Destino, um confortável desejo

Escrito Por Antonio Marcos na terça-feira, outubro 26, 2010 Sem Comentários
Filósofo, Dr. Mário Cortella

Mário Quintana, poeta modernista que por pouco não atravessou vivo todo o século passado, é autor de deliciosa obra de leitura do cotidiano (premiada em seu conjunto pela Academia Brasileira de Letras, na qual tentou por três vezes ingressar e foi derrotado); o gaúcho sempre foi um frasista militante de alta qualidade e durante anos publicou muitas dessas frases em jornais com o título de Caderno H (agrupadas e publicadas em coletânea no início dos anos 1970). Uma delas toca num dos temas mais recorrentes dos nossos momentos: a ideia de destino; disse ele que “o destino é o acaso atacado de mania de grandeza”.

Destino ou acaso? Coincidência ou fatalidade? Determinismo ou liberdade? Há uma angústia presente na necessidade de fazer escolhas e, mais ainda, ter de aceitar o resultado daquilo que se escolheu. Às vezes essa angústia se transforma em desgosto, sofreguidão, atribulação, sufoco, avidez, desassossego, inquietação. A melhor forma de justificar ocorrências, legitimar frustrações ou desculpar algumas emoções desvairadas é naturalizar a origem de tudo, isto é, colocar as causas dos fatos e comportamentos em um patamar fora da intervenção humana, como, por exemplo, o destino ou a natureza. Assemelha-se um pouco à Síndrome de Gabriela, uma apologia do “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim”...

O médico escritor espanhol Gregorio Marañón, além de biografias e ensaios científicos, produziu fundamentais estudos em endocrinologia, especialmente sobre ma das vedetes de nosso tempo: a adrenalina; pouco antes da Segunda Guerra Mundial descreveu o papel das descargas e do nível desse hormônio para explicar os processos de emoção. Porém, sua sólida formação científica não impediu de afirmar que a “pobre liberdade que os homens nos dão ou nos tiram quase nada representa ao lado da cadeia do destino herdado, que nasce enroscada em nossa alma e a vida mal pode afrouxar”.

Essa apaziguadora interpretação da existência aparece inclusive em uma das poesias do filósofo Nietzsche, na qual faz menção a Epicteto – fundador do estoicismo na Antiguidade e criador da máxima “Suporta e abstém-te”; o filósofo alemão diz: “Destino, sigo-te! E mesmo que não o quisesse, deveria fazê-lo, ainda que gemendo”.

É muito confortável proclamar a presença constante do destino; quando existe a convicção de que tudo “já está escrito” evita-se a turbulência mental que advém quando é preciso decidir, assumir ou, o que também é fulcral, enfrentar os responsáveis. É preciso prestar atenção no que disse o Nobel de Literatura de 1915, Romain Roland: “Os homens inventam o destino a fim de lhe atribuir as desordens do universo, que eles têm por dever de governar”.

Talvez aí esteja a raiz de muitos tormentos espirituais, das aflições de consciência e das agonias pessoais: a perturbação por ter de assumir os riscos e consequências das opções que podem ser feitas por aqueles que superam a indigência das condições materiais de existência e, portanto, atingiram a capacidade de ir além da mera sobrevivência física e cotidiana. Esses, tal como nós, não são privados de arbítrio e, portanto, devem responder socialmente pelos encargos trazidos pela liberdade. A atitude expectante, aquela que fica no aguardo do que vir, supondo a representação involuntária de um enredo previamente elaborado por forças alheias ao nosso mundo, representa uma postura negligente e, até, irresponsável.

Deixa a vida me levar, vida leva eu?

Fonte: Cortella, Mário Sergio. Não nascemos prontos! Provocações Filosóficas, 2009.