2010-10-09

Optar por confiar nunca é fácil


Eu já tinha visto aquele mesmo olhar pelo menos uma dúzia de vezes. Ele me dizia: Devo ou não confiar?
Conheço muito bem o conflito que está sendo travado a 15 metros de mim. O filhote desgarrado tenta decidir se sou ou não confiável. O tormento é insuportável. A cachorrinha dá alguns passos hesitantes para a frente, depois pensa melhor e recua. Eu adoraria me aproximar correndo, pegá-la no colo e convencê-la de que sou confiável, mas assim que me inclino para a frente, ela se afasta ainda mais. Nesse instante, a cachorrinha que está diante de mim não tem a menor ideia do que a aguarda se puder superar o seu medo.
Se ela se aproximar, receberá todas as coisas boas que tenho em casa – o que não é pouco. Os muitos filhotes desgarrados que aparecem no nosso quintal fazem com que eu me pergunte se nosso endereço não está num cartaz preso a um poste em algum lugar, porque minha esposa deve ser a pessoa mais sensível da cidade quando se trata de um cachorro abandonado. 
Aqui em casa os filhotes recebem um tratamento de rei na primeira semana. Em seguida, minha esposa faz tudo o que pode para localizar o dono do cachorro. Se não consegue, publica um anúncio no jornal oferecendo o filhote e o entrega somente quando se convence de que nova família o tratará bem. Muitos cãezinhos ficam animados com a atenção que recebem, mas outros agem como se tivessem apanhado de todos os seres humanos que conheceram. Em vez de correrem para dentro de casa e para todo o amor que podem receber, eles se escondem, sem saber se estarão a salvo.
O último filhote – uma fêmea – foi um desses. Estendi a mão, oferecendo-lhe comida. Pelo seu estado, sabia que ela não comia há muito tempo. Tentei atraí-la com palavras de carinho, falando baixinho. Mas logo percebi que não seria fácil. Não a obrigaria a entrar na minha casa. Se ela se aproximasse, teria de ser por vontade própria.
O jogo continuou por algum tempo, e naquele instante podia pender para qualquer lado. Será que cuidarei dela e a ajudarei, ou serei como os outros que a machucaram e a abandonaram? Se meu convite lhe causar ainda mais dor, ela irá preferir ir embora agora.
Sei exatamente como a cachorrinha se sente. Todas as vezes que me envolvo nesse jogo, penso em como ele espelha a oferta que Deus me fez – e como foi difícil aprender a confiar Nele. Optar por confiar nunca é fácil – seja para cães desgarrados, seja para filhos, ou qualquer ser humano.
Fonte: Wayne Jacobsen. Deus me ama, 2010.

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