"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2011-03-30

Não tenho medo da morte. Tenho medo da desonra

Nesses dias eu e alguns casais conversávamos sobre o 4º Mandamento do Decálogo: “Honrar pai e mãe”. Falava-lhes que já o dicionário Aurélio dá um significado muito interessante sobre a honra: “Consideração à virtude, ao talento, à coragem, à santidade, às boas ações ou às qualidades de alguém; Sentimento de dignidade própria que leva o homem a procurar merecer a consideração geral”. Assim, entende-se melhor o significado cristão, católico, para o que seja “honrar uma pessoa”, de forma particular, os pais, como bem diz o Catecismo (mas cabe também àquelas pessoas que exercem alguma autoridade sobre nós: tutores, professores, chefes, governantes etc.): “Devemos honrar e respeitar os pais, a quem devemos a vida e o conhecimento de Deus, como também todos aqueles que Deus, para o nosso bem, revestiu de sua autoridade” (2197).
O Brasil recebeu a notícia da morte de José Alencar (ex-vice-presidente) com serenidade e com a certeza de que verdadeiramente “agora ele está descansando”. Quem de nós, ao longo desses últimos meses, não parou algum momento na frente da televisão para ouvir as notícias do seu estado de saúde. Ficava sempre impressionado com a vontade de viver que tinha José Alencar e, ao mesmo tempo, a serenidade com que enfrentava as desventuras da vida. Suas respostas aos jornalistas eram desconcertantes sempre que se referiam ao seu sofrimento e dor com a enfermidade: “Não estou entregue ao desânimo, estou fazendo a minha parte, estou lutando para não morrer. Estou, na verdade, entregue às mãos de Deus!”. Homem de princípios éticos e religiosos, fervoroso na sua fé, deu-nos o exemplo de como devemos enfrentar a doença e as vicissitudes humanas.
As palavras do ex-presidente Lula, logo após a notícia do falecimento do “companheiro” do cargo presidencial, chamaram-me a atenção quando ressaltou não as suas habilidades políticas, mas as virtudes: “Homem de bondade e lealdade”. É isso que mais importa: ser lembrado, sobretudo, pela bondade e pela lealdade. Valor incalculável é mesmo deixar imprimido aos outros a sinceridade e a honestidade de vida, valores em falta nos nossos dias. Daí que entendemos uma das mais importantes respostas de José Alencar quando lhe perguntaram se tinha medo da morte: “Não tenho medo da morte. Tenho medo da desonra”.  Que afirmação significativa e que provoca uma reflexão salutar! É verdade, nada se compara ao fato de se perder a honra, de cair no descrédito, na desconfiança, e vermos maculada a nossa dignidade. Quisera Deus que a maioria de nossos representantes políticos resgatasse tamanho valor. Infelizmente “perder a honra e a confiança” diante do povo para alguns não significa nada.
Para quem tem a honra como valor e que já experimentou a dor de ser desonrado, de ter caído no descrédito, na desconfiança de suas intenções e virtudes, de sua santidade, boas qualidades e ações, sabe perfeitamente o que tudo isso significa. Entende-se então o medo do ex-vice-presidente não com a morte, mas de ver desfeita a sua “boa fama”, o que é um direito fundamental, divino, inalienável. José Alencar morreu devidamente honrado e todos nós brasileiros nos orgulhamos de seu amor à vida, de sua serenidade e fé com que enfrentou os limites humanos diante da doença. Façamos a nossa parte ou reaprendamos a fazê-la, que é o amor à vida e à honra, pois é mais fácil morrer do que viver sem honra, como isso é verdade! Bom descanso às mãos de Deus, Sr. Ex-vice-presidente, o Brasil deve tirar uma grande lição com seu testemunho de vida e morte. Eu acabei de tirar a minha!
Antonio Marcos

2011-03-28

A diferença que faz um padre que ama profundamente a Eucaristia


Durante os 13 anos em que o cardeal Van Thuan estivera preso por ocasião da guerra do Vietnã, sua vida junto dos outros companheiros detentos não fora nada fácil. O cruel isolamento do mundo e a pouca expectativa acerca de uma vida futura e livre, era algo dilacerante, sem dúvida. As tentações ao desânimo não eram poucas, pois, como bem sabemos, a hora da dor e da solidão exige do homem o melhor de suas forças humanas e espirituais. 
Porém, como ele mesmo relata tal experiência no livro “Testemunhas da Esperança”, tão logo teve consciência de que, embora se sentisse um com outros na dor e no sofrimento, era um sacerdote e portava consigo o legítimo poder de dar àquelas pessoas o que mais necessitavam para que não desanimassem na fé e na esperança de que Deus estava com eles, a Eucaristia. Felizes aqueles que sabem reconhecer e saciar a sua sede deste manancial da nossa salvação. Nunca deveríamos nos demorar a estar a comungar do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. O cardeal Van Thuan, como “padre”, jamais se permitiria cair na omissão ao seu mais sublime serviço à salvação: alimentar os homens, especialmente os que se encontravam em situações de extremo sofrimento, do próprio Corpo e Sangue de Cristo. Quisera Deus que os homens que creem tivessem a felicidade do encontro com um sacerdote e com a Eucaristia nas suas horas mais infelizes, sobretudo, na hora que a morte se aproxima. 
Impressiona-nos a coragem do cardeal Van Thuan, os riscos e a criatividade para tornar o mistério da fé possível naquele ambiente. Utilizava-se do vinho que passava sempre pela fiscalização como remédio para o estômago e, após se somar a alguns poucos pedaços de pão, podia então celebrar a Santa Missa com a Igreja do mundo inteiro, mesmo encarcerado e em meio a tantas dores. Antes da Eucaristia o alimento se dava com a Palavra de Deus, a partir das anotações que havia feito em pedaços de papel de cigarros de todos os versículos que sabia decorado. Eis a grande diferença que faz um padre quando ama profundamente a eucaristia. 
Bendito seja Deus pela vocação sacerdotal. Bendito seja Deus quando escolhe alguns do meio dos seus filhos, ainda que tão fracos, para trazerem o céu para dentro de nós e para nos introduzir no coração de Deus, através da Eucaristia. Rezemos pelos padres para que amem verdadeiramente a Eucaristia e peçamos a Deus a graça de não ficarmos distantes e indiferentes ao alimento que nos dá a vida eterna.  
Antonio Marcos   

2011-03-26

A evangelização também passa pelo corpo


PARTE 7 (última) – Esta publicação faz parte das “pequenas partilhas” (a partir de minhas anotações), do Curso aos Jovens sobre Teologia do Corpo (baseado na Teologia e vida de João Paulo II), ministrado no RENASCER 2011, por Meyr Andrade (Consagrada na CVSh, Missionária na Diaconia Geral Shalom).
Um último aspecto da nossa reflexão sobre a Teologia do Corpo é, sem dúvida, a dimensão da missão. A missão é um mandato de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele nos mandou ir e anunciar a Boa Nova a todos os homens. E o papa João Paulo II convocava e encorajava os jovens para que não tivessem medo de falar de Jesus aos amigos, aos outros jovens que participam ou cruzam suas vidas de alguma forma. Pois bem, a evangelização também passa pelo corpo, através da sua vocação e expressões. O corpo, podemos assim dizer, é um lugar teológico porque é chamado a manifestar as ações de Deus.
Tenho a responsabilidade, primeiro como batizado, depois como aquele que renova continuamente a experiência do encontro com o Senhor, de testemunhá-Lo aos outros. É a irrenunciável missão que cada jovem, cada pessoa tem de levar a presença de Deus aos outros nos ambientes diversos de nossa sociedade. O corpo desempenha importante função porque precisamos da alegria, da disponibilidade, dos gestos de caridade, das sadias e santas relações de amizade, do serviço, da doação e compromisso de vida em tantas formas de serviço para o anúncio da Verdade. O corpo é o lugar através do qual os outros têm acesso às minhas capacidades, dons e talentos... Imaginemos o desafio da evangelização se somos fechados, tristes, descompromissados! O meu corpo deve sinalizar a presença de Jesus Ressuscitado.
Elencamos alguns pontos - para concluir nossa partilha - que poderão muito nos ajudar na compreensão da importância do corpo no processo da missão: Ser presença, estar disponível na vida dos outros, a partir daquilo que somos: homens e mulheres que creem em Jesus Cristo e procuram viver os valores evangélicos; Nunca deixar a alegria obscurecida, pois ela é “força de atração”, especialmente para os mais indiferentes e machucados. A alegria verdadeira facilita o acesso das pessoas até nós; Não se deixar escravizar pelo temperamento, mas termos consciência de nossas fraquezas e limites, e nunca esquecer que somos sustentados pela graça de Deus; Os pequenos gestos de expressão do corpo são muito importantes na missão, tais como: o modo de se vestir, a voz, o olhar, o trato, a gentileza, a generosidade, sobretudo, a piedade e a coragem de se assumir cristão feliz na frente dos outros; Compromisso com as obrigações, seriedade com as coisas de Deus, com o engajamento; Viver com equilíbrio o sacrifício, as renúncias, a mortificação, não para chamar a atenção para si mesmo, mas para amar melhor a Deus e os irmãos e, por fim, embora seja o mais importante, unir o nosso corpo ao Corpo de Cristo, através do alimento da Eucaristia.
Deus nos ajude a viver a nossa feliz vocação à santidade, onde quer que estejamos ou façamos, e não tenhamos medo de anunciá-Lo aos outros. A vida e o exemplo de João Paulo II muito nos encorajam, pois teremos a alegria de vê-lo nos altares, sinalizando assim que é possível viver uma juventude santa sem ser alienado e ainda transformá-la em canal de salvação para outros jovens. Deus nos ajude a viver na inteireza de vida, coração, mente e corpo impregnados pelos valores do Evangelho, e assim um único lugar da habitação e manifestação da presença de Deus.       
Antonio Marcos
Imagem: Jovens da CA Shalom de Brasília - Renascer 2011.

2011-03-24

O que nos treina para a maturidade humana é o autodomínio e não a masturbação!


PARTE 6 – Esta publicação faz parte das “pequenas partilhas” (a partir de minhas anotações), do Curso aos Jovens sobre Teologia do Corpo (baseado na Teologia e vida de João Paulo II), ministrado no RENASCER 2011, por Meyr Andrade (Consagrada na CVSh, Missionária na Diaconia Geral Shalom).

Queridos jovens, o aspecto da inteireza de vida é sempre uma necessidade fundamental, porque nos ajuda na escolha de tudo aquilo que nos edifica e nos leva para o Belo por excelência, que é Deus mesmo, com seu amor e projeto de felicidade para a existência humana. Nossas escolhas precisam seguir a direção do que concretiza a nossa vocação de filhos de Deus, e não de escravos. Gostamos de cantar “sou estrangeiro aqui, o céu é o meu lugar”, porém, perguntamos: “Isto é verdade nas nossas vidas? Minhas escolhas correspondem mesmo a essa salutar consciência cristã de que nosso fim não é este mundo, mas a vida eterna junto de Deus?”

Pois bem, acontece que, como já falamos em outras oportunidades, o pecado quer nos iludir, fazer com que acreditemos que podemos curtir a vida de qualquer jeito, sem se prender a “uma ética e ascese”  para a vida, para o corpo, para as nossas ações; sem aquela imprescindível necessidade de uma vida pura, casta, ordenada para o amor e para a santidade das relações humanas. Não estamos dizendo que devemos ser anjos, não, mas evidenciar irrenunciavelmente que a vocação de todo o nosso ser é para a ordem do amor, para a liberdade da graça, da pureza e da castidade, em uma palavra, santidade. Por que é tão importante esta inteireza? Porque ninguém pode amar a Deus “quebrado”, “separado”, tendo suas partes essenciais desencontradas, digo, coração, corpo e alma. Não se vive assim, pois a nossa fé não nos divide, mas nos integra e nos favorece viver relacionamentos inteiros. O corpo manifesta os sinais daquilo que acontece dentro de nós. Esse movimento também acontece ao contrário.

A impureza trabalha em nós sempre no caminho contrário ao do amor e da graça de Deus, porque ela contraria a nossa vocação à santidade e nos faz viver voltados para o próprio ego, a própria satisfação, consequentemente, instrumentalizando os outros. A impureza tem “esse poder” de nos fazer sentir independentes de Deus e a vivermos a idolatria dos projetos pessoais, sem levar em conta ou mesmo percebermos as suas consequências desatrosas na vida cristã. Quantas feridas no corpo e na alma de nossos jovens, de tanta gente que até teve a oportunidade de experimentar a luz da verdade. Infelizmente se confunde muito em nossos dias “prazer e felicidade” e nem sempre esses valores caminham juntos. As renúncias não causam de imediato um prazer, mas podemos estar profundamente felizes ao vivê-las. A instrumentalização do corpo nunca gerará frutos que edifiquem, mas sempre nos destruirá.

A título de conclusão desta penúltima parte, falo brevemente da masturbação.  Muitos dizem por aí, até com justificativas científicas, que a masturbação é necessária para que se treine a pessoa para a maturidade sexual no campo biológico e afetivo. Sem medo, acreditem, isto é uma grande mentira! A masturbação pode nos levar a outras experiências mais profundas porque, evidentemente, a prática como hábito e vício levará a outras necessidades pecaminosas. Não estamos dizendo que uma “queda acidental” seja já uma doença, mas que o hábito da masturbação vai levar à escravidão, sem contar que ela perturba a nossa paz, fragiliza as nossas faculdades interiores e sentidos. Queridos jovens, o corpo é vocacionado ao autodomínio, ao amor altruísta, ao amor oblativo, à pureza. O que treina a pessoa para o amor, para a maturidade humana é o autodomínio e a castidade. Quando chega a hora de enfrentarmos as renúncias dentro de um relacionamento de namoro e até do casamento, quando precisamos esperar, quando temos de enfrentar tantos desafios, é a castidade que nos treina para essas horas. Isso é belo, é possível, é vocação para todos, é felicidade!

Antonio Marcos

2011-03-22

Celibato: o corpo se compromete com os valores do coração!

PARTE 5 – Esta publicação faz parte das “pequenas partilhas” (a partir de minhas anotações), do Curso aos Jovens sobre Teologia do Corpo (baseado na Teologia e vida de João Paulo II), ministrado no RENASCER 2011, por Meyr Andrade (Consagrada na CVSh, Missionária na Diaconia Geral Shalom).

Quero dizer a vocês, caríssimos jovens, uma breve palavra sobre o Celibato. Alguns dizem que o “celibato nos enlouquece”, o que é um grande equívoco. Quando ele é autêntico, fruto de uma vocação encontrada, discernida e escolhida por amor a Jesus Cristo e ao Seu Reino, não nos frustra, muito menos nos torna infelizes.

A teologia de João Paulo II nos faz compreender que a nossa vida de celibatários, todo o nosso ser, inclusive o nosso corpo, por causa de um nível de “conhecimento de Deus, de experiência de amizade e esponsalidade, tem assim uma realização intensa e profunda. Não há, portanto, um aniquilamento da natureza, uma repressão das forças do corpo e da alma, mas uma comunhão de amor vivida em Deus e para Deus, no serviço aos outros. Isto não é simplesmente doutrina, é vida, é palpável, é concreto. Todos nós sabemos que o corpo tem o seu apelo, sua dinâmica vital, mas o coração o conecta a uma necessidade de Deus, de buscar nele a nossa realização. Esta realização, além do preenchimento interior, é algo visível, transbordante nas ações de um celibatário, principalmente no exercício da maternidade/paternidade espiritual, uma das expressões do coração celibatário.

É belo compreender que vivendo o celibato nessa comunhão de todo o nosso ser com Deus, ofertando todas as nossas potencialidades, o corpo passa a se comprometer, a satisfazer-se com os valores cultivados pelo coração. Queremos dizer que o coração inteiro arrasta o corpo, porque é o amor que ordena tudo em nós. Caríssimos jovens, isto preenche, traz uma felicidade que ninguém pode roubar de nós. O celibato não enlouquece, o que enlouquece é uma vida sem sentido, desencontrada, não preenchida na sua vocação de amar a Deus e aos outros.

Antonio Marcos
Imagem:
Joyce Suely, jovem Consagrada na CV Shalom, Celibatária, Responsável pela Missão de Brasília - Renascer 2011.

A mulher chama a atenção pela presença de Deus nela

PARTE 4 – Esta publicação faz parte das “pequenas partilhas” (a partir de minhas anotações), do Curso aos Jovens sobre Teologia do Corpo (baseado na Teologia e vida de João Paulo II), ministrado no RENASCER 2011, por Meyr Andrade (Consagrada na CVSh, Missionária na Diaconia Geral Shalom).

Podemos afirmar - segundo João Paulo Il - que o corpo é expressão do nosso ser, ou seja, que ele evidencia as características fundamentais de nossa identidade. Deus me criou homem ou mulher, e não me fez numa junção de ambos os sexos, muito menos numa confusão de identidade. Esta identidade não é uma escolha, mas um dom do Criador.

A ocasião em que se celebra o “Dia Internacional da Mulher” nos faz ter a necessidade de dizer às mulheres, minhas irmãs, que mais do que nunca estamos carentes da inteireza da identidade feminina. Infelizmente muitas de nós, mulheres, estamos embriagas pelas atrações do mundo, desesperadas e escravas de uma busca de beleza e prazer que só nos roubam do essencial e nos esvaziam de sentido. E o que é o essencial? Vejamos o que diz a Palavra do Senhor no Livro do Eclesiástico (cf. 26, 16-18): “(...) A mulher casta é de valor inestimável. É como o sol levantando-se sobre as montanhas do Senhor”. Isso, sim, deveria ser o projeto de vida para todas as mulheres. A mulher chama a atenção pela presença de Deus nela, e, como temos a necessidade em nossos dias de mulheres cheias de Deus, que iluminem os outros, os homens e a humanidade!

Da mesma  forma em nossos dias vemos as deturpações na formação da identidade masculina. Não se nega a necessidade de homens maduros na sua afetividade, comprometidos com o verdadeiro amor, com a proteção que ele confere ao outro, com o zelo, a gentileza, a atenção e o diálogo. Evidentemente tudo isso passa também por uma vida casta, pela ordem dos sentidos e das faculdades da alma. Essa confusão e competição que temos visto em muitos relacionamentos de amizade, de namoro e principalmente no matrimônio é um grande equívoco. Cada um tem sua identidade, suas características, sua vocação e seu papel nas relações e na sociedade. O machismo que é imposto na tentativa de anular a mulher é uma deturpação do plano de Deus. O estado de vida é uma expressão também de nossa identidade mais profunda. Ele é projeto de Deus para o homem e mulher, e quando esse projeto pede a vida a dois é para uma comunhão e realização de ambos, não para uma competição.

Temos que lembrar que a “relação sexual”, o ato conjugal fora pensado e vocacionado por Deus para o matrimônio. Que isto não seja visto por nós como algo merecedor de desprezo e descrédito, ou que seja algo para os outros, não para mim. Guardar a entrega do corpo para aquele/aquela com quem desejo, por vontade minha e de Deus, viver o amor até o definhar da vida humana é um projeto de felicidade, uma vocação de amor autêntico, uma graça, uma realidade possível e acessível. Temos consciência de que não somos anjos, e sim, pessoas limitadas, porém, não nos deixemos convencer pelo mundo e pelos nossos apetites carnais de que esta vocação não seja parte de nossa natureza, que evidentemente precisa do auxílio da graça. Ser casto não nos aniquila, não nos torna doentes, muito menos indignos de viver as coisas boas da vida como pessoas plenamente normais.

Antonio Marcos
Imagem:
Jovens da Obra Shalom de Brasília - Renascer 2011

A castidade está comprometida com a minha felicidade

PARTE 3 – Esta publicação faz parte das “pequenas partilhas” (a partir de minhas anotações), do Curso aos Jovens sobre Teologia do Corpo (baseado na Teologia e vida de João Paulo II), ministrado no RENASCER 2011, por Meyr Andrade (Consagrada na CVSh, Missionária na Diaconia Geral Shalom).

A Teologia do Corpo em João Paulo II, podemos assim dizer, não se trata de algo novo, porque ela apresenta as principais características da antropologia católica na sua visão integral do homem. É o desdobramento por parte do papa do que pensa o Evangelho de Jesus Cristo acerca do homem. O que se pode admitir, em parte, é que essa riqueza estivesse um pouco engavetada, não obstante as propostas louváveis do Concílio Vaticano II. João Paulo II decide empregar suas forças para tornar acessível aos fiéis, particularmente aos jovens, essa riqueza doutrinária, por sua vez, viva e apaixonante.

O papa quer falar aos jovens sobre a feliz vontade de Deus para o homem. Quer fazê-los entender que essa vontade de Deus, que seu desígnio de amor, pode ficar obscuro para nós e até parecer impossível de se viver, exatamente por causa dos vícios, do afrouxamento da tendência da natureza às concupiscências. Daí que é preciso uma "luta contra os vícios", porque eles não estão comprometidos com o melhor de Deus para nós. A castidade sim, esta está comprometida com a minha felicidade. Já dissemos que a vontade de Deus para nós passa também pelo nosso corpo, pelas atitudes, pelos sentidos, pelas realidades cotidianas que tendem a nos roubar do essencial. É preciso que se diga também que os nossos órgãos genitais, além de constitutivos do corpo e de sua função biológica, são dons, são belos e preciosos aos olhos de Deus. Tudo faz parte de um todo que deve se apresentar como mediação do amor de Deus que passa por meio de nós aos outros.

É muito belo contemplar e compreender com João Paulo II que o corpo é lugar do sacrifício, da oblação a Deus de nossas paixões humanas e espirituais. Aqui entra o aspecto do sofrimento, da dor, da cruz, da oferta da vida até as últimas conseqüências. Inevitavelmente lembramos o testemunho do próprio papa naquele Domingo de Páscoa de 2005, quando suas dores eram visíveis, mas não escondidas. Vivia o papa a sua oblação a Deus como escola de amor, como quem sabe que o corpo padece, mas não é por isso que se torna desprezível. João Paulo II, unido às dores de Cristo na Cruz, sinalizava o céu, a certeza de que este corpo ressuscitará para a vida eterna. Tudo na vida de João Paulo II estava comprometido com a sua felicidade e com a dos outros, num contínuo desejo de fazer a vontade de Deus.

Antonio Marcos

2011-03-20

Construirei a “casa” que procuras!


Para quem é de Fortaleza e esteve na Santa Missa da Solenidade de São José (Catedral), teve a feliz oportunidade de escutar umas das mais bonitas e profundas homilias do nosso arcebispo, Dom José Antônio Tosi. Arrependi-me de nada ter anotado, mas grudei os ouvidos do meu coração a contemplarem aquelas palavras desconcertantes, provocadoras e cheias de Deus. Em casa tentei lembrar um pouco e aqui partilho brevemente e com alegria. 

(...) A solenidade de hoje, de nosso querido São José, o qual a Igreja celebra como o Esposo da Bem-aventurada Virgem Maria, Padroeiro da Igreja Universal (Católica), apresenta-nos, através da vida de São José e da Liturgia da Palavra, um precioso ensinamento sobre o amor, a vocação, a família, a vida, a maternidade e a paternidade. Sabemos que ambos já traziam em si a responsabilidade de casados, mas ainda não coabitavam juntos. Era um período marcado pelo amor de cuidado para com a sua esposa, a prometida em casamento. Não era no sentido de “esposo” como entendemos hoje, o qual, muitas vezes, é marcado pela busca egoísta do outro, simplesmente para possuí-lo carnalmente e não exercer o amor altruísta, de cuidado, de comunhão, de geração da vida e da celebração da benção de Deus.

São José é um varão, expressa a virilidade no sentido de doação de vida, não uma promoção e defesa do machismo que hoje contemplamos com tristeza em nossas famílias, o que deturpa o projeto de Deus para a paternidade humana. Virilidade hoje é vista como aquele que manda, que tem a última palavra e que pode submeter o outro ao seu autoritarismo. Em Deus a virilidade expressa a paternidade e a doação, de quem busca o outro para amá-lo, e não escravizá-lo!  No encontro, na comunhão, está a celebração do amor, da amizade e a abertura à vida. Fora disso é máscara e disfarce! Vida esta que deve ser gerada sempre dentro da benção de Deus e da celebração do amor. Então, a vida nunca deveria ser gerada fora dessa comunhão, muito menos por violência e inconsequência. A vida nunca deveria brotar de um acidente, da banalização do amor e dos corpos, porque ela é sempre sagrada. 

Vemos pelas Escrituras Sagradas o percurso da vida escondida de São José, mas contemplamos a intensidade do amor, do temor a Deus e o respeito ao outro. José ama sua Maria de todo coração, é justo, é um homem embebido dos segredos de Deus. Sua pureza e castidade são virtudes, são dons, e foram ofertados a Deus para o compromisso de amar e cuidar da Mãe de Deus, toda pura, toda casta, porque o amor não é só corpo; o corpo envelhece, perde seu vigor, mas o amor permanece uma fonte de prazer e de realização plena. Amando Maria, José cuidava da Vida que nos daria vida, da semente da nossa salvação. Imagine se José tivesse vivido um amor covarde, o que seria de nós? Logicamente a providência divina teria seus desígnios para nos salvar, mas quis ajudar José a viver a sua vocação de amor fiel, de lealdade, de fidelidade, de kenosis para fazer o outro feliz, e nessa comunhão recíproca de amor até as últimas conseqüências, o segredo da felicidade. 

Amando e cuidando de sua Maria, e ambos vivendo a vontade de Deus através da virgindade consagrada, vemos a paternidade de Deus, o amor de doação; vemos em Maria a maternidade de Deus, a sua ternura e a fonte de toda vida. Eis o mistério da vida: é Deus quem a concede e não o homem e a mulher. Somos colaboradores de Deus! É Ele quem nos concede a vida, a vocação, o chamado à comunhão com o outro e assim pode nos fazer plenamente felizes. Vemos o diálogo de Deus com o profeta Natã, enviando-o para comunicar ao Seu servo Davi que pedira a Deus para construir-Lhe uma casa: “Não és tu que vais construir a minha casa!” (cf. 2Sm 7,45a.12-14a.16). E poderíamos também assim compreender as palavras de Deus ao homem e a mulher de hoje: “Eu é que providencio a minha casa, portanto, também a tua casa! Eu é que construirei a casa que tu procuras!” Que São José, esposo da Virgem Maria, interceda por todos nós! 

Antonio Marcos 

2011-03-19

José, não diga absolutamente nada, não apareça nunca...


Este texto é um dos mais maravilhosos que já conheci sobre o silêncio intrigante de São José nos Evangelhos, uma pérola, por isso não poderia deixar de partilhar com os que passam por esta página, neste dia de São José, Patrono da Igreja Universal (Patrono do Ceará), especialmente os homens, meus irmãos. Deus nos conceda a graça da amizade que teve José com Deus, a graça da castidade, da fidelidade ao amor de sua vida, a linda Maria, e do silêncio fecundo, que não se trata de omissão, mas uma das mais fortes violências de amor. Ele nos ensine o silêncio operante do Amor, da espera, da confiança na providência divina. Deus é fiel! Vamos ao texto: 

José é um daqueles seres que me dão medo, e não porque sejam maus e perigosos ou de uma superioridade esmagante, mas porque me parecem misteriosos, como o próprio Deus. José, o homem da boca fechada, o homem interior! Se pelo menos tivesse dito alguma coisa, uma palavra, poderíamos talvez adivinhar o fundo de sua alma, o senso da sua estranha vida. Mas ao contrário, não temos nada, nem no momento da tempestade, do “temporal”, como dizem os nossos irmãos gregos, nem na ocasião do nascimento do Menino, nem em Jerusalém, quando avançava tranquilamente com as duas rolinhas de nada, que serviriam para resgatar o Cordeiro... Está simplesmente ali, parado, com os grandes olhos, doces e tranquilos, ainda mais arregalados, ou talvez iguais aqueles de sua esposa, permanecendo a escutar o canto do velho Simeão, que está no limiar de morrer, não tendo mais nenhuma razão de continuar desde o momento que viu... Nada no momento da fuga para o Egito, e nada em Nazaré, nem mesmo quando o Menino foi perdido. E depois, absolutamente nada... o desaparecimento total e definitivo, na ponta dos pés, como os grandes tímidos que não querem que se lhes preste atenção, que se fale deles. Sim, tudo isto dá muito o que pensar!

As primeiras eras do Cristianismo não buscaram fender este silêncio. Somente Bernardo colocará uma tímida pergunta: “Quis? Qualis? Quem é? Que homem é?” Nada mais. Será necessário esperar tempos modernos para que todos queiram saber alguma coisa, e até mesmo se abra uma cátedra de “josefologia” (mas fiquem tranquilos, que isto é no Canadá!), e José, malgrado toda esta indiscrição, não diz nada, não dirá nada, não fará revelações, permanecerá o homem da boca fechada, o homem do interior. E por que me meto a falar dele? Por que não deixá-lo em seu silêncio, como deixo os peixes no mar? Depois de tudo, se isto lhe agrada, deixa falar e fazer, sem abrir a boca...

Mas não é dele que quero falar, nem espero que me fale. Quero somente contemplar o seu silêncio, mergulhar nele, impregnar-me dele até o ponto de suplicar que não nos diga absolutamente nada, que não apareça nunca...

José da boca fechada é o homem do interior; faz parte daquela coorte de silenciosos para os quais, falar é perder tempo, é sobretudo trair o intraduzível, o inefável. Naturalmente quando estas pessoas dizem alguma coisa, arriscam de fazer tremer o mundo, como Santo Tomás de Aquino, aquele “boi mudo” da Sicília, de quem troçavam os estudantes do mestre Alberto, na Universidade de Paris.

José da boca fechada é o homem que começa onde Jó terminou, quero dizer, nasce com a mão tapando a boca. Tem um senso enorme de Deus, do Ser sem medida e de sua loucura de Amor. Não o vejo pedindo explicações ao inexplicável. A única vez na qual penetra o mundo da dúvida, quis unicamente desaparecer, sem nenhuma palavra: “Vai, amada minha!” O anjo de Deus simplesmente lhe deu um empurrão. Depois de tudo, José é um homem: “Não temas pois tomar Maria como esposa; o que nela foi gerado é obra do Espírito Santo!” (Mt 1,20).

Depois do retorno do Egito, José desaparece. Acreditem-me: esta morte, este transitus do beato José não tem nada de triste. Não houve nenhuma declaração, nada de novíssima verba desde o momento que tampouco houveram priora verba. O seu silêncio é o mesmo de Deus. É cheio de violência do Amor.

Autor: Lassus, L.-A., monge. São José da Boca Fechada – Escrito “pregare è uma festa” (“Rezar é uma festa”, p.80-82).    

2011-03-17

Deus é quem faz resplandecer a verdadeira beleza do corpo


PARTE 2 – Esta publicação faz parte do que chamo “pequenas partilhas” (a partir de minhas anotações), do Curso aos Jovens sobre Teologia do Corpo (baseado na Teologia e vida de João Paulo II), ministrado no RENASCER 2011, por Meyr Andrade (Consagrada na CVSh, Missionária na Diaconia Geral Shalom).

Dizíamos como conclusão de nossa primeira partilha que o “Corpo é sacramento da pessoa”, segundo João Paulo II, ou seja, canal por meio do qual se vive a relação com Deus e se celebra a comunhão com os irmãos. Essa relação, essa mística, não escraviza, não rouba a liberdade como muitos jovens pensam, pelo contrário, acaba sendo expressão do nosso ser mais profundo, espaço de celebração como manifestação do rosto de Deus.

Pois bem, temos visto claramente que as feridas no corpo, a falta de castidade, de pudor, de retidão interior são fontes de escravidão, de tristezas e angústias profundas. O corpo como manifestação do “rosto de Deus” implica dizer que não vivo minha espiritualidade desvinculada do meu corpo. Quando amo, quando sofro, quando choro, quando me alegro e quando adoeço o meu corpo emite uma comunicação que revela aquilo que se passa dentro de mim, e isso não é vergonhoso, desde que o que ligue a ambos seja a relação com Deus. Infelizmente os padrões de beleza do mundo têm machucado o coração e o corpo de nossos jovens. Eles aprendem conceitos e padrões de beleza doentios, exclusivistas e até preconceituosos.

Uma imagem preciosa que a mídia nos legou e que muito traduz nossa reflexão é a da Princesa Diana de mãos dadas com Madre Teresa de Calcutá. A princesa satisfaz aos padrões de beleza pregados pelo mundo e, bem se sabe, indiscutivelmente era uma mulher realmente bela. Já Madre Teresa com o seu perfil não era nada atraente, era “feia” aos padrões do mundo, uma velha encurvada e enrugada, quase que desprezível. No entanto, ambas participavam do ciclo da vida no seu valor real, ainda que o mundo não compreenda esse mistério e queira negá-lo. Havia uma beleza interior em ambas segundo suas convicções de fé e projetos pessoais. Ali, de mãos dadas, víamos a perfeição de Deus fazer resplandecer a beleza do corpo no seu aspecto de realização pessoal e social.

Os padrões de beleza do Evangelho seguem outro caminho dos que são apresentados pelo mundo, o que não significa que não cuidemos da beleza estética e dos adornos, pois isto é saudável. Não se desconsidera a nossa sensibilidade ao belo estético, sem dúvida, mas à essa cultura de tratar o diferente como descartável, ao que não segue nossos critérios pagãos e secularizados. Aqueles que se aproximavam de João Paulo II nos seus anos de velhice ou mesmo de Madre Teresa de Calcutá ficavam encantados com a força de atração a Deus que emanava de seus corações. Tudo porque fizeram de seus corpos instrumentos preciosos e indispensáveis no cumprimento da vontade de Deus. Foram celibatários e mesmo quando se tornaram anciãos também se sentiam completos, porque a completude é viver em Deus, no processo de unidade espiritual: todo o Ser voltado para Deus. Isso é felicidade meus caríssimos jovens!

Antonio Marcos

2011-03-16

O corpo participa da experiência com Deus

PARTE 1 – Esta publicação faz parte do que chamo “pequenas partilhas” (a partir de minhas anotações), do Curso aos Jovens sobre Teologia do Corpo (baseado na Teologia e vida de João Paulo II), ministrado no RENASCER 2011, por Meyr Andrade (Consagrada na CVSh, Missionária na Diaconia Geral Shalom).

O papa João Paulo II, na ocasião como ainda Padre Karol Woityla (Cracóvia, Polônia), aprendeu desde cedo a viver a vocação da convivência com os jovens. A amizade e o cultivo da mesma foram exatamente o que fez com que melhor compreendesse e se comprometesse com os seus dramas, desafios e lutas no tocante à vivência da castidade. Acreditava com todas as forças do seu coração ser possível a santidade já nos anos de juventude, porque somente ela corresponde e satisfaz plenamente a nossa sede de felicidade.

Nesse intuito, Karol exercitava a criatividade na evangelização dos jovens, basta recordarmos a sua frequente prática esportista de percorrer com os jovens as trilhas, os Alpes, as maravilhas da natureza. Aproveitava especialmente os dias de férias do Colegial e da Faculdade para os “acampamentos”. Tal experiência, além de favorecer a relação do sacerdote com a juventude, era encarada como oportunidade para se “pescar os jovens para Deus”. Vale lembrar que durante o trajeto faziam-se algumas paradas para um momento de Catequese e celebração da Sagrada Eucaristia. Nesses preciosos momentos João Paulo II falava aos jovens sobre os pilares da fé e os valores da pessoa humana. Sua maior preocupação era ajudar os jovens a descobrirem a riqueza e beleza de se viver intensamente e com responsabilidade os relacionamentos, o namoro, a castidade, a amizade, tendo como referência o Evangelho de Jesus Cristo.

Era preciso, sobretudo, ajudar os jovens na disponibilidade do coração para que se pudessem acolher os valores. Karol Woityla se esforçava para ensinar aos jovens que o corpo é dom, que tem uma mística e é chamado a participar da vida de Deus. Sim, o corpo participa da experiência com Deus, não é algo que deve ficar à parte. Um bonito exemplo a se contemplar é o da dança e do louvor a Deus. Infelizmente vivemos hoje um contexto no qual se pretende de todas as formas levar o corpo para dois extremos: a exploração estética e sensual do mesmo, e a negação total, o desprezo deste corpo.

Deus reservou para o homem e para a mulher um espaço único e concreto para se viver a comunhão e experiência salvífica com o Seu amor. E o bom disso é que o nosso corpo acompanha essa relação. Negar isto é desviar-se, desencontrar-se da felicidade ou viver atrofiamentos na vida espiritual. O mundo tem ensinado o contrário disso tudo – quase que propondo um retorno ao pensamento grego de desprezo do corpo na experiência com o Transcendente -, porém, a nossa experiência cristã descobre que existe uma mística para o corpo, Templo de Deus, lugar de encontro, de relação, de vocação, de doação e celebração. “O corpo é sacramento da pessoa”, afirmava João Paulo II.

Antonio Marcos

2011-03-13

Padre, confesse-me, por favor!


Nunca foi tão desafiante falar do pecado como em nossos dias de secularização, ou seja, dias nos quais a Ciência e a técnica se empenham não somente para mostrar a evolução maravilhosa do cérebro humano, mas, juntamente com este feito, desbancar os alicerces da fé, desautorizar Deus de ser o Criador do Homem e de todas as coisas, como de ser a estação última da “odisséia humana”. Não são poucos os esforços dos diversos segmentos da sociedade, sobretudo Ocidental, para desvincular o homem da referência a Deus. 

Da mesma forma as Ciências Humanas também se arvoram do direito de decidir para o homem o que é certo e o que é errado. É louvável a contribuição que a psicologia moderna (especialmente com a doutrina sobre o inconsciente) e a antropologia deram e continuarão a dar à religião, porém, é inegável uma parcela significativa de uma colaboração negativa dessas Ciências, especialmente quando a seriedade de suas reflexões se reduz a psicologismos. E quando a questão é fé, religião, pecado, sadia auto-acusação, consciência da transgressão de uma Lei interior, de uma relação com Deus, consigo e com o outro (individual ou coletivo), então logo se percebe os extremos de considerar que não existem mais “pecadores”, apenas “pessoas doentes”. Os especialistas citam esta como uma das causas do que chamam de “perda do sentido do pecado”, termo explorado na teologia de João Paulo II. 

O fato é que o homem não pode fugir e negar sua “condição de criaturalidade”, está marcado pela fragilidade e pela imperfeição. A realidade é esta: o homem é finito, não criou a si mesmo, mas é obra das mãos do Criador, e depende d’Ele para ser feliz! Esta dependência de Deus não é esmagadora, destruidora, pelo contrário, uma vez satisfeita, é a realização, a verdadeira felicidade da condição humana. O homem foi criado para a comunhão com Deus e para participar da Sua felicidade e eternidade, mas fora criado livre, capaz de aceitar e rejeitar o amor de Deus. Foi o que aconteceu, o homem negou a Deus quando se deixou seduzir pelo Mal. Como diz a Teologia da Criação: “O homem quis divinizar-se sem Deus”. Esse mau uso da liberdade acrescentou ao homem uma realidade tão verdadeira como o ar que respiramos: o homem é pecador! O pecado trouxe a morte e debilitou o homem.

Não se negam os exageros, os extremos da própria teologia ao longo da história, os contextos religiosos e culturais nos quais o pecado estava sempre em dois extremos: o rigorismo (puritanismo, “Tudo é pecado”) e o laxismo (permissivismo, “Nada é pecado”). Vale o axioma filosófico: “A virtude é o meio termo”. Mas, teologicamente, o que é essa virtude? É o reconhecimento humilde de que não podemos salvar a nós mesmos, que a nossa natureza não pode estar fechada em si, mas necessita estar aberta para Deus e se deixar tocar pela Sua graça. É próprio da natureza humana o desejo de transcendência, erguer-se do seu chão e buscar a ligação com o céu. Acontece que a esta virtude não se chega sozinho, não é um labor simplesmente das forças humanas. Só a graça de Deus é capaz de nos fazer viver essa comunhão. Foi Jesus, através do mistério da sua Paixão, Morte e Ressurreição, quem conquistou para nós essa graça. A libertação da escravidão do pecado e a salvação do homem em Cristo se tornaram uma realidade acessível, possível a todos, palpável pela fé. 

O pecado existe como uma “desordem da ordem”. A ordem divina, seus mandamentos, seu diálogo com o homem, seu projeto de amor e caminho não é opressão, não se trata de controle da liberdade, mas de cuidar no amor para que ela não se corrompa seduzida pela astúcia de Satanás. A dimensão da “personificação do Mal” (como vemos tão claramente no Evangelho do 1º Domingo da Quaresma, Cf. Mt 4, 1-11) é algo que tende a ser hoje descartado pelo relativismo cruel que vivemos. A influência de Satanás na vida do homem é a origem do pecado, e o pecado é sempre uma ação má da liberdade no rompimento da relação consigo, com Deus e com o outro. O pecado desloca o homem do seu centro e referência que é Deus. O pecado falsifica a realidade e transforma a felicidade em caricatura da mesma.  

Os consultórios têm sua finalidade indispensável, sem dúvida, como tem também a evolução da consciência, a compreensão dos mecanismos do inconsciente que podem ajudar o homem a viver no equilíbrio e não numa concepção doentia da Religião e da relação com Deus. No entanto, eles nunca poderão garantir ao homem a “sua própria redenção”. É fato que existe o homem doente no sentido patológico, mas todos nós somos pecadores e necessitamos da misericórdia de Deus, reconheçamos ou não, creiamos ou não. Para nós que cremos os consultórios continuam importantes, mas, indispensável mesmo em qualquer situação é aquele gesto consciente e humilde de sentar na frente do sacerdote e dizer: “Padre, confesse-me, por favor, pois sou um pecador arrependido! E o que deve me fazer ir até o sacerdote não é o medo do inferno, mas o desejo de estar unido a Deus, a consciência de ter negado o Seu amor e aquela clareza de que somente Jesus Cristo tem o poder de transformar as minhas trevas em luz. 

Antonio Marcos
Imagem:
Pe. Eduardo, Arquidiocese de Brasília - Confessando no Renascer 2011.

2011-03-11

Quando um jovem é conquistado por Cristo


RENASCER 2011 – DEUS É A FELICIDADE!

Pe. Antônio Furtado fez uma breve partilha na homilia da Missa do Domingo no Renascer e me fez pensar algumas coisas sobre os amigos que nos conduzem a Deus e sobre a responsabilidade que cada um tem de perseverar, independente dos caminhos e decisões posteriores daqueles que foram canais de Deus para nós. 

Dizia o padre que quando se decidiu por Deus e a buscar sua vocação e em seguida a decisão do ingresso no Seminário para ser padre, não foram poucas as perseguições e as críticas de seus amigos, alguns deles até cultivavam os valores da fé. E todo jovem sabe que não é fácil em nossos dias uma decisão pela fé, não é fácil ser um jovem de Deus diante de tantas facilidades e seduções para coisas até lícitas, mas que não preenchem plenamente o coração. O coração tem sede de “altos ideais” – como afirmava João Paulo II -, só o Evangelho é capaz de satisfazer os anseios mais profundos da alma humana. Só Jesus não rouba nada de nós, mas acrescenta o “tudo”, a felicidade.

Deus se utiliza de tudo e de todos para nos conquistar. Ele sabe que nós “funcionamos” por conquista, jamais movidos pela obrigação. A obrigação e a permanência nos caminhos de Deus simplesmente por causa dos outros levarão a nada e no final teremos perdido tempo. Ninguém, nem o melhor amigo, os pais, a namorada, o padre, podem nos sustentar, eles são instrumentos utilizados por Deus, apoios necessários, setas que indicam o caminho da felicidade, porém, nós temos que fazer a experiência pessoal com Jesus Cristo, pois somente ela é capaz de nos sustentar para sempre, ainda que os amigos, aqueles que nos evangelizaram, voltem atrás. A vida cristã é um caminho para o céu que até caminhamos de mãos dadas, um apoiando o outro, mas a entrada é pessoal. Chega um momento da caminhada no qual Jesus nos olha com amor e pergunta: “E para ti, filho, filha, quem sou Eu?” Essa resposta é fundamental, é o segredo da superação das críticas, dos desafios, da dor pelas renúncias, da violência de coração para escolher a castidade, o namoro santo, a fé, o engajamento, a perseverança. Essa resposta nasce de uma amizade com Jesus cultivada diariamente. 

Pe. Antônio Furtado disse ainda que quando hoje volta à sua cidade e vai ao cemitério, lá encontra o túmulo de muitos de seus amigos jovens de quando ele se decidiu pelo seguimento a Cristo. O mal, com todas as suas facetas, seduziu a muitos deles. Jovens que acharam que entregar a vida a Jesus era perder a liberdade e decidiram adiar a decisão por Deus. Na verdade, eles perderam a oportunidade de encontrar a verdadeira felicidade. Alguns de nós temos exemplos desses, mas rezemos para que não aconteça conosco e com os nossos amigos, e nos ajudemos a não perder tempo para evangelizar, ainda que sejamos contrariados, não compreendidos e até perseguidos.

Meu caro jovem, a vida é breve, a juventude também! O sentido que damos a nossa vida hoje, deixando Jesus Cristo nos conquistar, é a maior de todas as “aventuras”. Não deixe que seus “dias de caminhada” sejam “apenas uma fase”. Jesus Cristo não é uma fase, mas o segredo de toda uma vida feliz, ainda que estejamos em meio a um mundo de tantos desafios. Não permita que suas raízes atrofiem e árvore apodreça. Enxertados em Cristo, a Árvore da Vida, somos capazes de dá sombra e vigor aos que estão cansados e tentados a desistir. Coragem jovem, coragem! Jesus não rouba nada de nós, mas acrescenta “tudo”, a felicidade!  
  
Antonio Marcos
Imagem: Jovens da Comunidade de Aliança Shalom - Brasília - Renascer 2011.

2011-03-10

Apesar da fragilidade da minha fé...


RENASCER 2011: DEUS É A FELICIDADE!

A Santa Missa do 1º dia do Renascer (Fortaleza) foi um momento no qual, de forma especial, todos nós pudemos mais intensamente suplicar a Deus pela nossa cura interior, seja espiritual ou psíquica, e também física. Antes da benção final o Santíssimo Sacramento passou entre os presentes no ginásio e muitas graças foram operadas. É sempre um momento muito forte pelo que vemos acontecer conosco e com os outros. O canto e a adoração se tornam uma única melodia, a súplica através da fé se torna um gesto de profunda confiança na misericórdia de Deus. Os mais indiferentes podem achar que se trata de algo puramente emotivo, mas, na verdade, a emoção é uma reação de uma profunda experiência de Deus. É um Cenáculo no qual os Tomés são convidados a tocar o lado aberto de Jesus, os Zaqueus são vistos, as Samaritanas e os Leprosos são curados, os Pedros são revigorados na fé.

Eu estava lá e também adorava a Jesus de joelhos e com fé, mas ainda sentia que meu coração estava fechado, estava com medo, estava resistente. Queria gritar “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim”. Apesar da fragilidade da minha fé Deus foi generoso. Lembro bem que quando se fez um grande silêncio de adoração em que fomos convidados a olhar Jesus, de repente uma jovem mulher quase ao meu lado, começou a chorar em alta voz, um choro de libertação em que todo o ginásio se vez ouvir. Sendo imediatamente acolhida pelos Servos de Seminário, logo se percebeu que não se tratava de uma “manifestação”, mas de um choro de cura interior profunda de quem viu sua miséria iluminada pela misericórdia de Deus. Era um choro de quem provava tão gratuitamente o amor de Deus, de quem por anos buscou aquele encontro e finalmente ele chegara. Era o choro de quem reconhecia que não há felicidade para quem caminha longe de Deus e que o retorno é uma libertação de nossa cegueira e dureza de coração. Aquele choro era de um coração que não ouviu uma sentença de condenação, mas o próprio Jesus dizer: “Vai, filha, e não peques mais!”

Os 25 anos do Renascer estavam sendo celebrados naqueles dias e todos nós que renascemos para Deus neste evento, certamente pudemos fazer memória de quando um dia fomos conduzidos àquele Cenáculo pela primeira vez e fomos visitados por Deus para sempre. A gratidão por ter a oportunidade de renovar a experiência com Deus vale mais que qualquer coisa, que o diga aquela jovem mulher. O que ela viveu pela primeira vez nós também o vivemos, de alguma forma. Também nós choramos o choque da gratuidade do amor e da visita de Deus. No entanto, as nossas lágrimas de um dia não são suficientes para sustentar a caminhada para sempre. Precisamos de outras visitas de Deus, de outras lágrimas, de outras efusões, da humildade de se ajoelhar e dizer: “Senhor, eu preciso de novo que me renoves com tua graça”. Foi isso que Deus me ensinou com as lágrimas daquela jovem mulher e, apesar da fragilidade da minha fé, minhas lágrimas se renovaram e com elas a minha vida. 

Antonio Marcos

A criação geme em dores de parto...


 Não quero aqui, de forma alguma, reduzir ou desprezar a temática fundamental que virá a motivar as discussões propostas pela Igreja através da Campanha da Fraternidade 2011, tendo como ponto de partida a “Vida no Planeta”. Quero propositalmente falar de alguns detalhes que, aparentemente, como pensam alguns, parecem não ter nada a ver com a Vida no Planeta, o que é um equívoco, mas que na verdade correspondem primeiramente à Vida dentro de nós e à Vida que, por meio de nós, é promovida nos outros, principalmente naqueles com quem convivemos diariamente.

Refiro-me especificamente a um dos três gemidos de que fala São Paulo (Cf. Rm 8, 22.23.26), ou seja, o gemido dos cristãos no sentido de que deve partir de nós aquelas atitudes sensatas e concernentes à pessoa humana, e ainda mais a quem tem uma consciência de fé. Quem de nós não conviveu ou convive hoje com pessoas tão desacreditadas da vida, desnorteadas até? Os acontecimentos do mundo e as realidades que lhe são próximas governam suas vidas e modificam as atitudes. Da mesma forma se dá nas ações morais e éticas: o parâmetro não é o que está registrado na consciência e nas convicções de fé, seus valores e virtudes, mas na doentia capacidade que tem as más influências e as atitudes dos outros, por menores que sejam. Por exemplo: furo a fila do transporte porque os outros o fazem; o papel no chão não custa nada, meus impostos pagam o Gari; a lâmpada acesa e a minha falta de atenção em desligá-la quando sou o último a sair; talvez na minha casa a torneira esteja pingando, a comida esteja indo para o lixo, ferindo assim a solidariedade e a caridade; talvez predomine em nós o sentimento de indiferença para com os que sofrem e, ainda que camuflados, certamente afetam a paz das consciências, tanto a nossa quanto a dos nossos irmãos. Talvez estejamos pouco preocupados se os outros não têm onde dormir, o que comer e o que vestir.

“A criação geme em dores de parto...”, antes de qualquer gemido, a meu ver, está o da alma e da consciência relaxada. Como pensar no planeta se as míninas práticas que colaboram na conservação do mesmo não começarem na minha vida? Uma mãe que já abortou, ainda que involuntariamente, sabe que existe uma dor intrínseca e pode até permanecer por toda a vida. Os cuidados para com o bebê não começam somente comprando o berço e pintando o seu lindo lugar, mas, sobretudo, com as pequenas coisas, os detalhes, a atenção ao que ainda está escondido, mas que se relaciona com a mamãe. Isso fará a diferença, inclusive quando lhe vier a tentação de abortar seu bebê por qualquer circunstancia. A vida começa não quando o bebê nasce, mas na fecundação! A conservação da Vida do Planeta precisa começar na consciência da vida pessoal e nos detalhes de cada dia. Então o gemido e a do parto não será destruidor, mas de celebração porque a vida estará sempre desabrochando.

Antonio Marcos