"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2011-02-28

Jesus nos revelou que Deus existe, e é Pai

“Vincular a ética à fé na existência de Deus” não é por assim dizer “um absurdo”, desde que seja refletida na perspectiva de que pensou Agostinho de Hipona. Para este Padre da Igreja da Idade Antiga - influenciado pela “transcendência" de Platão, melhor falando, pelo mundo das ideias, no qual acontece o encontro com aquilo que realmente somos, com a "nossa essência", com o Bem por excelência -, a fé necessita do esclarecimento da razão, ou seja, ela implica o uso da inteligência. Porém, para Agostinho, esta inteligência, por sua vez, porque é obra do Criador, porta o desejo da transcendência, do encontro com o grande OUTRO; traz a sede do infinito e por isso não se satisfaz com as coisas terrenas”, e quer caminhar para a beatitude (beata vivere, ou seja, Bem-aventurada vida junto do Criador). O homem deseja a felicidade, mesmo que não a chame de Deus!

Acontece que essa felicidade desejada pela inteligência, para o filósofo e teólogo Agostinho, tem sua plenitude quando alcançada pela fé. É esta fé que a conduz à beatitude! E o que dá contorno a tudo isso? Evidentemente é uma vida prática, uma ética de valores, que não tem outra palavra se não caridade. É esta caridade que ordena em nós a utilização das coisas terrenas e mantém atrelado e em boa ordem os padrões éticos e os valores universais. Daí que entra o conceito de virtude, que é guiada pelo amor a Deus e ao outro. A justiça está pautada numa partilha desse sentimento amoroso ao próximo.

Desse enunciado se concebe a ideia de Lei Natural. Lei esta que inclina o homem para a “máxima da vida”: “Faze o bem e evita o mal”. A ética fora da crença em Deus está pautada nesse axioma. Uma inteligência que não crê não é, de forma alguma, autorizada ao permissivismo. Agir desta forma não seria ateísmo, mas insensatez, idiotice e ser carrasco para consigo e para com o outro. Seria a desordem da própria consciência que tem uma “Lei interna”. Daí que também é importante ressaltar que os limites não desaparecem. Bastaríamos falar da problemática da Bioética e da Biotecnologia. Os que não creem não estão autorizados a matar a vida inocente, e nem a "não inocente!" E não posso esquecer o filósofo ateu Habermas que não concorda em considerar que não haja uma Lei interior que pauta também os valores universais.

Agora, de fato, não foi a fé na existência de Deus que criou a ética. Dela surgiu “historicamente” uma ética cristã. É essa ética cristã que liga o Deus de Abraão ao Deus de Jesus Cristo. Que liga o menino da manjedoura” ao homem do Calvário. E a ética cristã considera ser possível o diálogo com todas as realidades crentes e não crentes, porque o bem ao próximo é uma necessidade intrínseca ao homem. O Cristianismo não quer só fazer o bem ao próximo, quer também levá-lo à beatitude. Mas é preciso que se diga que “a fé religiosa em um Deus pessoal acrescenta ao homem não só a esperança em um mundo melhor após a morte, não só a imortalidade da alma humana”. A nossa fé não está voltada “só para o amanhã”, isso seria alienação. Deve ser uma fé operante, uma ação de Deus no mundo, um rosto visível do Mistério, porque Jesus nos revelou que Deus existe, e que é Pai. “Em Jesus Deus se revelou, entrou no mundo e agiu”, afirma Ratzinger. Cremos não às apalpadelas, mas “o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos” (cf. São João 1, 1-4). Nossa fé não é “uma ideia de Deus”, uma discussão se Ele existe ou não, e sim, nossa fé é uma relação de amor com Deus que mostrou sua Face.

Nós cremos que Deus traçou um plano amoroso para o homem, mas “não o destinou” para tal, porque deu-lhe o dom da liberdade. Ele terá de escolher viver na fé ou viver sem a fé, e bem sabemos que nem sempre foi uma escolha nossa, porque o Batismo pode ter sido pedido pelos pais, mas ele não é mágica, mas vínculo que pede evangelização, adesão de vida ao projeto de Deus para o Seu povo e para cada um. Porém, uma coisa é certa, “viver sem Deus é bem mais difícil”. Viver sem uma perspectiva de um encontro também é difícil. Mas de uma coisa o homem não pode se furtar: ser para o outro! E creio, como diria Santo Agostinho: “Eu te buscava fora, Senhor, e eis que estavas dentro!” O outro acaba me ajudando a entrar em mim mesmo, porque este outro também “exigirá” amor autêntico, e a necessidade desse amor nos leva inevitavelmente a Deus.

Antonio Marcos

"A existência de Deus", na visão de um sociólogo


No dia 20 de fevereiro, o Pe. Brendan Coleman publicou no Jornal O Povo (Fortaleza) o artigo intitulado: "existência de Deus" ( e publicado aqui no Blog no dia 21). Agora o sociólogo André Haguette escreve sua visão, fazendo assim algumas importantes discordâncias. Confira:
A existência ou não de Deus é um tema caro à civilização cristã ocidental. Na realidade, se Deus existe ou não nunca o homem o saberá, já que não há prova racional que constranja a razão ao ponto de dirimir a questão. Afirmar a sua existência ou inexistência é vedado à condição humana abandonada e dividida entre a contingência e a transcendência. Resta a dúvida, a negação ou a fé.
Mas muitos, como o padre e professor Brendan Coleman Mc Donald, querem vincular a vida ética à fé na existência de Deus, valendo-se da polêmica frase de Dostoievski: “Se Deus não existe tudo é permitido”. O Padre, num artigo neste mesmo jornal, publicado em 20 de fevereiro deste ano, escreve: “A existência de Deus é que leva cada um a respeitar o seu semelhante, ainda que isto lhe custe autodisciplina ou até grande renúncia”. A intenção evidente é argumentar que fora da existência de Deus o comportamento altruísta fica sem fundamentação. Isso significa dizer que agnósticos e ateus são incapazes de respeitar o seu semelhante, porque incapazes de fundamentar valores. O Padre ainda apela ao filósofo Sartre para dar autoridade a seus dizeres.
Quer dizer que se Deus não existe tudo é permitido e que o homem vai se danar a matar, estuprar, roubar? Quer dizer que se Deus não existe não há mais limites e que as sociedades desaparecem, vítimas da guerra de todos contra todos? Quer dizer que a sociabilidade do homem lhe é exterior e não interior? Sem Deus o homem perde a sua espiritualidade, sua sede de verdade, amor, paz? Há engano aqui: a espiritualidade do homem é suficiente para explicar a obrigação moral do homem. O que a fé religiosa em um Deus pessoal e amor acrescenta é a esperança em um mundo melhor após a morte. Ela acrescenta a imortalidade da alma humana.
Não há como negar que a fé em Deus dá uma contribuição à ética e que o judaísmo e o cristianismo trouxeram uma ética do amor ao próximo em que reside a sua grandeza. Mas nem eles nem outras religiões inventaram ou foram os únicos portadores da ética. Ela decorre da espiritualidade humana que significa abertura e transcendência, abertura ao outro e ao mundo e possibilidade constante de transformação e criatividade na busca do belo, bom e verdadeiro.
Jean-Paul Sartre não concorda com a citação de Dostoievski. Ele pensa que o homem, “sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem”. O homem é o futuro do homem. Para Sartre, “o homem é antes de mais nada um projeto que se vive subjetivamente”. O homem não existe, ele se faz, se constrói. O homem “primeiramente se descobre, surge no mundo; e que só depois se define”. Não há Deus a traçar-lhe seu destino. O homem está só e sem desculpas. É neste contexto que Sartre escreve a frase tantas vezes citada: “o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer”.
Viver sem a hipótese da existência de Deus não é tarefa fácil. Sobretudo porque o ateu não tem a quem pedir, nem a quem agradecer. Tudo depende dele mesmo e ele há de ser o que o homem é: um ser para o outro, sem esperança de uma recompensa em outro mundo.
Autor e Fonte: André Haguette - Sociólogo - Publicado no Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 27 de fevereiro de 2011.
Imagem: Caim agredindo seu irmão Abel.

2011-02-27

Deus cuida de nós, porque seu amor é fiel!


Tenho visto ao longo dos meus anos de juventude dois sentimentos em relação à providência divina: os que confiam nela absolutamente, sem deixarem de ser responsáveis e de fazer a parte que lhes cabe e, infelizmente, o sentimento de desespero, de dúvida, de intranquilidade e até de revolta quanto aos cuidados de Deus. Para alguns é difícil conciliar a ternura de Deus com tantas necessidades no mundo e nas suas vidas. E não sejamos precipitados no julgamento dos outros, mas, ao menos saibamos conhecer a realidade mais de perto. Ninguém se sente cuidado por outrem se não faz a experiência do amor. Também isso acontece na relação com Deus.

Muitas vezes nós dizemos amar a Deus e estarmos dispostos a tudo fazer por ele, “até de morrer”, mas quando somos provados no cadinho da humilhação, quando o emprego e o dinheiro desaparecem, quando nossos projetos humanos são não bem sucedidos, quando nos vemos em crise na família, no matrimônio e no amor, ou ainda quando uma enfermidade atinge a nós ou aos nossos, então nossa confiança na providência de Deus é também provada. No entanto, se Deus é primazia na vida, aprendemos dele a enfrentar as dificuldades, a não se abater com as necessidades, a não deixar que a penúria nos leve à revolta, muito menos permitir que a bonança nos iluda com sua falsa felicidade que tende a nos distrair da verdade fundamental de que “tudo passará, só Deus permanecerá”, diria Santa Teresa de Ávila.

Particularmente, tenho convivido com pessoas e famílias que têm tudo financeiramente, mas que impressionam a qualquer um quando se observa que não fazem do dinheiro um "deus mamona” nas suas vidas. Lutaram com honestidade para adquirirem o que possuem, mas transformam isso cotidianamente em instrumento de solidariedade, de generosidade e de serviço aos mais necessitados, e detalhe: fazem-no sem grandes alardes. Da mesma forma, conheço pessoas que, mesmo sendo profundamente religiosas e “assíduas no exercício da fé”, vivem como se fosse impossível conciliar fé e providência divina. Consequentemente, separam a fé da administração dos bens. Estes acabam não sendo instrumentos de serviço e até de salvação, mas de escravidão e perdição. E quem está isento desse perigo? O pior é que “deixamos tudo” par seguir o Senhor e acabamos nos perdendo no “simples copo de água”.

Deus cuida de nós, porque seu amor é fiel. E bem se sabe que contar com o cuidado de Deus não é nos debruçarmos no comodismo e no quietismo, achando que tudo virá de “mão beijada”. O “tudo” já nos foi dado: a vida, a fé, o próprio Cristo. E nesta vida corremos atrás de nossos objetivos: trabalhando, estudando, velando noites, cuidando da casa, dirigindo pessoas, administrando, limpando as ruas, servindo à humanidade, sendo úteis ao progresso e ao outro. Porém, vivamos nessa certeza fundamental: “não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus próprios problemas” (Mt 6, 34). E acredito: tudo isso é a experiência do amor de Deus que cuida de nós porque é fiel!

Antonio Marcos

Há também os que nada esperam de Deus

Há os que esperam tudo de Deus, chuva ou bom tempo, bom resultado nos exames ou o sucesso nos negócios. Rezam para obter dele alguma coisa, e o esperam tranquilamente. É um conceito errado de confiança. Não servem a Deus, mas se servem dele.

Há também os que nada esperam de Deus. Creem que a confiança em Deus seja impedimento ao progresso do homem. Descrevemos aqui uma página que se pode definir de “anti-evangelho”, que leva a penetrar mais profundamente na riqueza de perspectiva da página evangélica:

“Crer! Para que crer? Vós, cristãos, esperais de Deus coisas que nós já conhecemos e de que vivemos sem ele. Outrora, quando tudo ia mal: guerras, cataclismos, doenças, insucessos, lutas, as pessoas se revoltavam e se lançavam contra Deus. Mas, mesmo blasfemando, reconheciam sua divindade... Hoje, Deus não pode mais enganar-nos, não se espera mais nada dele... Deus não é mais que uma ideia inútil...”

Durante 2000 mil anos os homens rezaram, e no entanto tiveram que ganhar um pão insuficiente, com o suor de seu rosto. [Rezaram, e encontraram muitas vezes o desprezo dos poderosos pelos mais frágeis. Encontraram a miséria. Hoje os homens continuam a cuidar de seus interesses, mas afirmam que podem ainda resolver todas as necessidades da existência humana sem Deus]. A ideia de Deus é uma muralha que oculta o homem”.

Confiança plena em Deus, mas não passiva

O cristão, apoiado nas palavras de Jesus, evita a concepção ingênua e mágica dos que confiam em Deus passivamente e nos quietismo, e também a pretensão orgulhosa do ateu que risca o nome de Deus do seu horizonte. A confiança do cristão em Deus é total e sem reservas, mas não passiva e alienante. Pelo contrário, desta confiança precisamente nasce sua atividade, porque sabe que seu trabalho é continuação da obra criadora de Deus. É colaborador de Deus e, como ele, “construtor para a eternidade”. “Por isso, trabalha como se tudo dependesse de seu trabalho, e confia em Deus como se tudo dependesse de sua intervenção”.

Fonte: Missal Dominical – Comentários introdutórios o 8º Domingo TC (A), Comissão Episcopal de Textos Litúrgicos (CETEL).

Mesmo sujos de pecado, batemos à sua porta

O verdadeiro cristão não vive de aparência, é o que é diante de Deus. Não adapta a verdade aos seus ouvintes. São os ouvintes e o pregador que devem se adaptar à verdade única e infalível de Deus (cf. ICor 4, 1-5). Entrar na verdade para sermos verdade e luz para quem se aproxima de nós com o amor vivo e verdadeiro.

Vivemos uma noite benéfica na Igreja que não nos permite enxergar as coisas passageiras, mas nos obriga a aguçar os olhos para tentar ver, além das nuvens, o rosto de Cristo escondido no sofrimento e na miséria de cada dia.

O coração de Jesus não é para grupos seletos, mas para todos que, mesmo sujos de pecado, batem à sua porta. É preciso, como diria Santa Teresinha do Menino Jesus, “sentar-se à mesa dos pecadores”.

Autor e Fonte: Frei Patrício Sciadini, OCD – Comentários Pão da Vida, VIII Domingo do Tempo Comum (A), Edições Shalom.

O amor de Deus une a ternura da mãe e a firmeza do pai

Deus declara que não se esquece de nós (cf. Is 49, 14-15), garante isso com toda coragem e o jura sobre si mesmo. Esse texto de Isaías, cheio de ternura e delicadeza, faz-nos sentir que o amor de Deus une a ternura da mãe e a firmeza do pai. Um amor eterno.

É impressionante ver hoje a banalização da paternidade e da maternidade: mãe de aluguel, ventre de aluguel, segunda mãe. Pai que só serve para gerar vida como “reprodutor” e nada mais. Em Deus não é assim. O seu amor é tão forte que nem a morte pode romper. Vale a pena sentir esse amor de Deus que nos “tatua” e nos marca com o signo do fogo indelével e eterno.

Entrar na dinâmica do amor do Pai é sentir-se seguro, escondido na fenda do rochedo. O grito do salmista (61/62) “só em Deus a minha alma tem repouso, só ele é meu rochedo e salvação”, é sempre de confiança e de abandono nas mãos providentes de Deus, que nos guarda como a “pupila dos seus olhos”.

Autor e Fonte: Frei Patrício Sciadini, OCD – Comentários Pão da Vida, VIII Domingo do Tempo Comum (A), Edições Shalom.

2011-02-26

Um olhar forte, profundo e terno suaviza incertezas


A beleza do olhar deve ser comparada com a serenidade do sorriso, pois são sementes que germinam no coração daqueles que procuram a alegria e a paz. Eles harmonizam-se e convivem numa grande sintonia. As mensagens transmitidas por ambos alcançam uma energia tão positiva e saudável que cativa todo ser humano.
A profundidade do olhar faz nascer ânimo e iluminar caminhos. Ele ajuda, com maior doçura, as horas precisas e difíceis. Um olhar forte, profundo e terno suaviza incertezas, revertendo qualquer situação em calma e tranquilidade. Ele é valorizado pelos que sofrem, demonstrando desvelo e semeando felicidade.
Como um olhar insensível magoa e gera decepção e tristeza! Portanto, fale com os olhos, deixe-os oferecer harmonia, despertar esperança e iluminar sonhos. O olhar tem que ser belo, possuindo capacidade de trahnsformar amargura e dor. Comece o dia feliz e transmita felicidade com a emoção do olhar. É tão simples oferecer esse olhar, cheio de ternura, e saber que essa atitude traz ao ser humano mudança e alegria. A sua beleza unida com o florescer do sorriso, engrandecem os que oferecem essa mágica do olhar cativante e, ao mesmo tempo, deixam perplexos os que recebem essa magia maravilhosa.
Ter consciência do significado de um olhar repleto de amor é sentir uma harmoniosa realização, descortinando caminhos abertos e cheios de sentimentos. A essência do olhar profundo é a fascinante vitória do apoio, da ternura, da sabedoria e do sucesso. O olhar é, portanto, a imagem da presença do Pai na vida do ser, que procura, constantemente, desvendar os insondáveis mistérios da vida.
Autora: Leda Rocha de Oliveira – Escritora
Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Jornal do Leitor) – Fortaleza, 26 de fevereiro de 2011

2011-02-25

Ser “ponte” para que o amor viva o seu encontro


Quando analisamos o percurso histórico e os contextos nos quais se davam os laços matrimoniais, não é difícil constatarmos num tempo não muito distante, como tudo era muito complicado, embora se diga que os frutos eram melhores do que os que emanam das relações conflituosas de nossos dias. Não se podia imaginar a “autonomia da mulher” frente ao autoritarismo do pai. Os homens seguiam, quase sempre, a mesma linha de profissão dos progenitores para que se honrasse o nome da família e mantesse o status social.
A filha já era “outros quinhentos” (literalmente), ou seja, era guardada a sete chaves para ser entregue a um filho também de família nobre que, além de receber a moça, passava a ser o administrador de “seu dote”, da herança financeira concedida pela família. Vemos isso muito claro nos personagens de Dostoiévski, “Os Irmãos Karamazovi” (entre Fiódor e a jovem Adelaide).  Detalhe, a moça não podia se entregar matrimonialmente a quem quisesse ou por quem se apaixonasse. Não tinha o direito de escolher o amor de sua vida, os pais é quem faziam isso, mesmo que contra a vontade da filha. Pelo incrível que pareça – mesmo levanto em conta se dar em países ocidentais, já marcados pela secularização e com toda a consciência da autonomia da pessoa humana -, em muitas famílias próximas a nós esse contexto se repete.
Fiz esta longa introdução apenas para chamar a atenção para uma questão muito importante em nossos dias: trata-se da necessidade de ajudarmos as pessoas, especialmente os jovens, a se encontrarem. Claro, não mais nesse sentido de que aqui falei inicialmente, de “forçar os encontros ou mesmo obrigá-los”, mas de sermos instrumentos, ou melhor, pontes para que as pessoas se descubram, se encontrem, se enamorem. Evidentemente, aqui entra um fator delicado, exatamente a decadência de nossas relações, a superficialidade com que, em boa parte dos jovens, se dão as amizades, apesar de nossas redes sociais e de nossos agrupamentos diversos. E essa amizade começa já sem solidez porque nossas famílias estão também desajustadas. Os jovens sentem a necessidade de que seus pais vivam um casamento feliz, de duas pessoas alegres e amigas, que cultivam o amor na simplicidade e ensinam os filhos a fazerem também suas escolhas.
Os sacerdotes são testemunhas dos dramas, angústias e esperanças dos jovens. Mas faltam referenciais que os ajudem, nos ambientes nos quais estão buscando a convivência, a se encontrarem, estabelecerem relações de amizade sadias e saberem identificar as possibilidades de uma relação de namoro. Isso não é fácil, especialmente nos nossos dias, mas é concreto e possível. A arte do encontro, o cultivo da amizade, a pureza da paquera, a paciente e tranqüila descoberta do outro, a oração e, é claro, a ajuda de uma pessoa sensata e de confiança, são valores e processos que não devem cair em desuso. Não se trata aqui de “casar os outros”, nem de “meter o nariz onde não deve”, mas de apenas ser ponte e apoio para jovens que titubeiam em suas procuras e convivências. Penso que é nesse sentido que as Comunidades Novas chamaram de “caminhada” o tempo onde os jovens podem ser ajudados por uma pessoa experiente a amadurecerem a opção pelo namoro. Embora incompreendido por muitos, este processo é belo e válido para muitos.
Importa que sejamos pontes para que o amor, a castidade, a amizade e o namoro entre os jovens continuem sendo valores irrenunciáveis, possíveis e desejosos. Pontes é o que devemos ser, para que os encontros sejam felizes. E não nos esqueçamos de ajudar os jovens a compreenderem que “o dote” mais precioso que devem trocar entre si é mesmo os valores eternos, a fé e a amizade com Cristo. Aprendamos com Ele que foi ponte entre o nosso amor mesquinho e o amor generoso de Deus.
Antonio Marcos

2011-02-24

Os jovens precisam de guias, e disponíveis, para encontrar o amor!

Se em cada período da sua vida o ser humano deseja afirmar-se, encontrar o amor, na juventude o deseja de uma forma ainda mais intensa. O desejo de afirmação, em todo caso, não deve ser entendido como uma legitimação de tudo, sem exceções. Os jovens de modo algum querem isso: estão dispostos inclusive a serem repreendidos, exigindo que se diga a eles sim ou não. Eles precisam de guias, e os querem disponíveis. Se procuram pessoas abalizadas, fazem-no porque as percebem ricas de calor humano e capazes de caminharem junto com eles pelos caminhos que escolhem seguir.

Fica claro, portanto, que o problema essencial da juventude é profundamente pessoal. A juventude é precisamente o período da personalização da vida humana. É também o período da comunhão. Os jovens, tanto os rapazes como também as moças, sabem da obrigação de viver para os outros e com os outros, sabem que a sua vida tem sentido na medida em que se torna um dom gratuito para o próximo. Aí tem origem todas as vocações: tanto as sacerdotais ou religiosas como também as vocações ao matrimônio e à família. Também a chamada para o matrimônio é uma vocação, um dom de Deus.

Fonte: João Paulo II. Cruzando o limiar da esperança (Perg./Resp. 19), 1994.
Imagem: Jovens da "Obra Shalom" - Missão Brasília

2011-02-22

Comunidade Shalom: instrumento de Deus em tempos difíceis da história!


Em cada tempo da historia da humanidade, Deus suscita instrumentos eficazes para que o Seu Evangelho chegue aos homens e assim a missão da Igreja de construir o Reino de Deus prossiga como parte daquela promessa fundamental de Jesus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Cf. Mt 16,18).
A Festa da Cátedra de São Pedro (literalmente, do assento, cadeira de Pedro, situada na Basílica do Vaticano) - como quase todas as Festas na Igreja -,  entrou na história como ação da providência de Deus que quis dar uma nova configuração às realidades que tinha sentido pagão junto do povo. Com a expansão do Cristianismo e a radicalidade da mensagem que portava, o Evangelho foi moldando, por atração, aquilo que deveria fazer parte da nova família de Deus. A Festa da Cátedra de São Pedro ressalta a missão de Cristo confiado aos apóstolos e, de forma particular, a Pedro, aquele que recebeu “as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16,19).  
Muitas vezes e em épocas diferentes na história se pretendeu desvirtuar a missão dos Apóstolos e daquele que tem a primazia de governo sobre toda a Igreja, o Papa. Muitos chefes políticos se arvoraram do direito que Deus confiou unicamente a Pedro, de confirmar seus irmãos na fé, de “ligar e desligar”. Lembramos dos tempos sombrios dos Imperadores Romanos, dos Reis, dos Príncipes e até dos anti-papas quando quiseram e muitas vezes "conseguiram" interferir no Governo da Igreja.  O culto a esses falsos sucessores de Pedro também não faltaram na história. Daí que esta Festa  celebra a missão do Santo Padre. Nós, os católicos, temos um amor especial pelo Papa, porque foi ele escolhido por Cristo para estar a frente do Seu rebanho.
Muito significativa foi, na data desta Festa, 22 de fevereiro de 2007, a exatos 4 anos, a Comunidade Católica Shalom ter recebido da Santa Sé, através da aprovação do Santo Padre, o Reconhecimento Pontifício como “Associação Internacional Privada de Fiéis”. Tal acontecimento foi marcante e a partir de hoje caminha para o seu último ano de “experiência” até se concretizar com  o “Reconhecimento Definitivo" em 2012, se Deus quiser”. Também a Comunidade Shalom, como filha da Igreja, tem sido um dos eficazes instrumentos de Deus para esses tempos difíceis da história. Nos seus 28 anos, o Carisma Shalom tem sido uma das poderosas ações do Espírito Santo em favor do povo de Deus, sempre na benção da Igreja, anunciando a Salvação de Cristo e colaborando para uma “Obra Nova” em cada existência.
Queremos neste dia, de forma especial, rezar pelo Papa Bento XVI. Temos a imensa graça de tê-lo como Sucessor da Cátedra de Pedro nestes tempos tão desafiantes para o mundo e para a Igreja. Homem de fé, de grandes virtudes, um gênio do saber teológico e da Palavra de Deus, sabe como ninguém dialogar com o homem de hoje. Riqueza incomparável é a apreciação da profundidade e clareza de seus escritos. Mais uma vez a providência de Deus  colocou a frente da Igreja a pessoa certa no tempo certo, com a santidade e sabedoria de que precisam a Igreja e o mundo. Mas temos de rezar pelo Papa, porque seus “inimigos e perseguidores” não são poucos. O Evangelho incomoda! A Verdade liberta e salva, mas nem todos aceitam a radicalidade de suas mudanças e de sua proposta. Da mesma forma, rezemos pela Comunidade Católica Shalom, por este tempo novo, pela sua missão, pelas autoridades e por todos os seus filhos e filhas, como por todos que bebem da fonte da Verdade através do  dom Shalom.
Temos a consciência que a missão da Igreja não é fácil, porque o Evangelho não é fácil, porém, plenamente possível de ser vivido, desde que nos deixemos alcançar por Cristo e Sua Graça. Contemplamos de forma maravilhosa o desejo da Comunidade Shalom de se configurar a Cristo, ser no meio dos homens deste tempo a presença materna da Igreja que dá ao homem a Face de Deus, porque somente Ele é a nossa felicidade. Deus a sustente e a faça caminhar sempre unida a Pedro e aos Apóstolos. Que ela, diante dos desafios e perseguições, e a exemplo do Papa, saiba sempre viver e cantar confiante o que diz a Palavra de Deus: “O Senhor é o pastor que me conduz, não me falta coisa alguma” (Sl 22).
Antonio Marcos

2011-02-21

Castidade: o verdadeiro caminho para a felicidade!


Não se pode compreender a castidade senão em relação com a virtude do amor (da pessoa). Tem como missão a de libertar o amor da atitude de prazer. Tal atitude resulta não tanto da sensualidade ou da concupiscência do corpo quanto ao subjetivismo dos valores, que se enraíza na vontade e cria diretamente condições propícias ao desenvolvimento de diversos egoísmos (egoísmo dos sentimentos, egoísmos dos sentidos). Estas são as disposições para o amor “culpado”, ou seja, de quando a pessoa recusa subordinar o sentimento à pessoa e ao amor. O “amor culpado” muitas vezes está cheio de sentimentos que substituem todo o resto.
A virtude da castidade, cuja tarefa consiste em libertar o amor desta atitude, deve dominar não só a sensualidade e a concupiscência do corpo, mas também, e ainda mais, a dos centros internos do homem, nos quais nasce e se desenvolve a atitude do prazer. Para chegar à castidade é indispensável vencer na vontade todas as formas de subjetivismo e todos os egoísmos que elas escondem: quanto mais disfarçada está a atitude de prazer na vontade, tanto mais perigosa é; o “amor culpado” raramente é chamado culpado; chamando-lhe “amor” simplesmente, a fim de impor (a si e aos outros) a convicção de que é assim e não pode ser doutra maneira.
Ser casto, ser puro, significa ter uma atitude “transparente” a respeito da pessoa de sexo diferente. A castidade é a “transparência” da interioridade, sem a qual o amor não é amor, e não pode sê-lo até que o desejo de gozar não esteja subordinado à disposição para amar em todas as circunstâncias.
Não é preciso que esta transparência da atitude a respeito da pessoa de sexo oposto consista em repelir para o subconsciente os valores do corpo ou do sexo em geral, ou em fazer crer que não existem ou são inoperantes. Muitas vezes interpreta-se a castidade como um freio cego da sensualidade e dos impulsos carnais, que repele os valores do corpo e do sexo para o subconsciente, onde esperam a ocasião para explodir. É uma falsa concepção da virtude da castidade. Se é praticada deste modo, a castidade cria realmente o perigo de semelhante “explosões”.
Por causa desta opinião (que é falsa), pensa-se muitas vezes, que a virtude da castidade tem um caráter puramente negativo, e que não é mais que uma série de “nãos”. Pelo contrário, ela é um “sim”, do qual a seguir resultam os “nãos”. O desenvolvimento insuficiente da castidade traduz-se no fato de tardar aos valores do sexo, que apoderando-se da vontade, deformam a atitude a respeito da pessoa de sexo oposto. A essência da castidade consiste em não se deixar “distanciar” do valor da pessoa e em elevar ao seu nível toda a reação aos valores do corpo da pessoa só pode ser fruto do espírito. 
(...) O laço entre a castidade e o amor resulta da norma personalista que contém dois mandamentos relativos à pessoa: um positivo (“tu amarás”) e o outro negativo (“não buscarás só o prazer”). Mas os seres humanos – os homens aliás dum modo diferente do das mulheres – devem crescer interiormente para chegar a este amor puro, devem amadurecer para poder apreciar o seu “sabor”. Porque todo o homem marcado pela concupiscência do corpo é inclinado a encontrar o “sabor” do amor sobretudo na satisfação da concupiscência.
Por esta razão, a castidade é uma virtude difícil, e cuja aquisição exige tempo; é preciso esperar os seus frutos e a alegria de amar que ela não deixará de trazer. Mas é o verdadeiro caminho, o infalível, para a felicidade.    
Autor e Fonte: Karol Woityla, quando era Bispo. (Veio a tornar-se sua santidade, João Paulo II). Amor e Responsabilidade (Moral sexual e vida interpessoal), 10ª edição, 1979. (Os grifos do Texto são meus).   

A existência de Deus


Em 2006 em sua emotiva visita ao campo de concentração de Auschwitz, sua santidade, o papa Bento XVl exclamou: “Por que, Deus, o Senhor permaneceu em silêncio? Como pode tolerar tudo isso? Onde estava Deus naqueles dias? Por que ficou em silêncio? Como pode permitir massacre sem fim, esse triunfo do mal?” A compreensível angústia do papa e a linguagem metafórica usada resultaram numa avalanche de artigos no mundo inteiro abordando “o silêncio de Deus”, “a existência do mal no mundo” e até “dúvidas sobre a existência de Deus”.
Aqui no Brasil, há tempo uma parcela da população está perdendo o sentido de Deus. Muitos negam sua existência. Os meios de comunicação noticiam crimes, assaltos, estupros, abusos sexuais, sequestros, assassinatos etc., numa escala sem precedentes. Acredito que muitos dos que se entregam à vida de crimes e violências são movidos pela injusta distribuição dos bens, que provoca fome e miséria, pela disseminação do narcotráfico etc. Obviamente, há também quadros patológicos motivadores de crimes brutais e hediondos. Todavia, não se pode deixar de mencionar um fator, ainda mais profundo ou decisivo para explicar a onda de crimes e violências aqui no Brasil e no mundo.
É o filósofo francês Jean-Paul Sartre quem aponta tal fator mediante o seguinte raciocínio exposto em “L’Existentialisme est um humanisme?” (O Existencialismo é um humanismo?), em 1948. Os pensadores positivistas, no século passado, declararam a não-existência de Deus. Não obstante, estimularam a ética rigorosa do respeito ao semelhante, da prática da honestidade, da sinceridade, da veracidade. Observa Sartre: “tal posição é insustentável; porque se Deus não existe, não há autoridade habilitada a me impor tal ou tal comportamento. Dostoievski, que dizia: “Se Deus não existe tudo é permitido”. Sartre julga que a posição de Dostoievski é mais lógica do que a dos positivistas, e adota-a como sua. Querer defender uma ética normativa sem Deus, ou seja, baseada unicamente nos valores humanos, parece a Sartre artificial e inconsistente. A escola estruturalista mais recente comprovou esta conclusão; na verdade a “morte de Deus” acarretou a “morte do homem”. Com efeito, como salvaguardar o que há de respeitável, de intocável ou de sagrado no homem, se Deus não existe? Com efeito, em nome de quem um homem, igual a mim, pode impor-me normas às quais eu devo obedecer reverentemente?” Sartre cita então o pensador russo
A grande pergunta que o homem contemporâneo formula a si é sobre o sentido da vida. Não há quem não procure uma justificativa para o trabalho, para a luta e para todo sofrimento que afeta nossas vidas. É exatamente a existência de Deus que fundamenta o valor do ser humano e explica os objetivos e a finalidade da vida.Negar a existência de Deus, como muitos fazem hoje em dia, é obrigar o homem a criar novos ídolos e novas místicas. O dinheiro e o “ter” são alguns dos novos ídolos e nosso tempo. O esoterismo e as inúmeras seitas que aparecem diariamente são exemplos das novas místicas. Ensinar novamente a “Lei de Cristo”, que é uma lei de amor, de perdão, de respeito mútuo, de compreensão, de solidariedade e de diálogo, talvez produzisse melhores resultados contra o mal em nossos dias. Deus existe e está presente e atuante no mundo, só nos falta aplicar seu mandamento maior: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado”. Houve quem considerasse Deus como, rival do homem ou um produto imaginário da mente do homem ignorante e amedrontado. Tais pensadores realmente nunca descobriram Deus, e escreveram tão somente na base de caricaturas e deformações dos conceitos de Deus e de religião. A existência de Deus é que leva cada um a respeitar o seu semelhante, ainda que isto lhe custe autodisciplina ou até grande renúncia. Somos todos filhos e filhas do mesmo Pai.
Autor e Fonte: Brendan Coleman Mc Donald, é padre redentorista e professor doutor titular aposentado da UFC – Publicado no jornal O Povo (Espiritualidade), Fortaleza, 20 de janeiro de 2011.  (Os grifos do Texto são meus)

2011-02-20

Dois abismos numa manhã de Domingo


A Antífona de Entrada do 7º Domingo TC nos convida a cantar a misericórdia de Deus: “Confiei, Senhor, na vossa misericórdia; meu coração exulta porque me salvais. Cantarei ao Senhor pelo bem que me fez”. A melodia ungida tem sempre a força de nos fazer manifestar uma alegria interior, é o que acontece com a canção “Belíssimo Esposo” da Comunidade Católica Shalom, por traduzir sempre ao meu coração essa experiência da Paixão de Cristo, da sua Morte e, sobretudo, da Ressurreição.
“Beijo os lençóis que envolveram o Teu corpo ferido de Amor e cobriram meu coração. Revestiram-me de realeza. Beijo o Teu santo sepulcro, testemunha da Ressurreição, quero ressuscitar também, encerrar-me dentro de Ti. Quero em Ti mergulhar e então renascer na tua chaga criadora, descansar a minha alma em Teu coração!”
O beijo de Maria, a primeira redimida, o beijo das mulheres naquela manhã de Domingo, o beijo dos discípulos no cenáculo e o beijo de cada pecador salvo pela misericórdia de Deus, expressam assim a intimidade, a proximidade dos “dois abismos”, a imensa alegria da visita daquele que disse que estaria ausente por pouco tempo, mas que em breve voltaríamos a vê-Lo e ninguém roubaria de nós essa alegria (cf. Jo 16, 21-23).
Cada manhã de Domingo eu contemplo o meu abismo como pecador mais perto do abismo da misericórdia de Deus, por isso não encontro outro sinal se não este: o beijo a Jesus. Com o mesmo gesto que eu o traí, Ele deseja que agora eu o expresse como símbolo da intimidade, da reconciliação e da salvação. O beijo do pecador na fonte da misericórdia, o mistério de dois abismos que uma canção não pode conter plenamente, mas que renova a incomparável gratidão pelo bem que me fez.
Antonio Marcos

2011-02-19

Aprendendo a viver a humildade...


Nos dias passados e recentes vivi uma experiência na Faculdade que me fez depois pensar sobre a virtude da humildade - que se confunde com a caridade -, a partir de mim, depois do outro. Lembrei disso hoje pela manhã e resolvi aqui partilhar. Meu professor de Teologia Moral (Bioética), explicava-nos sobre o percurso histórico que levou ao surgimento da Bioética. Falava das influências filosóficas e dos diversos pontos de vista de especialistas da ética, do direito, da teologia e das ciências médicas, exatamente por ser a Bioética multidisciplinar.
Lembro que levantei a mão pedindo a palavra e quando me foi concedida fiz a seguinte pergunta: “Professor, gostaria de saber se o físico Marcelo Gleiser e o cientista ateu Richard Dawkins, tratam, mesmo que parcialmente, dessas questões ligadas à vida e seus desdobramentos éticos?” Minha pergunta se baseava no fato deles serem expoentes do pensamento moderno com forte abertura ao plural. Ele me respondeu à queima-roupa: “Não sei! Se quiser saber, procure na internet!” Falou em tom desprezível e arrogante. Tomei um susto com sua resposta, inclusive os colegas de sala, pois sabiam da seriedade de minha pergunta.
Não entendemos o porquê de sua reação, visto que a pergunta era compatível com o assunto e lógica, e ainda por ter seguido a ética da relação aluno e professor.  Existem diversas possibilidades de resposta, inclusive a de dizer com humildade: “Sinceramente, não sei!” Afinal, o professor não sabe de tudo, ninguém sabe! Permaneci calado até o final da aula e não alimentei aquela situação desconfortável. No término da mesma fui até ele como se nada tivesse acontecido e pedi-lhe que, por gentileza, me explicasse um termo que ficou para mim não tão claro. Respondeu-me: “Sim, explico-lhe! Seu nome?” Antonio Marcos. "Prazer, Marcos!”. Mas antes, desculpe-me por ter reagido daquela forma com você. Tudo bem professor! Não quis saber as razões. Depois de me explicar o termo da aula, foi até minha cadeira, sentou em outra e ficamos conversando todo o intervalo sobre questões de espiritualidade, ética e bioética. Depois me indicou uns livros e revistas. Parece que percebeu que eu não estava querendo desafiá-lo, nem tão pouco me exibir, apenas se tratava de um aluno que ama o conteúdo de sua disciplina e que sabe que a pergunta dentro da ética é a melhor forma de aproximar dois universos de saberes, mas que ambos continuam a procurar.
As pessoas têm seus motivos quando reagem de forma não caridosa e ética com o outro, embora saibamos que a falta de caridade para com o outro nunca é justificada plenamente. Entender tais motivos e traduzi-los nem sempre é fácil. Julgá-los é mais complicado ainda! Não sabemos exatamente a natureza dos medos, inseguranças e abismos no coração dos que machucam os outros. Todos nós, de alguma forma e em certas ocasiões, agimos assim. No entanto, a “escola da vida” nos ensina que também precisamos de uma “direção defensiva”, ou seja, preparar-se para as reações dos outros e aprender a arte de conquistá-los ou simplesmente evitar dilacerações minhas e do outro dentro de nós. É o que chama Augusto Cury de “proteger suas emoções”. Para o Evangelho se chama: “amar os inimigos”.
Tenho rezado muito a Deus que me ajude a viver a humildade e que me dê a graça de saber agir e reagir nas ocasiões mais delicadas. Ao contrário do que pensava Sartre, “o outro não é o meu inferno”. O meu inferno será sempre a falta de caridade e de respeito à sacralidade da vida do outro e a incapacidade de acolher as razões do seu coração, ainda que não as entendamos. Melhor mesmo é sempre estarmos disponíveis a aprender a viver a humildade.
Antonio Marcos   

O encontro de duas vidas pensadas pelo desígnio de Deus


Quando penso no amor de José por Maria e no amor de Maria por José, gosto de me perder a imaginar os segredos daquela convivência, dos primeiros olhares, do sorriso, das primeiras palavras que trocaram: gentis, respeitosas e santas. Gosto de imaginar Maria sorrindo e encantada com a gentileza de José. E gosto de imaginar José pensando em Maria, naquela jovem tão bonita, tão de Deus, tão casta, tão cheia de sabedoria. Certamente o carpinteiro de Nazaré, homem justo e piedoso, conhecedor da Lei Divina e das normas de sua crença, homem dado à oração, ficara vislumbrado pelas linhas de Deus escritas na vida daquela linda moça. Que imenso mistério é o encontro de duas vidas pensadas pelo desígnio de Deus.
Não sabemos exatamente como José e Maria se encontraram, mas cremos que eles também esperaram esse encontro e realização no amor. Cremos, sobretudo, que eles rezaram um pelo outro e que Deus cuidou que no tempo certo isso pudesse acontecer. Enquanto não acontecia, cabia a cada um viver a vida na fidelidade ao que eram chamados como pessoas, como homem e mulher de Deus, pois a providência de Deus não esquece de cuidar daquilo que Ele mesmo foi o primeiro a pensar para nós.
 É comum nos nossos dias encontrar jovens e adultos tão confusos e tão angustiados por não encontrarem aquele, aquela com quem compartilhar a vida, o amor, os sonhos, as alegrias e esperanças, dentro de uma relação do namoro. Não são poucos os que, após dedicarem com afinco as melhores forças para a realização profissional e a dedicação aos compromissos com a fé, reclamam de não terem ainda contemplado o objeto de sua espera. E bem se sabe que não se trata necessariamente de uma exigência na qualidade dessa escolha, digo, nos padrões do mundo, mas uma escolha digna, alguém que nos mereça, alguém pensado por Deus.
Gosto de contemplar uma maioria de jovens e adultos que não considera bobagem rezar pelo feliz encontro. Rezar principalmente para que a espera não seja seduzida pela pressa do mundo que, inclusive, favorece os encontros rápidos, mas também na sua maioria esvazia rápido porque não há consistência, não provém daquele “estar de pé junto à fonte a espera daquela que também vem à fonte”. É muito significativa a oração de Isaac: “Senhor, Deus do meu amo Abraão, permite que eu tenha hoje um feliz encontro e mostra a tua amizade para com o meu amo Abraão. Eis-me de pé junto à fonte para tirar água do poço. Pois bem! A jovem a que eu disser: ‘Inclina teu cântaro para que eu beba’ e que responder: ‘Bebe, e eu darei de beber também aos teus camelos’, é ela que terás destinado a teu servo Isaac; por aí saberei que mostraste amizade para com meu amo” (Gn24, 13-14).
O encontro de duas vidas pensadas pelo desígnio de Deus acontece, primeiramente, na oração. Não deveríamos deixar de rezar pedindo a Deus que nos permita viver o feliz encontro, e este não exige, necessariamente, acontecimento extraordinário, mas simplesmente o cumprimento na esperança daquilo que sou chamado a viver hoje. Parar na fonte para dar água aos Camelos era algo comum para os viajantes, como era para as mulheres irem à fonte naquela hora. E qual foi a diferença? A diferença foi fazer daquela ocasião ordinária um acontecimento de oração: “Senhor, permita o encontro!” Este é o primeiro e fundamental segredo para o encontro de duas vidas pensadas por Deus. Rezo para que os jovens e os adultos não esqueçam isso.
Antonio Marcos 

2011-02-18

Não é possível que, com essa, Deus não faça nada!

Maria Emmir Oquendo Nogueira
Cofundadora da Comunidade Católica Shalom

Após cada notícia de terremoto, enchente, tsunami, escândalos de pedofilia, assassinato em massa, tráfico de crianças, sites ensinando o passo a passo da pedofilia, corrupções políticas deslavadas, populações dizimadas pela fome, milhões de abortos praticados impunemente a cada dia, pessoas inocentes incendiadas por brincadeira, surgem perguntas perturbadoras: “Por que Deus não faz alguma coisa para acabar com isso?”, “Onde está Deus que não vê isso?”.

Deus vê, sim. Deus “chora” e sofre como Jesus chorou e sofreu pela dureza de coração de Jerusalém. Sua dor é imensa. Ele não é indiferente à nossa condição, pois, em Jesus, tem um coração humano, com os mesmos bons sentimentos que o nosso, só que muito mais pungentes, pois ele é Deus, puríssimo, perfeitíssimo. O pecado não o tocou, não o recobriu com sua couraça de pedra dura.

“Se Ele sofre, por que não faz nada?” A questão é que Ele espera. Deus espera. Há uma frase preciosa do Pe. Libâneo: A esperança é a fé no amor. Assim Deus espera. Ele nos ama, nos dá seu amor para que tenhamos forças para amar com o amor dele. Conhece seu plano de amor para cada um de nós e confia na correspondência ao amor com amor. Crê em nossa conversão para o amor, para Ele. Por isso espera.

De nossa parte, também cremos no amor de Deus. Também cremos que Ele pode fazer qualquer coisa por amor a nós. Também esperamos a manifestação do seu amor diante daquilo que nos faz sofrer, questiona e escandaliza. Essa esperança que vem da fé no amor é chamada de “paciência histórica”. Deus espera a ação do amor humano, no qual crê. Nós esperamos a ação do amor de Deus, porque cremos nele. Se Deus não cresse no amor humano, dado gratuitamente por Ele, não creria em sua própria ação redentora! Se nós não crêssemos no amor de Deus por nós e por todos os homens, não esperaríamos que “Ele fizesse alguma coisa”.

A questão é que nós temos pressa. Não agüentamos mais conviver com tanta sujeira, tantas catástrofes, tanta bandalhice. Deus, porém, tem mais pressa que nós. Ele mesmo disse pela boca de Jesus: “Vim trazer fogo à terra e o quanto gostaria que j á estivesse espalhado, que fosse mantido aceso”. Como se vê, Deus também tem pressa. Ocorre que seu amor é maior que sua pressa e Ele, pacientemente, espera. Espera que tenhamos reações de amor e não de ódio. De humilde paciência ao invés de arrogante revolta. Espera que ajamos como nos ensina o Evangelho. Espera porque não quer perder nenhum de nós. Um se quer!

Nós também esperamos. Algumas vezes, porque pensamos não ter jeito mesmo. Balançamos a cabeça, dizemos alguma coisa entre os dentes e continuamos nossa vida. Outras vezes, procuramos fazer algo, pois entendemos que a responsabilidade é da humanidade inteira. Por fim, esperamos porque cremos no amor de Deus e confiamos que Ele sabe melhor que nós o que fazer.

No ano de 2010, o povo chileno deu-nos dois impressionantes testemunhos de esperança. O primeiro, no terremoto avassalador do início do ano. O Outro, já no segundo semestre, com os mineiros presos a centenas de metros de profundidade. Em que esperam as vítimas? Por que esperam? Porque acreditavam no amor. No amor de seus irmãos, sempre solidários com os terremotos que sofrem a cada vinte anos. Criam no amor que os buscaria entre os escombros ou no fundo da minha. A fé no amor resultou em esperança e amor, esperança e fé resultaram na salvação – dos escombros do terremoto e da imensa e impenetrável rocha sobre o exíguo refúgio.

Assim, também, para nós. A fé no amor de Deus gera esperança e amor. Esperança e fé resultam na salvação da morte eterna. A salvação, essa, só o Amor feito homem nos pode dar.

Fonte: Revista Shalom Maná – Entrelinhas – (Edições Shalom) - Fevereiro de 2011.

2011-02-16

Dilatar o coração


Uma das mais radicais novidades do Cristianismo foi mesmo o mandamento do amor, amor gratuito, inclusive aos inimigos. Mas, evidentemente, não vamos fantasiar, muito menos nos enganar achando que isso é simplesmente um esforço humano. Muita gente tem interpretado erroneamente o “amor como decisão da vontade” e esquecido assim que ele é, primeiramente, um dom, uma graça. Foi Deus quem nos amou primeiro! (cf. I Jo 4,10) “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Esse mesmo Espírito fez da gratuidade a medida de tudo na vida de Jesus.

Certo dia uma leitora católica e ativa na Igreja reagiu a um dos meus textos que falava sobre a gratuidade do amor. Escreveu-me dizendo que eu estava completamente equivocado. Dizia ela que “nem mesmo Jesus amou gratuitamente, porque isso não existe”. Se Ele nos amou primeiro tinha unicamente o interesse de nos salvar. Parece óbvio, mas entender o amor e a salvação de Cristo assim é reduzi-las às nossas categorias humanas. Seria considerar que a liberdade é um instrumento de manipulação do homem por parte de Deus e que, uma vez recusando a Salvação, Deus deixaria de amá-lo. Ora, até mesmo os infernos existem porque Deus não volta atrás a destruir aqueles que o negam. A própria recusa do amor de Deus é o que nos aniquila porque Ele é a felicidade do homem. Sem Deus não se pode pensar o homem feliz!
É evidente que o desejo de Deus é de nos salvar, e para isso foi capaz de ofertar a vida do Seu Filho. No entanto, a salvação não é fruto do medo, nem da ameaça, mas do “amor até o fim” (cf. Jo 13,1). Deus respeita incondicionalmente a nossa liberdade e continua nos amando mesmo quando ignoramos ou rejeitamos o Seu amor. Pensemos que o sopro vital de nossa existência não provém de nós mesmos. “Somos criaturas, alguém que não se fez a si mesmo”, afirma o filósofo italiano Gianni Vattimo. Cada dia o sol continua a nascer sobre os bons e sobre os maus. No entanto, isso não significa – como alguns pensam - que tudo caminhe para uma “anistia final”, puro engano. O joio e o trigo da existência humana têm como termômetro o uso da liberdade. A liberdade esbarra inevitavelmente em ter que escolher ou recusar o objeto de seu desejo de infinito, de eternidade.
Chiara Lubich, fundadora dos Focolares (de Feliz Memória), tem uma expressão que gosto muito: “Vive-se para dilatar o coração no exercício do amor. E o amor só é verdadeiro quando Deus ama através de nós!” É isso, aqui está o segredo: o amor como um exercício, uma escolha da vontade, uma opção diária, inclusive para com os mais difíceis de amar, os que exigem de nós um amor como sinônimo de perdão, mas também considerando que esse amor não é possível se não for dom, graça de Deus. Se não é Deus que ama em nós então esse amor pode ser qualquer coisa, menos amor. Dilatar o coração não para possuir os outros, mas para preenchê-lo de Deus e consequentemente do outro. Somente assim é possível falar da gratuidade do amor, e este amor, certamente, sempre gerará salvação. 
Antonio Marcos