2011-02-28

"A existência de Deus", na visão de um sociólogo


No dia 20 de fevereiro, o Pe. Brendan Coleman publicou no Jornal O Povo (Fortaleza) o artigo intitulado: "existência de Deus" ( e publicado aqui no Blog no dia 21). Agora o sociólogo André Haguette escreve sua visão, fazendo assim algumas importantes discordâncias. Confira:
A existência ou não de Deus é um tema caro à civilização cristã ocidental. Na realidade, se Deus existe ou não nunca o homem o saberá, já que não há prova racional que constranja a razão ao ponto de dirimir a questão. Afirmar a sua existência ou inexistência é vedado à condição humana abandonada e dividida entre a contingência e a transcendência. Resta a dúvida, a negação ou a fé.
Mas muitos, como o padre e professor Brendan Coleman Mc Donald, querem vincular a vida ética à fé na existência de Deus, valendo-se da polêmica frase de Dostoievski: “Se Deus não existe tudo é permitido”. O Padre, num artigo neste mesmo jornal, publicado em 20 de fevereiro deste ano, escreve: “A existência de Deus é que leva cada um a respeitar o seu semelhante, ainda que isto lhe custe autodisciplina ou até grande renúncia”. A intenção evidente é argumentar que fora da existência de Deus o comportamento altruísta fica sem fundamentação. Isso significa dizer que agnósticos e ateus são incapazes de respeitar o seu semelhante, porque incapazes de fundamentar valores. O Padre ainda apela ao filósofo Sartre para dar autoridade a seus dizeres.
Quer dizer que se Deus não existe tudo é permitido e que o homem vai se danar a matar, estuprar, roubar? Quer dizer que se Deus não existe não há mais limites e que as sociedades desaparecem, vítimas da guerra de todos contra todos? Quer dizer que a sociabilidade do homem lhe é exterior e não interior? Sem Deus o homem perde a sua espiritualidade, sua sede de verdade, amor, paz? Há engano aqui: a espiritualidade do homem é suficiente para explicar a obrigação moral do homem. O que a fé religiosa em um Deus pessoal e amor acrescenta é a esperança em um mundo melhor após a morte. Ela acrescenta a imortalidade da alma humana.
Não há como negar que a fé em Deus dá uma contribuição à ética e que o judaísmo e o cristianismo trouxeram uma ética do amor ao próximo em que reside a sua grandeza. Mas nem eles nem outras religiões inventaram ou foram os únicos portadores da ética. Ela decorre da espiritualidade humana que significa abertura e transcendência, abertura ao outro e ao mundo e possibilidade constante de transformação e criatividade na busca do belo, bom e verdadeiro.
Jean-Paul Sartre não concorda com a citação de Dostoievski. Ele pensa que o homem, “sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem”. O homem é o futuro do homem. Para Sartre, “o homem é antes de mais nada um projeto que se vive subjetivamente”. O homem não existe, ele se faz, se constrói. O homem “primeiramente se descobre, surge no mundo; e que só depois se define”. Não há Deus a traçar-lhe seu destino. O homem está só e sem desculpas. É neste contexto que Sartre escreve a frase tantas vezes citada: “o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer”.
Viver sem a hipótese da existência de Deus não é tarefa fácil. Sobretudo porque o ateu não tem a quem pedir, nem a quem agradecer. Tudo depende dele mesmo e ele há de ser o que o homem é: um ser para o outro, sem esperança de uma recompensa em outro mundo.
Autor e Fonte: André Haguette - Sociólogo - Publicado no Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 27 de fevereiro de 2011.
Imagem: Caim agredindo seu irmão Abel.

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