2011-02-13

Paixão: outra face do amor


Sempre nos perguntamos como identificar um verdadeiro amor. Não é tarefa simples pois temos vários amores durante a vida e, assim como nós, eles também amadurecem e se transformam. Além disso, o amor se confunde com sentimentos como a paixão e a amizade profunda.
Mas é possível termos algumas pistas: o amor é um sentimento menos explosivo que a paixão e mais erotizado que a amizade. Ou seja, se apaixonados, queremos o outro o tempo todo, ficamos sem comer ou dormir para estar a seu lado; quando o verdadeiro amor aparece, ele se apresenta mais calmo e menos possessivo. Para o nosso amor, desejamos o melhor, mas o que ele necessita e não o que nós desejamos e achamos ser o melhor para o outro. O amor admira, compreende e liberta. Mas este amor é desejado para uma convivência de corpos e não só de almas. Se isso acontecer, só encontro de almas, então é amizade profunda.
Costumamos acreditar que o amor é aquele vivido entre duas pessoas que convivem muitíssimo bem, ‘falam a mesma língua’, têm projetos em comum e caminham romanticamente na mesma direção. Mas o amor não pode ser entendido apenas por padrões de convivência. Ele é, antes de tudo, sentimento. Portanto, podemos amar muito alguém e não conseguir ter um relacionamento saudável com esta pessoa. Podemos sim amar várias vezes, o que modifica é a qualidade dos nossos relacionamentos amorosos.
Outra pergunta comum é se é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Se é possível ter sentimentos contraditórios pela mesma pessoa, como amar e odiar, por que não iríamos amar duas pessoas ao mesmo tempo? Mas é raro acontecer, o mais comum é amarmos alguém e nos apaixonarmos por outra pessoa, pois a paixão é sentimento que antecede o amor e muitas vezes finda sem que o amor floresça.
E o que é a paixão? O imaginário, como a paixão, não se contém, não cabe em limites e regras. Quando apaixonados, desejamos ficar despertos pensando no amado, telefonando, encontrando, vivendo devaneios e fazendo retrospectivas de experiências partilhadas. Uma espécie de estado pré-orgástico onde tudo é motivo de felicidade e encantamento. É ardor amoroso, pouco durável, mas cuja queimadura permanece inesquecível.
Ana Maria Valença diz, com incrível propriedade, que a paixão é dialeticamente agonia e ou êxtase, que se consolida como uma dinâmica interior, um movimento conflitual progressivo e dominador. Acredito que em alguns momentos de nossa vida amorosa há o encontro proibido e fascinante da paixão com o amor e quem já teve a sorte de senti-lo recorda que o apaixonado torna-se capaz de viver o agora com sabor de infinito. “Ninguém vive a provisoriedade com tanto sentido de permanência. Ninguém erra com tanta convicção.”
É grande hoje a evitação do envolvimento amoroso, o descompromisso com a emoção e com a pessoa e, em troca, elegem-se experiências passageiras, nenhuma verticalização do sentimento. Mas é grande também a insatisfação, filha do vazio que resulta do não encontro. Vivemos assim uma tristeza amorosa, revelada através de doenças, somatizações, depressões e desencanto pela vida.
Autora: Dra. Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, pedagoga e sexóloga
Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 13 de favereiro de 2011. (Grifo do texto é meu)

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