2011-02-13

Dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo!


É bem certo que todos nós, de alguma forma, no ontem ou no hoje, tenhamos convivido com algum tipo de “divórcio”. Evidentemente falo aqui do “divórcio interior”, das divisões do coração, do desfacelamento de nossa inteireza de vida, da desorientação de nossas ideias e até do afrouxamento de nossas convicções e propósitos. Claro, o divórcio externo, conjugal, muitas vezes é proveniente de quando as opções visíveis não se interiorizaram, não fizeram a passagem vital da Lei para a intenção pessoal, para a opção de amor. Se essa mutação não acontece os preceitos não são suficientes para sustentar uma vida íntegra, muito menos os laços de fidelidade a alguém, seja Deus ou o outro. Interiorizar um valor não é apenas uma habilidade humana, mas também e principalmente ação da graça, pois assim reza a Igreja neste 6º Domingo do Tempo Comum: “Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo, que possais habitar em nós” (Oração do Dia). 

A Palavra diz que “diante de nós está a vida e a morte e receberemos aquilo que preferirmos” (cf. Eclo 15, 17-18). Gosto de contemplar a Palavra de Deus tratando da liberdade não com ameças, mas com o esclarecimento de que a escolha pelo mal nunca nos fará felizes. “Quando Deus deseja que não haja o pecado no caminho do homem” (Cf. Sl 118/117), deseja, na verdade, que ele tome consciência de que sua vida não corresponde aos objetivos deste mundo. O pecado nos prende ao que é passageiro e rouba a nossa felicidade. Nossas renúncias e busca da santidade não são algo que nos despersonaliza, mas nos põe no centro daquela certeza absoluta: “o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram nem coração algum jamais pressentiu. A nós Deus revelou esse mistério através do Espírito”(1Cor 2, 9-10).

A Moral nos proposta pelo Evangelho é radical, o que não tem nada a ver com “impossibilidade, fardo, falta de liberdade, códigos e preceitos morais”. Radicalidade maior é quando o coração não desiste de progredir no amor, na justiça e na fé. Pecadores somos, tentações sofremos, quedas também, mas não perdemos o diferencial do que precisa ser “sim ou não” nas nossas vidas (cf. Mt 5,37). Os nossos “juramentos”, ou seja, o manuseio das palvras e da sabedoria humana para assegurar nossos interesses, se não promovem o bem, a dignidade do outro, o respeito e a caridade, são apenas interesses legalistas e egoístas. Fidelidade à palavra dada está em falta em nossos dias porque amar verdadeiramente começa nos pequenos detalhes, não é aparência, não é só dizer: não matei, não cometi adultério, não levantei falso testemunho... O amor pede decisões diárias, por isso purifica, prova, mas se solidifica, autentica e santifica. O “mais” que pede Jesus não é para nos desanimar, mas para que as ações exteriores estejam em conexão com o coração. O “mais” de Jesus é escatológico, remete ao que somos chamados a viver no hoje e a caminho do amanhã definitivo. Senhor, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-me, por vossa graça, viver de tal modo.

Antonio Marcos  

Um comentário:

  1. Sábias palavras Antonio Marcos. Precisa existir conexão entre o falar e o fazer, mesmo que caiamos, de fato precisamos saber o que queremos,isso nos tornará fortes, pq quem sabe o que busca ainda assim não perde de vista o objetivo, o horizonte... Tuas palavras tocam-me profundamente, talvez eu esteja neste divorcio interior... ainda sei o que quero e é triste
    ver os que amo não saberem e entregarem-se a suas fraquezas...

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