2010-11-29

A crise: partir no trem para Auschwitz ou para Calcutá?

A crise é o momento de parada para construirmos o novo, para repensar as atitudes e nos refazermos na direção certa. A crise nos desafia ao ódio ou ao amor, a partir no trem que vai para Auschwitz ou para Calcutá. A crise, quando vivida em Deus, pode mudar a visão que temos de nós mesmos e dos outros, e nos ajudar a alcançar o equilíbrio interior e o sentido existencial. Isso, muitas vezes, nos vem em meio a sombras e dores, solidão e até profundas contrariedades.

O grande Paulo Freire afirmou que “os homens se educam em comunhão”, e é verdade, visto que não crescemos sozinhos na arte do bem. Da mesma forma podemos agora lembrar Santa Teresinha ao reconhecer que “sua dor, sua prova e seu sofrimento” não tinham força de destruição, necessariamente, nas decisões e atitudes dos outros, mas exatamente na sua omissão quanto às disposições para amar e perdoar os outros. Compreender isto é até mais fácil, viver é bem mais difícil, porém, graças a Deus, possível! Eu nunca estive na “Sistina”, nunca sentei ao lado de Drummond, nunca um amigo ferido em combate me disse: “Dê-me morfina para que eu descanse em paz”. No entanto, de uma coisa eu sei por experiência pessoal: "as pessoas têm suas razões quando escolhem o bem ou mal, o amor ou o ódio, a verdade ou a mentira, o que faz delas, de certa forma, “não culpadas e nem inocentes completamente”, afinal, quem de nós pode dizer que é “o justo?” Parece que estamos sempre na sombra Sartreana: “O inferno é o outro!” Também sofremos quando vemos o coração humano se desviar da meta da santidade que é um processo diário. Da mesma forma quando vemos o tibieza na vivência da virtude em dar sentido às coisas e gestos simples.

Quando a capacidade criativa deixa de se refazer e vemos o nosso interior vazio, é porque falta algo que se perdera em algum lugar, certamente a fé e a confiança em Deus e em nós mesmos, Assim temos a certeza de que o “outro só é nosso” enquanto cativamos, enquanto amamos e nos doamos, como tão bem afirmou São João da Cruz: “Põe amor aí onde não há e colherás amor”. A crise pode ser decorrente da não vivência desse valor fundamental, a não vivência do amor. Sim, a crise..., ela pode nos fazer dar o salto significativo e este começa quando tentamos viver e dizer ao outro: “Apesar de tudo, não és meu inimigo!” Eu e Tu estávamos no Pretório e, no Gólgota, já não mais nos encontrávamos. Senhor, "se me desvio como ovelha perdida: vem procurar o teu servo!" (Sl 118,176).

Antonio Marcos

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