2011-02-07

Quando Deus e o homem se abraçaram e se reconciliaram

A fé de Israel apresentada na Septuaginta mostra a harmonia entre Deus e o mundo, entre a razão e o mistério. Proporcionava indicações morais, mas ainda lhe faltava algo. O Deus universal achava-se ainda ligado a um povo determinado; a moral universal estava associada a formas de vida muito particulares, que não podiam ser vividas fora de Israel. O culto espiritual continuava estando ligado aos rituais do templo, que se poderiam interpretar de modo simbólico, mas que foram superados pela crítica profética e já não podia ser adotado por um espírito indagador.

Um não-judeu só podia permanecer num círculo exterior dessa religião. Permaneceria um “prosélito”, pois a plena pertença estava ligada à descendência sanguínea de Abraão, a uma comunidade étnica. Também permanecia o dilema de saber até que ponto era necessário ser especificamente judeu para servir a esse Deus, e a quem cabia traçar a fronteira entre o irrenunciável e o historicamente acidental e ultrapassado. Universalidade plena não era possível, porque a pertença plena não era possível. Foi aqui que o cristianismo realizou a primeira ruptura que derrubou o “muro” (Ef 2,14), e o fez em três sentidos: os laços de sangue com o patriarca do povo já não são necessários porque a adesão a Jesus realiza a plena pertença, o verdadeiro parentesco. Todos podem agora pertencer totalmente a esse Deus, todos os homens podem e devem ser o seu povo.

Os preceitos jurídicos e morais particulares já não são obrigatórios; tornaram-se um prelúdio histórico, pois tudo está sintetizado na pessoa de Jesus Cristo, e quem o segue traz em si a essência de toda a lei e a cumpre. O antigo culto tornou-se obsoleto e foi superado pela entrega que Jesus fez de si mesmo a Deus e aos homens, que agora surge com o verdadeiro sacrifício, como o culto espiritual em que Deus e o homem se abraçaram e se reconciliam, do qual a ceia do senhor, a Eucaristia, constitui a certeza real e penhor sempre presente. Talvez a expressão mais bela e mais concisa dessa nova síntese cristã se encontre em umas palavras da primeira Carta de João: “nós acreditamos no amor” (1Jo 45,16). Cristo tornara-se, para essas pessoas, o descobrimento do amor criador. A racionalidade do universo tinha-se revelado como amor – como aquela racionalidade maior que acolhe e salva o obscuro e o irracional.

Dessa maneira, o movimento espiritual, reconhecível na caminhada de Israel, alcançou a sua meta, a universalidade inquebrantável tornando-se agora uma possibilidade prática. Razão e mistério encontraram-se; a concentração do todo em um só abriu as portas a todos. Todas as pessoas podem se tornar irmãos e irmãs, sob um único Deus. Igualmente, o tema da esperança e do presente adquire uma forma nova: o presente corre em direção ao Ressuscitado, em direção a um mundo onde Deus será tudo em todos. Mas, precisamente por isso, a esperança torna-se valiosa e tão importante como o presente, porque ela agora está impregnada da proximidade do Ressuscitado e a morte não tem mais a última palavra.

Autor: Joseph Ratzinger (Bento XVI)
Fonte: Fé, Verdade, Tolerância: o Cristianismo e as grandes Religiões do mundo, 2007. (Grifos no texto são meus)

Um comentário:

  1. paz e bem irmao muito bom seu blog visita o meu irmao fica na paz http://pensamentossempre.blogspot.com/

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