Onde estava Deus naqueles dias?

Escrito Por Antonio Marcos na sexta-feira, janeiro 14, 2011 Sem Comentários

Uma das descrições mais assustadoras do mal é encontrada no angustiante relato autobiográfico que Elie Wiesel apresenta do Holocausto no livro A noite. Entre a série de horrores registrados no livro, o mais angustiante talvez seja a ocasião em que um garotinho foi condenado à morte na forca, enquanto os outros prisioneiros eram obrigados a assistir. Como conta Wiesel, o horror era acrescido do fato de que o pequeno peso do menino conduziu a uma morte lenta e torturante por estrangulamento:
Durante mais de meia hora ele ficou ali, lutando entre a vida e a morte, morrendo em lenta agonia diante de nossos olhos. E tínhamos que olhar para a sua face. Ele ainda estava vivo quando passei diante dele. Sua língua ainda estava vermelha; seus lábios ainda não estavam vítreos. Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntando: “Onde está Deus agora?” E ouvi uma voz dentro de mim lhe respondendo: “Onde está Ele? Ele está aqui – Ele está pendurado aqui nesta forca...”
Embora alguns leitores tenham interpretado o comentário de Wiesel como marcando uma fuga para o ateísmo, na verdade ele estava aludindo à misteriosa ideia de que Deus, de algum modo, sofre com o seu povo. Será possível que o Senhor soberano do universo esteja presente enquanto uma criança está enfrentando a mais terrível morte?  (Fonte: RAUSER, Randal. Encontre Deus na Cabana, 2009.)
Considerações:
Estando a acompanhar o noticiário da tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro, o que tem me deixado bastante sofrido e, certamente, a milhares de pessoas em todo o país, principalmente a cada momento em que vemos aquelas imagens das pessoas relatando as perdas familiares, de amigos e conhecidos, lembrei então desse relato acima acerca do “mistério do mal”, seja moral, social ou físico, mistério que nos desconcerta e provoca muitas perguntas essenciais e nem sempre temos todas as respostas, pelo menos em curto prazo.
Diante da tragédia, da dor humana e do sofrimento a pergunta pela presença de Deus é inevitável. Uns perguntam com esperança e fé, outros desesperados e revoltados, às vezes até mesmo convencidos de que Deus é um tirano, que parece estar sentado em sua poltrona a observar o espetáculo de dor e sangue, a exemplo de um Coliseu chamado “mundo”, o que conhecemos e cremos pela Sua Palavra, “ser obra de suas próprias mãos”. É óbvio que suas permissões a certos horrores são difíceis de se encaixarem em nossa lógica humana. Sem a fé o sofrimento é um calvário sem ressurreição.
Quando o papa Bento XVI visitou o ex-campo de concentração de Auschwitz, fez a mesma pergunta: “Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal?” É a Palavra de Deus, em forma de prece, que empresta ao coração do papa as únicas palavras consoladoras, as mesmas que consolaram o povo de Israel quando sofriam horrores no Exílio: “Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27).   
Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!
É este, sem dúvida, o grito de socorro que parte do fundo da alma de quem se encontra em meio aos horrores, à dor e a tantas perdas. Mas, como pode Deus levantar-se, tornar-se auxílio, salvar-nos? Ele o pode de muitas maneiras, inclusive de como gostaríamos, “num piscar de olho”, mas nos parece que Deus quer nos salvar mediante a ação do amor no coração dos homens, dos nossos irmãos, através da compaixão, da solidariedade. Deus quer ser auxílio através dos que são eleitos para governar o seu povo e administrar o dinheiro público. Deus quer manifestar a sua bondade pela capacidade com que muitos não ficam indiferentes a tamanha tragédia.   
Afirma o teólogo Juan Luis SEGUNDO: “Nunca somos mais irremediavelmente desgraçados do que quando perdemos a pessoa a quem amamos. (...) O amor nos faz sofrer com os que sofrem (...), pois aquele que ama traz para dentro de si a realidade amada e torna-se capaz de qualquer sacrifício para aliviar a dor do outro”.  Daí que voltamos ao início do relato: Sendo Deus o próprio amor (Jo 4,8), Ele não poderia estar em outro lugar, se não “pendurado naquela forca com aquela criança”, e assim está a sofrer com o seu povo, jamais como expectador de um circo de gladiadores. Da mesma forma que somos convencidos de que Deus não assistia passivamente a “tragédia do Seu Filho na cruz”, Ele sofria e morria junto. Aquela tragédia, misteriosamente, foi a nossa salvação.
Causas pessoais, sociais, políticas, econômicas e ambientais estão por trás de uma tragédia como a da Região Serrana do Rio de Janeiro, mas não somente essas causas. No entanto, o que mais importa agora é tornar Deus presente à sensibilidade daquelas pessoas através da solidariedade aos sobreviventes, da ajuda em todos os sentidos, pela oração e no cultivo da esperança, sabendo que é inevitável as lágrimas e as dores por tantas perdas, mas a vida continua, especialmente na postura de se cobrar uma ação política e econômica concreta, o que é direito nosso, para que tragédias dessa natureza não se repitam. E não esqueçamos: Deus está presente e sofre com o seu povo! Penso que continuamente Ele nos diz que a maior tragédia é mesmo quando o nosso coração é sufocado pela lama do egoísmo e da indiferença aos que sofrem!   
Antonio Marcos