José, não diga absolutamente nada, não apareça nunca...

Escrito Por Antonio Marcos na sábado, março 19, 2011 Sem Comentários

Este texto é um dos mais maravilhosos que já conheci sobre o silêncio intrigante de São José nos Evangelhos, uma pérola, por isso não poderia deixar de partilhar com os que passam por esta página, neste dia de São José, Patrono da Igreja Universal (Patrono do Ceará), especialmente os homens, meus irmãos. Deus nos conceda a graça da amizade que teve José com Deus, a graça da castidade, da fidelidade ao amor de sua vida, a linda Maria, e do silêncio fecundo, que não se trata de omissão, mas uma das mais fortes violências de amor. Ele nos ensine o silêncio operante do Amor, da espera, da confiança na providência divina. Deus é fiel! Vamos ao texto: 

José é um daqueles seres que me dão medo, e não porque sejam maus e perigosos ou de uma superioridade esmagante, mas porque me parecem misteriosos, como o próprio Deus. José, o homem da boca fechada, o homem interior! Se pelo menos tivesse dito alguma coisa, uma palavra, poderíamos talvez adivinhar o fundo de sua alma, o senso da sua estranha vida. Mas ao contrário, não temos nada, nem no momento da tempestade, do “temporal”, como dizem os nossos irmãos gregos, nem na ocasião do nascimento do Menino, nem em Jerusalém, quando avançava tranquilamente com as duas rolinhas de nada, que serviriam para resgatar o Cordeiro... Está simplesmente ali, parado, com os grandes olhos, doces e tranquilos, ainda mais arregalados, ou talvez iguais aqueles de sua esposa, permanecendo a escutar o canto do velho Simeão, que está no limiar de morrer, não tendo mais nenhuma razão de continuar desde o momento que viu... Nada no momento da fuga para o Egito, e nada em Nazaré, nem mesmo quando o Menino foi perdido. E depois, absolutamente nada... o desaparecimento total e definitivo, na ponta dos pés, como os grandes tímidos que não querem que se lhes preste atenção, que se fale deles. Sim, tudo isto dá muito o que pensar!

As primeiras eras do Cristianismo não buscaram fender este silêncio. Somente Bernardo colocará uma tímida pergunta: “Quis? Qualis? Quem é? Que homem é?” Nada mais. Será necessário esperar tempos modernos para que todos queiram saber alguma coisa, e até mesmo se abra uma cátedra de “josefologia” (mas fiquem tranquilos, que isto é no Canadá!), e José, malgrado toda esta indiscrição, não diz nada, não dirá nada, não fará revelações, permanecerá o homem da boca fechada, o homem do interior. E por que me meto a falar dele? Por que não deixá-lo em seu silêncio, como deixo os peixes no mar? Depois de tudo, se isto lhe agrada, deixa falar e fazer, sem abrir a boca...

Mas não é dele que quero falar, nem espero que me fale. Quero somente contemplar o seu silêncio, mergulhar nele, impregnar-me dele até o ponto de suplicar que não nos diga absolutamente nada, que não apareça nunca...

José da boca fechada é o homem do interior; faz parte daquela coorte de silenciosos para os quais, falar é perder tempo, é sobretudo trair o intraduzível, o inefável. Naturalmente quando estas pessoas dizem alguma coisa, arriscam de fazer tremer o mundo, como Santo Tomás de Aquino, aquele “boi mudo” da Sicília, de quem troçavam os estudantes do mestre Alberto, na Universidade de Paris.

José da boca fechada é o homem que começa onde Jó terminou, quero dizer, nasce com a mão tapando a boca. Tem um senso enorme de Deus, do Ser sem medida e de sua loucura de Amor. Não o vejo pedindo explicações ao inexplicável. A única vez na qual penetra o mundo da dúvida, quis unicamente desaparecer, sem nenhuma palavra: “Vai, amada minha!” O anjo de Deus simplesmente lhe deu um empurrão. Depois de tudo, José é um homem: “Não temas pois tomar Maria como esposa; o que nela foi gerado é obra do Espírito Santo!” (Mt 1,20).

Depois do retorno do Egito, José desaparece. Acreditem-me: esta morte, este transitus do beato José não tem nada de triste. Não houve nenhuma declaração, nada de novíssima verba desde o momento que tampouco houveram priora verba. O seu silêncio é o mesmo de Deus. É cheio de violência do Amor.

Autor: Lassus, L.-A., monge. São José da Boca Fechada – Escrito “pregare è uma festa” (“Rezar é uma festa”, p.80-82).