2011-02-25

Ser “ponte” para que o amor viva o seu encontro


Quando analisamos o percurso histórico e os contextos nos quais se davam os laços matrimoniais, não é difícil constatarmos num tempo não muito distante, como tudo era muito complicado, embora se diga que os frutos eram melhores do que os que emanam das relações conflituosas de nossos dias. Não se podia imaginar a “autonomia da mulher” frente ao autoritarismo do pai. Os homens seguiam, quase sempre, a mesma linha de profissão dos progenitores para que se honrasse o nome da família e mantesse o status social.
A filha já era “outros quinhentos” (literalmente), ou seja, era guardada a sete chaves para ser entregue a um filho também de família nobre que, além de receber a moça, passava a ser o administrador de “seu dote”, da herança financeira concedida pela família. Vemos isso muito claro nos personagens de Dostoiévski, “Os Irmãos Karamazovi” (entre Fiódor e a jovem Adelaide).  Detalhe, a moça não podia se entregar matrimonialmente a quem quisesse ou por quem se apaixonasse. Não tinha o direito de escolher o amor de sua vida, os pais é quem faziam isso, mesmo que contra a vontade da filha. Pelo incrível que pareça – mesmo levanto em conta se dar em países ocidentais, já marcados pela secularização e com toda a consciência da autonomia da pessoa humana -, em muitas famílias próximas a nós esse contexto se repete.
Fiz esta longa introdução apenas para chamar a atenção para uma questão muito importante em nossos dias: trata-se da necessidade de ajudarmos as pessoas, especialmente os jovens, a se encontrarem. Claro, não mais nesse sentido de que aqui falei inicialmente, de “forçar os encontros ou mesmo obrigá-los”, mas de sermos instrumentos, ou melhor, pontes para que as pessoas se descubram, se encontrem, se enamorem. Evidentemente, aqui entra um fator delicado, exatamente a decadência de nossas relações, a superficialidade com que, em boa parte dos jovens, se dão as amizades, apesar de nossas redes sociais e de nossos agrupamentos diversos. E essa amizade começa já sem solidez porque nossas famílias estão também desajustadas. Os jovens sentem a necessidade de que seus pais vivam um casamento feliz, de duas pessoas alegres e amigas, que cultivam o amor na simplicidade e ensinam os filhos a fazerem também suas escolhas.
Os sacerdotes são testemunhas dos dramas, angústias e esperanças dos jovens. Mas faltam referenciais que os ajudem, nos ambientes nos quais estão buscando a convivência, a se encontrarem, estabelecerem relações de amizade sadias e saberem identificar as possibilidades de uma relação de namoro. Isso não é fácil, especialmente nos nossos dias, mas é concreto e possível. A arte do encontro, o cultivo da amizade, a pureza da paquera, a paciente e tranqüila descoberta do outro, a oração e, é claro, a ajuda de uma pessoa sensata e de confiança, são valores e processos que não devem cair em desuso. Não se trata aqui de “casar os outros”, nem de “meter o nariz onde não deve”, mas de apenas ser ponte e apoio para jovens que titubeiam em suas procuras e convivências. Penso que é nesse sentido que as Comunidades Novas chamaram de “caminhada” o tempo onde os jovens podem ser ajudados por uma pessoa experiente a amadurecerem a opção pelo namoro. Embora incompreendido por muitos, este processo é belo e válido para muitos.
Importa que sejamos pontes para que o amor, a castidade, a amizade e o namoro entre os jovens continuem sendo valores irrenunciáveis, possíveis e desejosos. Pontes é o que devemos ser, para que os encontros sejam felizes. E não nos esqueçamos de ajudar os jovens a compreenderem que “o dote” mais precioso que devem trocar entre si é mesmo os valores eternos, a fé e a amizade com Cristo. Aprendamos com Ele que foi ponte entre o nosso amor mesquinho e o amor generoso de Deus.
Antonio Marcos

2 comentários:

  1. Você tocou num ponto importantíssimo, o que vemos hoje é bem isso, tenho observado sucintamente as pessoas e suas atitudes diante dessa avalanche de mutações do século XXI. Vejo até mesmo "professores" falarem do fiasco que é o casamento, deturparem esse sacramento a um contrato e a não acreditarem mais num relacionamento duradouro.

    Muitos casam-se já pensando em " se não der certo é só separar", muitos estão a pregar isso... E o jovem, onde fica no meio disso, escutando seus mestre falarem que não vale a pena? Já dizia Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena." Tá faltando mesmo é essa grandeza da alma, que não se verga a seu egoísmo e as suas frustrações, que acredita no que acredita, que apóia o que apóia, que levanta a bandeira consciente de que dentro de si existe sempre esperança. Faltam bons educadores, faltam bons pastores, pontes fortes para nos conduzirem ao outro lado. Somos jovens em processo, aprenderemos o que nos apresentarem... e nem preciso falar do que estão a nos apresentar...Penso ainda: É por isso que não existem mais heróis (pontes)...

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  2. "Faltam bons educadores, faltam bons pastores, pontes fortes para nos conduzirem ao outro lado. Somos jovens em processo, aprenderemos o que nos apresentarem... e nem preciso falar do que estão a nos apresentar...Penso ainda: É por isso que não existem mais heróis (pontes)... "

    Muito obrigado, querida Jeania, pela riqueza de seus comentários no Blog. Certamente é um acréscimo de quem traz consigo uma experiência, uma visão coerente, uma maneira madura de fazer chegar aos outros a sua parte na construção do amor, no "ser ponte", não obstante também estares nos seus processos de aprendizagem, o que todos estamos. Muito obrigado pela sua generosidade de vida, por isso suas linhas são significaticas na ajuda ao que tentei comunicar. Seu "coração poético" - agora dá pra melhor ver -, é rico de um conteúdo que não pode ser outra coisa se não o que vais vivendo na vida. Rezo para que Deus te ajude a ser sempre "ponte" na vida de tantas pessoas, para que elas se encontrem entre si e encontrem a Deus. Um grande abraço minha irmã! Shalom!

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