2010-11-14

A ruína veio me ensinar


Em dias atuais estamos como que nos acostumando com uma crescente propagação das ações contrárias ao bem e chegamos a sentir nossas forças construtivas em condições díspares quando temos de alimentar em nós e nos outros a esperança. No entanto, há de evidenciar o que é característico de nossa identidade cristã: “Não devemos nos cansar de fazer o bem” (cf. 2Ts 3, 13). As palavras poéticas, trágicas e realistas de Shakespeare (1564-1616) parecem traduzir o drama do coração humano quando se depara com a perda, com o que é desfeito, não obstante sua solidez e aparente infinitude:
“Quando vi desfigurada pela terrível mão do tempo a altivez de eras de outrora;
Quando torres antes altíssimas vi arrasadas e o bronze, eterno escravo da fúria mortal;
Quando vi o oceano faminto avançar um dia sobre a areia da praia,
 para depois o solo firme vencer  terreno líquido,
A abundância da perda e a perda da abundância;
Quando vi esse intercâmbio de estados, ou o próprio estado desfeito
A ruína veio me ensinar que o Tempo virá levar o meu amor”
William Shakespeare (Soneto 64)
O poeta, certamente, tem suas razões e definições ao falar do amor, ao falar que a ruína o ensinou que o tempo virá levar o seu amor, porém, prefiro enxertar nela a minha interpretação cristã: também o amor humano, seja o que construímos em nós, seja o que recebemos, seja o amor próprio ou mesmo o amor romântico, também ele está na finitude, não pode, por ele mesmo, nos vocacionar ao eterno.  A ruína pode desfazer o que parece sólido em nós, e que assim o faça, mas na concepção cristã o tempo e a ruína são pontes, levam o que é preciso, mas nós não podemos nos deixar aniquilar também: “É permanecendo firme que ireis ganhar a vida!” (Lc 21, 19).  A solidez do amor de Deus em nós é a única torre altíssima que não pode ser arrasada pela mão do tempo. Que a ruína nos ensine que tudo passa e só Deus permanece!
Antonio Marcos             

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