A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2010-12-31

Marilson dos Santos..., é Brasil!


Quis escolher para o meu último artigo de 2010 este nome: “Marilson dos Santos..., é Brasil!” O motivo provém do fato de que este é o nome de um dos maiores atletas corredores do Brasil, orgulho para a nossa nação. Nas provas internacionais costuma ser identificado por “Gomes”, das quais ele tem resultados memoráveis. Com este nome Marilson se tornou Bi-campeão da Maratona mais importante do mundo (o sonho de todo corredor elite), Nova York, 2006 e 2008. Neste ano que termina, 2010, ele foi o 7º colocado geral, o que não correspondeu às suas expectativas, pois buscava o Tri-campeonato.
Marilson dos Santos é um dos 3 únicos atletas no mundo que hoje tem condições de acompanhar o ritmo e vencer os atletas Quenianos, os mais velozes nas corridas de longa distância. Marilson era Bi-campeão da corrida mais importante do Brasil, a São Silvestre (realizada sempre no dia 31 de dezembro, 15 km), títulos de 2003 e 2005. Depois da última vitória nunca mais havia corrido esta prova porque sempre no final do ano estava se recuperando das competições internacionais. Neste ano, para a nossa alegria, foi diferente! Depois do resultado da Maratona de Nova York, Marilson buscou sua recuperação e decidiu buscar o Tri-campeonato da São Silvestre.
Maravilhosa foi a Corrida Internacional de São Silvestre, 2010! Marilson impôs o ritmo a partir do km 8 e a liderou até o linha de chegada. Deixou para trás os Quenianos, inclusive o campeão da prova em 2009, James Kipsang, e foi aplaudido por milhares de brasileiros, especialmente nas duas últimas avenidas que decidem a prova: Brigadeiro Luiz Antônio e Paulista. Na entrevista depois da competição afirmou: “Achei que a corrida seria decidida nos quilômetros finais, mas assumi a liderança bem mais cedo e me alegro por ter conseguido a vitória!”
Eu também aplaudi daqui do Ceará o meu atleta mais querido, Marilson. Sempre me emocionei com suas competições, e esta não foi diferente. Ele dedicou o Tri-campeonato ao Brasil e ao seu primeiro filho que nascerá daqui a 30 dias. Por causa da 7ª colocação na Maratona de Nova York, talvez um fracasso diante do seu planejamento, Marilson não era visto pela imprensa brasileira com favorito ao título da São Silvestre em 2010. No entanto, ele se superou e mostrou que o fracasso pode ser ponte para o sucesso. Marilson dos Santos cruzou a linha de chegada da 86ª edição da São Silvestre em 1º lugar, no tempo de 44, 03s52. Parabéns Marilson! Muito feliz por você! A forma como superas os fracassos e desafios me impressionam e me levam a creditar que o recomeço é sempre possível. Marilson dos Santos..., é Brasil! Este resultado me trouxe uma feliz mensagem como conclusão deste ano e a dedico a todos.    
Santo ano de 2011 para os meus leitores, seguidores do Blog e do Twitter! Obrigado por tudo! Acreditem sempre que o fracasso pode ser ponte para o recomeço feliz!
Antonio Marcos 

2010-12-28

A fé é o antídoto para o crepúsculo dos valores


Sempre se considerou que as mudanças de época foram necessárias, ainda que muitas delas impactantes e responsáveis por consequências nem sempre agradáveis, sejam elas de natureza social, moral ou religiosa. Na verdade é o que a Filosofia da Ciência veio a chamar de mudança de paradigmas. Por paradigma se entende “toda e qualquer estrutura de pensamento que gera uma visão de mundo”, afirma Carlos Ciorelli, conferencista sobre assuntos ligados à CNBB. 
Quando o paradigma é substituído por outro, consequentemente a visão de mundo é alterada. Acontece que os antropólogos, os cientistas que estudam o comportamento social e os especialistas de outras áreas humanas, ajudam-nos a compreender que vivemos em nossos dias muito mais que uma mudança de paradigma, mas uma “crise civilizatória”, ou seja, mais que uma mudança de época, uma mudança radical de valores. A civilização dos valores não comporta apenas uma falta de “hierarquização dos mesmos”, mas, sobretudo, substitui-se o conceito e a prática do valor por um permissivismo de atitudes e um relativismo na maneira de se pensar o que seja ético, moral, religioso, sagrado etc.  
A grande preocupação é exatamente a constatação de que essa mudança de época não está levando a uma outra “ontologia”. A base dos valores, do que é bom, do que visa o bem comum e a felicidade é modificada e até violentada, mas que não se leva a algo que esteja sendo construído. Destrói-se o belo em promessa de uma caricatura do mesmo. Parece que caminhamos para o nada, e este nada angustia o homem. Assim se fala de uma “urgente travessia da humanidade”, pra não dizer, travessia pessoal onde cada um precisa passar pela ponte do recomeço, por mais perigosa que seja. No entanto, esse não é o problema, o problema é exatamente o desânimo e a falta de esperança que podemos encontrar em nós e nas outras pessoas, inclusive nas de consciências lúcidas e intenções retas.
O Papa Bento XVI (no Discurso aos membros da Cúria Romana, dez. / 2010) fez também esta reflexão salutar sobre essa crise geradora de angústias profundas na vida do homem que crê e que o tenta ao desânimo da fé: “O mundo, com todas as suas novas esperanças e possibilidades, sente-se ao mesmo tempo angustiado com a impressão de que o consenso moral esteja a dissolver, um consenso sem o qual as estruturas jurídicas e políticas não funcionam; consequentemente, as forças mobilizadas para a defesa de tais estruturas parecem destinadas ao insucesso”.
A resposta do santo padre é simples, na verdade, é a Palavra de Deus que o ilumina: “Os discípulos dirigem um brado ao Senhor, que estava a dormir na barca, a qual se encontrava fustigada pela tempestade e quase a afundar. Quando a potente palavra de Jesus aplacou a tempestade Ele censurou os discípulos pela sua pouca fé (cf. Mt 8,26/paralelos). Queria dizer: em vós mesmos adormeceu a fé. E o mesmo nos quer dizer a nós; também em nós, muitíssimas vezes, a fé dorme. Por isso peçamos-Lhe que nos acorde do sono de uma fé que se sente cansada e restitua à fé o poder de mover os montes, isto é, de conferir a ordem justa às coisas do mundo”.
Vemos como é importante a fé, que não é uma fuga como se pensava a “Filosofia da Suspeita”, mas o antídoto para esta crise civilizatória, para o crepúsculo dos valores. A fé viva, livre, sadia e operante é capaz de comunicar esperança e alegria, estimular a prática do bem, denunciar o mal e promover a cultura de paz e a construção do Reino de Deus. Não desanimar na fé não é somente uma questão de salvação pessoal, mas de garantir luz na consciência deste mundo que se acostuma gradativamente com o ocaso dos valores. E o que é esta fé? Responde Bento XVI: “Não é ela uma realidade do passado, mas um encontro com o Deus que vive e atua agora. Ele chama-nos em causa e opõe-se à nossa preguiça, mas é precisamente assim que nos abre a estrada para a verdadeira alegria”.
Antonio Marcos

2010-12-27

Testemunhar com a vida o que os lábios professam!


A Igreja celebra na “Oitava do Natal” a festa do martírio dos Santos Inocentes. Conforme está narrado no Evangelho de São Mateus 2, 13-18, trata-se das crianças do sexo masculino, com idade até dois anos, mortas pelos soldados romanos a mando do tirano governador Herodes, em Belém (Judéia). 
Esta covarde e cruel atitude deveu-se ao fato de Herodes ter se sentido traído pelos Magos que foram ver o Menino e voltaram por outro caminho, não lhe indicando o lugar, pois o mesmo tinha intenção de destruir o Menino e não de adorá-Lo. Inocentes e já mártires porque, além de indefesas, foram mortas por causa de Jesus, o Pequeno Menino-Deus, que com o seu nascimento pôs toda a corte herodiana em desespero. “Clama, louco, ao ouvir a mensagem: Eis às portas o meu sucessor que me expulsa! Depressa, soldados, cobre os berços de sangue e de dor” (LH, Hino das Laudes). Para não ter o poder desafiado estava disposto a matar o Messias custasse qualquer coisa. Parece que a história se repete aos nossos tempos.
O “Canto do Akathistos” (rezado durante os dias do Advento) já faz menção à dureza do coração de “Herodes, o estulto, incapaz de cantar: aleluia!”. Meditando sobre este acontecimento logo se percebe que é atual o medo que tem os poderosos dos  pequeninos. Não somente os pobres incomodam, mas, especialmente, os indefesos nascituros, os que desejam simplesmente nascer. Vemos dolorosamente a morte dos inocentes se repetir nos laboratórios de manipulação irresponsável da vida e nas clínicas abortistas. Não se nega que a morte dos inocentes se repete através dos que são deixados à margem da sociedade e do progresso, dos que são vítimas da violência infantil, da pedofilia e da prostituição. Também a morte dos inocentes se prolonga quando nossas crianças ou mesmo adultos são vítimas do preconceito pela intolerância religiosa, de credo cor e raça.
O martírio pelas palavras e atos é uma necessidade nos dias hodiernos.  Não podemos achar normal o fato de nossos jovens serem violentados na consciência moral e na fé, simplesmente porque querem manifestar os valores cristãos e viverem conforme a mentalidade do Evangelho., por mais desafiante que seja. Hoje, nós que cremos em Jesus e vivemos na fé da Igreja, precisamos pedir com fé e coragem: “Dai-nos também, Senhor, testemunhar com a nossa vida o que os nossos lábios professam” (Oração Laudes). Não repitamos a loucura de Herodes, embora vejamo-la em tantas atitudes que nos cercam ou nos atingem. O choro nos corredores de Belém pode ser o nosso se nos omitimos na defesa da vida inocente. Deus nos conceda a graça e a têmpera dos mártires. Que as palavras se transformem em vida!
Santos inocentes, intercedam por nós!
Antonio Marcos

2010-12-24

Ele traz a alegria, Ele é o amor...


Certamente quem conhece e já cantou as canções do Cd “É Natal” (Com. Shalom), é testemunha da beleza, da unção e das maravilhas que operam dentro de nós, especialmente no tempo do Natal. Uma das mais lindas é mesmo esta que aqui disponho: “É Natal, noite de alegria, há um coro cheio de harmonia: São os anjos lá no céu anunciando o amor de Deus. Glória a Jesus, Deus Menino, que do céu vem pra nos salvar. Ele traz a alegria, Ele é o amor, Ele veio de Maria, Ele é o Salvador. É Natal do Senhor, vamos juntos adorar e com os anjos cantar, é Natal, é Natal do Senhor!”
Embora esta noite não tenha o mesmo significado para tanta gente porque a sua essência se manifesta no coração e muitos corações ficam tristes nesta noite por diversas razões, especialmente a solidão e a ausência do sentido de vida, não esqueçamos que é a noite da alegria por excelência, alegria incomensurável. E Nós que cremos a celebramos com a Igreja, porque o anjo foi àquela pequena comunidade de pastores e lhes anunciou: “Não temais! Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi” (Lc 2,10-11).  
O amor foi anunciado aos corações naquela noite gelada, escura, de sentinela..., “Não temais!" É Natal, é noite de alegria, nasceu o Salvador. Corram pressurosos porque é Ele que traz a alegria, Ele é o amor, nasceu de Maria e é Aquele que salva a todos, os próximos e os distantes, os que dançam e celebram nesta noite e os que se encontram na escuridão e no frio. Muitos contemporâneos nossos olham para a alegria cristã e se inquietam porque percebem que a nossa alegria emana do presépio e por isso desejam, de alguma forma, o que enche o nosso natal de sentido. Como afirmou o Santo Padre Bento XVI, de fato acontece: “o presépio ainda nos surpreende e devemos atrair outros para ele!” É Natal do Senhor! O sentido desta noite é Jesus, porque ele traz a verdadeira alegria, ele é o amor.
Feliz Natal aos meus leitores, seguidores do Blog e do Twitter. Vamos juntos adorar, é Natal do Senhor!
Antonio Marcos

2010-12-22

O Menino nascerá!


Tenho imaginado o desenrolar da família de Nazaré, por ocasião da saída para ir à Galiléia fazer o recenseamento por ordem do edito de César Augusto (cf. Lc 2,1-7), e suponho que poderíamos pensar que se tratava de um “acidente histórico”, ou seja, ter que se levar uma pessoa grávida e já perto de dar à luz ao seu filho nas péssimas condições de transporte e nos perigos das estradas, para uma região distante. Mas eles se submeteram às ordens políticas e, creio firmemente, também nesta ocasião guardavam confiantes as profecias de Deus.
Desinstalar-se quando temos todos os motivos para ficar na condição em que nos encontramos e até confortavelmente, não é fácil. No caso da família de Nazaré também não se tratava de um “acidente”, mas de uma providência. É acerca de Belém que as profecias falavam do nascimento do Messias. Deus sabe nos conduzir ao lugar para o qual seremos verdadeiramente felizes e instrumento de salvação para os outros, mesmo que “a nossa saída pareça um desastre e coloque em risco o que temos de melhor”. Não seria a mudança de lugar ou o percurso que mataria o Menino. O que sempre aniquila é a falta de fé! A desinstalação estava dentro de um projeto que se estendia além da compreensão humana e da percepção dos pais, ainda que o sacrifício, a renúncia e as dores tenham feito parte do processo.
É profunda e rica a teologia bíblica do Natal, a liturgia e sua simbologia, porque nos introduzem na realidade da salvação e operam em nós o que chamo de “hermenêutica do desígnio divino”, ou seja, o que celebramos pela fé no Natal é também o contexto de nossas vidas. Jesus verdadeiramente nasceu uma única vez e esse nascimento nos é atualizado pela graça em cada Natal. Também nós nascemos com Ele quando a fé vai além e não nos deixa que sejamos vencidos pelo que parece desastre nas nossas vidas. Tão bem diz Moysés Azevedo, fazendo suas as palavras de Bento XVI: “Deus está no comando!” Vai José e leva Maria, o Menino nascerá!
Antonio Marcos

2010-12-21

Ana e Maria: cânticos da salvação!


Temos visto em nossos dias o reflorescimento da arte da música bela e ungida, especialmente católica. Novos artistas levam aos corações a alegria da salvação cantada. São belíssimas as canções e com letras que traduzem ou, melhor, aproximam de nós as páginas do Evangelho. Um exemplo concreto, para apenas ilustrar dois, foram os CDs do Missionário Shalom e David Silva (ambos da Comunidade Católica Shalom), lançados neste ano. Mas, claro, muitos outros trabalhos de nossos artistas católicos, lançados pelo Brasil em 2010, são dignos de elogio.
Rezando com o cântico de Ana (mãe de Samuel), conforme ISm  2,1.4-8, e o cântico Magnificat de Maria, (mãe de Jesus), conforme Lc 1,46-56, pude contemplar a ação de Deus nessas duas mulheres e, consequentemente, no Povo de Deus. Então fiquei pensando no canto pessoal acerca da ação de Deus nas nossas vidas, já que é “Ele quem levanta do pó o fraco e do monturo o indigente, para os fazer assentar-se com os nobres e colocá-los num lugar de honra”.
Passamos parte do nosso tempo cantando as belas canções católicas que elevam o nosso espírito e nos aproximam de Deus. No entanto, a exemplo de Ana e de Maria, que a nossa vida expresse também um canto de salvação e de gratidão por todas as maravilhas de Deus. E para isso não precisamos ser profissionais, apenas gratos, “porque a misericórdia de Deus perdura de geração em geração, para aqueles que o temem”. Obrigado, Senhor, eu também canto as tuas maravilhas na minha vida neste ano. Canto a salvação!
Antonio Marcos

2010-12-20

É neste Natal que acredito!


Os dias que antecedem o Natal do Senhor, nesta 4ª semana do advento, são para os cristãos dias intensos de preparação e expectativa. Expectativa, sobretudo, do novo que vai atualizar-se pelo mistério da graça, ou seja, o nascimento do Menino-Deus. Como parte e fruto dessa alegria maior estão os eventos humanos, as celebrações e os gestos constitutivos também do espírito natalino, especialmente a fraternidade e solidariedade.
Pode ser que neste tempo o que lemos sobre o natal nos sobrecarregue pela forte ênfase em apresentar apenas o seu lado negativo, ou seja, a beleza dos adornos e a ausência de sentido de vida, o consumismo e até uma superficial manifestação da solidariedade. Fala-se que esse espírito solidário na maioria das pessoas é apenas uma máscara do momento. Passado o tempo do Natal voltamos para os nossos casulos e práticas egoístas. Há uma parcela significativa de verdade nesta visão, mas há também que considerar que, graças a Deus, não é a parcela maior.
O Natal não revela apenas as máscaras pessoais e coletivas, seria uma visão pessimista demais. O Natal põe em evidência, testemunha aos olhos, ao coração e à consciência humana o que acontece dentro de muitas pessoas durante todo o ano, mas que, devido estarmos tão acostumados com a promoção do que é ruim e a observar demais as fraquezas nossas e dos outros, acabamos nos distraindo e não percebemos os que praticam o bem e vivem o Natal de cada dia, que vivem um “processo de gestação e nascimento do Menino-Deus”, que portam e exercitam o anúncio de uma “Boa Notícia” e, detalhe, são pessoas tão perto de nós, ou são ações coletivas não distantes. Creio que queremos ser bons, queremos amar, acertar, queremos a paz, o perdão, não obstante nossas fraquezas e pecados. Também perto de nós estão os que não desistem de recomeçar!  
Fascinante e significativas para a nossa reflexão são as palavras do anjo Gabriel a Maria, por ocasião do que Deus lhe pedia: “Não temas, Maria! Encontraste graça junto de Deus. Conceberás no teu seio e darás à luz um filho, Jesus”. Diante da pergunta de como se daria, respondeu-lhe o anjo: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra. (...) Para Deus, com efeito, nada é impossível” (cf. Lc 1,26-37). Palavras de alcance e sentido infinitos, de consolo e direção para qualquer realidade humana. É o Espírito Santo o grande artífice desta semana, porque aí onde ele atua acontece o possível diante da impossibilidade. A ação de Deus é capaz de confundir todos os cálculos humanos, as previsões egoístas e desfazer as ciladas do mal.
Faz-se necessário que nós que cremos saibamos externar o que, se supõe, venha sendo processado no coração e na alma durante todo o ano: a vida de Deus, a ação da graça em nós, a esperança renovada e a alegria de termos o que celebrar e anunciar, quer diariamente, quer no tempo do Natal, apesar das nossas trevas. E o que realiza isso em nós é a ação do Espírito Santo. E pergunto: abrir-se a essa ação, manter-se nela e testemunhá-la não seria o nosso milagre, a possibilidade frente às tantas impossibilidades que tentam nos sucumbir? Sim! Eu acredito! Então o Natal deve nos fazer olhar para dentro das pessoas com esperança de que também elas sejam impactadas pelo novo que Deus é capaz de fazer, ainda que estejam distraídas com os adornos e que lhes falte o verdadeiro sentido do Natal. Aliás, o Natal não é a luz que brilha nas trevas? Esta é uma verdade salvífica que faz com que o meu pessimismo dê lugar à fé e à esperança em mim, nos outros e no mundo! É neste Natal que acredito!
Antonio Marcos

2010-12-19

Na experiência humana tudo pode servir ao crescimento pessoal

Embora seja o Domingo o dia da alegria por excelência, quis aqui publicar este artigo por causa da sua mensagem bastante significativa, ainda que o assunto seja tristeza. Na verdade, este texto me causou uma grande alegria porque, de fato, minha alegria neste tempo perpassa a prova porque trago a certeza indubitável de que Deus faz tudo concorrer para o bem dos que O amam.

Zenilce Vieira Bruno - Psicóloga, pedagoga e sexóloga

A ideia absorvida é a de que tristeza não serve para nada, só atrapalha, faz mal, incomoda. Por isso tem mais é que ser banida, negada, abafada. Mas a vida é o palco onde contracenamos alternando alegria e dor. Como a medalha de dupla face, esse é o real da vida, que é bela, apesar de inquietante.

Somos seres maravilhosos, mas também insuficientes. Insuficiência que incomoda, que angustia. Preferimos então viver a ilusão de que somos capazes, suficientes e quem sabe até onipotentes. Preferimos brincar de deuses. Contudo, a intolerância contemporânea à dor e a qualquer tipo de sofrimento distancia-nos cada vez mais de nossa verdade interna. Passamos a privilegiar felicidades irreais que nada preenchem.

Mas servirá a tristeza para algo de bom na experiência humana? Talvez devamos começar nos perguntando: o que sabe a pessoa que não sofreu? Será possível amadurecer sem acolher a cota de tristeza que certos momentos produzem? Será feio permitir-se viver esta tristeza da mesma forma que se vive a alegria?

Se formos honestos podemos reconhecer que é quando estamos recatados, quase tristes, que entramos em contato mais profundo conosco, com a grande emoção, e até com a poética. É o que se observa na expressão de grandes figuras da arte, da literatura, da filosofia: pessoas que fizeram de sua tristeza um lugar criativo e produtivo, e, com isso, deixaram um legado de indiscutível valor para a humanidade.

É desse lugar que fala Sponville em Bom dia, angústia: “a dor e a angústia fazem parte do real, da salvação, e são eternas e verdadeiras, tanto quanto o resto. A sabedoria está na aceitação do real, não em sua negação”.

Vivemos num momento cultural que repudia esse sentimento, que enseja a alegria fácil, que pensa a tristeza como coisa de gente mal sucedida, mal amada. A gente sabe o quanto se engana em relação a isso. Não precisamos temê-la, mas acolhê-la do mesmo modo que acolhemos outras dimensões do viver.

O que deve ser temida é a alegria fácil, enganosa, nada construtiva. Seria importante honrar a verdade existencial de cada momento, compreendendo que não é feio, mas maduro, confrontar-se com a tristeza e poder vivê-la. Somos seres sofrentes e gozantes. Ambas as dimensões procedem da mesma fonte: nossa sensibilidade. Podemos pensar que se “na natureza nada se perde, tudo se transforma”, também na experiência humana tudo pode servir ao crescimento pessoal.

Tenho uma grande amiga que diz que precisamos ter “uma reserva de felicidade”, quando vivenciarmos e sentirmos os momentos felizes devemos armazená-los em nossa mente como uma grande poupança, pois com certeza necessitaremos dela para amenizar a dor de uma tristeza.

Talvez durante nossa vida nos preocupemos pouco com isso e muitas vezes deixemos passar um grande investimento de alegria desses que vai fazer muita falta quando precisarmos de algo bom para lembrar e sentir. Por isso faço minhas as suas palavras e sugiro que no ano novo aproveitemos mais a vida, as pessoas e os momentos felizes nos seus menores e profundos detalhes, sem deixar escapar nada, principalmente a boa risada de quem um dia poderá não estar mais entre nós!

Fonte: Jornal O Povo – Coluna Opinião (Tristeza é coisa feia?), 19 de dezembro de 2010. Contato com a autora: zenilcebruno@uol.com.br

2010-12-18

O teu desejo é a tua oração


Lendo os Santos Padres do deserto – para os quais a solidão é uma conditio sine qua non de uma oração contínua – chamou-me a atenção um episódio pouco conhecido, mas muito significativo.
Conta-se que, um dia, o grande Antão teve uma revelação surpreendente: “Na cidade existe alguém que é semelhante a você: é médico de profissão, doa o seu supérfluo aos necessitados e canta o triságio com os anjos o dia inteiro” (Antão, 1999, p. 88). Como é que este desconhecido médico da Tebaida conseguia praticar uma forma tão elevada de oração? Talvez Agostinho nos dê a chave de leitura por meio da seguinte afirmação: “O teu desejo é a tua oração; se contínuo é o teu desejo, contínua é a tua oração” (Santo Agostinho, [s.d], 37,14;PL 36,404).
Para Agostinho o desejo se identifica com a caridade, e a caridade leva as pessoas a fazerem o bem, de modo que uma maneira para fazer com que a oração seja contínua é fazer o bem – bene agere.
“Quem será capaz de repetir com a língua o dia inteiro os louvores do Senhor? [...] Quem poderá perseverar no louvor a Deus o dia todo? Se quiseres, eu te sugiro um meio com o qual poderás louvar a Deus o dia inteiro. Faze bem tudo aquilo que fazes: eis o meio para louvar sempre” (Santo Agostinho, 34, II, 16l; PL 36,341).
Fonte: Van Thuan, Cardeal. Testemunhas da Esperança (Em contínua oração), 2007.

A felicidade será sempre possível


Nesse mundo de palavras e valores, relações e descobertas, sempre me impressiono com a dramaticidade dos fatos e o mistério de dor e cruz nos corações que, de alguma forma, chegam até nós para que ao menos sejam acolhidos, ouvidos e estimulados à esperança. E do que querem falar? De tantas coisas, mas todas reais, existenciais, conjugadas com suas histórias de vida e comprometidas com o projeto de felicidade que sonharam para si e que ainda se esforçam para acreditarem nele, não obstante as provas e as decepções.
O que quero dizer é que sou sempre tentado a ficar calado quando me falam das dores no matrimônio. Elas são, em algumas experiências, tão cruéis que chegamos a matutar como duas pessoas que se amaram e se prometeram felicidade chegaram a atitudes tão desumanas. Uma amiga me contava em lágrimas no dia de ontem o que está vivendo no seu casamento. Dizia-me ela: “Não sei exatamente o que aconteceu para que sua mudança fosse tão radical, tão digna de ser considerada cruel porque chegou ao ponto do desamor, do desrespeito e do desprezo. Troquei todos os meus ideais pelo meu casamento e sempre amei o meu esposo, mas tenho sido ultrajada. É dolorosa a experiência do fracasso no amor e na família”. Depois que calou ao telefone me pediu orações. Mas enquanto falava eu já rezava e pedia a Deus que consolasse aquele coração que chorava a dor do amor.
Sim, o amor tem a sua dor, não necessariamente a que macula as pessoas, mas a dor que se conjuga com o mistério da cruz de Jesus, pois é n’Ele que reconhecemos o nosso valor e o sonho original de Deus acerca da nossa felicidade. A dor deve ser processada para que as decisões não sejam precipitadas e movidas pela decepção e pela vingança. Desse processo é que se resgata a verdade de que ninguém nasceu para sofrer e para a infelicidade. Daí que todos têm o direito de recomeçar, principalmente quando se precisa partir do resgate da autoestima, da dignidade de filhos de Deus e do sonho de que a felicidade será sempre possível.
Antonio Marcos 

2010-12-16

Os amigos que nos levam para Deus


Conta-se que o papa João Paulo II sempre amou os jovens. Sua amizade para com eles não foi uma conquista apenas do pontificado, mas o fruto de uma vida inteira dedicada ao pastoreio jovem. Eu mesmo testemunho essa verdade em tudo aquilo que li do santo padre, quer nas suas biografias, quer nas obras pessoais.
Das minhas leituras me recordo bem do fato em que o jovem Pe. Karol Woityla, quando precisou comparecer com urgência diante do seu Bispo, na ocasião em que lhe seria comunicado a escolha do Santo Padre para que fosse bispo, encontrava-se acampado com os jovens nos montes da cidade de Cracóvia. O mesmo não gostava de ser interrompido quando se tratava da convivência com os jovens.
A personalidade e o carisma de Karol eram contagiantes. Antes mesmo de ser padre o seu ideal como jovem universitário era se dedicar ao teatro na esperança de manter viva a história e a cultura do seu país, por sua vez ameaçadas pela invasão nazista e ainda por ver os intelectuais e os nobres serem deportados para os campos de concentração. Karol mobilizava os amigos jovens idealistas e se encontravam às escondidas no subsolo da cidade. Foi exatamente nessa experiência que um dia um amigo lhe disse à queima roupa: “Karol, você é um jovem tão entusiasta, tão cheio de vida, por que não vai ser padre?” Esta pergunta perpassou não só o coração de Woityla, mas também o tempo. O fato é que ele nunca havia pensado nessa possibilidade e, embora tivesse reagido com tranquilidade, seu coração e sua alma nunca mais foram os mesmos.
Quando sua vocação já havia se concretizado, Karol chegou a afirmar, fazendo memória à pergunta do amigo: “Não era através do teatro que eu tornaria o mundo melhor, mas sendo padre!” Esta experiência me fez pensar na diferença que faz em nossas vidas os amigos que nos levam para Deus, exatamente quando parecem enxergar o que não vemos. Bendito seja Deus por esse jovem amigo na vida de Karol. Também isto explica o fato de ter João Paulo II insistido tanto para que os jovens falem de Jesus para os outros jovens, falem do tesouro que encontraram, façam perguntas, apresentem a proposta do Evangelho e nunca deixem de fazer um convite, ainda que seja desafiante, pois os jovens gostam de quem lhes apresenta altos ideais.
Antonio Marcos

2010-12-14

Vocação: Deus inspira e pede o que já nos concedeu!


Quando se pensa na realização profissional e afetiva, muitos jovens não têm a oportunidade de também fazerem a si mesmos as perguntas fundamentais: qual o desígnio de Deus para a minha vida? Para que vim a este mundo? Como posso ser realmente feliz e colaborar eficazmente na construção do mundo e na felicidade dos outros?
Infelizmente a obsessão materialista provinda de todos os segmentos da sociedade e a pressão desproporcional dos pais para que os filhos sejam “alguém na vida”, fazem com que muitos nem se quer tenham a oportunidade de se deixarem viver uma experiência religiosa. Já os que são alcançados por outros jovens na evangelização ou por influência da amizade, podem encontrar grandes dificuldades de se firmarem, principalmente quando contrariam a vontade dos pais, geralmente por não viverem uma experiência de fé aberta à possibilidade de um filho missionário, consagrado, padre ou celibatário, ou ainda um matrimônio dentro da perspectiva da vida consagrada.
Quando somos marcados por uma vocação específica na Igreja, a nossa história de vida esconde e revela esse segredo, o coração inquieto dá sinais, a alma se comunica nas nossas entranhas, os fatos, os acontecimentos e as pessoas que cruzam o nosso caminho são indicadores que de que “algo diferente” portamos dentro de nós. O fato maravilhoso e profético é que a Providência de Deus, de alguma forma, cuida de nos alcançar onde quer que estejamos ou façamos, e passe o tempo que passar. No entanto, o plano de Deus nos chegará sempre dentro do mistério da conquista e do convite que pede docilidade e uma livre e generosa resposta. A resposta pede passos na fé, ainda que o medo inicial do desconhecido seja um desafio. 
A verdade sublime é que “a Palavra de Deus não volta sem ter produzido o seu efeito” (cf. Is 55,10-11). Quem se deixa alcançar por ela, especialmente através da oração e da escuta, passa a conhecer o sentido verdadeiro da sua vida, Jesus Cristo. E quando Jesus Cristo nos olha amorosamente e diz: “vem e segue-me”, é muito difícil resistirmos. Santa Teresinha afirma que “Deus inspira e pede a nós aquilo que já nos concedeu”.  Uma vida visitada por Deus e que passa a enxergar a sua vocação, ainda que não de forma plena, quer corresponder com todas as forças e ninguém é capaz de deter esta resposta de amor. “Em qualquer realidade, especialmente vocacional, abandonamo-nos com amor a quem nos vem ao encontro com amor” (B. Mondin).
"Não temais, não fostes vós que me escolheste, mas eu vos escolhi", afirma Jesus. Apaixonadamente gritava João Paulo II aos jovens: “Não tenham medo de seguirem a Cristo, de darem vossas vidas a Ele. Cristo não roubará a vossa liberdade, não vos tirará nada, mas somente acrescentará, satisfazendo-lhes os mais profundos desejos de felicidade”. Um projeto vocacional rezado, discernido, vivido no seu tempo certo é o que há de mais feliz nas nossas vidas, porque encontrar e responder ao desígnio de Deus para nós é missão primeira de cada jovem, de cada homem, de cada mulher. Vale a pena perguntar: “Senhor, que queres de mim? Fala que teu servo escuta!” (cf. 1Sm 3,10).  
Antonio Marcos

2010-12-11

A verdadeira volta para casa


Na celebração do 3º Domingo do Advento (Gaudere= alegre espera), as palavras do profeta Isaías na primeira leitura (cf. Is 35, 1-6a.10) são consoladoras e renovadoras do estado de ânimo e da fé. Imaginemos a situação do povo de Deus, depois de anos de escravidão e sofrimento no exílio, no meio do qual já existem os abatidos e os desesperançosos, o profeta então fala da “volta para casa”, o que é uma realidade distante para muitos, mas uma esperança viva para outros.
Esta volta não é uma simples mudança de lugar, mas um processo de vida nova, de liberdade, de resgate da dignidade de povo de Deus e do recomeço dos propósitos. A profecia é ousada, desafia o coração quando ordena que “exulte a solidão e floresça como um lírio”. Porém, para que isso se torne realidade existe “uma parcela de reação” que não dispensa a ninguém, especialmente os que se veem tragados pela tentação à desistência: “Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. (...) criai ânimo, não tenhais medo. Vede, é o vosso Deus (...), ele vem para nos salvar” (cf. Is 35,3-4).
É significativa a relação entre a “volta para casa”, por parte do povo e “a volta para a nossa casa”, por parte de Deus, ou seja, a sua vinda libertadora, “o doce abaixar-se de Deus até nós”. “Vede, é vosso Deus, (...) é ele que vem para nos salvar”, diz o profeta! Muitos de nós não cremos na volta para casa, para a morada definitiva, e até achamos estranho se falar de céu, talvez pelo forte caráter da materialidade com que vivemos as coisas e os acontecimentos. Da mesma forma, acreditar que Deus virá parece um absurdo para outros tantos. Uns dizem: “Se Deus existe, ele já nos abandonou faz tempo. O que esperar mais diante de tanta barbárie e do silêncio de Deus?”
É a Palavra de Deus que nos responde: “Os que o Senhor salvou, voltarão para casa com infinita alegria em seus rostos” (Cf. Is 35,10). A salvação é o que nos faz sair dos nossos muitos exílios, inclusive o desânimo, e nos leva de volta para casa. E a salvação se dá início com a fé operante em Jesus, quando não deixamos que os acontecimentos tenham a última palavra para nós e para os outros, para a Igreja e para aqueles que recorrem a nós, muitas vezes desesperados. A salvação é o amor operante que indica em qual direção está a nossa casa, porque é para lá que iremos. Vem Senhor Jesus, ajuda-nos nesse processo da verdadeira volta para casa, pois é isso que gera a verdadeira alegria, a alegre espera.
Antonio Marcos

2010-12-10

Talvez minhas palavras sejam "poesias"...

Os primeiros minutos de um novo dia eram testemunhas de que ainda me encontrava concentrado nos papeis formais. Deixava a memória assimilar, mas sentia que meu coração se encontrava em outros lugares, fazendo outras assimilações e “curtindo”, de certo modo, o que somente toma forma mais concreta quando o silêncio chega. De repente recebo uma mensagem de uma amiga tão distante, quase fronteira, ainda acordada, talvez fazendo também suas assimilações ou desejando fazê-las. Suas breves palavras me fizeram pensar e rezar: “Oi querido amigo! Reze por mim, por esse coração que só me faz sofrer. Não estou conseguindo rezar! Deus te abençoe! Beijos!” Eu lhe respondi imediatamente:Olá amiga, saudade! Hoje eu lembrei de você e rezei ao coração de Maria por sua vida. Confia teu coração a Ela e louve, reze com a simplicidade de cada detalhe: o acordar, o sorrir, a saúde, a fé dos mais simples, a dor dos que vemos na rua..., Deus sabe criar modos de falar conosco!”
Respeitei e compreendi quando me disse que “seu coração a fazia sofrer”, porque sei que o coração reage quando o objeto do amor não edifica, quando os desencontros precisam provocar em nós uma assimilação, talvez, das mais desafiantes, que é deixar que passe o que deve passar e acreditar que podemos amar de novo, participar de uma nova descoberta, de uma alegria que indique a direção da felicidade, não sem desafios e riscos, é claro, mas sempre com esperança nas contínuas surpresas do amor. Penso ainda que os novos encontros se tornam ainda mais possíveis quando o perdão e a reconciliação nos ajudam na afinação da harmonia do coração. Talvez minhas palavras sejam “poesias”, mas o fato é que Deus sabe criar modos de falar conosco porque nos quer felizes! E quando penso que Deus me quer feliz, sendo Ele a fonte de toda felicidade, então “o coração pode até me fazer sofrer”, mas nunca deixará de acreditar que serei feliz no amor! Fui dormir pensando nessa assimilação!
Antonio Marcos

Eu gosto tanto de um novo dia

 A providência divina cuida de nos conduzir ao mistério inesgotável de se viver um outro dia. Os problemas, as dores, os desencontros, necessariamente não cessaram, podem existir ainda, mas é bem verdade que as ternuras e os favores de Deus nas nossas vidas são inesgotavelmente criativos. A fé nos faz sentir, tocar, adentrar..., e, ainda que não "sintamos", Deus está a cuidar de nós porque o amor é mais que sensação, é altruísmo, é dom, é gratuidade, é esperança de que podemos ser um pouco melhores no dia de hoje. Portanto, eu gosto tanto de um novo dia porque ele esconde de forma intacta a possibilidade real do recomeço. "Ninguém te condenou? (...) Eu também não te condeno. Vai, e de  agora em diante não peques mais” (Jo 8,11).
Antonio Marcos

2010-12-08

Onde estás, meu filho?


 “O Senhor Deus chamou o homem: ‘onde estás?’ disse ele. ‘Ouvi teu passo no jardim,’ respondeu o homem; ‘tive medo porque estou nu, e me escondi’”(Gn 3,9-10). É tão profundo e dramático esse encontro do homem com Deus. Ao mesmo tempo, é belo e consolador ver Deus à procura do homem, ver o homem sendo achado por quem o ama de verdade. Não é Deus que está perdido, mas o homem.
O drama do pecado gera sempre em nós a nudez porque nos rouba as vestes da santidade, da pureza e da liberdade. O pecado nos esconde da face amorosa de Deus, daí que quase sempre nos justificamos de nossos erros, o senso de culpabilidade vai diminuindo e queremos, desesperadamente, encontrar as causas fora de nós, nas circunstâncias, na história de vida e nos outros. Gosto muito da oração penitencial quando batemos no peito e dizemos: “por minha culpa, minha tão grande culpa!” Não falo da “culpa doentia” que leva à desconfiança de Deus e à impiedade conosco, mas falo do encontro da consciência com aquela pergunta fundamental “onde estás, ó homem?” Esse encontro é necessário e salvífico porque a sedução do pecado não nos inocenta, precisamos do arrependimento e do desejo concreto por retornar. E o que nos faz retornar é a graça de Deus, a sua infinita misericórdia que nunca desiste de nos procurar.
Um outro drama e tentação para nós é o perigo do desespero quando pensamos que não há mais uma saída para o nosso pecado, que não veremos mais um horizonte e nem enxergaremos a luz. A saída nossa do pecado será sempre o reconhecimento da morte redentora de Cristo que venceu a morte e atualiza a salvação sempre que o acolhemos dentro de nós, mediante a fé. É a fé que nos leva a reconhecer e confessar o pecado, que nos leva ainda à esperança de que, em Deus, o homem é sempre capaz de recomeçar de novo, não importa o submundo em que ele fora envolvido. “Onde estás, meu filho? Não precisas fugir, pois não te trato como exigem tuas faltas!”
Antonio Marcos

No dogma da Imaculada Conceição de Maria, o sonho original de Deus para nós!


O dogma da Imaculada Conceição não é um privilégio por merecimento antes de nascer, mas uma graça concedida a Maria pela benevolente vontade e livre escolha de Deus, mediante a superabundância dos méritos de Cristo no exato momento de sua concepção, fruto do amor entre São Joaquim e Santa Ana.
A Teologia fala da redenção de Maria por  antecipação porque é ela predestinada para ser a Mãe do Filho de Deus. No entanto, quando Maria toma conhecimento na anunciação de que o favor de Deus está com ela e que é chamada a ser a Mãe do Seu Filho, em nenhum momento Maria é violentada na sua vontade, mas aceita de fé livre e inteira obediência o chamado de Deus. Poderíamos dizer que o fato de Maria ser imaculada, ou seja, preservada das consequências do pecado original cometido por Adão e Eva, em nada diminui sua liberdade, mas a potencializa. É isso o que a santidade realiza em nós: torna-nos disponíveis para a vontade de Deus e, ainda que não compreendamos a profundidade e a largueza do Seu desígnio, não titubeamos em responder “Sim”, envia-me, Senhor!
É o Concílio Vaticano II (LG 52-69) que nos ilumina nessa fantástica compreensão do mistério da conceição imaculada de Maria. É consolador para nós entender que Maria, embora sem pecado, foi “peregrina na fé”, ou seja, ela avançou no caminho da fé como sinal de que as coisas não lhe foram sempre tão claras, mas exigiram dela passos, decisões, oração, confiança, silêncio e a capacidade de esperar contra toda desesperança, o que é dom de Deus, não habilidade humana. “Imaculada é a afirmação da intensidade da ação de Deus na vida de Maria e a correspondência em suas respostas”. Quando encontramos e convivemos com uma pessoa que vai se configurando a Cristo passamos a entender “um pouco” do mistério do que se recebe no Batismo e daquilo que vai gerando frutos de santidade ao longo da existência, na medida em que vamos correspondendo.
Dizer que Maria é Imaculada é reconhecer seu itinerário de perfeita discípula. Membro singular da Igreja, Maria é também “protótipo da Igreja, modelo acabado nela, na fé e na caridade”, ensina-nos maravilhosamente os padres conciliares. O dogma da Imaculada Conceição de Maria aprofunda em nós o sonho original de Deus para toda a humanidade: “Nele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor. Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme o beneplácito de sua vontade. Para louvor e glória da sua graça com a qual ele nos agraciou no Amado” (Ef 1,4-6).
Antonio Marcos   
Imagem: Arte iconográfica da Virgem da Ternura, de Maria Fonseca (Facebook)