2011-02-19

Aprendendo a viver a humildade...


Nos dias passados e recentes vivi uma experiência na Faculdade que me fez depois pensar sobre a virtude da humildade - que se confunde com a caridade -, a partir de mim, depois do outro. Lembrei disso hoje pela manhã e resolvi aqui partilhar. Meu professor de Teologia Moral (Bioética), explicava-nos sobre o percurso histórico que levou ao surgimento da Bioética. Falava das influências filosóficas e dos diversos pontos de vista de especialistas da ética, do direito, da teologia e das ciências médicas, exatamente por ser a Bioética multidisciplinar.
Lembro que levantei a mão pedindo a palavra e quando me foi concedida fiz a seguinte pergunta: “Professor, gostaria de saber se o físico Marcelo Gleiser e o cientista ateu Richard Dawkins, tratam, mesmo que parcialmente, dessas questões ligadas à vida e seus desdobramentos éticos?” Minha pergunta se baseava no fato deles serem expoentes do pensamento moderno com forte abertura ao plural. Ele me respondeu à queima-roupa: “Não sei! Se quiser saber, procure na internet!” Falou em tom desprezível e arrogante. Tomei um susto com sua resposta, inclusive os colegas de sala, pois sabiam da seriedade de minha pergunta.
Não entendemos o porquê de sua reação, visto que a pergunta era compatível com o assunto e lógica, e ainda por ter seguido a ética da relação aluno e professor.  Existem diversas possibilidades de resposta, inclusive a de dizer com humildade: “Sinceramente, não sei!” Afinal, o professor não sabe de tudo, ninguém sabe! Permaneci calado até o final da aula e não alimentei aquela situação desconfortável. No término da mesma fui até ele como se nada tivesse acontecido e pedi-lhe que, por gentileza, me explicasse um termo que ficou para mim não tão claro. Respondeu-me: “Sim, explico-lhe! Seu nome?” Antonio Marcos. "Prazer, Marcos!”. Mas antes, desculpe-me por ter reagido daquela forma com você. Tudo bem professor! Não quis saber as razões. Depois de me explicar o termo da aula, foi até minha cadeira, sentou em outra e ficamos conversando todo o intervalo sobre questões de espiritualidade, ética e bioética. Depois me indicou uns livros e revistas. Parece que percebeu que eu não estava querendo desafiá-lo, nem tão pouco me exibir, apenas se tratava de um aluno que ama o conteúdo de sua disciplina e que sabe que a pergunta dentro da ética é a melhor forma de aproximar dois universos de saberes, mas que ambos continuam a procurar.
As pessoas têm seus motivos quando reagem de forma não caridosa e ética com o outro, embora saibamos que a falta de caridade para com o outro nunca é justificada plenamente. Entender tais motivos e traduzi-los nem sempre é fácil. Julgá-los é mais complicado ainda! Não sabemos exatamente a natureza dos medos, inseguranças e abismos no coração dos que machucam os outros. Todos nós, de alguma forma e em certas ocasiões, agimos assim. No entanto, a “escola da vida” nos ensina que também precisamos de uma “direção defensiva”, ou seja, preparar-se para as reações dos outros e aprender a arte de conquistá-los ou simplesmente evitar dilacerações minhas e do outro dentro de nós. É o que chama Augusto Cury de “proteger suas emoções”. Para o Evangelho se chama: “amar os inimigos”.
Tenho rezado muito a Deus que me ajude a viver a humildade e que me dê a graça de saber agir e reagir nas ocasiões mais delicadas. Ao contrário do que pensava Sartre, “o outro não é o meu inferno”. O meu inferno será sempre a falta de caridade e de respeito à sacralidade da vida do outro e a incapacidade de acolher as razões do seu coração, ainda que não as entendamos. Melhor mesmo é sempre estarmos disponíveis a aprender a viver a humildade.
Antonio Marcos   

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