “Banhados em Cristo somos uma nova criatura. As coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo. Aleluia. Aleluia. Aleluia”.  Somado a tudo isso partilho aqui, resumidamente, as palavras preciosas do Arcebispo de Fortaleza, Dom José Antônio Tosi, por ocasião da homilia na noite de ontem.
Somos herdeiros felizes da ressurreição de Jesus. Herdeiros felizes do céu! A ressurreição de Jesus é o amor que se derrama sem se esgotar. Assim, qual o testemunho que podemos dar especialmente aos que serão batizados nesta noite, mas também ao mundo inteiro? O testemunho da nossa fé!
Deus amou o mundo e ama a cada um de nós a ponto de mandar seu próprio Filho e permitir, sem intervenção, que morresse na cruz para a nossa salvação. Um amor sem medida. Ele veio nos salvar e nos levar à vida eterna. Da noite escura saiu uma luz e se espalhou incendiando o mundo inteiro. Daquela pedra, daquela gruta saiu a chama da vida, assim como nesta noite a luz do Círio Pascal emanou da escuridão e nossas velas foram acesas na única chama.    
Mas, queridos irmãos e irmãs, a simbologia é sempre menor que a realidade. A fé foi colocada em nós como dom de Deus e simbolizada pela vela acesa em nossas mãos. Esta fé cresceu com o anúncio da Palavra de Deus. É isso que precisamos dar aos outros: o anúncio de Jesus pela vida e pela palavra! Foi muito bom ouvir e meditar a Palavra de Deus nesta noite. Leituras longas que refazem para nós, de forma resumida, a história da salvação, da criação até a encarnação e redenção. Foi a Palavra de Deus que fez despertar para nós um dia a fé. Hoje ela nos confere a mesma graça. Palavra anunciada gera vida.
Vejamos o mistério das quatro noites da nossa salvação, apresentadas hoje no itinerário da Palavra de Deus:
A Primeira Noite é a da Criação. Deus criou o mundo por amor, não porque quisesse acrescentar algo a Si mesmo. Criou porque o amor ama sempre e se doa. O amor não pode ficar trancado, quer se ofertar incondicionalmente. Neste amor Deus nos criou Homem e Mulher, certamente a mais sublime de todas as obras da criação. O carinho e a marca com que Deus criou o homem continuam hoje. As pessoas continuam a nascer para um destino eterno.
A Segunda Noite é a da Prova da Fé. Abraão vive a noite escura da fé. É submetido por Deus a uma grande purificação quando lhe é pedido o único filho de suas entranhas, Isaac, aquele que lhe fora dado já na velhice e no qual repousa a promessa da descendência numerosa, o povo de Deus. Mas Abraão está decidido a cumprir a vontade de Deus. Porém, é “emocionante” sentir a tentação sutil: “Pai, temos o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o holocausto?” A fé maior do coração de Abraão o levou a fazer uma profissão de fé imensa, inimaginável: “Deus providenciará, meu filho”. Abraão venceu a segunda noite, a noite em que a fé é provada. Esta noite está radicalmente associada à “Noite da Cruz”. Nesta Deus não interveio, permitindo assim a morte do Seu Unigênito, por causa dos homens, da nossa salvação.
A Terceira Noite é a da libertação. O Povo de Deus é liberto da escravidão do Egito por meio de Moisés. A grande caminhada pelo deserto também se faz em meio a provas, mas a fidelidade de Deus é constante. Não deixa de ser o caminho do batizado que, mesmo em meio às dores e sofrimentos de nossas próprias fraquezas e infidelidades, cremos que Deus nos conduz, vai à nossa frente.
Irmãos e irmãs, somos herdeiros destas noites, é verdade, mas somos privilegiados com a Quarta e mais importante Noite: a Encarnação e Redenção num único Mistério de Salvação. A Palavra nos diz que “a luz veio para os seus e os seus não a acolheram”. Daí que esta luz foi pregada na cruz, colocada numa tumba, mas a Luz de Deus a libertou e a fez expandir com a Ressurreição. Cristo ressurgiu da morte. Ressuscitou para a nossa salvação! Aleluia! Esta é a Noite em que Cristo venceu a morte. Noite vitoriosa. Noite da nossa salvação. Também esta é a missão de cada batizado. O dom infinito que temos em nós é a vida de Deus nos conquistada pela Ressurreição de Jesus, nos conferida pelo Batismo.
Que este dom seja espalhado ao mundo inteiro. Nós experimentamos Jesus Ressuscitado pelo dom da fé nos nossos corações. Não é verdade? Sim! Jesus Cristo semeou o amor fraterno e nos fez assim uma única família de Deus, tudo isso não é uma imensa graça? Sim!  Deus nos faça viver a alegria de sentir a presença do Ressuscitado no meio de nós para então podermos anunciar com a vida e com a palavra que Cristo Ressuscitou! Aleluia. Sim! Verdadeiramente Ressuscitou! Aleluia.
Por Antonio Marcos   

2011-04-23

Esta é a noite em que Cristo venceu a morte, e retorna vitorioso


 “Ó feliz culpa, que mereceu tão grande Redentor, ó feliz culpa!” Ó noite maravilhosa, que despojaste o faraó, e enriqueceste Israel. Ó noite, que destróis o pecado, e apagas as nossas culpas. Ó noite realmente gloriosa, que reconcilia, o homem com seu Deus. “Esta é a noite em que Cristo venceu a morte, e retorna vitorioso”.  Nesta noite, aceita ó Pai Santo, que este sacrifício de louvor, e a Igreja, se oferece por meio de seus ministros, da liturgia solene deste Círio, é sinal da nova luz. Nós que rogamos Senhor, que este Círio oferecido, em honra do teu nome, brilhe radiante, chegue a ti, como perfume suave, que se confunda, com as estrelas do céu, encontre-o aceso a estrela da manhã esta estrela, que não conhece ocaso. “Que Cristo Seu Filho Ressuscitado, Ressuscitado da morte”. Amém, Amém, Amém.
Fonte: Trecho do Canto da Proclamação da Páscoa (Exultet), cantado na Solene Noite da Vigília Pascal. 
Feliz Páscoa para todos os que acompanham as postagens deste espaço de fé! “Jesus está vivo. Deus o Ressuscitou!”

Maria é a nossa companheira nos “sábados existenciais”


Depois da “hora da Páscoa”, tendo ido com o discípulo João “para casa” – para a comunidade cristã -, Maria é assim uma viva expressão de solicitude filial. Maria é a mãe de todos os irmãos de Jesus, o Redentor. Dela recebemos, por excelência, a maternidade espiritual. Maria é Mãe da Igreja, esposa do Esposo. Maria é Mãe de Deus e nossa Mãe. É muito significativo aprender com o Concílio Vaticano II (cf. LG 58) que “Maria avançou na sua peregrinação de fé”, ou seja, que sua fé – assim como a nossa – foi um dom de Deus, mas não uma fé pronta, mas em processo de maturação. Daí que esta fé fora provada em tantas circunstâncias, especialmente na “hora da Páscoa”. No entanto, Maria permaneceu intimamente unida ao seu Filho da concepção até à sua morte. Na hora da Paixão, ela estava de pé, junto à cruz (cf. Jo 19,25). Esta união ao Seu Filho na hora da Paixão consistiu também num intenso sofrimento, mas não fraquejou o seu ânimo materno, aquele que se confunde com o sacrifício ao extremo por amor ao filho de suas entranhas e, no caso particular de Maria, somado essencialmente às promessas e à fé de que aquele único filho era, misteriosamente, o Filho de Deus.
Reunida com os apóstolos e algumas mulheres, a Igreja contempla Maria “pedindo também ela com suas orações o dom do Espírito” (cf. LG 59). Os Padres da Igreja muito refletiram a missão de Maria junto aos apóstolos no “sábado do repouso” e “nos dias” que antecederam a descida do Espírito sobre todos os reunidos no Cenáculo. Na verdade, Maria é a nossa companheira nos “sábados existenciais” da nossa vida e da humanidade. Unidos a ela os apóstolos esperaram o “grande dia” da Ressurreição nas suas vidas. Ela é modelo exemplar de fé provada que produz esperança imbatível. Maria acreditou contra toda desesperança e quer nos ensinar neste dias da humanidade tão necessitados da esperança cristã. Unidos a Maria é grande a nossa responsabilidade em ajudar os homens a esperarem a feliz manhã de Domingo. A vida cristã não foi feita para acabar numa “Sexta-feira de horrores e num Sábado frio e silencioso”, mas para alcançar e se realizar na manhã de Domingo, dia em que ressuscitaremos com Cristo, nossa Páscoa. Obrigado Mãezinha, Mestra da fé e do Amor, modelo de esperança, abraça-nos e leva-nos até esta feliz manhã.
Antonio Marcos

Levanta-te, Adão, ó minha imagem, saiamos daqui!


A descida do Senhor à mansão dos mortos
Que está acontecendo? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio porque o rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.
Ele vai antes de tudo à procura de Adão, o nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos.
O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, o nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!.
Eu te ordeno: acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra de minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa.
Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado. Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi para restitui-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida. Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso.
Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado. Como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida para ti. Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus.
Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda eternidade”.
Fonte: Liturgia das Horas, Ofício das Leituras: De uma antiga Homilia no grande Sábado Santo (Séc. IV).       

2011-04-22

Deus continua sendo seu Deus apesar de tudo

“Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. É fácil entender a reação de Lucas. O grito angustioso de Jesus, queixando-se a Deus por causa do seu abandono, torna-se duro para ele. Marcos não tivera nenhum problema em pô-lo na boca de Jesus (“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”), mas talvez alguns o pudessem interpretar mal. Então, com grande liberdade, substitui-o por outras palavras, a seu ver mais adequadas: “Pai, em tuas mãos abandono minha vida”. Era preciso ficar claro que a angústia vivida por Jesus não havia anulado em nenhum momento sua atitude de confiança e abandono total ao Pai. Nada nem ninguém pudera separá-lo dele. Ao terminar sua vida, Jesus entregou-se confiante a esse Pai que estivera na origem de toda a sua atuação. Lucas queria deixar isso claro. 

No entanto, apesar de todas as suas reservas, o grito conservado por Marcos: Eloí, Eloí, lema sabactani!, ou seja, “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”, é sem dúvida, o mais antigo na tradição cristã e poderia remontar ao próprio Jesus. Estas palavras, pronunciadas em aramaico, língua materna de Jesus, e gritadas no meio da solidão e do abandono total, são de uma sinceridade esmagadora. Se Jesus não as tivesse pronunciado, ter-se-ia alguém na comunidade cristã atrevido a pô-las em seus lábios? 

Jesus morre numa solidão total. Foi condenado pelas autoridades do templo. O povo não o defendeu. Os seus fugiram. Ao seu redor só ouve zombarias e desprezo. Apesar de seus gritos ao Pai no horto do Getsêmani, Deus não veio em sua ajuda. Seu Pai querido o abandonou a uma morte ignominiosa. Por quê? Jesus não chama Deus de Abbá, Pai, sua expressão habitual e familiar. Chama-o de Eloí, “Meu Deus”, como todos os seres humanos. Sua invocação não deixa de ser uma expressão de confiança: Meu Deus! Deus continua sendo seu Deus apesar de tudo. Jesus não duvida de sua existência nem de seu poder para salvá-lo. Queixa-se de seu silêncio: onde está? Por que se cala? Por que o abandona precisamente no momento em que mais precisa dele? 

Jesus morre na noite mais escura. Não entra na morte iluminado por uma revelação sublime. Morre com um “por quê?” nos lábios. Tudo fica agora nas mãos do Pai. 

Autor e Fonte: José Antônio Pagola. Jesus, aproximação histórica (Mártir do Reino de Deus), 2010.

Quero terminar minha obra. Sinto sede de Deus

O silêncio de Jesus durante suas últimas horas é surpreendente. No entanto, no final, Jesus morre “lançando um forte grito”. Este grito inarticulado é a recordação mais segura da tradição. Os Cristãos nunca o esqueceram. Três evangelistas põem, além disso, na boca de Jesus moribundo três palavras diferentes, inspiradas em outros tantos salmos: de acordo com Marcos (= Mateus), Jesus grita com voz forte: “Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonastes?” Lucas, no entanto, ignora estas palavras e diz que Jesus grita: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. De acordo com João, pouco antes de morrer, Jesus diz: “Tenho sede” e, depois de beber o vinagre que lhe ofereceram, exclamou: “Tudo está cumprido”. O que podemos dizer destas palavras Foram pronunciadas por Jesus? São palavras cristãs que ns convidam a penetrar o mistério do silêncio de Jesus, rompido somente no final por seu grito surpreendente?

Não é difícil entender a descrição que nos é apresentada por João, o evangelista mais tardio. De acordo com sua visão teológica, “ser elevado à cruz” é para Jesus “retornar ao Pai” e entrar em sua glória. Por isso seu relato da paixão é a marcha serena e solene de Jesus para a morte. Não há angústia nem espanto. Não há resistência a beber o cálice amargo da cruz: “A taça que o Pai me ofereceu, por caso não hei de bebê-la?” A morte de Jesus não é se não a coroação de seu desejo mais profundo. Assim o expressa ele: “Tenho sede”, quero terminar minha obra; sinto sede de Deus, quero entrar já em sua glória. Por isso, depois de beber o vinagre que lhe oferecerem, Jesus exclama: “Tudo está cumprido”. Ele foi fiel até o fim. Sua morte não é a descida ao sheol, e sim sua “passagem deste mundo para o Pai”. Nas comunidades cristãs ninguém o punha em dúvida. 

Autor e Fonte: José Antônio Pagola. Jesus, aproximação histórica (Mártir do Reino de Deus), 2010.