A dor de uma separação não justifica um fim. A vida é maior do que um momento

Escrito Por Antonio Marcos na segunda-feira, janeiro 10, 2011 Sem Comentários

Vivemos em uma época em que o tempo foi perdendo significado. Lamentamos a ausência de tempo e desperdiçamos o tempo com ausência de intenções. A secura está distante do oceano contemplado por Lygia Fagundes Telles (no seu conto: “Venha ver o pôr do sol”) e está mais perto do pôr do sol falacioso. Era esse o convite de Ricardo a Raquel (os personagens do conto), um conto que dói pelo desfecho sem esperança.
A linguagem retrata as emoções doentes do homem que não admite perder sua mulher. “Sua” não como pronome possessivo carinhoso, mas como desvirtuação do ser e do ter, como esfacelamento de vidas que se tornam indignas por não dividirem com outras vidas um pôr do sol. Ricardo, sabendo-se deixado, convida Raquel para um último pôr do sol antes do término da relação. Raquel, desavisada, cede aos seus caprichos e vai. Talvez por vaidade, talvez por desejo de manter acesa a chama que não mais lhe arde. Afinal, que mal há em contemplar um último pôr do sol ao lado de quem ontem tinha algum significado? Ricardo decide internamente que, sem ele, ela não teria direito de contemplar nenhum pôr do sol. E Lygia Fagundes Telles, como uma artesã poética dos dramas humanos, conta sobre os perigos de túmulos abertos por homens sem coração.
A dor de uma separação não justifica um fim. A vida é maior do que um momento. É o tempo o segredo. O tempo cantado no belíssimo livro de Eclesiastes. Para cada coisa, há um tempo. As palavras são portas sim (...), há momentos, entretanto, em que precisamos dizer as palavras para nós mesmos (...).
Tenho convivido muito com homens desiludidos com suas mulheres, com mulheres desconfiadas de seus homens. Tenho escutado histórias de traição e de vingança. E desabafos de personagens derrotadas pela quebra do pacto do amor. Dia desses, um jovem de menos de trinta anos jurava ter desistido de viver por ter descoberto a traição da namorada, quase esposa. Chorou um choro doído, contorceu-se de uma dor comovente. Falou de frases numerosas vezes repetidas pela mulher que o apunhalou. Ouvi atentamente, que é o que mais vale nessa hora, e ousei sugerir que ele compreendesse o curso do tempo.
O luto necessário fortalece. O choro nos aproxima de quem somos, seres dotados de emoção. As janelas fechadas significam que a casa está sendo arrumada, que a sujeira está sendo limpa e que os enfeites estão encontrando o seu espaço para adornar e dar aconchego. Há o tempo da reforma e o tempo da inauguração. Em tempos de reforma, é melhor não trazer muita gente. A poeira pode dar uma impressão desagradável, as toalhas sobre as poltronas não são tão convidativas. Quando tudo estiver organizado, os convidados serão bem-vindos. É de Chico Buarque esta preciosidade: “Não se pode culpar alguém por amar demais. Não se pode jogar terra sobre flores pequenas, mimosas que desabrocham à procura de vida”.
(...) Corremos o risco de que nossas coisas tenham mais importância do que nossa vida. O jovem abandonado, do conto de Lygia, resolveu enterrar outras possibilidades na vida da mulher amada. Estranho, não é? Enterrar um amor ainda em vida? Planejar um último pôr do sol se gratuitamente o sol se põe para todos, todos os dias? Estranho laçar alguém com o trunfo de uma pertença, como um caçador. E depois empalhar para não ter riscos. Um pássaro vivo pode voar. Um pássaro empalhado fica sempre no mesmo lugar. Um pássaro vivo, entretanto, canta, brinca, pula e voa. E seu voo volta se o espaço do aconchego foi oferecido.
Se o pássaro quiser ir, o melhor é abrir as mãos e ter a dignidade de dizer adeus. A despedida será dolorosa, mas o tempo se encarregará do necessário. Prender o pássaro, empalhar o pássaro ou jogar terras sobre a amada será pedir ao tempo que ele resolva o que não lhe compete. As agruras do remorso são mais terríveis do que a dor da saudade. (...) Não possuímos as pessoas. Não temos o direito de empalhar seres humanos com a desculpa do amor, pois segundo Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”.
E no mesmo diapasão de Camões, mudam os amores, mas não acabam. O amor é livre. Arriscadamente livre. O tempo talvez nos ensine, se tivermos paciência, a conviver com essa liberdade. O tempo é a escola dos sábios. E a sabedoria uma preciosidade que recebemos de Deus. (...) É preciso que a ferida se cicatrize para evitar aborrecimentos. O tempo da delicadeza é o tempo dos amantes cujos amados não estão enfeitando prateleiras, mas estão em construção.
Autor: Dr. Professor Gabriel Chalita
Fonte:
Cartas entre amigos, Sobre ganhar e perder, São Paulo, 2010 (Trechos selecionados da 13ª Carta).