Somente a saudável fé cristã poderá recuperar o homem

Escrito Por Antonio Marcos na segunda-feira, novembro 08, 2010 Sem Comentários

Uma das maiores conquistas da teologia pós-conciliar tem sido o resgate da verdade fundamental de que Jesus Cristo foi solidário com o sofrimento humano. No entanto, mesmo com a positiva colaboração do método histórico-crítico que tem ajudado a teologia a entender o passado, os contextos bíblicos, os personagens, a pessoa de Jesus de Nazaré no seu tempo, porém, tem sentido também a dificuldade de – como bem explica o teólogo Ratzinger – em fazer uma hermenêutica, ou seja, de apresentar uma exegese bíblica capaz de falar ao homem de hoje, de falar de mim, dos meus dramas existenciais.  A pergunta é: Deus realmente entrou na história, assumiu as vicissitudes humanas, redimiu o pecador, ou apenas foi mesmo um profeta qualificado, mas incapaz de sofrer, como apregoa ainda as novas ramificações do gnosticismo? Não se torna mais cômodo a sugestiva “relação entre o dinheiro e a benção divina”, mediado por um pastor ou um padre midiático, para que o sofrimento encurte sua trajetória? Temos mesmo que ficar com um Cristo que parece ter fracassado, embora esteja na confissão de milhões de cristãos no planeta, mas a liberdade, as decisões e as atitudes não conseguem ser configuradas ao exemplo do Redentor?
Na obra “Cruzando o Limiar da Esperança” o Papa João Paulo II teve de responder a essa dramática pergunta: “Se Ele nos redimiu, onde está a redenção? Onde está a vitória do Bem sobre o Mal? Por que o mundo e as pessoas padecem tanto? Como sair deste pântano de incertezas? Nós nos perguntamos: “O que fazer para que a teologia volte a ter um impacto na vida real?” Na obra “Sal da Terra” o cardeal Raztinger responde de forma simples: “a liberdade do homem não pode ser violada por Deus! Por outro lado a redenção não segue os padrões contabilizáveis da ciência, ela é, sobretudo, obra de fé e de conversão interior! Da mesma forma, o Cristianismo não é imposição, mas uma conquista, uma experiência na liberdade proposta pelo Amor!”
O Papa Bento XVI nos ajuda a compreender que tais perguntas são importantes, mas surgem muito mais de uma influência negativa da filosofia numa teologia que quer um Deus que esteja limitado ao ontem, não mais capaz de salvar hoje, de redimir hoje. É o veneno e as consequências de uma razão que acredita que pode redimir o homem, dispensando-o do mistério, do milagre e dos meios de salvação. Trocando em miúdos: pregar um Jesus sem cruz é um engano fatal! Não se trata de masoquismo, de um Cristianismo pesado e ameaçador, que tem como bandeira “o pecado e o inferno”, não, mas um Cristianismo que apresenta uma fé que cura, inclusive as chagas de uma razão autônoma que tem conduzido o homem a um deslumbramento pelo progresso, mas que ver seus pés na areia movediça.
Um Cristianismo que tem como base uma “teologia do sim”, porque Deus, no Seu Filho, “diz sim ao homem”, não obstante suas revoltas e pecado. A cruz foi o mais expressivo “sim” dado pelo amor de Deus. É esta fé que “continua sendo uma oportunidade”, diz Ratzinger. Somente a saudável fé cristã poderá recuperar o homem e reconciliá-lo consigo, com o outro, com o progresso e com Deus. A solidariedade de Jesus Cristo para com as nossas dores não o torna fracassado, mas mostra a força amorosa de um Deus que, exatamente tendo assumido nossa natureza sem feri-la, pode nos redimir e nos elevar à dignidade de filhos e não de escravos de nossos medos e desconfianças, sofrimentos dores. No entanto, “Deus não quer nos salvar sem a nossa colaboração, porque a liberdade do amor mostrou a sua força redentora na cruz”. Ninguém me tira a vida, eu a dou livremente!”(cf. Jo 10,18).  
Antonio Marcos