2011-03-13

Padre, confesse-me, por favor!


Nunca foi tão desafiante falar do pecado como em nossos dias de secularização, ou seja, dias nos quais a Ciência e a técnica se empenham não somente para mostrar a evolução maravilhosa do cérebro humano, mas, juntamente com este feito, desbancar os alicerces da fé, desautorizar Deus de ser o Criador do Homem e de todas as coisas, como de ser a estação última da “odisséia humana”. Não são poucos os esforços dos diversos segmentos da sociedade, sobretudo Ocidental, para desvincular o homem da referência a Deus. 

Da mesma forma as Ciências Humanas também se arvoram do direito de decidir para o homem o que é certo e o que é errado. É louvável a contribuição que a psicologia moderna (especialmente com a doutrina sobre o inconsciente) e a antropologia deram e continuarão a dar à religião, porém, é inegável uma parcela significativa de uma colaboração negativa dessas Ciências, especialmente quando a seriedade de suas reflexões se reduz a psicologismos. E quando a questão é fé, religião, pecado, sadia auto-acusação, consciência da transgressão de uma Lei interior, de uma relação com Deus, consigo e com o outro (individual ou coletivo), então logo se percebe os extremos de considerar que não existem mais “pecadores”, apenas “pessoas doentes”. Os especialistas citam esta como uma das causas do que chamam de “perda do sentido do pecado”, termo explorado na teologia de João Paulo II. 

O fato é que o homem não pode fugir e negar sua “condição de criaturalidade”, está marcado pela fragilidade e pela imperfeição. A realidade é esta: o homem é finito, não criou a si mesmo, mas é obra das mãos do Criador, e depende d’Ele para ser feliz! Esta dependência de Deus não é esmagadora, destruidora, pelo contrário, uma vez satisfeita, é a realização, a verdadeira felicidade da condição humana. O homem foi criado para a comunhão com Deus e para participar da Sua felicidade e eternidade, mas fora criado livre, capaz de aceitar e rejeitar o amor de Deus. Foi o que aconteceu, o homem negou a Deus quando se deixou seduzir pelo Mal. Como diz a Teologia da Criação: “O homem quis divinizar-se sem Deus”. Esse mau uso da liberdade acrescentou ao homem uma realidade tão verdadeira como o ar que respiramos: o homem é pecador! O pecado trouxe a morte e debilitou o homem.

Não se negam os exageros, os extremos da própria teologia ao longo da história, os contextos religiosos e culturais nos quais o pecado estava sempre em dois extremos: o rigorismo (puritanismo, “Tudo é pecado”) e o laxismo (permissivismo, “Nada é pecado”). Vale o axioma filosófico: “A virtude é o meio termo”. Mas, teologicamente, o que é essa virtude? É o reconhecimento humilde de que não podemos salvar a nós mesmos, que a nossa natureza não pode estar fechada em si, mas necessita estar aberta para Deus e se deixar tocar pela Sua graça. É próprio da natureza humana o desejo de transcendência, erguer-se do seu chão e buscar a ligação com o céu. Acontece que a esta virtude não se chega sozinho, não é um labor simplesmente das forças humanas. Só a graça de Deus é capaz de nos fazer viver essa comunhão. Foi Jesus, através do mistério da sua Paixão, Morte e Ressurreição, quem conquistou para nós essa graça. A libertação da escravidão do pecado e a salvação do homem em Cristo se tornaram uma realidade acessível, possível a todos, palpável pela fé. 

O pecado existe como uma “desordem da ordem”. A ordem divina, seus mandamentos, seu diálogo com o homem, seu projeto de amor e caminho não é opressão, não se trata de controle da liberdade, mas de cuidar no amor para que ela não se corrompa seduzida pela astúcia de Satanás. A dimensão da “personificação do Mal” (como vemos tão claramente no Evangelho do 1º Domingo da Quaresma, Cf. Mt 4, 1-11) é algo que tende a ser hoje descartado pelo relativismo cruel que vivemos. A influência de Satanás na vida do homem é a origem do pecado, e o pecado é sempre uma ação má da liberdade no rompimento da relação consigo, com Deus e com o outro. O pecado desloca o homem do seu centro e referência que é Deus. O pecado falsifica a realidade e transforma a felicidade em caricatura da mesma.  

Os consultórios têm sua finalidade indispensável, sem dúvida, como tem também a evolução da consciência, a compreensão dos mecanismos do inconsciente que podem ajudar o homem a viver no equilíbrio e não numa concepção doentia da Religião e da relação com Deus. No entanto, eles nunca poderão garantir ao homem a “sua própria redenção”. É fato que existe o homem doente no sentido patológico, mas todos nós somos pecadores e necessitamos da misericórdia de Deus, reconheçamos ou não, creiamos ou não. Para nós que cremos os consultórios continuam importantes, mas, indispensável mesmo em qualquer situação é aquele gesto consciente e humilde de sentar na frente do sacerdote e dizer: “Padre, confesse-me, por favor, pois sou um pecador arrependido! E o que deve me fazer ir até o sacerdote não é o medo do inferno, mas o desejo de estar unido a Deus, a consciência de ter negado o Seu amor e aquela clareza de que somente Jesus Cristo tem o poder de transformar as minhas trevas em luz. 

Antonio Marcos
Imagem:
Pe. Eduardo, Arquidiocese de Brasília - Confessando no Renascer 2011.

Um comentário:

  1. Que texto heim! Disseste muito bem: "o pecado é sempre uma ação má da liberdade no rompimento da relação consigo, com Deus e com o outro". Vemos muito isso , o homem não tem mais consciência de suas próprias atitudes, se tivesse saberia defini-las e arrependido se voltaria a Deus no desejo único de não querer mais pecar.
    Pobres de nós que pensamos poder conseguir algo sozinhos, é justamente nesse momento que nos perdemos, porque sem Deus nossa alma reclama e grita, mas a tal realidade que o homem diz estar consciente é que o faz perder, é o querer saber tantos porquês e achar-se conhecedor da mente e do próprio homem, que ele esquece de conhecer a si mesmo e explorar suas reais necessidades. Se assim fizesse, encontraria o que o coração procura e não apenas aquilo que os olhos vêem e a mente decide acreditar. E buscaria o essencial.

    ResponderExcluir