2011-02-28

Jesus nos revelou que Deus existe, e é Pai

“Vincular a ética à fé na existência de Deus” não é por assim dizer “um absurdo”, desde que seja refletida na perspectiva de que pensou Agostinho de Hipona. Para este Padre da Igreja da Idade Antiga - influenciado pela “transcendência" de Platão, melhor falando, pelo mundo das ideias, no qual acontece o encontro com aquilo que realmente somos, com a "nossa essência", com o Bem por excelência -, a fé necessita do esclarecimento da razão, ou seja, ela implica o uso da inteligência. Porém, para Agostinho, esta inteligência, por sua vez, porque é obra do Criador, porta o desejo da transcendência, do encontro com o grande OUTRO; traz a sede do infinito e por isso não se satisfaz com as coisas terrenas”, e quer caminhar para a beatitude (beata vivere, ou seja, Bem-aventurada vida junto do Criador). O homem deseja a felicidade, mesmo que não a chame de Deus!

Acontece que essa felicidade desejada pela inteligência, para o filósofo e teólogo Agostinho, tem sua plenitude quando alcançada pela fé. É esta fé que a conduz à beatitude! E o que dá contorno a tudo isso? Evidentemente é uma vida prática, uma ética de valores, que não tem outra palavra se não caridade. É esta caridade que ordena em nós a utilização das coisas terrenas e mantém atrelado e em boa ordem os padrões éticos e os valores universais. Daí que entra o conceito de virtude, que é guiada pelo amor a Deus e ao outro. A justiça está pautada numa partilha desse sentimento amoroso ao próximo.

Desse enunciado se concebe a ideia de Lei Natural. Lei esta que inclina o homem para a “máxima da vida”: “Faze o bem e evita o mal”. A ética fora da crença em Deus está pautada nesse axioma. Uma inteligência que não crê não é, de forma alguma, autorizada ao permissivismo. Agir desta forma não seria ateísmo, mas insensatez, idiotice e ser carrasco para consigo e para com o outro. Seria a desordem da própria consciência que tem uma “Lei interna”. Daí que também é importante ressaltar que os limites não desaparecem. Bastaríamos falar da problemática da Bioética e da Biotecnologia. Os que não creem não estão autorizados a matar a vida inocente, e nem a "não inocente!" E não posso esquecer o filósofo ateu Habermas que não concorda em considerar que não haja uma Lei interior que pauta também os valores universais.

Agora, de fato, não foi a fé na existência de Deus que criou a ética. Dela surgiu “historicamente” uma ética cristã. É essa ética cristã que liga o Deus de Abraão ao Deus de Jesus Cristo. Que liga o menino da manjedoura” ao homem do Calvário. E a ética cristã considera ser possível o diálogo com todas as realidades crentes e não crentes, porque o bem ao próximo é uma necessidade intrínseca ao homem. O Cristianismo não quer só fazer o bem ao próximo, quer também levá-lo à beatitude. Mas é preciso que se diga que “a fé religiosa em um Deus pessoal acrescenta ao homem não só a esperança em um mundo melhor após a morte, não só a imortalidade da alma humana”. A nossa fé não está voltada “só para o amanhã”, isso seria alienação. Deve ser uma fé operante, uma ação de Deus no mundo, um rosto visível do Mistério, porque Jesus nos revelou que Deus existe, e que é Pai. “Em Jesus Deus se revelou, entrou no mundo e agiu”, afirma Ratzinger. Cremos não às apalpadelas, mas “o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos” (cf. São João 1, 1-4). Nossa fé não é “uma ideia de Deus”, uma discussão se Ele existe ou não, e sim, nossa fé é uma relação de amor com Deus que mostrou sua Face.

Nós cremos que Deus traçou um plano amoroso para o homem, mas “não o destinou” para tal, porque deu-lhe o dom da liberdade. Ele terá de escolher viver na fé ou viver sem a fé, e bem sabemos que nem sempre foi uma escolha nossa, porque o Batismo pode ter sido pedido pelos pais, mas ele não é mágica, mas vínculo que pede evangelização, adesão de vida ao projeto de Deus para o Seu povo e para cada um. Porém, uma coisa é certa, “viver sem Deus é bem mais difícil”. Viver sem uma perspectiva de um encontro também é difícil. Mas de uma coisa o homem não pode se furtar: ser para o outro! E creio, como diria Santo Agostinho: “Eu te buscava fora, Senhor, e eis que estavas dentro!” O outro acaba me ajudando a entrar em mim mesmo, porque este outro também “exigirá” amor autêntico, e a necessidade desse amor nos leva inevitavelmente a Deus.

Antonio Marcos

2 comentários:

  1. Nossa,que artigo maravilhoso amigo!

    Mas me diaga uma coisa,o que é Beatitude?

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  2. Querida Luciana, obrigado!
    A "Beatitude" se trata da "bem-aventurada vida junto de Deus", ou seja, nossa união com Ele de forma definitiva, na Sua eternidade. É um termo usado pela Teologia sobre a Escatologia, ou seja sobre "as realidades últimas", especificamente, a vida após a morte. Os Padres da Igreja e a Teologia Mística (os Santos do Carmelo) falaram muito desse termo. Mas é Santo Agostinho, Padre da Igreja da Idade Antiga, quem melhor a define com a Teologia sobre : "Bene-vivere" = viver bem, ou seja, viver satisfatoriamente e virtuosamente as "realidades temporais", mas que não chegam a realizar plenamente o homem. E a "Beata-vivere" = Vida beata, vida Feliz, vida eterna, "beatitude".

    Espero que eu a tenha esclarecido!
    Nossa Senhora te guarde.

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