2010-10-11

Quem quer que seja a criança, “a sua vida não tem preço”


Marie Thérese Hermange
Filósofa e Presidente do Intergrupo Parlamentar Família e Proteção da Infância, Europa.
Quem hoje será capaz de levantar-se para dizer “Não” a tudo o que fere, avilta ou mata a criança? Quem ousará lembrar, com voz alta e forte, que cuidar de nossos filhos significa sentir sua necessidade de significado e de união?  Aderir a tal pergunta é não só pôr em ato procedimentos, estruturas adequadas, mas ainda recusar os comprometimentos mornos, estar unido em torno dos ideais inseparáveis de amor e verdade, de justiça e paz; significa ainda chamar à mobilização homens e mulheres que, dos primórdios da sociedade – do neonato ao adolescente -, ao cruzamento do vínculo familiar com o vínculo social, saberão acolher, questionar, acompanhar com um espírito de abertura, para sentir “aquele não sei quê, aquele quase nada que é nada, mas pelo qual nos expomos a desilusões se não são considerados”. Reformar o pensamento significa na realidade reconstruir, a serviço de todos os homens, a “civilização do amor”, que Paulo VI desejava ardentemente, para igualmente promover “o evangelho da vida”, do qual João Paulo II se fez o profeta incansável e admirável.
Esta afirmação, que aos olhos de alguém poderia parecer bastante pobre, traria todavia proveito se fosse considerada como primeiro princípio das nossas ações, lembrando-nos assim do nosso dever de amor aos nossos filhos. Na realidade, é somente o amor que permite ver a criança sob os traços daquele que se tem a tendência de reduzir a um caso, aquele que está previsto nas nossas leis e nos nossos regulamentos; que permite ver a criança e não o trissômico, a criança e não o delinquente ou analfabeto, que permite dar a todas as crianças do mundo a condição de vida fundamental à sua maturação e ao seu pleno desenvolvimento, dividindo, por exemplo, em particular para todos aqueles que vivem na sombra da pobreza e da negação dos seus direitos, recursos, saberes e competências. É só o amor que permite ainda reconhecer o direito de nascer a este filho do homem, para além da concepção “puramente instrumental” da criança – denunciada por Tony Anatrella -, concepção esta confortada por um “discurso que nega a interrogar-se sobre pertinência das práticas eugênicas atuais”.
Por isso, o sonho da criança perfeita, se de alguma forma é legítimo por parte dos pais, que para os filhos querem o melhor, é na maioria das vezes perverso, pois sempre votado à desilusão e, portanto, ao ressentimento. É este um ponto capital na reflexão sobre os “direitos das crianças”: a criança não tem “o direito” de ser o melhor, mas seus pais, ao contrário, têm o dever (e, na maioria das vezes, o desejo) de dar-lhes o melhor de si mesmos. Ou, para expressá-lo de outra maneira, a criança não tem “direito à saúde”, mas tem o direito aos cuidados apropriados por parte de quem vive ao seu lado. A criança programada, selecionada, cuja vida depende às vezes somente da persistência de um “projeto dos pais”, não é precisamente senão um símbolo entristecedor do espelho no qual se quer contemplar o adulto, negando o outro na sua diferença radical e sempre inesperada. Ora, quem quer que seja a criança, “a sua vida não tem preço” e a sociedade deve dar a seus pais os meios para poder acolhê-las sem condições, mesmo nas fases mais críticas da sua existência, como o período que precede o nascimento – porque o seio materno não é mais considerado como um santuário, mas, cada vez mais, como um lugar onde a vida da criança que deverá nascer depende do beneplácito dos adultos – ou o período ingrato da adolescência, que representa um outro “desafio dos amor incondicional”.
Fonte: LEXICON - Pontifício Conselho para a Família, 2ª Edição, 2007, Direitos das Crianças. 

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