2010-10-24

A Inveja


Fernanda C. de Almeida
Ela anda descalça com seus pezinho esverdeados pelo chão imundo da casa. Os cabelos são despenteados, cheirando a terra e umidade. A Inveja mora sozinha, na menor casa de uma rua ampla. Não costuma falar com os vizinhos e sai , logo de manhã, para comprar um único pão no mercado. Volta sempre ultrajada com o que vê. Desdenhosa, nunca sorri. Empurra os grampos dos cabelos com as unhas sujas – pintadas de vermelho, como que por luxo.
A Inveja desaprova os namoros da vizinhança e com um muxoxo faz descaso da alegria dos mais moços. A única alegria que ainda lhe resta são as historias que lhe fazem companhia, historias mentirosas e compridas, onde passos viram fugas, conversas viram encontros fortuitos e dinheiro vira roubo . Estas historias, ela conta a quem bem quiser ouvir, majestosamente sentada do lado de fora da casa a vigiar com satisfação seu promiscuo reino.
A inveja usa saia marrom desbotada e tem muitas palavras para o nada que lhe ocupa a vida. É melhor passarmos calados, pela quarta casa da rua ampla: lábios cerrados e olhar no chão – não se deve arriscar o olhar severo da Inveja.
Fonte: Jornal O Povo (Fortaleza) – Jornal do Leitor, 23 de outubro de 2010.

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