Violência familiar: “casamento é assim mesmo?”

Escrito Por Antonio Marcos na segunda-feira, janeiro 10, 2011 Sem Comentários

EDILSON SANTANA - promotor de Justiça

Frases como: "Tenho que aguentar, porque preciso de alguém a meu lado..."; "Filha, suporte, porque casamento é assim mesmo..."; "Em briga de marido e mulher não se mete a colher..."; fazem parte do cotidiano. Assim, é justificada, racionalizada e institucionalizada a tirania conjugal e familiar. É uma monstruosidade a forma que certos homens encontraram para resolver conflitos no lar, submetendo companheiras a condição de escravas. Com efeito, verdadeiras "guerras invisíveis" ocorrem na intimidade da família e constituem um problema de dimensão social de extrema gravidade, com repercussões socioeconômicas e de saúde pública que ameaçam o desenvolvimento dos povos, afetam a qualidade de vida e corroem o tecido social.

Mais de um milhão de mortes são ocasionadas por violência doméstica, anualmente, em todo o mundo. Estudos especializados comprovam que, em 18 países, um total de 20% das mulheres foram violentadas ou sofreram agressões e 25% dos idosos sofreram maus-tratos físicos e psicológicos por serem considerados um estorvo familiar e um custo muito alto para a sociedade. Nesse cenário desolador, a família, núcleo essencial da sociedade, esfacela-se. O ser humano, que deveria viver em paz, com respeito, fraternidade, liberdade e justiça, torna-se objeto de crueldade e ameaça de destruição. A violência propaga-se assustadoramente, a sexualidade é agredida no seio da própria família e procura-se solucionar o problema adotando métodos igualmente violentos.

Através da violência você pode matar um mentiroso, mas não pode estabelecer a verdade. Através da violência você pode matar uma pessoa odiosa, mas não pode matar o ódio. A escuridão não pode extinguir a escuridão. Só a luz pode [Destaque meu]. É imprescindível, pois, que os seres humanos aprendam a elementar lição de que qualquer forma de violência contra seus semelhantes volta-se contra eles mesmos. Todos nascem livres e iguais em direitos, dignidade e obrigações, dotados de razão e consciência, devendo agir, uns para os outros, com espírito de fraternidade, sem o que se torna inviável o projeto de construção de uma sociedade justa e igualitária.

Fonte: Publicado no Jornal Diário do Nordeste, Fortaleza-CE (Opinião), 10 de janeiro de 2011.