A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2011-12-31

Dia após dia anunciai sua salvação


“No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez de tudo o que foi feito” (Jo 1, 1-3). Aqui está apenas a introdução do “Prólogo” (Prefácio) do Evangelho de João, sendo todo ele o texto que a Liturgia proclama e medita neste dia, dentro da Oitava de Natal, último do calendário civil. Não é difícil compreender que esta Palavra (“Logos”) se trata do Verbo de Deus, do Seu Filho Jesus, “aquele que estava com Deus desde sempre e era Deus”. São muitas as reflexões que se pode fazer sobre este belo e profundo texto do mistério da encarnação, da luz que veio nos salvar e que se manifestou na noite de Natal. Porém, o que pretendo é simplesmente comunicar uma breve mensagem à luz desta Palavra, por meio da qual tudo foi feito, e sem a qual nada teria existido. Se a encarnação do Verbo e o seu Natal são as mais desconcertantes obras da providência divina, da “loucura do amor” de Deus que se abaixa para nos elevar, que sai de sua morada para habitar na “nossa cabana existencial”, e não só, mas assume a nossa própria natureza e vem viver nossas dores e alegrias, então, irmãos e irmãs, não há motivos para duvidarmos do compromisso de Deus para com a nossa felicidade. Deus é a nossa felicidade, como nos disse tanto o papa Bento XVI durante todo este ano! Por isso mesmo é que a Sua providência continua a nos assistir, basta olharmos tudo o que vivemos neste ano que se conclui. Para quem está em Deus nada se perde, tudo tem um fio condutor e um propósito, ainda que não compreendamos os compassos do Seu desígnio. “Cantai ao Senhor Deus um canto novo (...). Dia após dia anunciai sua salvação” (Sl 95/96), reza o Salmista neste dia. Eu desejo que o rezemos todos os dias daqui pra frente. Vai começar um novo ano, um novo recomeço e ao mesmo tempo um prosseguir da vida de fé, portanto, cantemos e anunciemos a salvação de Deus em nós, nos nossos familiares, na vida da Igreja e do mundo. “O Pai nos deu a conhecer o Seu Filho unigênito, a Sua Palavra, Palavra de Salvação!” (Jo 1,18). Se continuamos caminhando no desejo de realmente conhecer quem é Jesus, então tudo está valendo a pena e a luz vai cada dia encontrando espaço em nós. 

Um santo ano de 2012 para todos os amigos e amigas deste Blog. Que Nossa Senhora, a “Theotokos” (Mãe de Deus) e seu castíssimo esposo São José, intercedam por nós. Obrigado!

Antonio Marcos 

2011-12-27

Para quem está em Deus, absolutamente nada se perde

A Igreja celebra neste dia de natal a Festa Litúrgica do evangelista São João (Palestina, século I), o “discípulo predileto”, aquele que escutou os segredos de Jesus pelo reclinar da sua cabeça sobre o peito do mestre, e foi um dos primeiros a segui-Lo. João, pela amizade íntima com o Senhor, deixou-nos um evangelho que penetra profundamente no mistério do Verbo encarnado. Também se dedica a ele, ou à sua Comunidade de seguidores de Cristo, as três cartas Joaninas, por sua vez de riquíssima teologia sobre o amor a Deus e ao próximo, através da simbologia da luz e das trevas: se não amo o meu irmão permaneço nas trevas! 

João gosta muito da simbologia da luz, não por acaso, mas porque “Deus é Luz e nele não há treva alguma” (1Jo 1,5). Assim, devemos abandonar as trevas do pecado e do desamor aos irmãos para verdadeiramente estarmos na luz. Afinal, este é o Natal que celebramos: Deus comunica a nós a luz da sua verdade. A luz nos faz ver melhor a realidade, que fica para nós mais nítida. 

Mas é bem verdade que estamos sujeitos a perder a direção, a perder a luz que guia os nossos passos. Queremos acertar, melhorar, queremos ter Deus, queremos a conversão, mas erramos a direção, mudamos de caminho, erramos na busca dos valores, e o pecado é, de fato, um “errar o alvo” da santidade com consequências concretas e dolorosas. E este pecado pode vir do mau uso deliberado de minha liberdade, de uma tentação do demônio ou das sutis enganações do mundo. Somente a Luz de Jesus, nascida para nós no Natal, pode nos devolver a claridade do caminho, da consciência e do coração. Somente esta Luz pode nos fazer amar de verdade e sem falsidade a Deus, a nós mesmos e ao próximo.

É tempo de Natal, tempo de “retorno”, como nos falava Dom José Antônio (Arcebispo de Fortaleza), na homilia da Missa da Noite de Natal, 24 de dezembro. Retornar é iniciar um caminho de mudança de vida, seja lá onde estejamos. Queiramos melhorar, apesar de nossas fraquezas, pois a misericórdia de Deus nos alcançou, a nossa miséria foi atraída à misericórdia, eis o mistério daquela gruta de Belém, mistério de fé que se atualiza no hoje da história e da nossa própria vida. É fato que há vidas que melhoram e há vidas que pioram, mas façamos a nossa parte, ainda que as circunstâncias sejam desfavoráveis. Tenhamos a certeza absoluta de que, para quem está em Deus, absolutamente nada se perde, tudo colabora para a obra de salvação em nossas vidas, sejam as alegrias, as dores e o sofrimento, ganhos e perdas incalculáveis, pois de tudo Deus tira um bem maior. O Menino-Deus que acaba de nascer é a nossa luz, nossa salvação, por isso deixemos que ela ilumine as nossas trevas e nos "leve de volta".

São João Evangelista, interceda por nós! Amém.
Antonio Marcos

Descer do cavalo da nossa “razão iluminada”


Francisco fazia celebrar a santíssima Eucaristia, sobre a manjedoura que estava colocada entre o boi e o jumento (cf. 1 Celano, 85: Fontes, 469). Depois, sobre esta manjedoura, construiu-se um altar para que, onde outrora os animais comeram o feno, os homens pudessem agora receber, para a salvação da alma e do corpo, a carne do Cordeiro imaculado – Jesus Cristo –, como narra Celano (cf. 1 Celano, 87: Fontes, 471). Na Noite santa de Greccio, Francisco – como diácono que era – cantara, pessoalmente e com voz sonora, o Evangelho do Natal. E toda a celebração parecia uma exultação contínua de alegria, graças aos magníficos cânticos natalícios dos Frades (cf.1 Celano, 85 e 86: Fontes, 469 e 470). Era precisamente o encontro com a humildade de Deus que se transformava em júbilo: a sua bondade gera a verdadeira festa.

Hoje, quem entra na igreja da Natividade de Jesus em Belém dá-se conta de que o portal de outrora com cinco metros e meio de altura, por onde entravam no edifício os imperadores e os califas, foi em grande parte tapado, tendo ficado apenas uma entrada com metro e meio de altura. Provavelmente isso foi feito com a intenção de proteger melhor a igreja contra eventuais assaltos, mas sobretudo para evitar que se entrasse a cavalo na casa de Deus. Quem deseja entrar no lugar do nascimento de Jesus deve inclinar-se. Parece-me que nisto se encerra uma verdade mais profunda, pela qual nos queremos deixar tocar nesta noite santa: se quisermos encontrar Deus manifestado como menino, então devemos descer do cavalo da nossa razão “iluminada”. Devemos depor as nossas falsas certezas, a nossa soberba intelectual, que nos impede de perceber a proximidade de Deus. Devemos seguir o caminho interior de São Francisco: o caminho rumo àquela extrema simplicidade exterior e interior que torna o coração capaz de ver. Devemos inclinar-nos, caminhar espiritualmente por assim dizer a pé, para podermos entrar pelo portal da fé e encontrar o Deus que é diverso dos nossos preconceitos e das nossas opiniões: o Deus que Se esconde na humildade dum menino acabado de nascer.

Fonte: Trecho da Homilia de Bento XVI da noite de Natal, 25 de dezembro. Publicado no ZENIT.org 

Jesus é a prova: Deus escutou nosso grito!


Sua Santidade, Bento XVI – Mensagem natalícia "Urbi et Orbi"

Cristo nasceu para nós! Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado: a todos chegue o eco deste anúncio de Belém, que a Igreja Católica faz ressoar por todos os continentes, sem olhar a fronteiras nacionais, linguísticas e culturais. O Filho de Maria Virgem nasceu para todos; é o Salvador de todos.

Numa antífona litúrgica antiga, Ele é invocado assim: “Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança e salvação dos povos! Vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus”. Veni ad salvandum nos! Vinde salvar-nos! Tal é o grito do homem de todo e qualquer tempo que, sozinho, se sente incapaz de superar dificuldades e perigos. Precisa colocar a sua mão numa mão maior e mais forte, uma mão do Alto que se estenda para ele. Amados irmãos e irmãs, esta mão é Cristo, nascido em Belém da Virgem Maria. Ele é a mão que Deus estendeu à humanidade, para fazê-la sair das areias movediças do pecado e segurá-la de pé sobre a rocha, a rocha firme da sua Verdade e do seu Amor (cf. Sl 40, 3).

E é isto mesmo o que significa o nome daquele Menino (o nome que, por vontade de Deus, Lhe deram Maria e José): chama-se Jesus, que significa “Salvador” (cf. Mt 1, 21; Lc 1, 31). Ele foi enviado por Deus Pai, para nos salvar sobretudo do mal mais profundo que está radicado no homem e na história: o mal que é a separação de Deus, o orgulho presunçoso do homem fazer como lhe apetece, de fazer concorrência a Deus e substituir-se a Ele, de decidir o que é bem e o que é mal, de ser o senhor da vida e da morte (cf. Gn 3, 1-7). Este é o grande mal, o grande pecado, do qual nós, homens, não nos podemos salvar senão confiando-nos à ajuda de Deus, senão gritando por Ele: “Veni ad salvadum nos – Vinde salvar-nos!”

O próprio fato de elevarmos ao Céu esta imploração já nos coloca na justa condição, já nos coloca na verdade do que somos nós mesmos: realmente nós somos aqueles que gritaram por Deus e foram salvos (cf. Est (em grego) 10, 3f). Deus é o Salvador, nós aqueles que se encontram em perigo. Ele é o médico, nós os doentes. O fato de reconhecer isto mesmo é o primeiro passo para a salvação, para a saída do labirinto onde nós mesmos, com o nosso orgulho, nos encerramos. Levantar os olhos para o Céu, estender as mãos e implorar ajuda é o caminho de saída, contanto que haja Alguém que escute e possa vir em nosso socorro.

Jesus Cristo é a prova de que Deus escutou o nosso grito. E não só! Deus nutre por nós um amor tão forte que não pôde permanecer em Si mesmo, mas teve de sair de Si mesmo e vir ter conosco, partilhando até ao fundo a nossa condição (cf. Ex 3, 7-12). A resposta que Deus deu, em Cristo, ao grito do homem, supera infinitamente as nossas expectativas, chegando a uma solidariedade tal que não pode ser simplesmente humana, mas divina. Só o Deus que é amor e o amor que é Deus podia escolher salvar-nos através deste caminho, que é certamente o mais longo, mas é aquele que respeita a verdade d’Ele e nossa: o caminho da reconciliação, do diálogo e da colaboração.

Fonte: Trecho da Mensagem natalícia "Urbi et Orbi", 25 de dezembro de 2011. Publicado no ZENIT.org

2011-12-24

Que o amor, atrofiado pelo não manifestar, volte a existir


Artigo de Ana Mary C. Cavalcante, Jornalista 

O homem tem acreditado menos. Tem perdido a imaginação da infância sobre anjos e céu, tem desistido mais cedo do amor, tem negado mais o perdão. Mas não é culpa do tempo, que parece envelhecer o homem. É porque o homem tem buscado mais explicação do que sentimento. Tem buscado de fora de si o que é próprio do ser.

O homem tem aprisionado a esperança na palavra. Tem questionado a própria fé. Tem desaprendido o abraço e se desacostumado da gentileza. E, antes que o homem se perca nesse desmundo, é urgente tomar o homem pela mão. A união é o sonho mais sonhado pelo tempo. É a canção do dia seguinte, é a oração da distância.

Que se somem as diferenças, em 2012, para que a humanidade se torne maior. Que se aproxime mais do que tem. Que se façam as pazes com o próximo e com o mais distante. Que se façam as pazes com o acreditar. E que se juntem as crenças. Que os direitos não sejam luta, mas paz. E que o respeito enriqueça os aprendizados. 

Que o amor, esquecido pelo não dizer, atrofiado pelo não manifestar, volte a existir. Como mandamento, ou como poesia, e principalmente como vida real. E que o amor seja mais forte do que a guerra. Ainda que seja uma outra vez uma utopia, mas que seja. Porque, como reconhece o escritor Viniciuis de Moraes, para isso fomos feitos: para a esperança no milagre. 

Fonte: Publicado no encarte como mensagem aos leitores do Jornal O Povo (“Prece do Povo”), Fortaleza, 24 de dezembro de 2011.

Natal todo dia: oração da caridade


Artigo de João Eudes Costa

Há séculos, a data de 25 de dezembro, quando comemoramos o nascimento de Jesus, sofre contestação, talvez pelo fato de o evangelho não indicar dia nem mês do Natal de Cristo.

Registros enciclopédicos informam que a data de 25 de dezembro foi fixada a fim de cristianizar grandes festas pagãs, que celebravam o nascimento do “Vitorioso Sol” no tradicional culto solar. O objetivo era oferecer sacrifício e suplicar pelo retorno da luz, porque as noites, naquela época do ano, eram mais longas e muito frias.

Passaram então a comemorar o nascimento de Jesus em 25 de dezembro no calendário Juliano e em 6 de janeiro no egípcio, porque, neste dia, celebrava-se o aniversário do “Sol Invencível”. Era tal a importância da estrela solar, que, em 274, o imperador Aureliano proclamou o “Deus do Sol” como padroeiro do Império. Todas as divergências tornam-se insignificantes se, a 25 de dezembro ou em outra qualquer data, tivermos o propósito de comemorar o nascimento de Jesus imbuídos do verdadeiro espírito cristão. Esta noite de Natal com certeza, não será diferente das anteriores. Pouco a pouco o importante evento da cristandade está voltando às comemorações milenárias das festas pagãs, quando não era o Cristo o centro das festividades.

Como comemorar o verdadeiro Natal de Jesus, se o aniversariante está cada vez mais ausente das festividades? Como festejar o natalício de alguém se não permitimos a sua presença? Não será porque a sua humildade conflita com a opulência do seleto evento? O teólogo grego Orígenes, no ano de 245, já repudiava a maneira de se comemorar o nascimento de Cristo com as pompas de um Faraó.

O Natal que agrada Jesus deve ser um encontro de confraternização, onde não se faça restrições de qualquer espécie. Como, então, alegrar o aniversariante que foi exemplo de humildade, fechando as portas, impedindo a participação dos pobres, excluídos pela impossibilidade de cooperar com os altos custos do evento e sem recursos para oferecer um presente para enfeitar as ricas árvores de Natal? Como alegrar Jesus se esbanjamos em fartas mesas alimento cujo desperdício daria para saciar a fome de muitas famílias?

Com que direito os oradores, na noite de Natal, em seus eloquentes discursos, confessam-se emocionados com a angústia da Sagrada Família, que não encontrou nenhuma porta aberta que acolhesse Maria portando, no ventre, o Salvador do mundo, se agora, as portas fechadas impedem a entrada de Jesus em sua festa? A troca de presentes entre os que festejam o Natal, não rememora a atitude dos astrólogos do Oriente, que levaram presente ao Deus Menino a quem queriam homenagear, pois não trocaram presentes entre si.

Será que nas comemorações natalinas alguém se lembra de oferecer presente ao aniversariante? Não é preciso que seja valiosa joia de ouro ou prata e sim coisas simples, embora de grande valia para Jesus, que sorri ao receber corações que, em todos os dias do ano, praticaram a oração da caridade, conjugando o verbo amar e acolheram com afeto os pobres e desamparados.

Não magoamos as chagas de Cristo porque ao receber tão valorosos presentes, Ele constata que não foi em vão o seu sacrifício, oferecendo a própria vida para nos livrar da impura ambição, da repudiada vingança e do desamor que acende, no mundo, a fogueira da maldade, que fomenta as sangrentas lutas fratricidas. Neste Natal, vamos convidar Jesus para a sua festa, para cantar, ao nosso lado: Noite Feliz.

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Jornal do Leitor - "Deixe Jesus adentrar na sua festa de Natal"), Fortaleza, 24 de dezembro de 2011.