2010-11-24

As prostitutas vos precederão...

A repercussão que está tendo a publicação do livro “Luz do Mundo”, uma entrevista que o papa Bento XVI concedeu ao jornalista alemão Peter Seewad, ao qual faz afirmações históricas e proféticas acerca de temas tão debatidos em todo o cenário mundial, fez-me lembrar da realidade das prostitutas, fez-me lembrar das palavras de Jesus Cristo dirigidas aos sacerdotes e aos anciãos do povo: “...os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (cf. Mt 21,31).

Bem se sabe que a prostituição é hoje considerada, em larga escala, como “uma profissão” igual a qualquer outra. No Brasil os homens e as mulheres da prostituição são chamados de “profissionais do sexo”, são organizados e registrados em sindicato, com direitos e deveres. É claro que aqui me refiro aos que “ganham a vida” com o corpo e encara a prática não como simples “prazer sexual”, mas como profissão e meio de vida. Em Fortaleza, através das ações noturnas de evangelização da Comunidade Católica Shalom, tem-se sempre a oportunidade da aproximação e do diálogo com essas pessoas. Algumas confessam que é do lucro da prostituição que sustentam a família, os filhos e até garantem uma condição de vida mais favorável.

A situação não é tão simples, é arriscada e muitas vezes com conseqüências dolorosas de humilhação moral, violência, desrespeito e vulnerabilidade para as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), inclusive HIV. Há, sem dúvida, um sofrimento interior e uma história de vida que procuram justificar o percurso e a permanência na situação. A Igreja tem consciência desse drama de nossas mulheres, inclusive, de mulheres tão novas e até adolescentes, o que sabemos que constitui crime, mas que também elas estão ali não simplesmente porque querem. Elas sabem que deveriam estar na escola e são obrigadas pelos pais ou pela dura realidade a se submeterem ao crime para sustentarem o vício das drogas, a família e até mesmo pensarem um pouco na vaidade. Elas têm que conviver com o liciamento dos adultos, de homens casados e de turistas que lhes oferecem dinheiro, o que se torna muito mais difícil a resistência.

Crianças e adolescentes no mundo da prostituição nunca poderá ser uma situação aceitável, mas combatida, denunciada, seja qual for a circunstância. Quanto aos “profissionais do sexo”, os adultos, precisam de respeito, em primeiro lugar, e de um olhar de misericórdia para a pessoa e o contexto em que se encontram, por sua vez dramático. Necessário será sempre uma educação sexual às nossas crianças, ao menos pela Igreja, visto que muitos pais são os primeiros promotores da prostituição dos filhos e filhas. Quanto a nós, cristãos católicos, não podemos nos omitir no processo da educação sexual, e penso que deve começar com a nossa acolhida, escuta, diálogo, testemunho pessoal e, evidentemente, a coragem de propor uma mudança de vida, o conhecimento da vida de Deus, da vida de fé que pode transformar nossa existência, esteja ela como estiver. O Papa Bento XVI, como toda a Igreja, tem essa consciência e sabe que não se trata de “liberar o uso da camisinha”, mas de humanizar essas vidas, de ajudá-las a retornarem à consciência de que são amadas por Deus e que a Igreja está com os que sofrem e padecem, quer propor-lhes vida nova, a vida de Cristo!

Antonio Marcos

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