A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2011-01-29

Tempo, permita que nos encontremos com o menino que fomos!

Escolhemos minutos, horas e até dias para voltar pela longa estrada que já percorremos na vida. Nesta caminhada o fazemos de cabeça baixa, como se procurássemos os rastos que levasse aos grandes momentos, às grandes alegrias e às inesquecíveis emoções vividas.

Logo uma tristeza invade todo o nosso ser e um desespero nos leva às lágrimas, porque procuramos, em vão, reviver aquilo de bom que o tempo estraçalhou na sua implacável passagem. Inútil perseguir nossas próprias pegadas, porque o vento trouxe a poeira de bem longe para sepultar tudo que deixamos, naqueles caminhos. Depois de tantos anos, de fato, não adianta voltar pela mesma estrada, pois tudo se transformou.

As árvores que poderiam nos guiar na caminhada do reencontro, envelheceram, perderam suas folhas, como nós, são galhos que secaram e entristeceram sob a erosão do tempo. Enquanto tentamos o reencontro com o que passou, o tempo ri de nossa ingenuidade, assiste risonho ao nosso pesar, e leva para bem longe o que procuramos, deixando somente a saudade, única coisa que encontramos, porque está presente nas várias esquinas que dobramos.

Exaustos, com as pernas trêmulas no transcurso do longo caminho com o corpo alquebrado pelas noites longas de insônia, choramos a nossa solidão, reconhecendo a nossa derrota, falando ao vento que sopra:

- Por que, tempo, você passou e nos deixou assim perdidos, sozinhos no vazio de nossas ilusões? Para onde levou a alegria da vida, e onde encontrou tanta tristeza para substituir todos os nossos momentos de felicidade?

Tempo, não corra, tenha piedade de nós. Não se apresse tanto. As minhas pernas já não conseguem caminhar com aquela rapidez de outrora e desejamos acompanhá-lo. Queremos encontrá-lo para que você nos mostre, nem que seja por segundos, nossa imagem do passado, pois já começamos a ter saudade do jovem que fomos. Não zombe da fraqueza física. Espere nossa chegada e nos mostre tudo aquilo em que pomos amor, mas que fugiu de nosso lado, sem que saibamos o porquê.

Não seja cruel. Mate-nos aos poucos, mas permita que nos encontremos com o menino que fomos. Deixe-nos juntar os nossos brinquedos que ingenuamente, deixamos espalhados no palco da vida, e, novamente, encontrar a felicidade na inocência, na simplicidade e na pureza da alma de uma criança despreocupada, cândida e feliz.

Autor: João Eudes Costa - joaoeudescosta@hotmail.com
Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Fortaleza), 29 de janeiro de 2011 (Jornal do Leitor, “Se o tempo parasse..”) - "Grifos do texto são meus"

2011-01-25

Agora não é o momento...


Recentemente tive a alegria de concluir a leitura do clássico da literatura mundial: “O Velho e o Mar”, obra de 1951 (Escritor e jornalista americano Ernest Hemingway, 1899-1961), considerado pela crítica como “monumento literário de eterna perfeição”.  Mesmo nas minhas limitações de compreensão escreveria outro livro somente a comentar a riqueza de significado deste enredo literário. O fio de linha mantém o velho preso ao peixe fisgado e a luta perseverante para que não se vá, são mesmo uma porta aberta para uma hermenêutica da vida, dos sonhos, dos pensamentos e da luta pela sobrevivência humana neste mundo de tantos desafios, de conquistas e fracassos. Impossível não nos identificarmos no contexto desta maravilhosa obra.
Depois de dias a lutar com o “seu peixe” e já estando de volta à Costa trazendo-o atrelado junto ao barco, o velho tem de lutar contra os tubarões que atacam a grande e favorável isca. Após um desses ataques, conversa o velho consigo mesmo e com o seu peixe: “Não devia ter vindo tanto para o largo, peixe – falou o velho. – Nem você nem eu. Desculpe-me, peixe. ‘Agora, meu velho’, disse em pensamento ‘examine a corda em torno da faca e veja se está cortada. Depois cuide das mãos porque ainda hão de vir outros.’ - Gostaria de ter uma pedra para afiar a faca – disse o velho depois de examinar os nós da ponta do remo. – Devia ter trazido uma pedra. ‘Sim, você devia ter trazido muitas coisas’, pensou. ‘Mas não trouxe, velho. Agora não é o momento de pensar naquilo que você não tem. Pense antes no que pode fazer com aquilo que tem’.”
Debruçarmo-nos em nossas “perdas e ausências” e lamentá-las parece ser uma tendência humana que pode acabar asfixiando em nós a esperança, a fé e a motivação para novas buscas e recomeços. Estar nesse contexto pede, necessariamente, uma “ressignificação do que não se tem” e a “capacidade criativa para com aquilo que se tem”. Mas, não poderia deixar de lembrar o diálogo de outro pescador: “Mestre, trabalhamos a noite inteira sem nada apanhar; mas, porque mandas, lançarei as redes” (Lc 5, 5). Agora é o momento!
Antonio Marcos
Fonte:
Ernest Hemingway.O Velho e o Mar, 2009.

Não é um discurso...


Belas e consoladoras as palavras do santo padre, Bento XVI, na Exortação Verbum Domini (cf. 21), quando nos faz compreender que o “silêncio de Deus” no mistério da cruz de Cristo é também uma linguagem de salvação. Afirma: “Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu silêncio (...). Nestes momentos obscuros, Ele fala no mistério do seu silêncio. Portanto, na dinâmica da revelação cristã, o silêncio aparece como uma expressão importante da palavra de Deus”.
Quando julgamos que “as palavras divinas se calaram” para nós, bem sabemos, quase sempre exigimos que o Senhor justifique seu silêncio, faça-nos discursos, console-nos com “uma palavra”, dê sinal de que não nos abandonou. Esquecemos rápido a dinâmica e a sabedoria do agricultor que, ao plantar, sabe esperar confiante o ressurgir da vida. Para ele não é mais importante entender o mistério do silêncio com o qual Deus gosta de agir, importa crer que a vida ressurgirá depois da noite da esperança, depois do descanso da semente na terra. Assim nos confirma a própria Palavra de Deus: “Não é um discurso, não há palavras, não se lhes ouve a voz; e por toda a terra sua harmonia se estende e sua linguagem vai às extremidades do mundo” (Sl 19/18, 4-5).
Não é um discurso! É a “misteriosa ação de Deus” (cf. Jz 13,19) que desfaz os planos humanos, que contraria os barulhos e impaciências de nossa vida, que não permite nunca que os planos humanos vençam Seus desígnios, porque são eles a nossa felicidade e Deus não abre mão da nossa felicidade. Ainda quando a nossa liberdade pareça “fazer fracassar a ação de Deus”, na verdade, é sua misericórdia que está a se utilizar de nossas fraquezas para nos atrair outra vez para a luz da Sua salvação. Não é um discurso! É mistério de cruz, é amor ao extremo, é bondade de quem nunca desiste de nós. Não é um discurso! É Deus salvando mesmo quando tudo pareça ser apenas uma sexta-feira santa.
Antonio Marcos 

Dra. Zilda Arns era a nossa Madre Teresa de Calcutá


O Brasil sempre teve muito orgulho de Dra. Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança. Dolorosa foi a notícia de sua morte há pouco mais de um ano, 12 de janeiro de 2010, quando em visita ao Chile, nas atividades internacionais de promoção e instalação da Pastoral da Criança, foi vítima do terremoto que dizimou milhares de pessoas. No mundo todo, muitas pessoas, crédulos e incrédulos, reconheceram com orgulho o que esta mulher, mãe, médica e avó realizou na sua docilidade e coragem por deixar Deus fazer da sua vida doação e acolhida aos outros. 
O entusiasmo e a fé com que assumia seus compromissos com a felicidade dos outros eram incontestáveis. Muito diziam: “Dra. Zilda é a nossa Madre Teresa de Calcutá”. Católica fiel e irmã do arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, Dra. Zilda foi criadora do projeto inicial da Pastoral da Criança e principal articuladora da mesma até sua morte. Mulher apaixonada pela vida, marcou inconfundivelmente a história da Igreja no Brasil e nossa sociedade com o seu testemunho generoso e perseverante em prol de nossas crianças. Recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais por seu trabalho, mas, o mais importante deles foi, sem dúvida, a gratidão dos menos favorecidos que a amavam como filhos.       
Faço aqui memória desta mulher admirável, testemunha fiel do Evangelho e da força construtiva da caridade. Cito em caráter conclusivo um fragmento de suas palavras no último discurso numa igreja pouco antes de morrer no Chile e que diz muito do segredo do seu amor à pessoa humana e de sua inteira dedicação na defesa da dignidade das crianças: “Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe dos predadores, das ameaças e dos perigos e mais perto de Deus, devemos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los”.
Antonio Marcos

2011-01-23

Sexo virtual: fantasias e desilusões!


 A modernidade apresenta o sexo virtual com suas variedades e impropriedades, descortinando em certos casos uma trajetória com conflitos psicológicos. A partir das últimas décadas, aumenta o número de pessoas que procuram compulsivamente experiências sexuais impróprias ou excessivas. Com o sexo virtual evitando doenças e envolvimentos psicóticos. A atividade sexual virtual é susceptível a se realizar com condições necessárias ao seu desempenho. É fazer sexo com o pensamento incensado pela visão, argumenta Virgínia Sadock, professora de Sexualidade Humana da Universidade de Nova York.
No curso da História da humanidade encontramos progressiva diferenciação no comportamento sexual, revelando nítida distinção entre ambos os sexos. Sob atual ponto de vista teológico, a sexualidade do homem se constitui parte essencial da natureza humana. Observando como enfoque fatores sócio-culturais, ocorrem extraordinárias mutações na conduta sexual. Prevalecem determinantes antropológicos, filosóficos, sociológicos e psicológicos, segundo Kinsey.
Apesar da magnífica evolução das ciências naturais, espaciais e dos meios de comunicação, milhares de pessoas apresentam dúvidas com relação às ocorrências sexuais. Nas regiões de desenvolvimento cultural deficiente, são constantes os tabus, o misticismo e conceitos mágicos. Já nos países superdesenvolvidos, a conduta sexual é envolvida por excessiva sofisticação. O sexo virtual se baseia nas fantasias que constituem o desejo de ter atividades sexuais, conscientes e inconscientes. As fantasias sexuais são produtos complexos do desenvolvimento psicológico intenso e recorrente de impulsos. As pessoas utilizam fantasias primárias optando pelo sexo virtual. Os meios que mais exploram as fantasias através do sexo virtual são filmes obscenos, videotapes, computadores e linhas telefônicas. O sexo "on line" favorece ligações amorosas ilícitas, levando muitas pessoas a desilusões e atividades sexuais incontroláveis que se refletem através da pedofilia, satiríase, ninfomania e homoerotismo.
O sexo virtual proporciona conseqüências indesejáveis com inibição no relacionamento pessoal, na relação conjugal e exaustão física e mental. Sexo virtual não é igual ao sexo real. O êxito não proporciona bons resultados na realidade. O sexo virtual apresenta comportamento compulsivo, problemas de identidade, abuso de substâncias tóxicas, fixações auto-eróticas e emoções sexuais reprimidas. As fantasias sexuais se relacionam com atitude repressiva ou excessivamente liberal na infância, de acordo com Margaret Mead desenvolve o auto-erotismo. É cada vez maior entre os jovens mais inteligentes e aplicados o relacionamento sexual singular dentro da realidade e próximo ao casamento, evitando a precocidade, a promiscuidade e a virtualidade. Sem os riscos das doenças sexualmente transmissíveis, das inversões e dependência. Optando pela sexualidade conjugal, benéfica a união e a perpetuação da humanidade constituindo a família.
No processo educacional, a criança não deverá ficar marginalizada dos segredos da sexualidade, sob pena de exaltar a curiosidade. A desinformação contribui para o aumento da incidência da pedofilia espontânea. A sexualidade sempre constituiu um tema universal inesgotável, ocasionando imensa perplexidade. Versões polêmicas coincidem com a História da humanidade e os mais consagrados autores argumentam que os padrões normativos se confundem. Não existe bissexualidade. O homem não desfruta desta condição, pois não é um ser hermafrodita, não possui duplicidade de sexo ou dois aparelhos genitais, o masculino e o feminino. Se exerce a bilateralidade o faz em dois segmentos, o hetero e o homossexual. Isto é irrecorrível.
Autor: JOSUÉ DE CASTRO, médico, professor e escritor
Fonte: Publicado no Jornal Diário do Nordeste, Fortaleza, 23 de janeiro (DEBATES E IDEIAS). "Os destaques no texto são meus"

2011-01-22

A alegria da velhice quando unida ao Deus de toda beleza


Muitos dizem que a velhice é o nosso último destino, a última das estações e nada mais se pode esperar além. Mas, pensava comigo: essa natureza não é capaz de transcender? Não tem mesmo uma saída? Nesse caso, Deus não seria tão impotente se pensarmos que tudo está mesmo destinado somente a nascer, viver e morrer? Que fato contrastante é pensarmos na velhice e na juventude! Daí que, ao olhar o idoso encurvado, com seus cabelos brancos, em sua consciência lúcida ou não, sua alegria e esperança na vida, para mim, sinceramente, já é uma das provas de que uma vida nova nos espera, uma prova de que Cristo ressurgiu da morte e que prepara uma morada para nós.
Nunca consegui admitir que a vida possa vir a terminar no túmulo, nem mesmo quando a fé era para mim algo estranho, adormecido e distante. Se nos admiramos com o tempo da juventude, é bom saber e crer que uma vida ressuscitada ultrapassará todos os nossos conceitos de beleza. E gosto de contemplar a Palavra de Deus falando dessa nova vida sempre na perspectiva não da estética, que será bela evidentemente, mas da alegria. E como isto é verdade ainda nesta existência! Uma vida feliz e alegre interiormente é capaz de irradiar beleza e denunciar a futilidade de uma busca doentia pela preservação da estética. Diz Jesus: “Eu vos verei de novo, o vosso coração então se alegrará e ninguém vos tirará vossa alegria” (Jo 16, 22). O Cenáculo confirma a alegria incomparável do encontro com o Ressuscitado: “Vendo o Senhor, os discípulos ficaram tomados de intensa alegria” (Jo 20,20).  
Creio firmemente que a velhice não se trata de doença e insignificância. Doença é mesmo a falta de abertura ao outro, o preconceito e a indiferença aos que viveram seus anos e hoje, ainda entre nós, podem nos ensinar que a felicidade não acaba quando o verdadeiro sentido da vida nos faz companhia. O sofrimento da enfermidade e a própria vulnerabilidade humana na velhice não podem ser confundidos com a falta de felicidade.
Concluo fazendo memória da alegria que transbordou no coração e na alma do velho Simeão quando seus olhos viram o Senhor: “Deixai, agora vosso servo ir em paz, conforme prometestes, ó Senhor. Pois meus olhos viram vossa salvação que preparaste ante a face das nações” (cf. Lc 2,29-31). Ajudai-nos, Senhor, a enxergar na velhice o tempo no qual a alegria e o sentido interior falam mais do que “a beleza da juventude”. E tudo faz celebra as vésperas da alegria definitiva, da beleza incomparável de sermos revestidos no Belo, que é Tu, Deus de toda beleza!   
Antonio Marcos

2011-01-19

Nossas crianças: devolvê-las a inocência e a alegria!

Dentro da temática dos Direitos das Crianças, refletido pelo Pontifício Conselho para a Família (Lexicon, CNBB, 2007), indispensável, sem dúvida, é o direito de devolver às crianças sua alegria. Diz o texto: “Devemos assumir uma tarefa difícil mas estimulante, qual seja, de devolver à criança o que melhor a caracteriza: a sua inocência e a sua alegria, a sua percepção ingênua do mundo e a sua capacidade de alegrar-se com a beleza que deste emana”. 

Lamentavelmente temos visto na televisão e na internet, especialmente no Brasil, a exploração sutil das crianças em publicidades referentes aos mais diversos interesses comerciais. Até mesmo de caráter sensual, o que constitui crime. Temos visto crianças exploradas pela moda e usadas em nome da descoberta do talento para simplesmente machucar sua inocência e roubar delas o direito de viverem a infância com alegria, na inocência e na liberdade própria do mundo infantil. Diz o Pontifício Conselho: “Isso faz das crianças escravas de desejos artificiais, exatamente por causa da evasão do real”.

Uma parcela significativa dessa responsabilidade é dirigida aos pais, seja pelos diversos fatores que comprometem a educação dos filhos, seja pela omissão dos mesmos nesse processo. Poderíamos falar de muitas consequências visíveis no contexto predominante, mas nos limitamos a evidenciar a falta de alegria espontânea em nossas crianças. Muitas delas precisam dos jogos modernos da internet, na sua maioria incentivadores da violência, para gozarem de uma alegria, por sua vez, irreal. A imagem que costumávamos ver dos pais brincando com os filhos parecem cair no desuso. Não somos contrários à modernidade e ao que favorece o crescimento humano e intelectual de nossas crianças, mas é bem verdade que temos saudade dos “carrinhos e bonecas!” Claro, esta é apenas uma metáfora para se falar do que favorecia a relação entre pais e filhos.

Não queremos que nossas crianças se desiludam da infância e venham a se tornar tristes, e que muito cedo comecem a frequentar os consultórios para receberem terapia para suas tristezas, seus desejos de suicídio, seus medos da vida, medo de crescerem e de amarem. Acreditamos poder devolver e cultivar a inocência e a alegria de nossas crianças exatamente com o abraço, o carinho, o elogio, a correção no diálogo, a presença comprometida e ofertada, o estímulo em seus aprendizados, o apoio confiante na hora dos erros e, sobretudo, o testemunho dos valores cristãos, afinal, “delas é o Reino de Deus, e aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele” (cf. Mc 10, 13-16).

Antonio Marcos
Imagem: Mãe e filha: Valéria Morais e Heloísa, amigas de Vitória da Conquista, Bahia.

2011-01-18

João Paulo II foi um santo de nossos dias!


Recordo as palavras de Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, no prefácio do livro “Testemunhas da Esperança”, do Cardeal Van Thuan: “O papa João Paulo II demonstrou, com numerosas beatificações, que, também nesses últimos tempos e em nossos dias, Deus continua santificando homens e mulheres que vivem a configuração heróica a Jesus Cristo”. Tal afirmação comprova o que a Igreja e o mundo testemunharam ao longo dos quase 27 anos de pontificado, no decorrer dos quais o papa Woityla canonizou, surpreendentemente, homens simples, jovens e pais de família, porque se uniram a Cristo na vivência sincera e coerente do seu Batismo.
O ensinamento do Concílio Vaticano II acerca da santidade tomou um rosto no pontificado de João Paulo II: “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Ts 4,3; cf. Ef 1,4). (...) Todos os fiéis santificar-se-ão dia a dia, sempre mais, nas diversas condições da sua vida, nas suas ocupações e circunstâncias, e precisamente através de todas estas coisas, desde que as recebam com fé, das mãos do Pai celeste, e cooperem com a vontade divina, manifestando a todos, no próprio serviço temporal, a caridade com que Deus amou o mundo” (LG,39.41). Existe algo mais belo do que este conceito de santidade? Certamente não! A santidade de vida se dá no dia a dia, nas nossas ocupações e labutas, mas o essencial precisa estar presente: a fé e a caridade! Uma não pode estar dissociada da outra. Caridade apenas por virtude pode não suportar a cruz, pode não chegar a “amar os difíceis”. Caridade provinda da fé, purifica e autentica as obras e nos leva além da cruz, gera ressurreição, isto é santidade. Lembro-me agora do papa João Paulo II perdoando e abraçando aquele que tentou matá-lo com um projétil. A santidade gera ressurreição na minha e na vida dos outros!
A santidade para João Paulo II não era algo distante, inatingível, proposta para alguns poucos, mas, ao contrário, era algo palpável em qualquer existência que se deixasse alcançar por Cristo, seu amor e misericórdia. Deu de início, na sua primeira Encíclica, “Redentor do Homem” (04 de março de 1979), o segredo do que seria o seu pontificado e sua visão do homem: “Não tenhais medo! Escancarem as portas do vosso coração para Cristo!” E diria ainda, citando o Concílio: “Só Cristo revela o homem ao próprio homem!” É isso, quando encontramos a Cristo e fazemos a experiência de amor com a sua Pessoa, somos, de fato, inseridos no processo de santidade porque, - afirma Dom Walmor Oliveira -, “crer, de verdade, é tender para a santidade. E a santidade é uma reconstrução de si, é a condição de possibilidade de ser feliz, é a humanização mais plena e completa da pessoa” (Rev. Communio, Vol. 22-N. 1 – 2004, p. 49).
João Paulo II foi um santo de nossos dias, que tantas vezes disse a cada jovem, a cada homem: “Tu te tornas aquilo que contemplas!” Ele contemplou a Cristo nos homens, nos pobres, nos menos favorecidos, nos povos distantes, nos amigos, nas famílias, nos que, inclusive, perseguiam-no e ainda nos que buscavam a Cristo sem saber que o procuravam. Seu conceito de santidade é radicalmente possível para cada um de nós: “Precisamos de santos modernos, que usam calça jeans, que gostam de sanduíche; santos com uma espiritualidade inserida em nosso tempo”. Nossos olhos agora contemplam o fruto do que operou a graça de Deus naquele que tinha tudo para dar errado, mas, ao encontrar o segredo da vida, Jesus Cristo, abriu-Lhe as portas do seu coração, destemidamente. Conceda-nos, Senhor, a graça de assumir o nosso Batismo com alegria e radicalidade no dia a dia de nossa existência.
Antonio Marcos

Não é vergonhoso sofrer, vergonhoso e desesperador é não ter Deus na hora da dor


A notícia de que o saudoso papa João Paulo II tornar-se-á bem-aventurado, ou seja, será beatificado no dia 1º de maio, pelo seu amigo e sucessor Papa Bento XVI, exatamente no 2º Domingo da Páscoa, instituído por ele como o “Domingo da Misericórdia”, a partir da sua devoção ao Coração Misericordioso de Jesus, segundo os escritos da Ir. Maria Faustina (cf. Diário, 49), é de uma graça sem limite, de uma providência e alegria sem proporções para todo o povo de Deus. Ele mesmo escreveu no seu último livro: “o limite imposto ao mal é definitivamente a divina misericórdia" (Memória e identidade, pág. 70). Sua beatificação, certamente, marcará a vida da Igreja, assim como o foi o seu pontificado e a sua morte, no dia 02 de maio de 2005.
Naquela ocasião, Domingo de Páscoa da Igreja, lembramos bem do momento em que João Paulo II, em meio ao sofrimento de sua doença, dera aos fiéis da janela do palácio apostólico, a última benção “urbi et orbi" (à cidade [de Roma] e ao mundo), cena que comoveu o mundo por sua determinação e coragem por não esconder suas dores, mas ainda assim não queríamos acreditar que estava perto a despedida de um dos mais queridos papas da história. Acerca do seu sofrimento a imprensa falou de um papa fracassado, de um pontificado em declínio, mas a fé das pessoas falou de santidade, de um gesto bonito, de um homem que deu exemplo do que nos ensinou acerca da dor e da coragem de envelhecer e morrer com dignidade, confiantes em Deus. Não é vergonhoso sofrer e mostrar a dor, vergonhoso e desesperador é não ter Deus na hora da dor.
Segundo o testemunho de alguns amigos íntimos de João Paulo II, prelados da Cúria Romana e médicos que estavam com ele nos aposentos do Palácio Pontifício nos instantes finais que antecederam sua páscoa, quando informado de que uma multidão, na sua maioria constituída por jovens, estava na Praça de São Pedro em vigília de oração por ele, teria dito no seu jeito espontâneo e alegre de ser: “Eu fui até eles; hoje eles vêm até mim, obrigado!” Na sua missa de corpo presente, presidida pelo Cardeal Ratzinger na presença de centenas de autoridades e de milhares de pessoas que invadiram Roma para se despedir do Papa Karol Woityla, o mundo pôde ouvir o brado já esperado: “Santo subito!”, Santo Já!” A beatificação de João Paulo II é a certeza de que a verdadeira união com Cristo desemboca na santidade de vida. Somente esta amizade pode transformar nossas mazelas em luzeiros seguros para os homens de nossos dias, especialmente para os que não reconhecem a dimensão redentora da cruz de Cristo em suas vidas.
Antonio Marcos

2011-01-16

Ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa.


Não foi apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milênio. As relações afetivas estão passando por profundas transformações compatíveis com os tempos modernos. Individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto e não mais uma relação de dependência em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A ideia, que nasceu com o romantismo, de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.
Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características para se moldar ao projeto masculino. A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma ideia prática de sobrevivência e pouco romântica por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente. Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficarem sozinhas e aprendendo a conviverem melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria: ele se alimenta da energia que vem do outro, seja financeira seja moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa à aproximação de dois inteiros e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho mais preparado estará para uma boa relação afetiva. A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho. Ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo e não a partir do outro [Grifo meu]
Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um. O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.
Autora: Dra. Zenilce Vieira Bruno – Psicóloga, pedagoga e sexóloga
Fonte: Publicado no Jornal O Povo / Fortaleza, 16 de janeiro de 2011
Título: Relacionamentos no século XXI.

2011-01-14

Onde estava Deus naqueles dias?


Uma das descrições mais assustadoras do mal é encontrada no angustiante relato autobiográfico que Elie Wiesel apresenta do Holocausto no livro A noite. Entre a série de horrores registrados no livro, o mais angustiante talvez seja a ocasião em que um garotinho foi condenado à morte na forca, enquanto os outros prisioneiros eram obrigados a assistir. Como conta Wiesel, o horror era acrescido do fato de que o pequeno peso do menino conduziu a uma morte lenta e torturante por estrangulamento:
Durante mais de meia hora ele ficou ali, lutando entre a vida e a morte, morrendo em lenta agonia diante de nossos olhos. E tínhamos que olhar para a sua face. Ele ainda estava vivo quando passei diante dele. Sua língua ainda estava vermelha; seus lábios ainda não estavam vítreos. Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntando: “Onde está Deus agora?” E ouvi uma voz dentro de mim lhe respondendo: “Onde está Ele? Ele está aqui – Ele está pendurado aqui nesta forca...”
Embora alguns leitores tenham interpretado o comentário de Wiesel como marcando uma fuga para o ateísmo, na verdade ele estava aludindo à misteriosa ideia de que Deus, de algum modo, sofre com o seu povo. Será possível que o Senhor soberano do universo esteja presente enquanto uma criança está enfrentando a mais terrível morte?  (Fonte: RAUSER, Randal. Encontre Deus na Cabana, 2009.)
Considerações:
Estando a acompanhar o noticiário da tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro, o que tem me deixado bastante sofrido e, certamente, a milhares de pessoas em todo o país, principalmente a cada momento em que vemos aquelas imagens das pessoas relatando as perdas familiares, de amigos e conhecidos, lembrei então desse relato acima acerca do “mistério do mal”, seja moral, social ou físico, mistério que nos desconcerta e provoca muitas perguntas essenciais e nem sempre temos todas as respostas, pelo menos em curto prazo.
Diante da tragédia, da dor humana e do sofrimento a pergunta pela presença de Deus é inevitável. Uns perguntam com esperança e fé, outros desesperados e revoltados, às vezes até mesmo convencidos de que Deus é um tirano, que parece estar sentado em sua poltrona a observar o espetáculo de dor e sangue, a exemplo de um Coliseu chamado “mundo”, o que conhecemos e cremos pela Sua Palavra, “ser obra de suas próprias mãos”. É óbvio que suas permissões a certos horrores são difíceis de se encaixarem em nossa lógica humana. Sem a fé o sofrimento é um calvário sem ressurreição.
Quando o papa Bento XVI visitou o ex-campo de concentração de Auschwitz, fez a mesma pergunta: “Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal?” É a Palavra de Deus, em forma de prece, que empresta ao coração do papa as únicas palavras consoladoras, as mesmas que consolaram o povo de Israel quando sofriam horrores no Exílio: “Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27).   
Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!
É este, sem dúvida, o grito de socorro que parte do fundo da alma de quem se encontra em meio aos horrores, à dor e a tantas perdas. Mas, como pode Deus levantar-se, tornar-se auxílio, salvar-nos? Ele o pode de muitas maneiras, inclusive de como gostaríamos, “num piscar de olho”, mas nos parece que Deus quer nos salvar mediante a ação do amor no coração dos homens, dos nossos irmãos, através da compaixão, da solidariedade. Deus quer ser auxílio através dos que são eleitos para governar o seu povo e administrar o dinheiro público. Deus quer manifestar a sua bondade pela capacidade com que muitos não ficam indiferentes a tamanha tragédia.   
Afirma o teólogo Juan Luis SEGUNDO: “Nunca somos mais irremediavelmente desgraçados do que quando perdemos a pessoa a quem amamos. (...) O amor nos faz sofrer com os que sofrem (...), pois aquele que ama traz para dentro de si a realidade amada e torna-se capaz de qualquer sacrifício para aliviar a dor do outro”.  Daí que voltamos ao início do relato: Sendo Deus o próprio amor (Jo 4,8), Ele não poderia estar em outro lugar, se não “pendurado naquela forca com aquela criança”, e assim está a sofrer com o seu povo, jamais como expectador de um circo de gladiadores. Da mesma forma que somos convencidos de que Deus não assistia passivamente a “tragédia do Seu Filho na cruz”, Ele sofria e morria junto. Aquela tragédia, misteriosamente, foi a nossa salvação.
Causas pessoais, sociais, políticas, econômicas e ambientais estão por trás de uma tragédia como a da Região Serrana do Rio de Janeiro, mas não somente essas causas. No entanto, o que mais importa agora é tornar Deus presente à sensibilidade daquelas pessoas através da solidariedade aos sobreviventes, da ajuda em todos os sentidos, pela oração e no cultivo da esperança, sabendo que é inevitável as lágrimas e as dores por tantas perdas, mas a vida continua, especialmente na postura de se cobrar uma ação política e econômica concreta, o que é direito nosso, para que tragédias dessa natureza não se repitam. E não esqueçamos: Deus está presente e sofre com o seu povo! Penso que continuamente Ele nos diz que a maior tragédia é mesmo quando o nosso coração é sufocado pela lama do egoísmo e da indiferença aos que sofrem!   
Antonio Marcos

Julgar a Deus pelos horrores é colaborar na destruição do homem

Acompanhe aqui um pequeno trecho do Discurso do Papa Bento XVI, no dia 28 de maio de 2006, em visita ao Campo de concentração de AUSCHWITZ-BIRKENAU, o que muito ilumina o nosso coração e consciência diante da tragédia com os nossos irmãos nas cidades do Rio de Janeiro: 

Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vem à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: "... Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas... por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje.

Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus, vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição. Não em definitiva, devemos elevar um grito humilde mas insistente a Deus: Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem! E o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo. Emitamos este grito diante de Deus, dirijamo-lo ao nosso próprio coração, precisamente nesta nossa hora presente, na qual incumbem novas desventuras, na qual parecem emergir de novo dos corações dos homens todas as forças obscuras: por um lado, o abuso do nome de Deus para a justificação de uma violência cega contra pessoas inocentes; por outro, o cinismo que não conhece Deus e que ridiculariza a fé n'Ele.

Nós gritamos a Deus, para que impulsione os homens a arrepender-se, para que reconheçam que a violência não cria a paz, mas suscita apenas outra violência uma espiral de destruição, na qual todos no fim de contas só têm a perder. O Deus, no qual nós cremos, é um Deus da razão, mas de uma razão que certamente não é uma matemática neutral do universo, mas que é uma coisa só com o amor, com o bem. Nós rezamos a Deus e gritamos aos homens, para que esta razão, a razão do amor e do reconhecimento da força da reconciliação e da paz prevaleça sobre as ameaças circunstantes da irracionalidade ou de uma falsa razão, separada de Deus.

Fonte: Publicado no Zenit.org. Leia o Discurso na íntegra: Site do Vaticano: http://acessa.me/an2b

2011-01-12

O mundo parece que está acabando!


Quem teve a oportunidade de ver o noticiário da noite (quarta-feira, 12 de janeiro), certamente, assim com eu, ficou chocado com a tragédia provocada pelo alto volume de chuvas, gerando as enxurradas e deslizamentos nas cidades de Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, todas no Rio de Janeiro. Impressionante e muito doloroso tal acontecimento. Como dizia a reportagem: “o mundo veio abaixo!”
Não me contive em ver tantas pessoas desoladas e chorando pela perda de seus parentes. Já são quase 300 mortos e esse número pode crescer assustadoramente! Os motivos? São tantos, mas os especialistas destacam dois: o crescimento desordenado das cidades e a ocupação irregular das encostas, o que carece de fiscalização porque o solo naquela região é de pouca consistência, ainda que cercado de mata atlântica. E a previsão é de mais chuvas e, provavelmente, mais tragédias, infelizmente!
Em todos os lugares assolados pelas enxurradas a temática é a mesma, expressa na frase que ouvi na reportagem, o que parece até uma afronta, mas é a verdade porque não deixa de ser uma crítica aos órgãos competentes: “Este fato apavora, mas não surpreende!” A frase não precisa de explicação, o bom entendedor, consciente da nossa realidade política e econômica, sabe bem o que significa.
Chamou-me a atenção o início da reportagem quando uma criança, diante da tragédia aos seus olhos, afirmou comovidamente: “O mundo parece que está acabando!” Quanta verdade nesta afirmação! E aqui não se trata de uma questão religiosa, não é isso, mas, de fato, o mundo está acabando e seus destruidores somos nós mesmos. Mais uma vez “uma criança nos surpreende”, porque inocenta Deus disso tudo e manda um recado claro para o mundo, para mim, para nós!
Antonio Marcos

O valor de um bom referencial nas nossas vidas!


Durante uma viagem à África eu pude ouvir histórias sobre diferentes tribos. Uma delas me comoveu. Uma história musical. É o relato de um costume preservado por anos e anos numa tribo da África Central.
Segundo o relato, para cada criança que nasce uma música é composta. Uma oferenda que marca a entrada da criança no mundo. Música que estará diretamente ligada à identidade pessoal. Ela cumpre o papel de ser a trilha que sonoriza os momentos importantes da vida daquele que a recebeu. Há um detalhe interessante. Dizem que, além de ser cantada nas celebrações felizes, a música também é utilizada por ocasião de grandes deslizes cometidos pela pessoa proprietária da música. Funciona como uma espécie de purificação. Ao perceber o desvio de caminho, a comunidade se reúne e canta, para que a pessoa, ao ouvir a sua música, tenha a possibilidade de voltar ao formato original, ao início de tudo, momento em que a música lhe foi ofertada.
Esse costume me fez pensar no quanto é necessário ter um referencial que nos faça voltar ao estado primeiro das coisas. Uma voz, uma palavra, um lugar, uma música, enfim, qualquer coisa que pertença à nossa memória afetiva, e que tenha o poder de nos fazer enxergar melhor o contexto de nossas escolhas. Algo que nos ajude na reconciliação com nossos limites, sobretudo no momento em que os erros prevalecem sobre os acertos e a vida se apresenta difícil demais diante de nossos olhos. [Destaque meu]
A história me fez refletir sobre a arte de recomeçar. Verdade ou lenda? Não importa. A história já virou verdade em mim. A partir de hoje quero estar atento a tudo o que me recorda quem sou. É bem provável que mais cedo ou mais tarde a gente precise deste instrumental. Há momentos da vida que só são suportáveis se estivermos suportados por alicerces bem construídos.
Autor: Pe. Fábio de Melo
Fonte:
Cartas entre amigos, Sobre ganhar e perder, São Paulo, 2010 (Trecho da 10ª Carta)

2011-01-10

A dor de uma separação não justifica um fim. A vida é maior do que um momento


Vivemos em uma época em que o tempo foi perdendo significado. Lamentamos a ausência de tempo e desperdiçamos o tempo com ausência de intenções. A secura está distante do oceano contemplado por Lygia Fagundes Telles (no seu conto: “Venha ver o pôr do sol”) e está mais perto do pôr do sol falacioso. Era esse o convite de Ricardo a Raquel (os personagens do conto), um conto que dói pelo desfecho sem esperança.
A linguagem retrata as emoções doentes do homem que não admite perder sua mulher. “Sua” não como pronome possessivo carinhoso, mas como desvirtuação do ser e do ter, como esfacelamento de vidas que se tornam indignas por não dividirem com outras vidas um pôr do sol. Ricardo, sabendo-se deixado, convida Raquel para um último pôr do sol antes do término da relação. Raquel, desavisada, cede aos seus caprichos e vai. Talvez por vaidade, talvez por desejo de manter acesa a chama que não mais lhe arde. Afinal, que mal há em contemplar um último pôr do sol ao lado de quem ontem tinha algum significado? Ricardo decide internamente que, sem ele, ela não teria direito de contemplar nenhum pôr do sol. E Lygia Fagundes Telles, como uma artesã poética dos dramas humanos, conta sobre os perigos de túmulos abertos por homens sem coração.
A dor de uma separação não justifica um fim. A vida é maior do que um momento. É o tempo o segredo. O tempo cantado no belíssimo livro de Eclesiastes. Para cada coisa, há um tempo. As palavras são portas sim (...), há momentos, entretanto, em que precisamos dizer as palavras para nós mesmos (...).
Tenho convivido muito com homens desiludidos com suas mulheres, com mulheres desconfiadas de seus homens. Tenho escutado histórias de traição e de vingança. E desabafos de personagens derrotadas pela quebra do pacto do amor. Dia desses, um jovem de menos de trinta anos jurava ter desistido de viver por ter descoberto a traição da namorada, quase esposa. Chorou um choro doído, contorceu-se de uma dor comovente. Falou de frases numerosas vezes repetidas pela mulher que o apunhalou. Ouvi atentamente, que é o que mais vale nessa hora, e ousei sugerir que ele compreendesse o curso do tempo.
O luto necessário fortalece. O choro nos aproxima de quem somos, seres dotados de emoção. As janelas fechadas significam que a casa está sendo arrumada, que a sujeira está sendo limpa e que os enfeites estão encontrando o seu espaço para adornar e dar aconchego. Há o tempo da reforma e o tempo da inauguração. Em tempos de reforma, é melhor não trazer muita gente. A poeira pode dar uma impressão desagradável, as toalhas sobre as poltronas não são tão convidativas. Quando tudo estiver organizado, os convidados serão bem-vindos. É de Chico Buarque esta preciosidade: “Não se pode culpar alguém por amar demais. Não se pode jogar terra sobre flores pequenas, mimosas que desabrocham à procura de vida”.
(...) Corremos o risco de que nossas coisas tenham mais importância do que nossa vida. O jovem abandonado, do conto de Lygia, resolveu enterrar outras possibilidades na vida da mulher amada. Estranho, não é? Enterrar um amor ainda em vida? Planejar um último pôr do sol se gratuitamente o sol se põe para todos, todos os dias? Estranho laçar alguém com o trunfo de uma pertença, como um caçador. E depois empalhar para não ter riscos. Um pássaro vivo pode voar. Um pássaro empalhado fica sempre no mesmo lugar. Um pássaro vivo, entretanto, canta, brinca, pula e voa. E seu voo volta se o espaço do aconchego foi oferecido.
Se o pássaro quiser ir, o melhor é abrir as mãos e ter a dignidade de dizer adeus. A despedida será dolorosa, mas o tempo se encarregará do necessário. Prender o pássaro, empalhar o pássaro ou jogar terras sobre a amada será pedir ao tempo que ele resolva o que não lhe compete. As agruras do remorso são mais terríveis do que a dor da saudade. (...) Não possuímos as pessoas. Não temos o direito de empalhar seres humanos com a desculpa do amor, pois segundo Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”.
E no mesmo diapasão de Camões, mudam os amores, mas não acabam. O amor é livre. Arriscadamente livre. O tempo talvez nos ensine, se tivermos paciência, a conviver com essa liberdade. O tempo é a escola dos sábios. E a sabedoria uma preciosidade que recebemos de Deus. (...) É preciso que a ferida se cicatrize para evitar aborrecimentos. O tempo da delicadeza é o tempo dos amantes cujos amados não estão enfeitando prateleiras, mas estão em construção.
Autor: Dr. Professor Gabriel Chalita
Fonte:
Cartas entre amigos, Sobre ganhar e perder, São Paulo, 2010 (Trechos selecionados da 13ª Carta).
    

Violência familiar: “casamento é assim mesmo?”


EDILSON SANTANA - promotor de Justiça

Frases como: "Tenho que aguentar, porque preciso de alguém a meu lado..."; "Filha, suporte, porque casamento é assim mesmo..."; "Em briga de marido e mulher não se mete a colher..."; fazem parte do cotidiano. Assim, é justificada, racionalizada e institucionalizada a tirania conjugal e familiar. É uma monstruosidade a forma que certos homens encontraram para resolver conflitos no lar, submetendo companheiras a condição de escravas. Com efeito, verdadeiras "guerras invisíveis" ocorrem na intimidade da família e constituem um problema de dimensão social de extrema gravidade, com repercussões socioeconômicas e de saúde pública que ameaçam o desenvolvimento dos povos, afetam a qualidade de vida e corroem o tecido social.

Mais de um milhão de mortes são ocasionadas por violência doméstica, anualmente, em todo o mundo. Estudos especializados comprovam que, em 18 países, um total de 20% das mulheres foram violentadas ou sofreram agressões e 25% dos idosos sofreram maus-tratos físicos e psicológicos por serem considerados um estorvo familiar e um custo muito alto para a sociedade. Nesse cenário desolador, a família, núcleo essencial da sociedade, esfacela-se. O ser humano, que deveria viver em paz, com respeito, fraternidade, liberdade e justiça, torna-se objeto de crueldade e ameaça de destruição. A violência propaga-se assustadoramente, a sexualidade é agredida no seio da própria família e procura-se solucionar o problema adotando métodos igualmente violentos.

Através da violência você pode matar um mentiroso, mas não pode estabelecer a verdade. Através da violência você pode matar uma pessoa odiosa, mas não pode matar o ódio. A escuridão não pode extinguir a escuridão. Só a luz pode [Destaque meu]. É imprescindível, pois, que os seres humanos aprendam a elementar lição de que qualquer forma de violência contra seus semelhantes volta-se contra eles mesmos. Todos nascem livres e iguais em direitos, dignidade e obrigações, dotados de razão e consciência, devendo agir, uns para os outros, com espírito de fraternidade, sem o que se torna inviável o projeto de construção de uma sociedade justa e igualitária.

Fonte: Publicado no Jornal Diário do Nordeste, Fortaleza-CE (Opinião), 10 de janeiro de 2011.