2010-10-11

A separação dos amantes


Zenilce Vieira Bruno - Psicóloga, pedagoga e sexóloga
Quando Zeus separou os andróginos ao meio (mito grego da origem), instalou-se nos humanos a necessidade de sua (re)união, com um outro ser, como condição de completude, de bem-estar, de motivo de felicidade. As partes separadas começaram uma busca definitivamente inquieta e fascinante de complementação, como um destino humano de juntar-se de novo, de (re)encontrar-se, para saber-se de novo inteiro. Fundou-se, a partir disso, a necessidade do olhar do outro, para o reconhecimento da própria face e do próprio valor. Se esse é o destino, a separação dos amantes corresponde então à maior dor humana.
Há formas diversas de separações: suaves, amigáveis, hostis, violentas, sofridas e indiferentes. A prática clínica tem nos colocado em contato com essa dor e possibilitado a escuta de gemidos que atravessam a alma da pessoa, sobretudo daquela que se sente em desvantagem amorosa no momento da separação. É a agonia de quem ainda está encantado na relação, vivendo sonhos afetivos para com o outro. Apesar disso, tem de suporta-lhe o desencanto e o desejo de partir que nele se instalou. São dores intensas as do indivíduo que não optou pelo fim da relação. É uma agonia vivida pelo EU sobretudo porque se sente recusado no amor que tem para oferecer. Confirma-se que a separação caracteriza-se pela descontinuidade, trazendo a experiência da morte dentro da vida.
A pessoa atingida pelo término da relação entra num estado de confusão emocional muito próprio de quem está perdido, sem bússola ou porto onde ancorar. Ante o sofrimento vivido, o parceiro deixado não vê o outro em sua real dimensão, mas o mantém mitificado no pedestal amoroso que lhe criou. Desse lugar não pode perceber que o outro talvez nem esteja ao alcance do amor que lhe é oferecido e que, por isso, foge, quem sabe, com medo da grandeza da relação.
Não se dá conta de que ele talvez não sabe amar ou não merece mais esse amor. Inconformado, teima em oferecer-lhe a alma ainda apaixonada. Dádiva que cai no vazio porque o outro quer partir ou já partiu. Uma partida que o deixa atingido narcisicamente, ferrado na alma. Como se não bastasse esse sofrimento, o parceiro deixado ainda se chicoteia, cascavilhando em si mesmo erros, falhas e culpas que justifiquem o trauma da separação. Sentir-se culpado é mais suportável do que sentir-se preterido, desarmado. Saber-se desejado, importante e significativo para o outro é a maior ânsia dos apaixonados. O que se deseja mais intensamente é que o outro nos deseje.
A relação não se encerra magicamente com a decisão de afastamento de uma das partes. A teimosia do desejo acende a vontade de ver de novo, provoca os reencontros e, às vezes sofrido e não raro, um dar-se conta da espera vazia, espera de nada já que o outro não mais deseja a relação. Tendo a partir daí a próxima tarefa da vida: compreender que a solidão é também o lugar do confronto, do questionamento, do refazer-se, do curar-se de si mesmo e do outro.
Como terapeuta e mulher abro espaço ao resgate da coisa positiva que foi vivida, apontada para outra face dessa dor, pois quem chega à agonia da dor da perda é porque viveu a felicidade da posse. Teve a percepção do sentimento de continuidade. Sentiu-se imortal. A separação é a viagem de volta, o retorno à insignificância. Enquanto a posse traz o encantamento, a perda representa o regresso ao desencanto. É essa viagem de volta que perfaz o percurso da dor, mais intensa ou menos forte a depender não só da intensidade do encanto vivido como também da forma de ruptura, se gradual ou brusca. A dor é o risco. Completa a aventura, a fantástica aventura de amar. Faz parte da vida, contribuindo para que possamos entender nosso lugar no mundo.
É tão delicado o contexto da ruptura dos amantes que eles terão de ser muito cuidadosos para não se ferirem. Quando se quer preservar uma boa lembrança do que foi vivido, terão os parceiros que preservar também o narciso do outro. Sabendo-se que ser desejado é o maior desejo de quem ama, terão de ser evitados discursos que atestem a falta de desejo assim como atitudes que deixem em evidência a falta de respeito ao amor existente, ferindo narcisicamente o outro muitas vezes através de um doloroso silêncio, sem justificativas e palavras de afeto e consolo.
Essas são formas de encerrar que não cabem no rito final de uma relação que foi significativa. Talvez a metáfora de um abraço, a reafirmação de que tudo significou, mesmo a dor vivida mas que agora é preciso terminar, deixe o ego mais inteiro. Haverá dor sim, inquietação, angústia, sentimento de abandono, mas o indivíduo enfrenta melhor a sua dor se a autoestima ficar preservada. Essa estima é uma reserva psíquica indispensável para que o parceiro deixado possa cuidar-se e continuar seu projeto de ser feliz.
Não há separação sem dor. Desde o corte umbilical reagimos aos gritos. É assim que nascemos. É primal, pois, nossa relação com a angústia. A dor revela-se inerente a todo processo de afastamento por mais necessário que ele se apresente. Não fomos exercitados a compreender a separação como passagem para novos estados de vida. No entanto, a separação amorosa, como outras separações, repete a expulsão fetal do útero, em benefício da vida e do crescimento. Se não nascer, o indivíduo morre.
Fonte: Jornal O Povo (Fortaleza). Publicado em 25 de setembro de 2010 (Seção Opinião) – Contáto com a autora: zenilcebruno@uol.com.br

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