Não tenho medo da morte. Tenho medo da desonra

Escrito Por Antonio Marcos na quarta-feira, março 30, 2011 1 comment
Nesses dias eu e alguns casais conversávamos sobre o 4º Mandamento do Decálogo: “Honrar pai e mãe”. Falava-lhes que já o dicionário Aurélio dá um significado muito interessante sobre a honra: “Consideração à virtude, ao talento, à coragem, à santidade, às boas ações ou às qualidades de alguém; Sentimento de dignidade própria que leva o homem a procurar merecer a consideração geral”. Assim, entende-se melhor o significado cristão, católico, para o que seja “honrar uma pessoa”, de forma particular, os pais, como bem diz o Catecismo (mas cabe também àquelas pessoas que exercem alguma autoridade sobre nós: tutores, professores, chefes, governantes etc.): “Devemos honrar e respeitar os pais, a quem devemos a vida e o conhecimento de Deus, como também todos aqueles que Deus, para o nosso bem, revestiu de sua autoridade” (2197).
O Brasil recebeu a notícia da morte de José Alencar (ex-vice-presidente) com serenidade e com a certeza de que verdadeiramente “agora ele está descansando”. Quem de nós, ao longo desses últimos meses, não parou algum momento na frente da televisão para ouvir as notícias do seu estado de saúde. Ficava sempre impressionado com a vontade de viver que tinha José Alencar e, ao mesmo tempo, a serenidade com que enfrentava as desventuras da vida. Suas respostas aos jornalistas eram desconcertantes sempre que se referiam ao seu sofrimento e dor com a enfermidade: “Não estou entregue ao desânimo, estou fazendo a minha parte, estou lutando para não morrer. Estou, na verdade, entregue às mãos de Deus!”. Homem de princípios éticos e religiosos, fervoroso na sua fé, deu-nos o exemplo de como devemos enfrentar a doença e as vicissitudes humanas.
As palavras do ex-presidente Lula, logo após a notícia do falecimento do “companheiro” do cargo presidencial, chamaram-me a atenção quando ressaltou não as suas habilidades políticas, mas as virtudes: “Homem de bondade e lealdade”. É isso que mais importa: ser lembrado, sobretudo, pela bondade e pela lealdade. Valor incalculável é mesmo deixar imprimido aos outros a sinceridade e a honestidade de vida, valores em falta nos nossos dias. Daí que entendemos uma das mais importantes respostas de José Alencar quando lhe perguntaram se tinha medo da morte: “Não tenho medo da morte. Tenho medo da desonra”.  Que afirmação significativa e que provoca uma reflexão salutar! É verdade, nada se compara ao fato de se perder a honra, de cair no descrédito, na desconfiança, e vermos maculada a nossa dignidade. Quisera Deus que a maioria de nossos representantes políticos resgatasse tamanho valor. Infelizmente “perder a honra e a confiança” diante do povo para alguns não significa nada.
Para quem tem a honra como valor e que já experimentou a dor de ser desonrado, de ter caído no descrédito, na desconfiança de suas intenções e virtudes, de sua santidade, boas qualidades e ações, sabe perfeitamente o que tudo isso significa. Entende-se então o medo do ex-vice-presidente não com a morte, mas de ver desfeita a sua “boa fama”, o que é um direito fundamental, divino, inalienável. José Alencar morreu devidamente honrado e todos nós brasileiros nos orgulhamos de seu amor à vida, de sua serenidade e fé com que enfrentou os limites humanos diante da doença. Façamos a nossa parte ou reaprendamos a fazê-la, que é o amor à vida e à honra, pois é mais fácil morrer do que viver sem honra, como isso é verdade! Bom descanso às mãos de Deus, Sr. Ex-vice-presidente, o Brasil deve tirar uma grande lição com seu testemunho de vida e morte. Eu acabei de tirar a minha!
Antonio Marcos