A fé é o antídoto para o crepúsculo dos valores

Escrito Por Antonio Marcos na terça-feira, dezembro 28, 2010 Sem Comentários

Sempre se considerou que as mudanças de época foram necessárias, ainda que muitas delas impactantes e responsáveis por consequências nem sempre agradáveis, sejam elas de natureza social, moral ou religiosa. Na verdade é o que a Filosofia da Ciência veio a chamar de mudança de paradigmas. Por paradigma se entende “toda e qualquer estrutura de pensamento que gera uma visão de mundo”, afirma Carlos Ciorelli, conferencista sobre assuntos ligados à CNBB. 
Quando o paradigma é substituído por outro, consequentemente a visão de mundo é alterada. Acontece que os antropólogos, os cientistas que estudam o comportamento social e os especialistas de outras áreas humanas, ajudam-nos a compreender que vivemos em nossos dias muito mais que uma mudança de paradigma, mas uma “crise civilizatória”, ou seja, mais que uma mudança de época, uma mudança radical de valores. A civilização dos valores não comporta apenas uma falta de “hierarquização dos mesmos”, mas, sobretudo, substitui-se o conceito e a prática do valor por um permissivismo de atitudes e um relativismo na maneira de se pensar o que seja ético, moral, religioso, sagrado etc.  
A grande preocupação é exatamente a constatação de que essa mudança de época não está levando a uma outra “ontologia”. A base dos valores, do que é bom, do que visa o bem comum e a felicidade é modificada e até violentada, mas que não se leva a algo que esteja sendo construído. Destrói-se o belo em promessa de uma caricatura do mesmo. Parece que caminhamos para o nada, e este nada angustia o homem. Assim se fala de uma “urgente travessia da humanidade”, pra não dizer, travessia pessoal onde cada um precisa passar pela ponte do recomeço, por mais perigosa que seja. No entanto, esse não é o problema, o problema é exatamente o desânimo e a falta de esperança que podemos encontrar em nós e nas outras pessoas, inclusive nas de consciências lúcidas e intenções retas.
O Papa Bento XVI (no Discurso aos membros da Cúria Romana, dez. / 2010) fez também esta reflexão salutar sobre essa crise geradora de angústias profundas na vida do homem que crê e que o tenta ao desânimo da fé: “O mundo, com todas as suas novas esperanças e possibilidades, sente-se ao mesmo tempo angustiado com a impressão de que o consenso moral esteja a dissolver, um consenso sem o qual as estruturas jurídicas e políticas não funcionam; consequentemente, as forças mobilizadas para a defesa de tais estruturas parecem destinadas ao insucesso”.
A resposta do santo padre é simples, na verdade, é a Palavra de Deus que o ilumina: “Os discípulos dirigem um brado ao Senhor, que estava a dormir na barca, a qual se encontrava fustigada pela tempestade e quase a afundar. Quando a potente palavra de Jesus aplacou a tempestade Ele censurou os discípulos pela sua pouca fé (cf. Mt 8,26/paralelos). Queria dizer: em vós mesmos adormeceu a fé. E o mesmo nos quer dizer a nós; também em nós, muitíssimas vezes, a fé dorme. Por isso peçamos-Lhe que nos acorde do sono de uma fé que se sente cansada e restitua à fé o poder de mover os montes, isto é, de conferir a ordem justa às coisas do mundo”.
Vemos como é importante a fé, que não é uma fuga como se pensava a “Filosofia da Suspeita”, mas o antídoto para esta crise civilizatória, para o crepúsculo dos valores. A fé viva, livre, sadia e operante é capaz de comunicar esperança e alegria, estimular a prática do bem, denunciar o mal e promover a cultura de paz e a construção do Reino de Deus. Não desanimar na fé não é somente uma questão de salvação pessoal, mas de garantir luz na consciência deste mundo que se acostuma gradativamente com o ocaso dos valores. E o que é esta fé? Responde Bento XVI: “Não é ela uma realidade do passado, mas um encontro com o Deus que vive e atua agora. Ele chama-nos em causa e opõe-se à nossa preguiça, mas é precisamente assim que nos abre a estrada para a verdadeira alegria”.
Antonio Marcos