2010-10-19

As lágrimas de felicidade de um corredor


Corro a mais de 15 anos, desde quando fiz parte da “caserna” (Exército). Lá descobri o talento e a arte da corrida. A caserna ficou na história de vida, mas a paixão por correr nunca passou, nem mesmo durante os anos de vida missionária! Sempre procurava um cantinho e um tempo para alimentar o prazer, ainda que fosse durante a noite, na madrugada, no frio, no calor, na chuva, nunca importa, a gente coloca o tênis, se aquece, aciona o cronômetro e vai se divertir. Não sei exatamente quantos quilômetros já corri, mas sei que foram milhares. Logo vieram as competições, as amizades, as aventuras, as fotos, as viagens, as medalhas, as diversas camisetas, mas também as dores, os erros, as lesões, a recuperação, o recomeço e as incontáveis lições que a arte de correr tem me ensinado como experiência para a vida.
Tendo corrido por diversas vezes a meia maratona, tinha o sonho acompanhado de um desejo enorme: completar uma maratona, 42,195 km. Pela primeira vez chegou ao Ceará a realização desta competição, chamada “Maratona do Sol Pente”, escrita no calendário nacional de corridas de rua (com três modalidades: 7 km, 21 km e 42, 195 km). Não pensei duas vezes, fiz minha inscrição e começei a treinar sistematicamente e intensamente. Depois de participar da meia maratona de Fortaleza (abril de 2010), quando fiz 01h35min, em seguida continuei treinando e em agosto organizei uma planilha para 2 meses com 4 treinos por semana, incluindo velocidade, resistência, subida e descida. Rodava em torno de 40 km por semana. Fiz nesse período 3 “longão” (treino de longa distância para simular a maratona na preparação da musculatura: 18, 24 e 30 km). 
Entrando na última semana e já se aproximando da competição, cessaram os treinos e apenas deixei a musculatura descansar. Peguei meu kit em Fortaleza e uma surpresa: vi que eram mais de mil atletas distribuídos nas três modalidades, mas apenas 200 atletas estavam escritos para o desafio da maratona. Quando olhei a relação logo reconheci o nome de muitos colegas de ponta do atletismo cearense, inclusive, de estados circunvizinhos. Pensei, será que serei o último a chegar? Não importa, eu quero completar! Outra surpresa: para os atletas da maratona o nosso nome veio gravado no número de peito, que a gente só vê nas grandes competições nacionais e internacionais. Muito legal, eu já estava me sentindo importante! (risos).
Sábado pela manhã, 16 de outubro, viajei à praia do Cumbuco, aqui no CE, local do evento. Chegando lá o tempo ainda estava quente (a largada tava prevista para 16h), mas o clima era de festa. Atletas chegando de toda parte em ônibus e carros. As assessorias esportivas já estavam com seus stands montados e a organização fazia os últimos preparativos na estrutura geral. Peguei o chip do tênis, troquei de roupa e fui tirar algumas fotos. Nesse intervalo de tempo conheci dois colegas: Nunes (atleta experiente de São Paulo que veio ao Ceará pela primeira vez somente correr a maratona) e o Fábio (Belo Horizonte), que veio passar uma temporada no Ceará e aproveitou para correr os 7 km.  O Nunes me ajudou nas dúvidas e me deu uma série de dicas importantes. Mas quando lhe disse que pretendia correr minha primeira maratona para 03h 30m., ele se assustou e me disse que achava um tempo desafiante porque eu teria que correr os 10 primeiros km iniciais fazendo 4/5 minutos por km e só deveria fazer isso se realmente estivesse confiante das condições de preparação e dentro do planejamento, porque lá na frente eu sentiria e poderia quebrar. Pensei bem no que me falou o Nunes, mas mantive o que planejei. Fizemos juntos 20 minutos de aquecimento, desejamos boa sorte um ao outro e fomos para a largada! Eu correria com MP4 ouvindo música católica animada, no bolso estavam duas cápsulas de carboidratos e já bem hidratado. Não faltava mais nada, só iniciar o desafio! O prefeito de Caucaia proferiu uma breve palavra de incentivo aos participantes e deu o tiro de largada. Fiz o sinal da cruz, passei no tapete para registrar o chip, acionei o cronômetro e começei a correr atrás do tão desejado sonho.
A galera que curte apenas o passeio faz festa, brinca, vive o momento, mas o pessoal que está para correr atrás de suas metas, não tem brincadeira, logo a gente vai ultrapassando a galera e seguindo os atletas que puxam o ritmo. Com 3 km já pegamos uma subida daquela, mas serviu para eu me testar. Fui acompanhando meu tempo e estava fazendo exatamente 4/5 m. por km. Sentia que tava bem e fui em frente. Logo a grande massa dos 7 km faz o retorno e fica outra grande parte para 21km. A tentação é acompanhar os atletas da meia maratona, mas não podíamos porque o ritmo deles estava mais forte por causa da distância menor, o que ajudava era o número de peito diferenciado (cor verde para 7 km, branco para meia maratona  e amarelo para a maratona). Passeio o km 10 com 45 minutos e fiquei feliz pelo tempo. Tomei minha primeira cápsula de carboidrato e estava me sentindo inteiro. No km 15 a galera da meia maratona faz o retorno e aí começa propriamente dito o desafio. Vem a solidão, a distância dos atletas para frente e para trás, é hora de começar a pensar em tudo o que planejei, pois nada pode dar errado. Apenas eu e outro atleta corremos juntos do km 15 ao 20. Fala-se pouco, somente o necessário, nada de olhar para trás e seguindo o planejado. Chegamos ao marco da meia maratona (21 km), passei a 01h e 40m. Posto de água e bebida isotônica.
Chegando ao km 23 veio o primeiro desafio, sentia que a meia do pé esquerdo fazia calo. Fiquei preocupado porque começou o desconforto. Deixei o colega ir, diminui um pouco o ritmo e em seguida me preparei para achar uma descida, parar e mudar a posição da meia, foi o que fiz. Já estava terminando de amarrar os cadarços (1/5 m.) logo encostou um pelotão de 4 atletas. Diminuíram o ritmo e perguntaram se eu estava bem, respondi que sim, parei só para resolver um probleminha na meia. Eles então responderam: legal, então vamos nessa! Daí a diante fui com esse pelotão num ritmo de 5m. por km até o 28, éramos 2 cearenses, os outros do RN e Piauí. Durante esse trajeto só encontrávamos os fiscais, os postos de hidratação, a ambulância circulando e os organizadores motorizados registrando tudo com fotos.
Muito interessante o fato de que nas localidades residenciais as pessoas aplaudiam, olhavam o nome no peito e gritavam “vai Toin”, força, estamos torcendo por você, coragem, e aplaudiam como se nos conhecessem, muito legal mesmo! Nunca tinha corrido daquele jeito! (me sentia um atleta de elite na São Silvestre, risos!) Depois do Km 29 começamos a nos separar porque dali pra frente era a mente e a preparação, cada um tinha que cuidar da sua estratégia. Dois se distanciaram pra frente e dois para trás de mim, mas os da frente eu sempre os mantinha no ângulo da visão. Decidi não manter o ritmo deles porque poderia quebrar, preferi me poupar. Mais um posto de água, desta vez recusei o energético e tomei minha segunda cápsula de carboidrato.   
Dizem os especialistas e os atletas experientes que uma maratona começa a ser decidida no Km 32. E, de fato, foi o que senti. Quando passei do km 33 chegaram as dores na musculatura, parecia querer dar cãibra nas pernas e nos braços, músculo enrijecido, dores fortes em cada impacto no asfalto e começou a “grande prova”. O ritmo diminui porque cada pisada dói tudo e logo encontrei os primeiros atletas caminhando. A mente tinha que canalizar aquelas dores, afinal, li muito sobre a psicologia e a preparação mental de um corredor para uma maratona. A preparação psicológica para enfrentar os desconfortos é indispensável. O Nunes havia me dito: "Antonio, quando começar a doer a musculatura, caminhe no máximo 30 segundos e volte a correr, porque se passar disso os músculos podem travar, a dor aumenta e não conseguirás retomar. Volte a correr lentamente (trotanto), mas não pare de vez, só se vires que não dá mais!" Fiz isto do km 34 ao 38, corria 1 km, caminhava 30 segundos, hidratava-me, jogava água nos músculos e retomava a corrida mesmo tudo doendo. Não tinha noção de quantos atletas exatamente estavam à minha frente.
Quando passei do km 38, confesso, não sentia mais minhas pernas de tantas dores, mas as pessoas que assistiam a prova e os fiscais davam aquele incentivo parabenizando, dizendo pra ter coragem, ta perto, vamos lá, vamos lá! No Km 40 eu estava no limite, mas continuava correndo, dizendo pra mim mesmo: eu vou chegar! Não vou desistir! Tá perto do grande sonho, falta pouco Antonio Marcos, coragem! A partir do Km 40 ultrapassei ainda dois atletas bons dos que conheço, estavam exaustos e andavam, encontrei ainda forças para lhes dizer: vamos lá mano, falta pouco! Durante todos esses trajetos continuava olhando para o relógio e percebia que ainda estava dentro da possibilidade de chegar no tempo previsto ou aproximado.  
Veio a grande emoção, quando fiz a curva da avenida principal e avistei ao longo de 1km e 195 m. a linha de chegada, meu ritmo aumentou, tirei forças não sei da onde, via tão perto a realização do sonho, mas aquele km parecia interminável. Ao me aproximar da linha de chegada, faltando 300 metros um filme passava na minha cabeça: lembrava de todos os anos de corrida, os treinos, as alegrias, as dores, os amigos que me deram forças, as dificuldades superadas e os desafios vividos recentemente, mas, sobretudo, a certeza de que tudo valeu a pena. Quando entrei no funil de 50 metros e com aquela multidão de gente aplaudindo, fotografando, começei a chorar e ainda escutei algumas pessoas dizerem: “ele está chorando!” Ao cruzar a linha de chegada, o cronômetro marcava 03h e 38m, inacreditável! Coloquei as mãos no rosto e chorei de felicidade! Pensava comigo: sou um campeão, sou um homem feliz, eu completei uma maratona num tempo excelente! Obrigado meu Deus!
Logo uma moça da organização se aproximou, pegou no meu braço e perguntou se eu tava bem. Disse que sim! Ela me levou até uma cadeira, sentei, deu-me isotônico, água, retirou o chip do tênis e me colocou a linda medalha feita exclusiva para os atletas da maratona. Parabenizou-me e disse que depois eu fosse me alimentar.   Infelizmente não encontrei mais o Nunes e nem o Fábio para contar-lhes do meu excelente tempo e da minha felicidade, mas logo nos falaremos, pois trocamos contatos e assim nos encontraremos nas corridas da vida. Inclusive o Nunes me disse: "Antonio, quando você for correr a maratona de São Paulo no próximo ano, dar-lhe-ei hospedagem e todas as dicas da poderosa maratona de São Paulo!
Então, se você teve paciência para ler tudo isso, parabéns, você também é um campeão! (risos!) Corrida é um talento, uma arte e uma paixão, tem que amar mesmo, se não tudo é chato demais, inclusive ler um negócio desse tamanho! Eu amo correr! Tudo o que vivi até à Maratona do Sol Poente ficou expresso nas lágrimas de quando cruzei a linha de chegada dos 42km e 195m. Lágrimas de um corredor, de um homem que aprendeu que é sempre possível superar desafios!
Agradeço aos meus amigos e amigas! Ah, no dia posterior, Domingo, recebi uma mensagem do site oficial da Maratona me parabenizando pelo ótimo resultado e me passou os dados referentes à minha colocação: dos 200 atletas escritos na maratona, com o tempo de 03h 38m. fiquei na 34ª posição e o 13º na minha categoria por idade. Nossa, foi outra grande emoção! Na verdade, eu me superei, sou de fato um campeão! Tudo ainda dói muito, é verdade (risos!), mas já estou com vontade de correr! “Quem completa uma maratona – já dizia Emil Zatopek, a lenda do atletismo - começa a experiência de uma nova vida!”
Antonio Marcos

4 comentários:

  1. Nossa amigo,o texto estar maravilhoso! É tão bom a sensanção de superar
    os proprios limites!Vou começar a treinar para os 10km!Me deu até um ânimo novo!Não que eu estivesse desanimada,mas as vezes penso que se eu for aumentando a minha distância de corrida,posso nao conseguir ir até o final!
    Parabéns por sua primeira maratona amigo! Vai Toin,vc consegue!rsrs
    Rumo a São Silvestre!!

    abraço,

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  2. Antônio Marcos (Vai, Toin! rsrsrs), gostaria de parabenizá-lo e de agradecê-lo pela bela narração dos acontecimentos. Me emocionei muito com a riqueza de detalhes. Sou seu fã! Já começo a rezar para você ir para São Paulo no próximo ano.
    Grande abraço!

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  3. Marcos, Shalom!
    Muito obrigado por você ter apreciado a narrativa deste fato importante na minha vida. A gente pensa como vai conseguir fazer um texto grande e "sobre corrida", de maneira que consiga dizer algo às pessoas, espero que eu tenha conseguido, pelo menos vejo sinais disso no seu comentário, obrigado mais uma vez! Ah, reze mesmo meu irmão, pois nunca fui à São Paulo e é um sonho, quem sabe esteja bem perto e eu consiga correr a Maratona de São Paulo. Deus te abençoe e que Nossa Senhora te guarde.

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  4. Obrigado querida amiga Luciana, pelo seu comentário!
    Que bom que minha partilha tenha conseguido dar ânimo a você para que também possas ser perseverante na arte da corrida e assim se torne uma campeã, não necessariamente correndo uma maratona - mas, quem sabe - , mas simplesmente primeiramente sendo perseverante, esta é a primeira conquista, o resto vem por acréscimo e dedicação. Continue correndo, amiga, pois é uma das coisas mais maravilhosas da vida. No dia que você completar 10 km, 21km e uma maratona quero poder estar com você para abraçá-la e felicitá-la. Deus a abençoe e Nossa Senhora te guarde! Força amiga!

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