Tempo, permita que nos encontremos com o menino que fomos!

Escrito Por Antonio Marcos na sábado, janeiro 29, 2011 1 comment
Escolhemos minutos, horas e até dias para voltar pela longa estrada que já percorremos na vida. Nesta caminhada o fazemos de cabeça baixa, como se procurássemos os rastos que levasse aos grandes momentos, às grandes alegrias e às inesquecíveis emoções vividas.

Logo uma tristeza invade todo o nosso ser e um desespero nos leva às lágrimas, porque procuramos, em vão, reviver aquilo de bom que o tempo estraçalhou na sua implacável passagem. Inútil perseguir nossas próprias pegadas, porque o vento trouxe a poeira de bem longe para sepultar tudo que deixamos, naqueles caminhos. Depois de tantos anos, de fato, não adianta voltar pela mesma estrada, pois tudo se transformou.

As árvores que poderiam nos guiar na caminhada do reencontro, envelheceram, perderam suas folhas, como nós, são galhos que secaram e entristeceram sob a erosão do tempo. Enquanto tentamos o reencontro com o que passou, o tempo ri de nossa ingenuidade, assiste risonho ao nosso pesar, e leva para bem longe o que procuramos, deixando somente a saudade, única coisa que encontramos, porque está presente nas várias esquinas que dobramos.

Exaustos, com as pernas trêmulas no transcurso do longo caminho com o corpo alquebrado pelas noites longas de insônia, choramos a nossa solidão, reconhecendo a nossa derrota, falando ao vento que sopra:

- Por que, tempo, você passou e nos deixou assim perdidos, sozinhos no vazio de nossas ilusões? Para onde levou a alegria da vida, e onde encontrou tanta tristeza para substituir todos os nossos momentos de felicidade?

Tempo, não corra, tenha piedade de nós. Não se apresse tanto. As minhas pernas já não conseguem caminhar com aquela rapidez de outrora e desejamos acompanhá-lo. Queremos encontrá-lo para que você nos mostre, nem que seja por segundos, nossa imagem do passado, pois já começamos a ter saudade do jovem que fomos. Não zombe da fraqueza física. Espere nossa chegada e nos mostre tudo aquilo em que pomos amor, mas que fugiu de nosso lado, sem que saibamos o porquê.

Não seja cruel. Mate-nos aos poucos, mas permita que nos encontremos com o menino que fomos. Deixe-nos juntar os nossos brinquedos que ingenuamente, deixamos espalhados no palco da vida, e, novamente, encontrar a felicidade na inocência, na simplicidade e na pureza da alma de uma criança despreocupada, cândida e feliz.

Autor: João Eudes Costa - joaoeudescosta@hotmail.com
Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Fortaleza), 29 de janeiro de 2011 (Jornal do Leitor, “Se o tempo parasse..”) - "Grifos do texto são meus"