2011-02-16

Dilatar o coração


Uma das mais radicais novidades do Cristianismo foi mesmo o mandamento do amor, amor gratuito, inclusive aos inimigos. Mas, evidentemente, não vamos fantasiar, muito menos nos enganar achando que isso é simplesmente um esforço humano. Muita gente tem interpretado erroneamente o “amor como decisão da vontade” e esquecido assim que ele é, primeiramente, um dom, uma graça. Foi Deus quem nos amou primeiro! (cf. I Jo 4,10) “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Esse mesmo Espírito fez da gratuidade a medida de tudo na vida de Jesus.

Certo dia uma leitora católica e ativa na Igreja reagiu a um dos meus textos que falava sobre a gratuidade do amor. Escreveu-me dizendo que eu estava completamente equivocado. Dizia ela que “nem mesmo Jesus amou gratuitamente, porque isso não existe”. Se Ele nos amou primeiro tinha unicamente o interesse de nos salvar. Parece óbvio, mas entender o amor e a salvação de Cristo assim é reduzi-las às nossas categorias humanas. Seria considerar que a liberdade é um instrumento de manipulação do homem por parte de Deus e que, uma vez recusando a Salvação, Deus deixaria de amá-lo. Ora, até mesmo os infernos existem porque Deus não volta atrás a destruir aqueles que o negam. A própria recusa do amor de Deus é o que nos aniquila porque Ele é a felicidade do homem. Sem Deus não se pode pensar o homem feliz!
É evidente que o desejo de Deus é de nos salvar, e para isso foi capaz de ofertar a vida do Seu Filho. No entanto, a salvação não é fruto do medo, nem da ameaça, mas do “amor até o fim” (cf. Jo 13,1). Deus respeita incondicionalmente a nossa liberdade e continua nos amando mesmo quando ignoramos ou rejeitamos o Seu amor. Pensemos que o sopro vital de nossa existência não provém de nós mesmos. “Somos criaturas, alguém que não se fez a si mesmo”, afirma o filósofo italiano Gianni Vattimo. Cada dia o sol continua a nascer sobre os bons e sobre os maus. No entanto, isso não significa – como alguns pensam - que tudo caminhe para uma “anistia final”, puro engano. O joio e o trigo da existência humana têm como termômetro o uso da liberdade. A liberdade esbarra inevitavelmente em ter que escolher ou recusar o objeto de seu desejo de infinito, de eternidade.
Chiara Lubich, fundadora dos Focolares (de Feliz Memória), tem uma expressão que gosto muito: “Vive-se para dilatar o coração no exercício do amor. E o amor só é verdadeiro quando Deus ama através de nós!” É isso, aqui está o segredo: o amor como um exercício, uma escolha da vontade, uma opção diária, inclusive para com os mais difíceis de amar, os que exigem de nós um amor como sinônimo de perdão, mas também considerando que esse amor não é possível se não for dom, graça de Deus. Se não é Deus que ama em nós então esse amor pode ser qualquer coisa, menos amor. Dilatar o coração não para possuir os outros, mas para preenchê-lo de Deus e consequentemente do outro. Somente assim é possível falar da gratuidade do amor, e este amor, certamente, sempre gerará salvação. 
Antonio Marcos                           

3 comentários:

  1. O amor é tão infindo tal qual o nosso desejo de compreendê-lo. Entendo que nessa busca às vezes nos perdemos, julgamos errado, pensamos errado e até amamos errado. Mas uma coisa é certa, Deus é AMOR, e todo aquele que ama chega ao conhecimento de Deus.(1 João 4,7-8) De fato a salvação é por Amor e pelo Amor e quantos de nós sedentos de Deus confundimos. Paulo também descreve as atitudes do amor possível ao próprio homem: tudo espera , tudo suporta, tudo crer...Se não tivermos amor nada seremos... Quem quer amar quer Deus, mas quem ama conhece a Deus como foi citado acima .Quem ainda não sabe e está a ver navios sem entender, sem compreender, sem saber por onde começar é Cristo quem diz: " Aprendei de mim... " Peçamos ao Espírito Santo a graça de sempre amarmos imitando a Cristo, nossa grande prova de Amor do Pai. Peçamos ao Pai o dom de Amar.

    ResponderExcluir
  2. Foste muito feliz no seu comentário, querida Jeania, ao falar da busca do amor. É fato concreto que "nessa busca às vezes nos perdemos, julgamos errado, pensamos errado e até amamos errado" E quem de nós nunca viveu tal experiência? Porque nascemos para a felicidade, para amarmos e sermos amados, mas nem sempre se torna fácil essa vocação, mas possível porque ela é nossa identidade mais profunda. A garantia? Deus é amor! O itinerário que apresentas aqui é mesmo o caminho seguro para a realização plena do amor. Este amor cristão não é uma utopia, muito menos uma tese científica, mas toda uma vida que aprende o segredo da espera, da paciência, da mansidão e da fé. Querida Jeania, também às vezes até nós que "sabemos e conhecemos", em circunstâncias desconfortáveis,parece que tendemos a ver navios, seja pela pouca fé ou mesmo por nossas fragilidades, mas, se a confiança em Deus não fracassar, certamente voltamos àquela sempre necessária escola de salvação, que é o "aprender com Jesus". Aprender esse que não é capacidade humana, mas ação do Espírito Santo. Obrigado minha querida irmã, pela tão sábia e consciente maneira com que me recordou o itinerário dessa busca pelo amor. Obrigado por sua vida, pela alegria de ser alcançado pelo seu talento, sua colaboração na construção do Reino de Deus. Nossa Senhora te guarde! com minhas orações por sua pessoa.

    ResponderExcluir
  3. Hoje tantas pessoas, grandes escritores, tentam traduzir de forma precisa o amor.Mas acredito que nenhum deles conseguio colocar uma definição para esse sentimento. Mas Deus,em sua infinita sabedoria,nos escreveu a verdadeira definição para o amor:

    "O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho.
    Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade.
    Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." (1coritios 13,4-8)

    ResponderExcluir