A Inveja

Escrito Por Antonio Marcos na domingo, outubro 24, 2010 Sem Comentários

Fernanda C. de Almeida
Ela anda descalça com seus pezinho esverdeados pelo chão imundo da casa. Os cabelos são despenteados, cheirando a terra e umidade. A Inveja mora sozinha, na menor casa de uma rua ampla. Não costuma falar com os vizinhos e sai , logo de manhã, para comprar um único pão no mercado. Volta sempre ultrajada com o que vê. Desdenhosa, nunca sorri. Empurra os grampos dos cabelos com as unhas sujas – pintadas de vermelho, como que por luxo.
A Inveja desaprova os namoros da vizinhança e com um muxoxo faz descaso da alegria dos mais moços. A única alegria que ainda lhe resta são as historias que lhe fazem companhia, historias mentirosas e compridas, onde passos viram fugas, conversas viram encontros fortuitos e dinheiro vira roubo . Estas historias, ela conta a quem bem quiser ouvir, majestosamente sentada do lado de fora da casa a vigiar com satisfação seu promiscuo reino.
A inveja usa saia marrom desbotada e tem muitas palavras para o nada que lhe ocupa a vida. É melhor passarmos calados, pela quarta casa da rua ampla: lábios cerrados e olhar no chão – não se deve arriscar o olhar severo da Inveja.
Fonte: Jornal O Povo (Fortaleza) – Jornal do Leitor, 23 de outubro de 2010.