2010-10-09

E viva Narciso!


Padre Deolino Pedro Baldissera – SDS.
Psicólogo e Professor
Diz a lenda que Narciso, ao contemplar-se no reflexo da água do lago, encantou-se tanto com sua imagem que morreu afogado nela! Vivemos num mundo marcado por uma cultura narcisista, onde a afetividade e a sexualidade devem corresponder ao sentir-me bem que, na maioria das vezes, significa satisfazer os desejos e apetites individuais sem levar muito em conta outros aspectos como o respeito por valores humanos e espirituais que estão em contradição com tais posturas. Um subjetivismo que mata a doação gratuita. Um subjetivismo que exclui o sacrifício e a oblatividade como manifestações de afeto e amor. O outro interessa enquanto dá prazer e lucro!
A cultura narcisista põe em cheque conceitos e tradições da humanidade e se impõe como política e cultura novas! Veja-se o caso dos movimentos gays. Em nome de seus direitos proclamaram um tipo de liberdade cujo único referencial é o próprio ser. O prazer se torna quase que o absoluto que determina o modo de viver sua afetividade e sexualidade. E sendo prazeroso não há nada de mal, não há limites! Na verdade, o que está em jogo não é apenas uma questão de direito das minorias, é uma revolução na inversão de valores. O que está sendo questionado, entre outras coisas, é, por exemplo, o problema da identidade de gênero. Já se passa a falar da questão de gênero não como característica que distingue o masculino do feminino, mas já existe muito mais que isto (homossexual, bissexual, transexual etc.) Os padrões de comportamento não se avaliam por critérios morais universais, mas por padrões ditados pela experiência de alguns que não se identificam mais nas categorias de gênero definidas pelo masculino e feminino. As opções de gênero não são as dadas pela natureza, mas aquelas definidas por escolhas segundo visões culturais do mundo atual.
A questão envolve um aspecto mais profundo que é a questão, portanto, da identidade. Parece que o ser humano de uma hora para outra perdeu o senso de si e de seus referenciais e ao tentar encontrar novos modos de ser (recuperá-los ou recompô-los), extraviou-se no caminho de e muitos agora tentam firmar-se nas exceções, assumindo-as como regra. O referencial bíblico a respeito do “Ele os criou homem e mulher” já não conta mais tanto. Muitos perderam (ou nunca tiveram) um sentido mais profundo para a vida e por isso procuraram preenchê-los com algum que satisfaça os desejos imediatos, mesmo que não contemplem a busca de valores perenes e transcendentais. As respostas para hoje devem ser imediatas, prazerosas e excitantes com cargas emocionais a gosto de cada um.
Nada de esperar gozo no futuro, tem que ser agora! Já no primeiro encontro, no primeiro dia de “ficar” juntos está subentendida a questão da falta de compromisso ou talvez o medo de se envolver ou ainda o de ir para a cama “fazer amor”, cujo único compromisso é de que ambos estejam a fim. Não tem nenhuma importância se ontem foi com outro e amanhã com outro parceiro. Afinal, fazer sexo pode parecer como prato de restaurante, do cardápio disponível, cada um come conforme o gosto e o bolso! “Paga a conta a vai embora!”. Não tem mais compromisso! “Por uma noite apenas e nada mais!”, como diz a canção.
Dentro dessa cultura que perdeu os referenciais tradicionais dos valores morais e religiosos não há mais limites para o que seja verdade ou liberdade. Cada um tem o direito de fazer as próprias escolhas, arcar também com suas consequências e não precisa dar satisfações a ninguém. Moderno é ser independente e responsável segundo seu critério. É Narciso cultuando sua imagem sem dar-se conta do perigo de morrer afogado nela!
Fonte: Revista O Milite, agosto de 2006.  

0 comentários:

Postar um comentário