"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2010-11-29

Insisto em voltar-me para o nascente

Eu também não saberia dizer o que nos leva além das palavras e mesmo dos gestos para que alguém se torne tão vivo dentro de nós, tão presente, tão construtivo. Nem mesmo poeta eu sou para traduzir essa dádiva divina e esse mistério. Quisera Deus eu tivesse um pouquinho do talento de Homero, de Dante, de Dostoiévski, de Drummond ou, quem sabe, das linhas sapienciais dos Escritos Divinos. Não sei ainda dizer como se deve amar, mas sei que há pessoas que na simplicidade e na beleza do que são por dentro, ensinam-nos a amar, a acreditar outra vez na vida, nos sonhos, na arte de recomeçar olhando para as surpresas e ternuras de Deus, pois estas nunca se esgotam, renovam-se cada dia (cf. Lm 3,21-23). Talvez esta seja a única coisa que me é sabedoria: o processo contínuo de reaprender a amar, não nos livros, não nas letras e canções, mas nas páginas da vida de algumas pessoas que já existem aqui dentro e que me ajudam a sair do meu casulo. As lágrimas de ontem, agora eu sei, foram necessárias, mas hoje eu posso até ficar triste, mas insisto em voltar-me para o nascente, para a busca do estado interior de alegria porque esta, a verdadeira alegria, vem de Deus. Hoje, exatamente hoje, o sol nascerá outra vez! É Advento, é tempo de renovar a esperança em Deus, em mim mesmo e nos outros. Obrigado meu Deus!

Antonio Marcos

A crise: partir no trem para Auschwitz ou para Calcutá?

A crise é o momento de parada para construirmos o novo, para repensar as atitudes e nos refazermos na direção certa. A crise nos desafia ao ódio ou ao amor, a partir no trem que vai para Auschwitz ou para Calcutá. A crise, quando vivida em Deus, pode mudar a visão que temos de nós mesmos e dos outros, e nos ajudar a alcançar o equilíbrio interior e o sentido existencial. Isso, muitas vezes, nos vem em meio a sombras e dores, solidão e até profundas contrariedades.

O grande Paulo Freire afirmou que “os homens se educam em comunhão”, e é verdade, visto que não crescemos sozinhos na arte do bem. Da mesma forma podemos agora lembrar Santa Teresinha ao reconhecer que “sua dor, sua prova e seu sofrimento” não tinham força de destruição, necessariamente, nas decisões e atitudes dos outros, mas exatamente na sua omissão quanto às disposições para amar e perdoar os outros. Compreender isto é até mais fácil, viver é bem mais difícil, porém, graças a Deus, possível! Eu nunca estive na “Sistina”, nunca sentei ao lado de Drummond, nunca um amigo ferido em combate me disse: “Dê-me morfina para que eu descanse em paz”. No entanto, de uma coisa eu sei por experiência pessoal: "as pessoas têm suas razões quando escolhem o bem ou mal, o amor ou o ódio, a verdade ou a mentira, o que faz delas, de certa forma, “não culpadas e nem inocentes completamente”, afinal, quem de nós pode dizer que é “o justo?” Parece que estamos sempre na sombra Sartreana: “O inferno é o outro!” Também sofremos quando vemos o coração humano se desviar da meta da santidade que é um processo diário. Da mesma forma quando vemos o tibieza na vivência da virtude em dar sentido às coisas e gestos simples.

Quando a capacidade criativa deixa de se refazer e vemos o nosso interior vazio, é porque falta algo que se perdera em algum lugar, certamente a fé e a confiança em Deus e em nós mesmos, Assim temos a certeza de que o “outro só é nosso” enquanto cativamos, enquanto amamos e nos doamos, como tão bem afirmou São João da Cruz: “Põe amor aí onde não há e colherás amor”. A crise pode ser decorrente da não vivência desse valor fundamental, a não vivência do amor. Sim, a crise..., ela pode nos fazer dar o salto significativo e este começa quando tentamos viver e dizer ao outro: “Apesar de tudo, não és meu inimigo!” Eu e Tu estávamos no Pretório e, no Gólgota, já não mais nos encontrávamos. Senhor, "se me desvio como ovelha perdida: vem procurar o teu servo!" (Sl 118,176).

Antonio Marcos

O homem está vivo enquanto espera

Bento XVI – Oração do Ângelus, Primeiro Domingo do Advento

Caros irmãos e irmãs!

Hoje, primeiro domingo do Advento, a Igreja inicia um novo Ano litúrgico, um novo caminho de fé, que, de uma parte, faz memória do evento de Jesus Cristo e, de outra, abre-se ao seu cumprimento final. E justamente desta dupla perspectiva vive o Tempo do Advento, olhando tanto para a primeira vinda do Filho de Deus, quando nasce da Virgem Maria, como para o seu retorno glorioso, quando virá para “julgar os vivos e os mortos”, como dizemos no Credo. Sobre esse sugestivo tema da “espera” eu gostaria de refletir brevemente agora, porque se trata de um aspecto profundamente humano, em que a fé se torna, por assim dizer, una em nossa carne e nosso coração.

A espera, o aguardar, é uma dimensão que atravessa toda a nossa existência pessoal, familiar e social. A espera é presente em milhares de situações, das menores e mais banais às mais importantes, que nos comprometem totalmente e no profundo. Pensemos na espera de um filho da parte dos pais; a de um parente ou de um amigo que vem nos visitar de longe; pensemos, para um jovem, na espera do êxito de um exame decisivo, ou de uma entrevista de trabalho; nas relações afetivas, a espera do encontro com a pessoa amada, da resposta a uma carta, ou da acolhida de um pedido de perdão... Pode-se dizer que o homem está vivo enquanto espera, enquanto em seu coração é viva a esperança. E por sua esperança o homem se reconhece: a nossa “estatura” moral e espiritual se pode medir por aquilo que esperamos, por aquilo em que temos esperança.

Cada um de nós, portanto, especialmente neste Tempo que prepara o Natal, pode-se perguntar: que coisa eu espero? O que, neste momento de minha vida, clama em meu coração? E essa mesma pergunta se pode colocar no âmbito da família, da comunidade, da nação. O que aguardamos, em conjunto? Que une nossas aspirações, o que nos junta? No tempo precedente do nascimento de Jesus, era fortíssima em Israel a espera do Messias, ou seja, de um Consagrado, descendente do rei Davi, que libertaria finalmente o povo da escravidão moral e política e instauraria o Reino de Deus. Mas ninguém poderia imaginar que o Messias pudesse nascer da uma jovem humilde como era Maria, esposa prometida do justo José. Nem mesmo ela poderia pensar, apenas no seu coração a espera do Salvador era tão grande, a sua fé e a sua esperança eram tão ardentes que Ele pôde encontrar nela uma mãe digna.

Além disso, o próprio Deus a havia preparado, antes dos séculos. Há uma misteriosa correspondência entre a espera de Deus e a de Maria, a criatura “plena de graça”, totalmente transparente ao plano de amor do Altíssimo. Aprendamos dela, Mulher do Advento, a viver o dia a dia com um espírito novo, com o sentimento de uma espera profunda, que só a vinda de Deus pode preencher.

Fonte: Publicado no ZENIT.org

Gestos bonitos que edificam mais que palavras

Sempre ficamos muitos felizes quando presenciamos gestos bonitos, os quais nos comunicam uma mensagem carregada de sentido e assim nos edificam, foi o que testemunhei nesta manhã (29 de novembro), quando passava em frente à Igreja Nossa Senhora da Conceição (Prainha / Centro histórico de Fortaleza): um senhor humilde, com o seu carrinho de vender caldo de cana, estava rezando a Deus de forma piedosa, com seus olhos fechados não se importava com quem passava. Fiquei observando aquele gesto e até me emocionei, especialmente quando o vi colocar a mão no carro e nas canas com o gesto de abençoar com o sinal da cruz. Bonito e muito significativo mesmo!

Fiquei com aquela imagem na cabeça e pensando na dificuldade que, muitas vezes, temos para expressar livremente e piedosamente a nossa fé. Pode ser que falte em alguns de nós essa sinceridade e espontaneidade na hora de vivenciarmos nossa fé e confiança em Deus. O gesto de entregar a Deus o nosso trabalho diário e pedir-Lhe a proteção, bons resultados e que seja um bem para os outros, precisa muito retornar em nossas vidas, principalmente por vivermos na correria dos compromissos. Peço a Deus que nos ajude a sair do formalismo da fé e nos faça simples, livres e sinceros nos nossos gestos e que edificam mais que palavras.

Antonio Marcos

2010-11-28

A glória de Deus unida à nossa fragilidade, só o amor explica!

A chegada do Tempo Litúrgico do Advento na Vida da Igreja é sempre uma grande alegria por ser uma privilegiada ocasião, através da qual, podemos meditar e nos deixar transformar pela vida de Deus entre nós (Encarnação do Verbo) e da esperança cristã na vida definitiva, o voltar-se para a certeza de que o céu é o nosso lugar (Parusia). Assim reza a Igreja no Prefácio do 1º Domingo do Advento (Ano C): “Revestido da nossa fragilidade, ele veio a primeira vez para realizar seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação. Revestido de sua glória, ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos que hoje, vigilantes, esperamos”. 
Bem sabemos que a nossa vida de comunhão eucarística é já uma vivência na participação da vida definitiva. Quem comunga o Corpo e o Sangue do Senhor não pode viver o Natal e a esperança da vinda última de Jesus de qualquer forma. O imperativo do apóstolo Paulo nos acompanha com estímulo e esteio: “Fazei progressos ainda maiores!” (1Ts 4,1). Não obstante as contrariedades, dores e lágrimas da existência humana, de tudo aquilo que já acontece e que “deve acontecer”, a oração e a vigilância nos põem de pé diante do Senhor, jamais deixam que nos desfaçamos da esperança e da fé (cf. Lc 21,36). 
No Advento a figura de Nossa Senhora, Virgem Orante (Virgem grávida) toma um significado ímpar. Desejemos que ela nos ensine a também permitirmos que o Espírito Santo gere Jesus dentro de nós. Maria deve estar sempre na vida do cristão porque, como criatura humana, ninguém pode nos ensinar a viver tão bem a esperança como ela. A cor roxa da liturgia nos ajuda a viver uma penitência de espera contra toda desesperança. A simbologia deste tempo é belíssima e cheia de significado, inclusive as velas, as orações da Igreja, a coroa do Advento, a escada de Jacó, as antífonas, a Liturgia das Horas, enfim, tudo deve nos remeter ao sentido maior: Deus não desistiu de seus filhos, continua amando o mundo e nos reservando a felicidade definitiva junto d'Ele. Esta felicidade começa aqui quando o coração do homem acolhe o Seu Filho e Salvador, Jesus Cristo. Caminhemos até o Natal do Senhor na esperança de celebrarmos com gratidão aquilo que já é realidade em nós pela fé: “Como pode ser um Deus tão grande como Tu vir nos visitar? Tu não olhaste a nossa condição, mas por amor, só por amor, estás aqui, Senhor!” Sim, por amor e só o amor explica a glória de Deus unida à nossa fragilidade. Feliz Tempo do Advento para todos nós!   
Marcos de Aquino


2010-11-26

A paz queremos com fervor, a guerra só nos causa dor!


O que está acontecendo no Rio de Janeiro é bastante preocupante para uma parcela significativa da sociedade brasileira, especialmente para os moradores daquelas comunidades. Algumas perguntas nos surgem de uma reflexão inevitável: por que as decisões de estratégias políticas e militares no combate ao crime organizado são tomadas quase que somente em situações de extrema tensão e conflito?
As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) começaram a ser implantadas nas comunidades do Rio de Janeiro exatamente em “lugares estratégicos” na influência do tráfico, mas não nos lugares mais importantes e necessários. Discute-se que essas UPPs tenham sido fachadas para uma promoção política do Governador Sérgio Cabral e que por trás existiria não a intenção primeira de desarticular o crime organizado, mas de dar proteção ao turista, favorecendo assim a economia e a imagem do Governo do Rio numa falsa sensação de segurança, uma resposta para o mundo e para os organizadores dos eventos esportistas vindouros. Portanto, não se tratava de uma preocupação primeira com o cidadão daquelas comunidades, escravos do crime organizado, o que é chocante.
Particularmente não julgo as razões da situação, mas julgo que se encontra caótica. A imprensa brasileira faz sensacionalismo e um papel ridículo por somar elogios às operações e ao Governo, mas, pergunto-me: e a população, o que pensa disso? O que diria acerca do que vive cotidianamente dentro das comunidades, convivendo com a submissão absoluta do crime organizado e dentro de um Estado Democrático? Um amplo debate deveria ter sido aberto pela imprensa sobre a questão política e o que decorre dela: a superlotação dos presídios, a força de atuação dos chefes das facções criminosas quando continuam dando ordens de dentro do presídio, a corrupção dos recursos públicos que são destinados à segurança dos Estados, a omissão dos “Poderes” etc.
Esperamos que as ações de combate ao crime organizado não sejam fachadas, não sejam decorrente simplesmente dos conflitos inesperados, mas sejam consequências de políticas públicas de segurança e cidadania, favorecendo assim a liberdade e o direito à vida do cidadão que mora naquelas comunidades, as famílias, especialmente as crianças. No dia 1º de janeiro tudo recomeça e outra vez se renova a esperança neste Brasil., esperança de que as omissões políticas cessem pelo bem comum. “A paz queremos com fervor, a guerra só nos causa dor!”
Antonio Marcos

2010-11-24

As prostitutas vos precederão...

A repercussão que está tendo a publicação do livro “Luz do Mundo”, uma entrevista que o papa Bento XVI concedeu ao jornalista alemão Peter Seewad, ao qual faz afirmações históricas e proféticas acerca de temas tão debatidos em todo o cenário mundial, fez-me lembrar da realidade das prostitutas, fez-me lembrar das palavras de Jesus Cristo dirigidas aos sacerdotes e aos anciãos do povo: “...os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (cf. Mt 21,31).

Bem se sabe que a prostituição é hoje considerada, em larga escala, como “uma profissão” igual a qualquer outra. No Brasil os homens e as mulheres da prostituição são chamados de “profissionais do sexo”, são organizados e registrados em sindicato, com direitos e deveres. É claro que aqui me refiro aos que “ganham a vida” com o corpo e encara a prática não como simples “prazer sexual”, mas como profissão e meio de vida. Em Fortaleza, através das ações noturnas de evangelização da Comunidade Católica Shalom, tem-se sempre a oportunidade da aproximação e do diálogo com essas pessoas. Algumas confessam que é do lucro da prostituição que sustentam a família, os filhos e até garantem uma condição de vida mais favorável.

A situação não é tão simples, é arriscada e muitas vezes com conseqüências dolorosas de humilhação moral, violência, desrespeito e vulnerabilidade para as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), inclusive HIV. Há, sem dúvida, um sofrimento interior e uma história de vida que procuram justificar o percurso e a permanência na situação. A Igreja tem consciência desse drama de nossas mulheres, inclusive, de mulheres tão novas e até adolescentes, o que sabemos que constitui crime, mas que também elas estão ali não simplesmente porque querem. Elas sabem que deveriam estar na escola e são obrigadas pelos pais ou pela dura realidade a se submeterem ao crime para sustentarem o vício das drogas, a família e até mesmo pensarem um pouco na vaidade. Elas têm que conviver com o liciamento dos adultos, de homens casados e de turistas que lhes oferecem dinheiro, o que se torna muito mais difícil a resistência.

Crianças e adolescentes no mundo da prostituição nunca poderá ser uma situação aceitável, mas combatida, denunciada, seja qual for a circunstância. Quanto aos “profissionais do sexo”, os adultos, precisam de respeito, em primeiro lugar, e de um olhar de misericórdia para a pessoa e o contexto em que se encontram, por sua vez dramático. Necessário será sempre uma educação sexual às nossas crianças, ao menos pela Igreja, visto que muitos pais são os primeiros promotores da prostituição dos filhos e filhas. Quanto a nós, cristãos católicos, não podemos nos omitir no processo da educação sexual, e penso que deve começar com a nossa acolhida, escuta, diálogo, testemunho pessoal e, evidentemente, a coragem de propor uma mudança de vida, o conhecimento da vida de Deus, da vida de fé que pode transformar nossa existência, esteja ela como estiver. O Papa Bento XVI, como toda a Igreja, tem essa consciência e sabe que não se trata de “liberar o uso da camisinha”, mas de humanizar essas vidas, de ajudá-las a retornarem à consciência de que são amadas por Deus e que a Igreja está com os que sofrem e padecem, quer propor-lhes vida nova, a vida de Cristo!

Antonio Marcos

Um Bento XVI que emana luz


Discute-se em todo o mundo o alcance positivo das declarações do santo padre, Bento XVI, na entrevista-livro do jornalista alemão Peter Seewald, acerca de temas importantes que são hoje refletidos amplamente pela teologia e pelo debate público, especialmente no tocante à sexualidade. No entanto, o livro não pode ser reduzido unicamente “a uma frase do papa”, disse Dom Fisichella (Presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização). É bastante louvável e inovadora a posição favorável e coerente do Santo Padre em reconhecer o uso da camisinha em “alguns casos justificáveis” (no caso das prostitutas e prostitutos), como um primeiro passo de responsabilidade para se obter de novo a consciência do errado e do permitido, minimizando as infecções, mas nunca como modo verdadeiro para se solucionar o flagelo do HIV. O que o papa pensa da sexualidade é o que pensa a Tradição Eclesial e o Magistério, ou seja, que ela é orientada para o amor conjugal e que fora disso terá sempre seu caráter de iliceidade.

O autor do livro lamentou a repercussão com uma interpretação limitada dos jornalistas em relação à declaração do pontífice, pois é preciso se olhar para o livro todo e perceber que ali está o coração do papa, do qual emana luz para esses tempos tão conflituosos. As equívocas interpretações de que o Vaticano havia liberado o uso da camisinha demonstrou “a crise do jornalismo”, como disse tão bem e preocupadamente Peter Seewald, por terem os profissionais da área de jornalismo enfocado unicamente a fixação da camisinha, quando o papa trata no todo da humanização da sexualidade.

No entanto, seguindo a linha de pensamento de Dom Fisichella, o livro revela muito do coração de Bento XVI e da sua preocupação com os dramas históricos da modernidade. Ele concedeu corajosamente e até de forma não esperada, uma resposta que era necessária “inserir na Igreja”. Bento XVI faz desmoronar a imagem do “homem obscurantista e inimigo da modernidade” que se fez dele. O mais belo e profético é que o papa, em ocasião alguma, fez declaração contrária ao que pensa o Evangelho acerca do valor da pessoa humana. Há de reconhecer que as suas respostas no livro “Luz do Mundo”, iluminarão muitas consciências, especialmente de orientadores da Moral Católica. O que estamos vendo continuamente é o papa Bento XVI, fiel a Cristo e à Igreja, surpreender o mundo com a força com que deixa emanar a luz de seu pontificado por causa da preocupação da Igreja com o Homem. Deus o conserve entre nós por muitos anos! Rezemos por ele!

Antonio Marcos

2010-11-22

Quem já foi à Missa no Shalom sabe do que estou falando...


Um dos maravilhosos frutos da graça da Renovação Carismática Católica tem sido, sem dúvida, o despertar dos fieis para a vida litúrgica. Evidentemente, o motor desse despertar  foi o Concílio Vaticano II (62-65­) com todas as reformas importantes que fez na celebração do Mistério Eucarístico. No entanto, há de reconhecer os exageros ocorridos ao longo desses anos, inclusive até nossos dias, quer sejam pela RCC, quer pelas Novas Comunidades e Ministérios ou formas de expressões diversas e de cunho renovado.
Às vezes, percebe-se, que as nossas celebrações estão carregadas de vaidade e de caprichos que se voltam muito mais para quem as prepara e não para o Mistério de Cristo, o centro e sentido de todo ato litúrgico. Talvez falte, em certas situações em que observamos e vivenciamos, aquela sobriedade nos nossos ornamentos litúrgicos. Não se pode esquecer que a beleza litúrgica tem como objetivo favorecer que as pessoas celebrem com alegria e piedade o Mistério de Cristo, dando assim honra a Deus, nunca para outro objetivo. Quem já foi à Missa na Comunidade Católica Shalom, especialmente nas casas de Fortaleza (mas não só) sabe perfeitamente do que estou falando, é tudo muito belo e dá aquele gosto de rezar, de contemplar, de vivenciar aquela experiência. Que isto nunca se perca não só na Comunidade Shalom, mas na Renovação Carismática Católica. O Povo de Deus agradece!
Antonio Marcos

O homem copia e cola, especialmente as experiências boas


Comentei com uma jovem mulher nesses dias, um caso de violência que presenciei e ela me respondeu a queima roupa: “Moço, quando nós que temos fé não estamos vivendo a nossa vocação à santidade o mundo passa a viver a barbaridade. Quando faltam as referências para onde as pessoas olharão se somos imagem e semelhança de Deus e se somos chamados a sermos Sal e Luz da terra?” Apenas lhe respondi: tens razão! Também me pergunto: para onde se deve olhar quando falta o testemunho?
Sinceramente fiquei pensando nas palavras daquela jovem mulher e pude constatar que ela tem plena razão. O homem olha, observa, copia e cola, especialmente as experiências boas, as atitudes que edificam. Não deveríamos ficar tímidos quanto ao exercício da prática do bem. “Recordo-me de um lema dos seminaristas da Comunidade Católica shalom que diz: “Se depender de mim haverá mais padres santos”. É isso, deveríamos viver assim: se depender de mim, o mundo será melhor, o bem será mais propagado. Portanto, não tenhamos medo e vergonha de praticarmos a honestidade, a generosidade e a alegria de vivermos a virtude do bem.
Antonio Marcos

Polícia modelo e eficiente?


A reflexão se limita ao Estado do Ceará, mas pode ter sua extensão de compreensão. Trata-se dessa contínua promoção da violência em nossa sociedade ao ponto de chocar até mesmo os mais acostumados com a barbárie. O cidadão está assustado e é convidado a depositar um voto de confiança naqueles que estão sendo pagos para nos proteger. A minha questão se volta aqui para o papel dos policiais, a missão e a responsabilidade junto ao cidadão, protegendo-o e garantindo a ordem social. Acontece que a mídia cearense tem trazido à tona constantes denúncias sobre a conduta disciplinar de nossos militares, no caso, integrantes da Polícia Militar do Ceará, especificamente, o “Ronda do Quarteirão”, apresentado pelo Sr. Governador, Cid Gomes, como Polícia modelo e eficiente.  
É lamentável que o cidadão se dirija a um Concurso Público bastante concorrido, seja aprovado, dê à sociedade a garantia que prestará um serviço digno de confiança, mas, no exercício de sua função, tudo vai por água abaixo. O que temos visto na imprensa (e fatos verídicos) foram as denúncias que deixam a sociedade indignada: assassinato de inocente à luz do dia por pura inexperiência e imprudência do jovem militar, viaturas envolvidas em acidentes por excesso de velocidade e sem medir as consequências para a população, viaturas flagradas escondidas com os policiais dormindo, cenas de espancamento por motivos banais ao cidadão e agora, nesses dias, policiais denunciados por se encontrarem namorando dentro da viatura com garotas de uma determinada área. Os mesmos estão presos e vão responder por má conduta disciplinar no exercício da função. 
Se o Sr. Governador e o Comando da Polícia Militar não tomarem as devidas providências, a  sociedade tem que se manifestar. De forma alguma generalizo a situação porque sei que se trata de uma minoria que não deveria estar na Polícia, mas fazendo outras coisas como meio de vida, não tomando o lugar de muitos jovens que mereciam estar prestando tal serviço à sociedade. Graças a Deus a maioria dos policiais é de pessoas comprometidas e não quero aqui difamar a Corporação, mas declarar a minha indignação como cidadão cearense pelas contínuas ocorrências que se tratam de traição à sociedade que paga seus impostos para poder contar com a segurança e a credibilidade de nossas instituições, mas isso está sendo banalizado por alguns. Polícia modelo, talvez não seja tanto o que esperamos, mas eficiente sim, a começar com a fidelidade aos princípios da Instituição, à ética e ao profissionalismo, então poderemos contar, de fato, com a Polícia da boa vizinhança. 
Antonio Marcos

2010-11-21

O Reino não é salvar a si mesmo, é dar-se livremente pela salvação dos outros


“Na Solenidade de Cristo, Rei do Universo, de forma especial, é a Palavra de Deus que mostra como Jesus é Rei”, foi o que afirmou na homilia desta manhã de Domingo, o nosso querido Arcebispo de Fortaleza, Dom José Antonio Tosi. Deus Soberano quis se tornar humano e se entregar por nossa salvação. Foi exatamente na cruz onde mostrou por excelência o que é o Seu Reino, Reino de amor. O Reino não é salvar a si mesmo, é dar-se livremente pela salvação dos outros (cf. Lc 23, 39), é difundir a felicidade do Reino e ajudar os homens a ter participação na vida divina.
Outrora essa felicidade fora dada ao homem, mas ele a negou escolhendo por si mesmo os seus próprios caminhos. Agora, no mistério do Seu Filho Jesus Cristo, o Amor do Pai, mistério encarnado e ofertado na cruz, quer ajudar os homens a escolherem de novo, na inteligência e liberdade, o Reino de Deus, a felicidade de viver na Sua presença. Eis a certeza absoluta conquistada por Cristo: o homem pode viver com Deus! Este Deus se fez homem para elevar o homem a Deus.
Hoje também - acrescentou Dom José Antonio - , na Solenidade de Cristo Rei a Igreja celebra o Dia do Leigo, ou seja, de todos os batizados que procuram viver a fé mais perto uns dos outros, comprometidos na difusão do Reino de Deus. Somos chamados a sermos Sal e Luz da terra, medida de fermento na massa, sinal vivo da presença do dom de Deus em todos os lugares do mundo. Nossa presença entre os outros indica que não estamos sozinhos e que não caminhamos destinados ao abismo, mas à felicidade eterna. Testemunhamos que vivemos dos valores e da força da ressurreição.
O Reinado de Cristo foi vitorioso na cruz e na ressurreição, mas vai se mostrando gradativamente nas pessoas que vão aderindo à fé e ao seguimento de Cristo. Reinar com Cristo é penetrar nos corações dos homens, a começar dos que convivem conosco e trazê-los para a experiência do amor de Deus que transforma toda a vida. A partir desta experiência passamos a enxergar mais nitidamente tudo o que é Reino de Deus no meio de nós, dentro do nosso coração e na vida dos outros.
Por Antonio Marcos 

2010-11-20

Maria, relação de amor que abraça o pecador!


Hoje é mais latente a necessidade da humanidade pela ternura, pelo afeto e proteção. Estamos, de certa forma, órfãos de uma maternidade biológica e espiritual, não obstante termos em casa uma mãe, uma mulher geradora ou os nossos progenitores, papai e mamãe. Falta-nos a convivência e, consequentemente, a intimidade. O colo de mãe, o afeto, o perdão, seus conselhos, sua repreensão, suas lágrimas e suas preocupações por nós, as angústias no seu coração quando tudo não anda bem com o filho, ah, falta aquele olhar de quem nunca desiste de nós e recomeça sempre, mesmo depois dos piores fracassos. Mãe é mesmo uma escola de vida, uma porta para o céu, uma relação única e uma pessoa insubstituível.
Não são poucos os atentados à dignidade da mulher e à maternidade humana, como também tudo hoje concorre para destruir junto com ela a relação da mulher com o divino, deixando-a atarefada demais com os negócios, preocupada demais com a estética e os adornos. Rejuvenescer para não ficar sozinha é um axioma angustiante, porém, sem consistência! Tudo pode ser sacrificado, inclusive a fé. Daí que nossas crianças estão em lares carentes de espiritualidade, de referenciais, daquela presença materna que ensina a rezar e a chamar Deus de papai e Maria de Mamãe do céu. As crianças tinham orgulho de dizer: “Eu sei rezar porque mamãe me ensinou!” Agora elas mesmas perguntam: “Mamãe, por que a senhora não reza?” Sim, Nossa Senhora no lar, a presença materna da mãezinha do céu não é superstição, amuleto, piedade vazia, mas é relação de amor que “abraça o pecador”, como diz a canção. “A Ela somos chamados a nos unirmos no amor, para que sejamos apoiados na sua proteção materna, e assim nos unirmos mais intimamente a Jesus, Mediador e Salvador” (cf. Lumen Gentium, 62).
Lendo nesses dias o psicanalista Carl Jung (1875-1961), encontrei uma afirmação acerca de Maria e que me chamou muito a atenção: “Maria é o arquétipo da dimensão feminina contemplativa que existe em todo ser humano. Tal dimensão é curativa de conflitos entre o inconsciente e o consciente”. Intrigante não é? Pois bem, é uma visão da psicanálise e parece que Jung queria dizer que “o culto à Maria tem certa propriedade psicoterapeuta”. O que quero dizer, à luz da fé e da espiritualidade católica, é que a ausência da relação com Nossa Senhora em nossos lares é de um prejuízo incalculável para a relação das crianças, dos adolescentes e dos jovens com Deus. E aqui poderíamos falar do que eles aprendem acerca da castidade, da relação com as mulheres, da ternura, da piedade, da maternidade, do testemunho da oração e do amor a Jesus quando Maria é na vida dos pais e do lar uma presença viva e íntima de uma maternidade espiritual. Mãezinha, sede solícita para com nossas súplicas, não nos deixe sozinhos, ainda que nossos lares desconheçam a tua ternura. Que o coração de nossas crianças continue atraindo o teu amor e tua proteção a todos nós. Vem, abraça-nos Mãezinha, e leva-nos a Jesus, a fonte de toda misericórdia, o segredo da Tua vida!
Antonio Marcos

Imagem:
Ícone da Virgem Porta do Céu, Amigos do Shalom de Manaus.
                                                                                                

2010-11-18

Você não namora?

 O tema de nossa breve reflexão é bem sugestivo e complexo, mereceria muitas considerações à luz da antropologia teológica e da colaboração das ciências do comportamento, no entanto, limito-me a apenas falar dos aspectos da estranheza “de quem observa” e do constrangimento “para quem é observado” quanto ao fato de se estar sozinho, especialmente quando a idade e a estética exigem uma “comunhão afetiva” ou, pelos menos, um “estar com alguém”.

Os jovens (e não só) não hesitam em confirmar a cobrança e o incômodo dos outros quando não se estar namorando, o que é um desejo natural, constitutivo de nossa natureza afetivo-relacional, de nossa vocação à complementaridade. Essa cobrança decorre, em parte, de nossa agitação cultural, da rapidez e da superficialidade das relações tão comuns em nossos dias, gerando assim tamanha instabilidade. Fala-se que melhor é estar sozinho, que não vale a pena estar a dois, mas, em contrapartida, “viver ou estar sozinho” causa desconforto em muitos. Na verdade, todos nós queremos partilhar a vida, mas estamos com o medo enorme de sofrer, de nos machucar, de darmos o melhor de nós e sermos desvalorizados, traídos ou surpreendidos por uma personalidade ofuscada inicialmente. Apesar disso, queremos muito ter alguém para amar e sermos amados e escolhidos como parte única e valor no coração do amado. É bom amar e termos a correspondência no amor. Estar sozinho é causa de estranheza para uma grande maioria e isso causa dor porque gera no outro cobrança demasiada e encurtamento do tempo de maturação da espera favorável, que não sufoca e nem nos diminui como pessoas, adolescentes, jovens e adultos.

Ser cobrado por não estar namorando causa constrangimento porque passamos a nos comparar aos outros e podemos ter crise na autoestima, ser violentados pelos tabus e preconceitos masculinos e femininos. Namorar deve ser um processo natural como fruto de um encontro e do mínimo de convivência, melhor seria que fosse fruto de uma amizade, de um tempo de identificação um com outro, para não ser motivado unicamente pelo estético. A cobrança a quem não estar namorando é constrangedora porque pode gerar a pressa nas relações e não vivermos bem a sadia tensão da amizade, ou seja, aquela percepção  tranqüila, sinalizadora que aquela pessoa não desperta em nós a atração para o namoro, deixando assim perceptível, o que é óbvio, que nem toda amizade significa que deva terminar em namoro. Porém, a pressa por causa do ceder às cobranças pode nos prejudicar, ferir nossas relações e machucarmos os outros e a nós mesmos.

Estar sozinho não é desumano, caretice, ser deixado para “titia”. Estar sozinho, evidentemente, pode ser fruto de limitações nossas como o medo, a falta de convivência e relações fraternas, as feridas não cicatrizadas de decepções e frustrações, no entanto, podemos não estar sob essas sombras e termos que viver o tempo necessário de se estar sozinho para, num primeiro momento, cuidarmos de algum objetivo pessoal ou simplesmente porque compreendemos que o namoro se dará num processo natural, no tempo certo e de acordo com nossos propósitos de vida, nossos valores e também nossa fé. Pois bem, você não namora? Saiba responder a si mesmo a partir dos seus valores e não pela pressão de uma mentalidade errônea acerca do namoro.

Antonio Marcos

2010-11-17

Uma mulher em busca da fé

JOSÉ LUÍS LIRA
Autor de "No Alpendre com Rachel", ensaio biográfico sobre a escritora

Raquel de Queiroz dizia não acreditar em Deus, mas, ao mesmo tempo, admitia que sentia falta de ter fé. O tema permeia diversas passagens de sua vida.

Desde que conheci Rachel de Queiroz, havia algo que parecia nos separar, além de sua grandeza e minha pequenez, existia um hiato que por fim descobri: era a fé.

Àquela época eu sonhava em ser sacerdote e Rachel, minha musa literária, dizia não acreditar em Deus, mas, era estranho. O primeiro livro dela se inicia exatamente assim: "Depois de se benzer e de beijar duas vezes a medalhinha de São José, Dona Inácia conclui: ´Dignai-vos ouvir nossas súplicas, ó castíssimo esposo da Virgem Maria, e alcançai o que rogamos. Amém´".

No lar paterno, Rachel aprendeu a ler e escrever, recebendo as primeiras lições de seus pais, mas, faltou a educação religiosa. Foi por isso que ao visitar a família, sua avó Rachel ao constatar que a neta não sabia rezar, recomendou que a levassem para estudar no Colégio da Imaculada Conceição para ser educada por freiras vicentinas. E a menina foi para o Colégio. Aprendeu muito pela educação formal, contudo, sobre a religiosidade, apenas lampejos.

Confessava a falta de fé, mas, não se gloriava disso. Percebia-se nela a angústia de quem busca Deus. Numa das inúmeras entrevistas que Rachel concedeu, disse a um jornalista: "Eu não posso dizer que tenho fé, porque me falta fé. É terrível, é uma pobreza horrorosa. Eu sonhava em ter um pouquinho de fé, mas infelizmente nunca tive esse socorro e é muito duro você atravessar os reveses da vida sem ter uma religião, uma fé em que se apoie. Eu sei por experiência própria".

Ainda assim, Rachel não se configurava aquele intelectual anticlerical. Nunca li uma crítica negativa dela relacionada à Igreja ou a sacerdotes ou a freiras. Muitos de seus artigos abordavam a temática religiosa numa forma positiva.

Rachel deixou uma peça inédita intitulada "O Padrezinho Santo" e publicou "A Beata Maria do Egito", inspirada na tradição das beatas de Juazeiro do Norte; escreveu inúmeras crônicas sobre o Natal e o Menino Jesus, São Vicente de Paulo, Santo Antonio, Dom Hélder Câmara e Padre Cícero. A propósito do Padre Cícero, Rachel escreveu uma bela página na revista "O Cruzeiro" quando ocorreu o centenário do religioso, depois transcrito em Cem Crônicas Escolhidas e abordou em várias ocasiões a visita que fizera ao Santo de Juazeiro e este, querendo oferecer-lhe um regalo, pergunta à mocinha: "Minha filha, o que você quer levar de Juazeiro?". Ela respondeu: "Um punhal, meu Padrinho, desses com cabo de ouro que só aqui em Juazeiro sabem fazer".

Quando ela estava saindo de Juazeiro, um mensageiro veio com um pacote e entregou-lhe dizendo que tinha sido o Padre Cícero que lhe mandara. Ela abriu ansiosa e encontrou um crucifixo e indagou ao mensageiro se ele não tinha mandado um punhal que era o que ela havia pedido. Ele respondeu: "Meu Padim mandou dizer que o crucifixo era o punhal do sacerdote". Ela recebeu, também, uma foto autografada pelo Padre Cícero. O tempo passou e as duas relíquias não mais existiam. O crucifixo, não sabia que fim havia tomado nas tantas mudanças pelas quais passara; o cartão autografado fora levado numa das batidas que a polícia fizera à sua casa em tempos de repressão.

Um dia desses num sebo virtual, ofereciam um livro de Rachel que eu já possuía a um preço mais elevado que o de comum. Decidi telefonar ao livreiro para indagar o que de curioso havia. Ele respondeu: "Além do autógrafo, tem uma fotocópia amarelada de uma fotografia de um padre". Fiz a compra. Dias depois, recebi o livro. Dentro, a cópia da foto do Padre Cícero com a seguinte dedicatória: "À delicada escritora Rachel de Queiroz. Pe. Cícero Romão Baptista. Jro (Juazeiro), 14/6/930". Valeu a aquisição.

Em uma entrevista a Pedro Bial (1996), Rachel falou, com naturalidade sobre a morte e citou uma jaculatória na qual dizia: "Nossa Senhora das Graças dai-me logo a morte, mas dai-me uma boa morte".

Ouvi de sua irmã, Maria Luiza de Queiroz, que Rachel achava linda a oração do Pai Nosso. Pois bem: na missa de minha formatura em Direito, Rachel rezou, segurando minha mão, o Pai Nosso e respeitou todo o rito litúrgico, naquela que, creio eu, tenha sido a última missa que ela participou.

Rachel tinha profundo desejo de ter fé. Seu desejo fez com que ela amasse figuras santas e quando de seu sepultamento, profundamente emocionado, fazia eu algumas reflexões a respeito, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, Rio de Janeiro, onde Rachel fora sepultada; contemplei a paisagem acima de seu túmulo, sombreado por uma árvore, plantada por ela própria em homenagem ao marido Oyama Macedo, que ali jaz, e deparei-me com o Cristo Redentor, com os braços abertos, do jeito que a acolheu em seu Reino.

Fonte: Diário do Nordeste, Caderno 3, Publicado em 17 de novembro de 2010.
Homenagem: Raquel de Queiroz completaria hoje 100 anos - Um patrimônio da nossa cultura, um orgulho para o Brasil.

2010-11-16

A Beleza Infinita faz abrir os olhos do coração e da mente


Papa Bento XVI aos Artistas
“A experiência do belo, do autenticamente belo, do que não é efêmero nem superficial – afirma o Papa –, não é acessório ou algo secundário na busca do sentido e da felicidade, porque essa experiência não afasta da realidade, e sim leva a enfrentar totalmente a vida cotidiana para libertá-la da escuridão e transfigurá-la, para torná-la luminosa, bela.” A beleza, segundo o Papa, pode provocar no ser humano “uma saudável ‘sacudida’ que o leve a sair de si mesmo, que o arranque da resignação, da comodidade do cotidiano; que o faça também sofrer, como um dardo que o fere, mas que o ‘desperta’, abrindo-lhe novamente os olhos do coração e da mente, dando-lhe asas, empurrando-o para o alto”.
Pois bem, continuou constatando o bispo de Roma, “com muita frequência, no entanto, a beleza da que se faz propaganda é ilusória e falaz, superficial e cega até o aturdimento e, ao invés de fazer que os homens saiam de si mesmos e abrir horizontes de verdadeira liberdade, empurrando-os para o alto, fecha-os em si mesmos e os faz ser ainda mais escravos, tirando-lhes a esperança e a alegria”. Pelo contrário, indicou, a beleza “pode converter-se em um caminho para o transcendente, para o mistério último, para Deus”.
Por este motivo, apresentou o “caminho da beleza” como “um percorrido artístico, estético, e um itinerário de fé, de busca teológica”. Por isso, seu discurso se converteu em uma constatação da necessidade que os artistas têm de Deus e da necessidade que a Igreja tem da arte para evangelizar. Antes de despedir-se, o Papa fez um convite aos artistas: “Não tenhais medo de relacionar-vos com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história, rumo à Beleza infinita!”.
“A fé não elimina nada da vossa criatividade, da vossa arte; mais ainda, ela vos exalta e vos nutre, animando-vos a atravessar o limiar e a contemplar, com olhos fascinados e comovidos, a meta última e definitiva, o sol sem crepúsculo que ilumina e torna belo o presente”, concluiu.
Bento XVI aos Artistas de todo o mundo, Capela Sistina, 2009: Celebração dos 10 anos da Carta de João Paulo II aos artistas (Fonte: ZENIT.org).
Imagem: Capela do Santíssimo, belíssima. Halleluya Salvador, 2010.

2010-11-14

Ocasião propícia para testemunhar a fé

A Liturgia da Palavra deste 33º Domingo do Tempo Comum traz uma mensagem muito atual no que diz respeito aos acontecimentos que tendem a confundir e desencorajar os que creem. O Evangelista Lucas (21,5-19, Discurso Escatológico) mostra claramente Jesus ajudando os discípulos a viverem não simplesmente encantados com o exterior, com os ornamentos, diríamos, com os Ritos, com a Liturgia, com a Igreja física, mas, sobretudo, viverem conscientes de que a fé é provada, perseguida, testada e, tantas vezes, encurralada em guetos aparentemente sem saída.

Em dias como os nossos, talvez, os “pregadores diversos e com seus discursos milenaristas, aterrorizadores, impondo uma teologia do medo do inferno, não seja, ao meu modo de ver, a maior preocupação, mas exatamente os acontecimentos contraditórios na humanidade e nas nossas vidas parecem abalar as estruturas do Ser no seu mais profundo dinamismo. Não nos falta ao lado quem vive a lamentar de tudo e de todos, sempre na sombra da justificativa de que as coisas estão cada vez piores, que não há mais jeito e que não vale a pena sustentar convicções que nos deixam isolados da grande maioria. O estado de ânimo inibido e em aprisionamento é a maior tragédia para quem tem fé. Cair no conformismo seria o grande fim, visto que nem mesmo teríamos a “oportunidade” dos discípulos em sermos levados aos tribunais modernos que julgam a incompatibilidade de nossas ações, sobretudo, de nossas convicções, mas que é a ocasião propícia para testemunhar a fé.

Entendo esses tribunais que nos julgam não os institucionais, simplesmente, mas os que exercem poderosamente seus juízos na nossa consciência quando somos difamados e injustiçados, na nossa fé quando caímos no pecado e nos fracassos, na nossa esperança quando os acontecimentos históricos e pessoais parecem nos confundir da direção certa, no coração quando precisamos reacreditar nos nossos sonhos, na própria força do amor quando se é preciso perdoar, inocentar os réus dentro de nós, ajudá-los a não serem mais esteios para o mal.

“Não fiqueis apavorados, diz Jesus! O pavor afeta o estado de ânimo e pode aniquilar a nossa fé. Existe muito mais graça no mundo do que a desgraça. Como costumamos dizer: notícia boa não se vende! Notícia boa se anuncia gratuitamente, é o segredo do Evangelho, é a Boa Notícia do amor de Deus e da Salvação em Jesus Cristo. Não fiquemos apavorados, mas também que a timidez e a omissão não nos seduzam. Aproveitemos as ocasiões desfavoráveis para testemunharmos a fé que dá sentido à existência, que faz ver além das aparências físicas, que continua operante e transformante mesmo quando os rumores se tornam realidades dolorosas dentro e fora de nós. Concluo com o trecho de uma linda canção propícia para essa ocasião: “Nascerá novo amanhã, eu já posso ver, sei que posso crer que nascerá novo viver, Ele é fiel e Suas promessas cumprirá. Terminará o que começou, Ele fará um novo acontecer, fará mesmo que eu não possa compreender!”

Antonio Marcos

A ruína veio me ensinar


Em dias atuais estamos como que nos acostumando com uma crescente propagação das ações contrárias ao bem e chegamos a sentir nossas forças construtivas em condições díspares quando temos de alimentar em nós e nos outros a esperança. No entanto, há de evidenciar o que é característico de nossa identidade cristã: “Não devemos nos cansar de fazer o bem” (cf. 2Ts 3, 13). As palavras poéticas, trágicas e realistas de Shakespeare (1564-1616) parecem traduzir o drama do coração humano quando se depara com a perda, com o que é desfeito, não obstante sua solidez e aparente infinitude:
“Quando vi desfigurada pela terrível mão do tempo a altivez de eras de outrora;
Quando torres antes altíssimas vi arrasadas e o bronze, eterno escravo da fúria mortal;
Quando vi o oceano faminto avançar um dia sobre a areia da praia,
 para depois o solo firme vencer  terreno líquido,
A abundância da perda e a perda da abundância;
Quando vi esse intercâmbio de estados, ou o próprio estado desfeito
A ruína veio me ensinar que o Tempo virá levar o meu amor”
William Shakespeare (Soneto 64)
O poeta, certamente, tem suas razões e definições ao falar do amor, ao falar que a ruína o ensinou que o tempo virá levar o seu amor, porém, prefiro enxertar nela a minha interpretação cristã: também o amor humano, seja o que construímos em nós, seja o que recebemos, seja o amor próprio ou mesmo o amor romântico, também ele está na finitude, não pode, por ele mesmo, nos vocacionar ao eterno.  A ruína pode desfazer o que parece sólido em nós, e que assim o faça, mas na concepção cristã o tempo e a ruína são pontes, levam o que é preciso, mas nós não podemos nos deixar aniquilar também: “É permanecendo firme que ireis ganhar a vida!” (Lc 21, 19).  A solidez do amor de Deus em nós é a única torre altíssima que não pode ser arrasada pela mão do tempo. Que a ruína nos ensine que tudo passa e só Deus permanece!
Antonio Marcos             

2010-11-10

ENEM: “inúteu! A gente somos inúteu?”


Estando ontem a ver o Jornal Nacional, fiquei pensando a que ponto tem chegado a sedução e a organização da corrupção no Brasil, exatamente quando a notícia falava da máfia da propina por servidores da Receita Federal, facilitada por agentes federais nos aeroportos, facilitando a entrada de materiais importados da China. Depois, uma outra notícia de corrupção por funcionários públicos da Previdência Social, o que corresponde a milhões de reais desviados dos cofres públicos, dinheiro do contribuinte. Pensando nisso logo lembrei da canção “Brasil”, interpretada pelo Kid Abelha, na qual está claro a estranheza de não “ser subornado nesse país”: “Não me convidaram pra essa festa pobre que os homens armaram pra me convencer a pagar sem ver toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer, não me elegeram a garota do fantástico, não me subornaram, será que é meu fim”.

Quanto ao ENEM, fala-se do desgaste psicológico sofrido pelos alunos que cursaram o exame e foram surpreendidos pela possibilidade de ser o mesmo cancelado, partindo do judiciário de Fortaleza que fez a acusação quanto às irregularidades na impressão. Tudo bem, houve sim um desgaste e outros prejuízos. No entanto, ao meu modo de ver, além disso, observamos a crescente falta de credibilidade nas nossas Instituições porque o país cresce e não cresce a responsabilidade das mesmas em lhe dar com as pessoas. De qualquer forma, é louvável o fato de que estamos mais conscientes de nossos direitos e deveres, pelo menos é o que penso. Ou será que no final de tudo só nos resta mesmo o que as Instituições decidem por nós, por mais que sejam legítimas?

Os jovens alunos, de alguma forma, devem crescer com essas frustrações, no entanto, devem exigir respeito e responsabilidade. Imagina-se o tempo de preparação, os custos, o aspecto psicológico e a mobilização de um país inteiro para fazer o ENEM, e, de repente, tudo sai errado por falta de competência. Será mesmo que os jovens alunos do ENEM terão que cantar essa decepção com o Ultraje a Rigor (“de feliz memória”): “Inúteu, a gente somos inúteu!” Então, que o Governo Federal, através de suas Instituições legítimas respeite o aluno brasileiro e tome as providências para que isso não se repita por tais motivos. Candidatos selecionados e recompensados pelos seus esforços, é o que desejamos! Não, “não somos” inúteis!

Antonio Marcos

2010-11-08

Somente a saudável fé cristã poderá recuperar o homem


Uma das maiores conquistas da teologia pós-conciliar tem sido o resgate da verdade fundamental de que Jesus Cristo foi solidário com o sofrimento humano. No entanto, mesmo com a positiva colaboração do método histórico-crítico que tem ajudado a teologia a entender o passado, os contextos bíblicos, os personagens, a pessoa de Jesus de Nazaré no seu tempo, porém, tem sentido também a dificuldade de – como bem explica o teólogo Ratzinger – em fazer uma hermenêutica, ou seja, de apresentar uma exegese bíblica capaz de falar ao homem de hoje, de falar de mim, dos meus dramas existenciais.  A pergunta é: Deus realmente entrou na história, assumiu as vicissitudes humanas, redimiu o pecador, ou apenas foi mesmo um profeta qualificado, mas incapaz de sofrer, como apregoa ainda as novas ramificações do gnosticismo? Não se torna mais cômodo a sugestiva “relação entre o dinheiro e a benção divina”, mediado por um pastor ou um padre midiático, para que o sofrimento encurte sua trajetória? Temos mesmo que ficar com um Cristo que parece ter fracassado, embora esteja na confissão de milhões de cristãos no planeta, mas a liberdade, as decisões e as atitudes não conseguem ser configuradas ao exemplo do Redentor?
Na obra “Cruzando o Limiar da Esperança” o Papa João Paulo II teve de responder a essa dramática pergunta: “Se Ele nos redimiu, onde está a redenção? Onde está a vitória do Bem sobre o Mal? Por que o mundo e as pessoas padecem tanto? Como sair deste pântano de incertezas? Nós nos perguntamos: “O que fazer para que a teologia volte a ter um impacto na vida real?” Na obra “Sal da Terra” o cardeal Raztinger responde de forma simples: “a liberdade do homem não pode ser violada por Deus! Por outro lado a redenção não segue os padrões contabilizáveis da ciência, ela é, sobretudo, obra de fé e de conversão interior! Da mesma forma, o Cristianismo não é imposição, mas uma conquista, uma experiência na liberdade proposta pelo Amor!”
O Papa Bento XVI nos ajuda a compreender que tais perguntas são importantes, mas surgem muito mais de uma influência negativa da filosofia numa teologia que quer um Deus que esteja limitado ao ontem, não mais capaz de salvar hoje, de redimir hoje. É o veneno e as consequências de uma razão que acredita que pode redimir o homem, dispensando-o do mistério, do milagre e dos meios de salvação. Trocando em miúdos: pregar um Jesus sem cruz é um engano fatal! Não se trata de masoquismo, de um Cristianismo pesado e ameaçador, que tem como bandeira “o pecado e o inferno”, não, mas um Cristianismo que apresenta uma fé que cura, inclusive as chagas de uma razão autônoma que tem conduzido o homem a um deslumbramento pelo progresso, mas que ver seus pés na areia movediça.
Um Cristianismo que tem como base uma “teologia do sim”, porque Deus, no Seu Filho, “diz sim ao homem”, não obstante suas revoltas e pecado. A cruz foi o mais expressivo “sim” dado pelo amor de Deus. É esta fé que “continua sendo uma oportunidade”, diz Ratzinger. Somente a saudável fé cristã poderá recuperar o homem e reconciliá-lo consigo, com o outro, com o progresso e com Deus. A solidariedade de Jesus Cristo para com as nossas dores não o torna fracassado, mas mostra a força amorosa de um Deus que, exatamente tendo assumido nossa natureza sem feri-la, pode nos redimir e nos elevar à dignidade de filhos e não de escravos de nossos medos e desconfianças, sofrimentos dores. No entanto, “Deus não quer nos salvar sem a nossa colaboração, porque a liberdade do amor mostrou a sua força redentora na cruz”. Ninguém me tira a vida, eu a dou livremente!”(cf. Jo 10,18).  
Antonio Marcos