A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2010-10-31

Deus concluirá em vós a obra que iniciou!


“Disto estou seguro: aquele que começou em vós uma obra nova, a levará a termo até o dia de Cristo Jesus” (Fl 1,6). Na sexta-feira passada, meditamos na Liturgia da Palavra este texto bíblico da carta de São Paulo aos Filipenses. Um texto, por sua vez, rico de significado e que nos possibilita uma hermenêutica comunitária e também pessoal na relação com o mistério da eleição de Deus nas nossas vidas. Após meditá-lo passei o dia conservando-o na memória do meu coração, como se rezasse silenciosamente em cada parte do dia.

Providencialmente, no final daquele dia, eu chegava à Casa do Volta Israel (Casa da Comunidade de Vida Shalom que trabalha com dependentes químicos, Eusébio) para lá permanecer o final de semana, visitar meus amigos, conviver com os internos, reviver um pouco da experiência como o foi no ano de 2007, quando estava lá como missionário. Tamanha foi a experiência que me trouxe abundantes alegrias à minha alma. Conversei bastante com alguns deles, visitei a sala de ícones, da informática, a horta, a oficina de mosaicos, a academia e o auditório onde, no dia do sábado pela manhã, eles assistiam ao DVD com palestra do Pe. Leo (Canção Nova, “de feliz memória!”).

Um dos internos me partilhou da sua luta para vencer a dependência química, dos estragos que o crack provocou na sua vida e da sua família, o afeto destruído, o abandono, mas, graças a Deus, surgiu uma luz no fim do túnel, a esperança voltou por ter encontrado quem acreditasse na sua mudança de vida. Com os olhos cheios de lágrimas agradecia à Comunidade Shalom pela oportunidade de não só estar ajudando-o a sair das drogas, mas por ter lhe proporcionado a grande graça de conhecer o amor de Deus, a fé, a Igreja, a vida de oração, a Palavra de Deus e Nossa Senhora. Após escutá-lo, contei-lhe um pouco das minhas superações na vida e o encorajei a concluir o tratamento e permanecer perseverante na graça de Deus. Lembrei a ele exatamente o versículo da Palavra do dia: “Deus concluirá em vós a obra que iniciou!”

Na hora da celebração da Palavra do sábado (Capela do Volta do Israel), na meditação do Evangelho, Elâine (FC) falou da necessidade de procurarmos viver a humildade, de confiar que Deus conhece a “verdade do nosso coração” e que não esquecêssemos de que Ele nos prometeu que concluirá em nós a Obra que iniciou com suas próprias mãos. Lembrei dos meninos do Volta Israel, lembrei das tantas vezes em que estive ali na frente dizendo a eles: Coragem, não desistam de acreditar na obra de Deus! Agora eu estava lá também ouvindo junto com eles: “Deus concluirá em vós a obra que iniciou!”

Visitar o Volta Israel foi uma experiência de renovação interior, de renovação da confiança no amor de Deus e nos seus desígnios para com "as nossas vidas!" Ah, à noite assistimos juntos um filme policial e foi tão legal perceber que o amigo, mesmo traído pelo companheiro que dizia amá-lo, não abdicou de seus valores, arriscando tudo para salvaguardar a verdade de sua consciência, outra grande lição “para nós!”. Obrigado Senhor!

Imagem: Odeísa e Elâine (Consagradas na CVSh, Volta Israel), amigas.

Antonio Marcos

2010-10-29

Eleições: Contra o aborto: crença do Papa?

O Papa e as eleições no Brasil

Vi hoje pela manhã no telejornal, a resposta da candidata do PT, ao ser interrogada sobre o que achava do Discurso do Santo Padre, por ter lembrado que os católicos não devem votar em candidatos que promovam o aborto: “O Papa tem o direito de se pronunciar contra o aborto, é a crença dele, afirmou a sra. Dilma Rousseff!

É a crença dele! Uma resposta incômoda, superficial e descompromissada da candidata do PT que, inclusive, tem dito ultimamente que é contra o aborto. Ser contra o aborto é “uma crença do papa?” Não somente! É, primeiramente, uma “crença humana”, ou seja, é um valor universal, portanto, válida e necessária para os católicos, para todos os crentes e para todas as pessoas humanas. A vida é um valor absoluto e a defesa da vida não é simplesmente uma questão religiosa, mas uma questão ética!

No entanto, faço uma observação: o mais chocante não é que a Dilma tenha dito isso, mas é que a afirmação “é a crença do papa” traduz os pensamentos de uma grande parcela de católicos e, essa sim, é preocupante da mesma forma porque, afinal, é ela que está elegendo “um partido favorável ao aborto”. O fato remete ao problema abordado pelo Documento de Aparecida, sabe qual? “A distância entre o ensinamento eclesial e a prática pastoral”. Por acaso, quem de nós não já ouviu tantas vezes, católicos de missa dominical, eucaristia e terço na mão, dizerem: "essa Igreja é atrasada, só o papa e os bispos ainda pensam assim e assado!" Esta é uma realidade próxima de nós, isso pra não falar da camisinha, dos métodos anticoncepcionais, ligação de trompas, relações pré-matrimoniais, masturbação, divórcio e adultério.

Aproveitemos a ocasião para repensar o voto e votar bem! Mas, sobretudo, aproveitemos a ocasião para nos perguntarmos: por que e por quem estamos mesmo na Igreja? Ah, quase esquecia de perguntar: por que mesmo o meu voto será dado a esse candidato ou a essa candidata? Espero que não seja uma resposta vinda apenas do "badalado do sino na internet", mas de uma reflexão, de observações, de leituras, de conversas, escutas, análises, mas, cá entre nós, ainda há tempo pra isso? Tudo bem, pelo menos não esqueça que Domingo próximo tem votação para elegermos o novo (ou a nova) Presidente da República! Vamos confirmar o valor da vida, começando pela urna, pois não é apenas "crença do Papa".   

Antonio Marcos

Eleições: "Sou contra..., porém, todavia..."

O Papa e as eleições no Brasil:

“Com efeito, sem a correção oferecida pela religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana” (Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis, 17-IX-2010).

“A Razão como vítima de ambigüidades...” Diante de uma previsão da instalação de um genocídio credenciado no Brasil pela morte dos inocentes - alguns chamam de institucionalização do direito de matar -, o Papa Bento XVI não podia perder a oportunidade, às vésperas das eleições no Brasil, de dar uma palavra aos católicos e às consciências que aspiram o bem comum, quanto à gravidade de elegermos um Chefe de Estado que favoreça o atentado aos direitos fundamentais da pessoa, principalmente pelo fato de sermos a maior nação católica do mundo. O aborto é um dos maiores desastres numa nação e o pleno regresso da razão e da ética. Certamente o Papa tem em consciência o que hoje acontece na Espanha e em ouros países da Europa, verdadeira matança de vidas indefesas. O Papa se pronuncia no devido direito de Pastor Supremo da Igreja Católica e como um defensor dos Direitos Fundamentais, por sua vez, inalienáveis. Temos visto no Brasil uma “Razão ambígua”, de discursos políticos distorcidos, de mudanças bruscas na forma de pensar visando as urnas, mostrando se tratar de manipulação das consciências menos esclarecidas. Tudo corresponde também a uma Razão aplicada de maneira parcial, ou seja, “sou contra o aborto”, “porém, todavia, quando...” Uma Pessoa não é uma parte, é um todo!

Antonio Marcos


Eleições: Os pastores lembraram...

O Papa e as eleições no Brasil:

“...em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. GS, 75).

Sim, o voto continua sendo a nossa arma principal, lembrando que ele é antecedido pela conscientização e pela formação de uma catequese social que pressupõe vida cristã mínima. Para o bom êxito desse processo é indispensável a missão dos pastores em formar e conscientizar o povo de Deus. Portanto, “se os pastores lembraram em demasia”, aqui no Brasil, acerca da importância do voto como resposta para a promoção do bem comum, o que afinal está acontecendo, se predomina uma maioria querendo eleger um partido abortista? Onde está o X da questão se somos maioria católica? Daí que os esforços feitos pelo STE e da CNBB quanto à importância do voto são mais do que louváveis, mas, o voto ainda é vulnerável porque parte de uma consciência exposta, desprotegida, não formada. Sim, o discurso do Santo Padre deve e já está colaborando, mas, tudo indica que não mudará os resultados esperados nas urnas. Penso que o discurso do Santo Padre deve levar os pastores a uma reflexão importante acerca da catequese social que se caracteriza por outros moldes, "não somente" enchendo o YOU TUBE de vídeos, o que ja´é um avanço importante. A coisa está na base, opa, entendam: eu disse ”na base”, não disse “...de Base”.

Antonio Marcos

Eleições: O assunto é "catequese social!"

O Papa e as eleições no Brasil:

“O dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito da sua legítima autonomia e da ordem moral natural” (cf. Deus Caritas Est, 29).

Rapidamente se difundiu nos meios de comunicação, aqui no Brasil, o Discurso do Santo Padre aos Bispos da Regional V da CNBB (quinta, 28 de outubro), no qual fez uma clara e contundente referência à responsabilidade dos Leigos, de forma particular, e dos Bispos (pastores) quanto à questão da defesa dos direitos fundamentais, especialmente o direito à vida no seu momento nascente e no terminal.

O Papa fez as principais afirmações a partir do que já fora escrito: Gaudium et Spes, Christifideles Laici, Evangelium Vitæ, Deus Caritas Est, Documento de Aparecida, Caritas in Veritate e ainda indicou o Compêndio da Doutrina Social da Igreja como referência para uma boa formação e catequese social. Não sem extremos e erros, mas se sabe e se viu que uma parte considerável dos cristãos católicos sensatos “contribuiu para a reta configuração da vida social”, seja pela Lei da Ficha Limpa ou por todo o desenrolar do momento político atual. A minha pergunta é: “A catequese social proposta pela Igreja para os leigos é uma realidade aqui no Brasil? Não vamos longe: como esses Documentos do Magistério são hoje trabalhados nas consciências dos Leigos? Por acaso se ouviu nesses dias – além do Papa – alguém falar sobre a Doutrina Social da Igreja? Tomara que sim! Talvez o meu pároco tenha falado, mas, só mais uma pergunta: onde é mesmo minha paróquia?

Antonio Marcos

2010-10-28

...batendo no peito dizia: Senhor, piedade, sou um pecador!


Vez em quando encontramos pessoas destruídas por causa da maldade dos outros. É assustador a sedução do mal nas nossas vidas! Evidentemente, esse mal tem outras facetas, na sua raiz, aquele espaço obscuro em nós que carece de amor. São desastrosas as conseqüências de quem se deixa dominar pelos apelos de vingança de um amor não correspondido, de uma paixão não controlada, de um sentimento de ciúme, inveja ou mesmo o próprio fracasso e ainda de uma ofensa nos causada.
O contraste nos confunde, pois somos David na conquista de nossos ideais, mas também somos Caim que articulamos friamente a queda dos nossos irmãos, simplesmente gastando o melhor de nossas energias para que os outros fracassem, não cresçam, não tenham outra chance de acertar. Sim, a maldade hoje é como uma pedra de Crack: de baixo valor, de prazer curtíssimo, que mata a nós e aqueles a quem dizemos amar, destrói a afeição que os outros têm a nós e nos deixa viciados a morrer lentamente e na solidão.  Uma alma vazia de Deus não é a que erra, simplesmente, mas a que permanece na lama, mente pra si mesma, aprisiona sua própria consciência porque se sente justa como a daquele Fariseu ao acusar o Publicano. Daí que essas pessoas nunca se julgam doentes, os outros são os doentes, “o inferno é o outro”, como diz a máxima Sartreana.
As horas de perdas e conflitos, inclusive as que nos deixam expostos e a mercê dos juízos dos outros, deveriam ser oportunidades de recomeçarmos, mas elas acabam revelando a maldade que habita em nós. Deixamos vir à tona o que possuímos de mais sujo: mentimos, caluniamos, denegrimos a imagem dos outros de forma irresponsável e, talvez, irreversíveis nas consequências. Talvez estejamos diariamente traçando o sinal da cruz sobre nós, sentindo-nos amigos de Jesus, alcançados pela verdade, mas, na verdade, estamos na mentira, perdidos e a banalizar não só a sagrada vida dos outros, mas os seus sonhos, o direito que eles têm de tentar de novo e a coragem neles de pedirem perdão e recomeçarem. Tenhamos a mesma coragem! Comecemos com a atitude sincera do Fariseu: “...batendo no peito, dizia: Senhor, tende piedade, pois sou um pecador!” Somente a misericórdia de Deus pode nos reconstruir!  
Antonio Marcos

A ave e seus filhotes


Escritor Wayne Jacobsen
Esta história se deu certa tarde do lado de fora das muralhas da antiga cidade de Jerusalém. Um grupo de bombeiros estava verificando alguns focos remanescentes depois de controlar um incêndio florestal. Enquanto caminhavam e meio à paisagem enegrecida, entre colunas de fumaça ainda surgindo da vegetação queimada, algo volumoso no caminho chamou a atenção de um deles.
Ao se aproximar, o bombeiro notou que eram os restos carbonizados de um grande pássaro. Como os pássaros podem facilmente voar para longe das chamas, o bombeiro ficou se perguntando o que havia de errado com aquela ave que não conseguira escapar do incêndio. Será que ela estava doente ou ferida?
Chutou a carcaça para fora do caminho com a bota. Ao fazer isso, ficou surpreso de ver um movimento de penas ao redor de seu pé. Quatro filhotes se agitavam em meio à poeira e à cinza e em seguida saíram correndo pela encosta da colina. O corpo da mãe o protegera das chamas. Ainda que o calor tenha acabado por consumi-la, esse gesto permitiu que a ave salvasse os filhotinhos. Diante do perigo das chamas que se aproximavam, ela ficou com a sua prole. Essa era a única chance que eles tinham de sobreviver, portanto, disposta a arriscar a própria vida, a mãe os cobrira com o seu corpo. Ela poderia muito bem ter voado para longe e começar outra família mais tarde. Por que se obrigou a ficar em meio à fúria do fogo?
Seu corpo morto e seus filhotes ilesos ilustram muito bem a história: a ave se submeteu ao maior dos sacrifícios para salvar sua prole. Foi isso que o Criador do Céu e da Terra fez [ através do Sacrifício de Seu Filho Jesus Cristo no madeiro da cruz] para proteger da destruição seus filhos desgarrados.
Fonte: JACOBSEN, Wayne. Deus me ama, 2007.
Considerações:
Comovente é mesmo esta história e não há como pensar diferente, mais ainda porque ela remete ao fato da Cruz, ao mistério do Deus que nos amou ao extremo de dar a vida do Seu próprio Filho por nossa salvação, por misericórdia e gratuidade, pois jamais éramos e somos merecedores. Esta história, desde quando a li pela primeira vez, me emocionou e me falou muito por vários dias e até hoje, sempre que a leio. Contá-la numa pregação do amor de Deus ou pecado e salvação é ideal, sobretudo, incutir em nós mesmos a força da mensagem que ela comunica.
O mais impressionante de tudo é que esta história não remete somente ao passado, mas, principalmente ao presente, pois a salvação é hoje! Outras chamas vêm ao nosso encontro, seja a perda, o fracasso, o pecado, o erro, a doença, a solidão, o desacreditar dos outros ao nosso respeito, a tentação de acreditar que não aja mais uma esperança, uma oportunidade de recomeço, de reconstrução interior e de voltar a gozar daquela plena felicidade para a qual Deus nos criou, daí que o amor de Jesus Cristo é a nossa melhor escolha, o nosso melhor refúgio. Obrigado meu Deus, outra vez me abrigaste debaixo de Ti e me salvaste das chamas da desesperança. Receba minhas lágrimas de gratidão e o meu pobre, mas sincero amor.
Antonio Marcos

2010-10-27

O Seminário é o período em que aprendeis um com o outro e um do outro!

Bento XVI - Carta aos Seminaristas – Parte V (última) - Elementos importantes para o caminho no Seminário

7. Hoje os princípios da vocação sacerdotal são mais variados e distintos do que nos anos passados. Muitas vezes a decisão para o sacerdócio desponta nas experiências de uma profissão secular já assumida. Frequentemente cresce nas comunidades, especialmente nos movimentos, que favorecem um encontro comunitário com Cristo e a sua Igreja, uma experiência espiritual e a alegria no serviço da fé. A decisão amadurece também em encontros muito pessoais com a grandeza e a miséria do ser humano. Deste modo os candidatos ao sacerdócio vivem muitas vezes em continentes espirituais completamente diversos; poderá ser difícil reconhecer os elementos comuns do futuro mandato e do seu itinerário espiritual. Por isso mesmo, o Seminário é importante como comunidade em caminho que está acima das várias formas de espiritualidade.

Os movimentos são uma realidade magnífica; sabeis quanto os aprecio e amo como dom do Espírito Santo à Igreja. Mas devem ser avaliados segundo o modo como todos se abrem à realidade católica comum, à vida da única e comum Igreja de Cristo que permanece uma só em toda a sua variedade. O Seminário é o período em que aprendeis um com o outro e um do outro. Na convivência, por vezes talvez difícil, deveis aprender a generosidade e a tolerância não só suportando-vos mutuamente, mas também enriquecendo-vos um ao outro, de modo que cada um possa contribuir com os seus dotes peculiares para o conjunto, enquanto todos servem a mesma Igreja, o mesmo Senhor. Esta escola da tolerância, antes do aceitar-se e compreender-se na unidade do Corpo de Cristo, faz parte dos elementos importantes dos anos de Seminário.

Queridos seminaristas! Com estas linhas, quis mostrar-vos quanto penso em vós precisamente nestes tempos difíceis e quanto estou unido convosco na oração. Rezai também por mim, para que possa desempenhar bem o meu serviço, enquanto o Senhor quiser. Confio o vosso caminho de preparação para o sacerdócio à proteção materna de Maria Santíssima, cuja casa foi escola de bem e de graça. A todos vos abençoe Deus onipotente Pai, Filho e Espírito Santo.

Fonte: Publicada no ZENIT.org - Segunda-feira, 18 de outubro de 2010 - Por ocasião do encerramento do Ano Sacerdotal.
Imagem: FORUM SHALOM 2009: Celebração do Domingo - Pe. Almeida e Seminarista Guido

2010-10-26

Destino, um confortável desejo

Filósofo, Dr. Mário Cortella

Mário Quintana, poeta modernista que por pouco não atravessou vivo todo o século passado, é autor de deliciosa obra de leitura do cotidiano (premiada em seu conjunto pela Academia Brasileira de Letras, na qual tentou por três vezes ingressar e foi derrotado); o gaúcho sempre foi um frasista militante de alta qualidade e durante anos publicou muitas dessas frases em jornais com o título de Caderno H (agrupadas e publicadas em coletânea no início dos anos 1970). Uma delas toca num dos temas mais recorrentes dos nossos momentos: a ideia de destino; disse ele que “o destino é o acaso atacado de mania de grandeza”.

Destino ou acaso? Coincidência ou fatalidade? Determinismo ou liberdade? Há uma angústia presente na necessidade de fazer escolhas e, mais ainda, ter de aceitar o resultado daquilo que se escolheu. Às vezes essa angústia se transforma em desgosto, sofreguidão, atribulação, sufoco, avidez, desassossego, inquietação. A melhor forma de justificar ocorrências, legitimar frustrações ou desculpar algumas emoções desvairadas é naturalizar a origem de tudo, isto é, colocar as causas dos fatos e comportamentos em um patamar fora da intervenção humana, como, por exemplo, o destino ou a natureza. Assemelha-se um pouco à Síndrome de Gabriela, uma apologia do “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim”...

O médico escritor espanhol Gregorio Marañón, além de biografias e ensaios científicos, produziu fundamentais estudos em endocrinologia, especialmente sobre ma das vedetes de nosso tempo: a adrenalina; pouco antes da Segunda Guerra Mundial descreveu o papel das descargas e do nível desse hormônio para explicar os processos de emoção. Porém, sua sólida formação científica não impediu de afirmar que a “pobre liberdade que os homens nos dão ou nos tiram quase nada representa ao lado da cadeia do destino herdado, que nasce enroscada em nossa alma e a vida mal pode afrouxar”.

Essa apaziguadora interpretação da existência aparece inclusive em uma das poesias do filósofo Nietzsche, na qual faz menção a Epicteto – fundador do estoicismo na Antiguidade e criador da máxima “Suporta e abstém-te”; o filósofo alemão diz: “Destino, sigo-te! E mesmo que não o quisesse, deveria fazê-lo, ainda que gemendo”.

É muito confortável proclamar a presença constante do destino; quando existe a convicção de que tudo “já está escrito” evita-se a turbulência mental que advém quando é preciso decidir, assumir ou, o que também é fulcral, enfrentar os responsáveis. É preciso prestar atenção no que disse o Nobel de Literatura de 1915, Romain Roland: “Os homens inventam o destino a fim de lhe atribuir as desordens do universo, que eles têm por dever de governar”.

Talvez aí esteja a raiz de muitos tormentos espirituais, das aflições de consciência e das agonias pessoais: a perturbação por ter de assumir os riscos e consequências das opções que podem ser feitas por aqueles que superam a indigência das condições materiais de existência e, portanto, atingiram a capacidade de ir além da mera sobrevivência física e cotidiana. Esses, tal como nós, não são privados de arbítrio e, portanto, devem responder socialmente pelos encargos trazidos pela liberdade. A atitude expectante, aquela que fica no aguardo do que vir, supondo a representação involuntária de um enredo previamente elaborado por forças alheias ao nosso mundo, representa uma postura negligente e, até, irresponsável.

Deixa a vida me levar, vida leva eu?

Fonte: Cortella, Mário Sergio. Não nascemos prontos! Provocações Filosóficas, 2009.

2010-10-25

Sacerdotes, tenhais um justo equilíbrio entre o coração e o intelecto!

Bento XVI - Carta aos Seminaristas – Parte IV - Elementos importantes para o caminho no Seminário

6. Os anos no Seminário devem ser também um tempo de maturação humana. Para o sacerdote, que terá de acompanhar os outros ao longo do caminho da vida e até às portas da morte, é importante que ele mesmo tenha posto em justo equilíbrio coração e intelecto, razão e sentimento, corpo e alma, e que seja humanamente “íntegro”. Por isso, a tradição cristã sempre associou às “virtudes teologais” as “virtudes cardeais”, derivadas da experiência humana e da filosofia, e também em geral a sã tradição ética da humanidade. Di-lo, de maneira muito clara, Paulo aos Filipenses: “Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, nobre e justo, tudo o que é puro, amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor, isto deveis ter no pensamento” (4, 8).

Faz parte deste contexto também a integração da sexualidade no conjunto da personalidade. A sexualidade é um dom do Criador, mas também uma função que tem a ver com o desenvolvimento do próprio ser humano. Quando não é integrada na pessoa, a sexualidade torna-se banal e ao mesmo tempo destrutiva. Vemos isto, hoje, em muitos exemplos da nossa sociedade. Recentemente, tivemos de constatar com grande mágoa que sacerdotes desfiguraram o seu ministério, abusando sexualmente de crianças e adolescentes. Em vez de levar as pessoas a uma humanidade madura e servir-lhes de exemplo, com os seus abusos provocaram devastações, pelas quais sentimos profunda pena e desgosto. Por causa de tudo isto, pode ter-se levantado em muitos, e talvez mesmo em vós próprios, esta questão: se é bom fazer-se sacerdote, se o caminho do celibato é sensato como vida humana. Mas o abuso, que há que reprovar profundamente, não pode desacreditar a missão sacerdotal, que permanece grande e pura.

Graças a Deus, todos conhecemos sacerdotes convincentes, plasmados pela sua fé, que testemunham que, neste estado e precisamente na vida celibatária, é possível chegar a uma humanidade autêntica, pura e madura. Entretanto o sucedido deve tornar-nos mais vigilantes e solícitos, levando precisamente a interrogarmo-nos cuidadosamente a nós mesmos diante de Deus ao longo do caminho rumo ao sacerdócio, para compreender se este constitui a sua vontade para mim. É função dos padres confessores e dos vossos superiores acompanhar-vos e ajudar-vos neste percurso de discernimento. É um elemento essencial do vosso caminho praticar as virtudes humanas fundamentais, mantendo o olhar fixo em Deus que Se manifestou em Cristo, e deixar-se incessantemente purificar por Ele.

Fonte: Publicada no ZENIT.org - Segunda-feira, 18 de outubro de 2010 - Por ocasião do encerramento do Ano Sacerdotal.
Imagem: Celebração Eucarística com Monsenhor Clemens, eclesiástico romano, secretário do Pontifício Conselho para os Leigos.

2010-10-24

Homem nenhum merece suas lágrimas...


Rossana Brasil Kopf 
Na minha opinião, a decepção é o sentimento mais amargo que uma pessoa pode sofrer.  Ele só não fere mais que a tristeza. Aliás, a tristeza é o pior dos sentimentos. Primeiro porque o próprio nome a delata; e, segundo, porque se trata de um sentimento composto de ingredientes, o qual a própria decepção, muitas vezes, está presente em seu tempero.
Cá entre nós, a decepção é cruel. Ela representa a surpresa desagradável, o inesperado, aborda a alma de súbito e de forma negativa. A tristeza também causa tudo isso? Sim, claro que sim, mas a decepção é mais nua, é mais explícita. É simples chegar a essa conclusão: na decepção existe um investimento e com isso jamais esperamos resultados negativos, enquanto que a tristeza apenas chega.
Não investimos na tristeza, pois isso seria um planejamento estúpido. Ela chega de surpresa, sabemos que a qualquer momento ela pode nos surpreender, embora jamais estejamos preparados para ela, assim como a morte, que é nossa única certeza, mas em toda existência da espécie humana, regada com todos os recursos tecnológicos psicológicos, não existe como lidar com a constante da morte.
A decepção é diferente. Ela nasce quando julgamos colher o negativo após semear o positivo. Acontece nas relações de amizade, família, amor, sobretudo onde e quando se cria as melhores perspectivas. Todo e qualquer sentimento ruim tem, como adubo, tudo aquilo de bom que vida proporciona. Alguém se decepcionaria com Hittler, Sadam, Bin Laden? Estes não nos decepcionam, uma vez que jamais esperamos algo positivo deles. Eles causam ou causaram tristezas e eis um exemplo da diferença de ambos os sentimentos. Causam tristeza porque é justamente o que esperamos deles, enquanto que não causam decepções porque jamais tivemos perspectivas positivas sobre seus atos.
Decepcionamos-nos com amigos, amores, familiares, tendo em vista que semeamos no solo fértil da amizade, cumplicidade, da alegria, harmonia... A decepção, como todo sentimento ruim, vive à margem do que é bom, alimentando-se como um parasita. Afinal, sofremos decepções a cerca de algo ou alguém que amamos, porque se assim não fosse, esse sentimento não se faria presente em tais circunstâncias.
Mas a maior diferença entre esses dois sentimentos se resume à palavra “Permissão”. A tristeza não carece de permissão pra invadir nossa alma. Ela chega sem pedir licença e com eficácia implacável. Enquanto que a decepção é um sentimento que traz em si o consentimento. Nos decepcionamos simplesmente porque permitimos esse acontecimento. Permitimos quando criamos muita expectativa sobre algo ou alguém, e estes, quando não nos retornam (no mínimo) a reciprocidade, é a decepção engatinhando em nossa direção.
Não espero uma vida sem tristeza, pois estando vivo fico a mercê da tristeza e felicidade. Temo a tristeza, e a respeito suficientemente para fazer com que, na minha vida, a felicidade seja uma constante, e assim evitar ao máximo de ter a tristeza como inquilina. Não temo a decepção. Temê-la seria como desacreditar no ser humano. Teria de me afastar dele uma vez que a decepção é oriunda do nosso próximo.
Prefiro me decepcionar inúmeras vezes e com diversas pessoas possíveis, ao me omitir e viver na incerteza de que teria valido a pena ou não, uma vez que quando assim o é, nenhum sentimento ruim ofusca, nem mesmo a tristeza. Pense sobre isso...
Fonte: Jornal O Povo (Fortaleza) – Jornal do Leitor, 23 de outubro de 2010.

Profissional sem Ética


Emmanuel Brandão
O mercado de trabalho está cada vez mais competitivo e qualificado. Muita gente preparada disputando poucas vagas. O sonho de praticamente todos os jovens brasileiros é conquistar seu primeiro emprego ou estágio. Para alcançar o objetivo, infelizmente muitos usam artimanhas e terminam falsificando seu currículo, acrescentando cursos extras e experiências anteriores que não passam de uma mentira. Uma maneira bastante usada pelos candidatos para adicionar algo que eles não tenham: experiência e qualificação. É o famoso jeitinho brasileiro de encontrar sempre uma maneira para levar vantagem e se dar bem. Nem que para isso esteja infringindo uma Lei.
Mas agora os indivíduos que usarem este tipo de artifício para diferencia-se dos demais poderão cumprir pena de dois meses a dois anos de prisão. Esse projeto já está em discussão na Câmara dos Deputados. Isso com certeza dificulta mais a falsidade e maquiagem nos currículos para valorizar a qualificação dos profissionais.
O Brasil é famoso também pelo alto índice de QI (quem indica). Ainda existem muitos profissionais totalmente desqualificados exercendo grandes funções. E o que é pior: muitos se aproveitam da capacidade de colegas de trabalho para vender ideias como se fossem sua.
Em vez de falsificar cursos é muito melhor fazer e aprender. Porque um dia a verdade virá à tona e a casa cai. Quando for preciso você resolver determinada situação que parece fácil, pode terminar virando difícil. Na correria e dinâmica do trabalho não importa você falar bonito. Tem que fazer. E fazer bem feito.
Até porque, quem mente num currículo ou numa entrevista de emprego, é totalmente capaz de usar a mesma tática no dia a dia. Para ter sucesso na vida pessoal ou profissional é preciso ter ética e vontade de aprender. Não apenas sair inventando cursos para o currículo. É preciso criar soluções e resolver problemas.
Embora o mercado estando bastante disputado, o profissional bom não fica desempregado. Mesmo quando não tiver vaga disponível, ele cria. Toda grande empresa está em busca de bons profissionais que se comprometam com o trabalho, tenham iniciativa, sejam bem relacionados, sempre atualizados e com boas ideias. Como esse perfil está cada vez mais difícil de encontrar, muitas empresas terminam importando de outros estados e até países. Mentira tem perna curta. E o seu emprego também.
Fonte: Jornal O Povo (Fortaleza) – Jornal do Leitor, 23 de outubro de 2010.

A Inveja


Fernanda C. de Almeida
Ela anda descalça com seus pezinho esverdeados pelo chão imundo da casa. Os cabelos são despenteados, cheirando a terra e umidade. A Inveja mora sozinha, na menor casa de uma rua ampla. Não costuma falar com os vizinhos e sai , logo de manhã, para comprar um único pão no mercado. Volta sempre ultrajada com o que vê. Desdenhosa, nunca sorri. Empurra os grampos dos cabelos com as unhas sujas – pintadas de vermelho, como que por luxo.
A Inveja desaprova os namoros da vizinhança e com um muxoxo faz descaso da alegria dos mais moços. A única alegria que ainda lhe resta são as historias que lhe fazem companhia, historias mentirosas e compridas, onde passos viram fugas, conversas viram encontros fortuitos e dinheiro vira roubo . Estas historias, ela conta a quem bem quiser ouvir, majestosamente sentada do lado de fora da casa a vigiar com satisfação seu promiscuo reino.
A inveja usa saia marrom desbotada e tem muitas palavras para o nada que lhe ocupa a vida. É melhor passarmos calados, pela quarta casa da rua ampla: lábios cerrados e olhar no chão – não se deve arriscar o olhar severo da Inveja.
Fonte: Jornal O Povo (Fortaleza) – Jornal do Leitor, 23 de outubro de 2010.

Valores: uma pequena reflexão


No mundo atual, os valores morais andam meio esquecidos
Daniel Sílvio
Plantar uma árvore, escrever um livro, disseminar na terra a semente da eternidade através das gerações e romper as barreiras teoricamente intransponíveis do tempo. Os homens sempre estão numa busca constante por essas realizações e particularmente, não me considero um ser eximido dessa missão.
A caminhada dentro desse primitivo contexto é a maior prova de que não estamos sozinhos no universo e precisamos agir, interagir para nos sentirmos integrados à totalidade cósmica. Devemos ter plena convicção de que não somos suficientes, muito menos perfeitos e participar ativamente dos processos de mudança cíclica, quiçá, existencial.
No mundo atual, os valores morais andam meio esquecidos pela espécie que se julga superior e a semente da guerra é plantada diariamente. São necessários novos pensamentos para que sejam executadas as novas ações no sentido de mudar o quadro desolador pintado ao longo dos séculos, travestido pela intolerância, preconceitos e paradigmas que tomam forma dentro do coração humano, revelando as sombras existentes na alma.
Devemos agir como as crianças, perpetuar a amizade, a inocência, a lealdade e mostrar que a vida não é feita apenas de momentos de felicidade efêmera. Nunca esqueçam: somos eternos não só por nossa composição física e espiritual, mas, sim, pelo que plantamos e permitimos ao mundo colher.
Fonte: Jornal O Povo (Fortaleza) – Jornal do Leitor, 23 de outubro de 2010

2010-10-23

Seminaristas, estudai com empenho! Fazei render os anos do estudo! Não vos arrependereis.

Bento XVI - Carta aos Seminaristas – Parte III - Elementos importantes para o caminho no Seminário
3. Importante é também o sacramento da Penitência. Ensina a olhar-me do ponto de vista de Deus e obriga-me a ser honesto comigo mesmo; leva-me à humildade. Uma vez o Cura d’Ars disse: Pensais que não tem sentido obter a absolvição hoje, sabendo entretanto que amanhã fareis de novo os mesmos pecados. Mas – assim disse ele – o próprio Deus neste momento esquece os vossos pecados de amanhã, para vos dar a sua graça hoje. Embora tenhamos de lutar continuamente contra os mesmos erros, é importante opor-se ao embrutecimento da alma, à indiferença que se resigna com o fato de sermos feitos assim. Na grata certeza de que Deus me perdoa sempre de novo, é importante continuar a caminhar, sem cair em escrúpulos mas também sem cair na indiferença, que já não me faria lutar pela santidade e o aperfeiçoamento. E, deixando-me perdoar, aprendo também a perdoar aos outros; reconhecendo a minha miséria, também me torno mais tolerante e compreensivo com as fraquezas do próximo.
4. Mantende em vós também a sensibilidade pela piedade popular, que, apesar de diversa em todas as culturas, é sempre também muito semelhante, porque, no fim de contas, o coração do homem é o mesmo. É certo que a piedade popular tende para a irracionalidade e, às vezes, talvez mesmo para a exterioridade. No entanto, excluí-la, é completamente errado. Através dela, a fé entrou no coração dos homens, tornou-se parte dos seus sentimentos, dos seus costumes, do seu sentir e viver comum. Por isso a piedade popular é um grande patrimônio da Igreja. A fé fez-se carne e sangue. Seguramente a piedade popular deve ser sempre purificada, referida ao centro, mas merece a nossa estima; de modo plenamente real, ela faz de nós mesmos “Povo de Deus”.
5. O tempo no Seminário é também e sobretudo tempo de estudo. A fé cristã possui uma dimensão racional e intelectual, que lhe é essencial. Sem tal dimensão, a fé deixaria de ser ela mesma. Paulo fala de uma “norma da doutrina” à qual fomos entregues no Batismo (Rm 6, 17). Todos vós conheceis a frase de São Pedro, considerada pelos teólogos medievais como a justificação para uma teologia elaborada racional e cientificamente: “Sempre prontos a responder (…) a todo aquele que vos perguntar ‘a razão’ (logos) da vossa esperança” (1 Pd 3, 15). Adquirir a capacidade para dar tais respostas é uma das principais funções dos anos de Seminário. Tudo o que vos peço insistentemente é isto: Estudai com empenho! Fazei render os anos do estudo! Não vos arrependereis. 
É certo que muitas vezes as matérias de estudo parecem muito distantes da prática da vida cristã e do serviço pastoral. Mas é completamente errado pôr-se imediatamente e sempre a pergunta pragmática: Poderá isto servir-me no futuro? Terá utilidade prática, pastoral? É que não se trata apenas de aprender as coisas evidentemente úteis, mas de conhecer e compreender a estrutura interna da fé na sua totalidade, de modo que a mesma se torne resposta às questões dos homens, os quais, do ponto de vista exterior, mudam de geração em geração e todavia, no fundo, permanecem os mesmos. Por isso, é importante ultrapassar as questões volúveis do momento para se compreender as questões verdadeiras e próprias e, deste modo, perceber também as respostas como verdadeiras respostas. É importante conhecer a fundo e integralmente a Sagrada Escritura, na sua unidade de Antigo e Novo Testamento: a formação dos textos, a sua peculiaridade literária, a gradual composição dos mesmos até se formar o cânon dos livros sagrados, a unidade dinâmica interior que não se nota à superfície, mas é a única que dá a todos e cada um dos textos o seu pleno significado. É importante conhecer os Padres e os grandes Concílios, onde a Igreja assimilou, refletindo e acreditando, as afirmações essenciais da Escritura. E poderia continuar assim: aquilo que designamos por dogmática é a compreensão dos diversos conteúdos da fé na sua unidade, mais ainda, na sua derradeira simplicidade, pois cada um dos detalhes, no fim de contas, é apenas explanação da fé no único Deus, que Se manifestou e continua a manifestar-Se a nós. Que é importante conhecer as questões essenciais da teologia moral e da doutrina social católica, não será preciso que vo-lo diga expressamente. 
Quão importante seja hoje a teologia ecumênica, conhecer as várias comunidade cristãs, é evidente; e o mesmo se diga da necessidade duma orientação fundamental sobre as grandes religiões e, não menos importante, sobre a filosofia: a compreensão daquele indagar e questionar humano ao qual a fé quer dar resposta. Mas aprendei também a compreender e – ouso dizer – a amar o direito canônico na sua necessidade intrínseca e nas formas da sua aplicação prática: uma sociedade sem direito seria uma sociedade desprovida de direitos. O direito é condição do amor. Agora não quero continuar o elenco, mas dizer-vos apenas e uma vez mais: Amai o estudo da teologia e segui-o com diligente sensibilidade para ancorardes a teologia à comunidade viva da Igreja, a qual, com a sua autoridade, não é um pólo oposto à ciência teológica, mas o seu pressuposto. Sem a Igreja que crê, a teologia deixa de ser ela própria e torna-se um conjunto de disciplinas diversas sem unidade interior.
Fonte: Publicada no ZENIT.org - Segunda-feira, 18 de outubro de 2010 - Por ocasião do encerramento do Ano Sacerdotal
Imagem: Seminaristas Shalom: Gustavo José, Messias (irmão Celibatário),Eudes e Ramiro.

2010-10-22

Ser antes de tudo um homem de Deus para ser sacerdote!

Bento XVI - Carta aos Seminaristas – Parte II - Elementos importantes para o caminho no Seminário

1. Quem quer tornar-se sacerdote, deve ser sobretudo um “homem de Deus”, como o apresenta São Paulo (1 Tm 6, 11). Para nós, Deus não é uma hipótese remota, não é um desconhecido que se retirou depois do “big-bang”. Deus mostrou-Se em Jesus Cristo. No rosto de Jesus Cristo, vemos o rosto de Deus. Nas suas palavras, ouvimos o próprio Deus a falar conosco. Por isso, o elemento mais importante no caminho para o sacerdócio e ao longo de toda a vida sacerdotal é a relação pessoal com Deus em Jesus Cristo.

O sacerdote não é o administrador de uma associação qualquer, cujo número de membros se procura manter e aumentar. É o mensageiro de Deus no meio dos homens; quer conduzir a Deus, e assim fazer crescer também a verdadeira comunhão dos homens entre si. Por isso, queridos amigos, é muito importante aprenderdes a viver em permanente contato com Deus. Quando o Senhor fala de “orar sempre”, naturalmente não pede para estarmos continuamente a rezar por palavras, mas para conservarmos sempre o contacto interior com Deus. Exercitar-se neste contato é o sentido da nossa oração. Por isso, é importante que o dia comece e acabe com a oração; que escutemos Deus na leitura da Sagrada Escritura; que Lhe digamos os nossos desejos e as nossas esperanças, as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos erros e o nosso agradecimento por cada coisa bela e boa, e que deste modo sempre O tenhamos diante dos nossos olhos como ponto de referência da nossa vida. Assim tornamo-nos sensíveis aos nossos erros e aprendemos a trabalhar para nos melhorarmos; mas tornamo-nos sensíveis também a tudo o que de belo e bom recebemos habitualmente cada dia, e assim cresce a gratidão. E, com a gratidão, cresce a alegria pelo fato de que Deus está perto de nós e podemos servi-Lo.

2. Para nós, Deus não é só uma palavra. Nos sacramentos, dá-Se pessoalmente a nós, através de elementos corporais. O centro da nossa relação com Deus e da configuração da nossa vida é a Eucaristia; celebrá-la com íntima participação e assim encontrar Cristo em pessoa deve ser o centro de todas as nossas jornadas. Para além do mais, São Cipriano interpretou a súplica do Evangelho “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”, dizendo que o pão “nosso”, que, como cristãos, podemos receber na Igreja, é precisamente Jesus eucarístico. Por conseguinte, na referida súplica do Pai Nosso, pedimos que Ele nos conceda cada dia este pão “nosso”; que o mesmo seja sempre o alimento da nossa vida, que Cristo ressuscitado, que Se nos dá na Eucaristia, plasme verdadeiramente toda a nossa vida com o esplendor do seu amor divino.

Para uma reta celebração eucarística, é necessário aprendermos também a conhecer, compreender e amar a liturgia da Igreja na sua forma concreta. Na liturgia, rezamos com os fiéis de todos os séculos; passado, presente e futuro encontram-se num único grande coro de oração. A partir do meu próprio caminho, posso afirmar que é entusiasmante aprender a compreender pouco a pouco como tudo isto foi crescendo, quanta experiência de fé há na estrutura da liturgia da Missa, quantas gerações a formaram rezando.

Fonte: Publicada no ZENIT.org - Segunda-feira, 18 de outubro de 2010 - Por ocasião do encerramento do Ano Sacerdotal
Imagem 2009: Diáconos Karlian, Rômulo dos Anjos, Pe. Almeida, Sílvio Scopel e Aristóteles (hoje são Sacerdotes - CVSh)

2010-10-21

Sim, tem sentido tornar-se sacerdote!

Bento XVI - Carta aos Seminaristas – Parte I

Queridos Seminaristas,

Em Dezembro de 1944, quando fui chamado para o serviço militar, o comandante de companhia perguntou a cada um de nós a profissão que sonhava ter no futuro. Respondi que queria tornar-me sacerdote católico. O subtenente replicou: Nesse caso, convém-lhe procurar outra coisa qualquer; na nova Alemanha, já não há necessidade de padres. Eu sabia que esta “nova Alemanha” estava já no fim e que, depois das enormes devastações causadas por aquela loucura no país, mais do que nunca haveria necessidade de sacerdotes.

Hoje, a situação é completamente diversa; porém de vários modos, mesmo em nossos dias, muitos pensam que o sacerdócio católico não seja uma “profissão” do futuro, antes pertenceria já ao passado. Contrariando tais objeções e opiniões, vós, queridos amigos, decidistes-vos a entrar no Seminário, encaminhando-vos assim para o ministério sacerdotal na Igreja Católica. E fizestes bem, porque os homens sempre terão necessidade de Deus – mesmo na época do predomínio da técnica no mundo e da globalização –, do Deus que Se mostrou a nós em Jesus Cristo e nos reúne na Igreja universal, para aprender, com Ele e por meio d’Ele, a verdadeira vida e manter presentes e tornar eficazes os critérios da verdadeira humanidade.

Sempre que o homem deixa de ter a noção de Deus, a vida torna-se vazia; tudo é insuficiente. Depois o homem busca refúgio na alienação ou na violência, ameaça esta que recai cada vez mais sobre a própria juventude. Deus vive; criou cada um de nós e, por conseguinte, conhece a todos. É tão grande que tem tempo para as nossas coisas mais insignificantes: “Até os cabelos da vossa cabeça estão contados”. Deus vive, e precisa de homens que vivam para Ele e O levem aos outros. Sim, tem sentido tornar-se sacerdote: o mundo tem necessidade de sacerdotes, de pastores hoje, amanhã e sempre enquanto existir.

O Seminário é uma comunidade que caminha para o serviço sacerdotal. Nestas palavras, disse já algo de muito importante: uma pessoa não se torna sacerdote, sozinha. É necessária a “comunidade dos discípulos”, o conjunto daqueles que querem servir a Igreja de todos. Com esta carta, quero evidenciar – olhando retrospectivamente também para o meu tempo de Seminário – alguns elementos importantes para o vosso caminho a fazer nestes anos.

Fonte: Publicada no ZENIT.org - Segunda-feira, 18 de outubro de 2010 - Por ocasião do encerramento do Ano sacerdotal
Imagem: Seminaristas Shalom: Paulo, Jairo e Célio

2010-10-20

Deus é a mais Bela Arte chamada amor e misericórdia!


Recebi por e-mail esta imagem (ao lado) tirada do desenho original, feito exclusivamente para mim por uma linda criança, o qual me deixou muito feliz. As crianças estreitam nossa comunicação com Deus, principalmente quando se expressam. Lembrei também da “minha arte” e das expressões da vida de uma pessoa! Quando há amor, elas nascem espontaneamente, respondo a quem me pergunta! Não há grandes segredos, mas, criatividade como fruto do amor e, o Amor, ah, o Amor para mim é, essencialmente, uma Pessoa. De repente a gente descobre que é tão fácil e simples fazer alguém um pouco mais feliz, pois as expressões do amor são descomplicadas. Uma antiga canção diz: “um jovem custa muito pouco, um pouco de muito amor!” Também digo isso para as relações: elas custam um pouco de muito amor!

As pessoas sempre me disseram: “gosto tanto de bilhetes, de cartões, de coisas simples, desde que seja pessoal, que traga a sua marca de originalidade por ter saído do coração, do pensamento, dos contornos de uma personalidade”. Desta forma me parece que realmente a “nossa arte de viver” atinge as pessoas a quem amamos. Percebo que não se trata de um simples fazer, mas do exercício e do dom de amar, de conviver, do significado que passamos a ter quando construímos valores dentro do outro. Porém, eu tenho descoberto que nem sempre é fácil transformar isso em vivência e também em elogios quando o outro nos ajuda a ser mais alguém. Talvez, porque esteja quase em desuso o elogio, e depois, porque temos medo de dá-lo ao outro, o que é lamentável tal percepção.

É preciso reaprender a elogiar sem impedir que o outro continue querendo crescer. Aprender e dar o melhor para amar, para expressar o tesouro de si mesmo e de maneira livre, não é nada fácil, mas possível e necessário. Quando aprendemos a ser nós mesmos, inclusive, a receber e dar amor, a receber e dar o elogio, é algo maravilhoso, construtivo, belo, divino. Sim, a criatividade do amor se expressa sempre com a bela arte do se dar, do abaixar-se, do despojar-se, pois a “arte da cruz” expressou o amor ao extremo. Deus é o artífice e a beleza por excelência..., Ele é a mais bela arte chamada amor e misericórdia! As crianças sempre expressam isso de alguma forma. Muito obrigado por este desenho minha linda criança!

Antonio Marcos

2010-10-19

As lágrimas de felicidade de um corredor


Corro a mais de 15 anos, desde quando fiz parte da “caserna” (Exército). Lá descobri o talento e a arte da corrida. A caserna ficou na história de vida, mas a paixão por correr nunca passou, nem mesmo durante os anos de vida missionária! Sempre procurava um cantinho e um tempo para alimentar o prazer, ainda que fosse durante a noite, na madrugada, no frio, no calor, na chuva, nunca importa, a gente coloca o tênis, se aquece, aciona o cronômetro e vai se divertir. Não sei exatamente quantos quilômetros já corri, mas sei que foram milhares. Logo vieram as competições, as amizades, as aventuras, as fotos, as viagens, as medalhas, as diversas camisetas, mas também as dores, os erros, as lesões, a recuperação, o recomeço e as incontáveis lições que a arte de correr tem me ensinado como experiência para a vida.
Tendo corrido por diversas vezes a meia maratona, tinha o sonho acompanhado de um desejo enorme: completar uma maratona, 42,195 km. Pela primeira vez chegou ao Ceará a realização desta competição, chamada “Maratona do Sol Pente”, escrita no calendário nacional de corridas de rua (com três modalidades: 7 km, 21 km e 42, 195 km). Não pensei duas vezes, fiz minha inscrição e começei a treinar sistematicamente e intensamente. Depois de participar da meia maratona de Fortaleza (abril de 2010), quando fiz 01h35min, em seguida continuei treinando e em agosto organizei uma planilha para 2 meses com 4 treinos por semana, incluindo velocidade, resistência, subida e descida. Rodava em torno de 40 km por semana. Fiz nesse período 3 “longão” (treino de longa distância para simular a maratona na preparação da musculatura: 18, 24 e 30 km). 
Entrando na última semana e já se aproximando da competição, cessaram os treinos e apenas deixei a musculatura descansar. Peguei meu kit em Fortaleza e uma surpresa: vi que eram mais de mil atletas distribuídos nas três modalidades, mas apenas 200 atletas estavam escritos para o desafio da maratona. Quando olhei a relação logo reconheci o nome de muitos colegas de ponta do atletismo cearense, inclusive, de estados circunvizinhos. Pensei, será que serei o último a chegar? Não importa, eu quero completar! Outra surpresa: para os atletas da maratona o nosso nome veio gravado no número de peito, que a gente só vê nas grandes competições nacionais e internacionais. Muito legal, eu já estava me sentindo importante! (risos).
Sábado pela manhã, 16 de outubro, viajei à praia do Cumbuco, aqui no CE, local do evento. Chegando lá o tempo ainda estava quente (a largada tava prevista para 16h), mas o clima era de festa. Atletas chegando de toda parte em ônibus e carros. As assessorias esportivas já estavam com seus stands montados e a organização fazia os últimos preparativos na estrutura geral. Peguei o chip do tênis, troquei de roupa e fui tirar algumas fotos. Nesse intervalo de tempo conheci dois colegas: Nunes (atleta experiente de São Paulo que veio ao Ceará pela primeira vez somente correr a maratona) e o Fábio (Belo Horizonte), que veio passar uma temporada no Ceará e aproveitou para correr os 7 km.  O Nunes me ajudou nas dúvidas e me deu uma série de dicas importantes. Mas quando lhe disse que pretendia correr minha primeira maratona para 03h 30m., ele se assustou e me disse que achava um tempo desafiante porque eu teria que correr os 10 primeiros km iniciais fazendo 4/5 minutos por km e só deveria fazer isso se realmente estivesse confiante das condições de preparação e dentro do planejamento, porque lá na frente eu sentiria e poderia quebrar. Pensei bem no que me falou o Nunes, mas mantive o que planejei. Fizemos juntos 20 minutos de aquecimento, desejamos boa sorte um ao outro e fomos para a largada! Eu correria com MP4 ouvindo música católica animada, no bolso estavam duas cápsulas de carboidratos e já bem hidratado. Não faltava mais nada, só iniciar o desafio! O prefeito de Caucaia proferiu uma breve palavra de incentivo aos participantes e deu o tiro de largada. Fiz o sinal da cruz, passei no tapete para registrar o chip, acionei o cronômetro e começei a correr atrás do tão desejado sonho.
A galera que curte apenas o passeio faz festa, brinca, vive o momento, mas o pessoal que está para correr atrás de suas metas, não tem brincadeira, logo a gente vai ultrapassando a galera e seguindo os atletas que puxam o ritmo. Com 3 km já pegamos uma subida daquela, mas serviu para eu me testar. Fui acompanhando meu tempo e estava fazendo exatamente 4/5 m. por km. Sentia que tava bem e fui em frente. Logo a grande massa dos 7 km faz o retorno e fica outra grande parte para 21km. A tentação é acompanhar os atletas da meia maratona, mas não podíamos porque o ritmo deles estava mais forte por causa da distância menor, o que ajudava era o número de peito diferenciado (cor verde para 7 km, branco para meia maratona  e amarelo para a maratona). Passeio o km 10 com 45 minutos e fiquei feliz pelo tempo. Tomei minha primeira cápsula de carboidrato e estava me sentindo inteiro. No km 15 a galera da meia maratona faz o retorno e aí começa propriamente dito o desafio. Vem a solidão, a distância dos atletas para frente e para trás, é hora de começar a pensar em tudo o que planejei, pois nada pode dar errado. Apenas eu e outro atleta corremos juntos do km 15 ao 20. Fala-se pouco, somente o necessário, nada de olhar para trás e seguindo o planejado. Chegamos ao marco da meia maratona (21 km), passei a 01h e 40m. Posto de água e bebida isotônica.
Chegando ao km 23 veio o primeiro desafio, sentia que a meia do pé esquerdo fazia calo. Fiquei preocupado porque começou o desconforto. Deixei o colega ir, diminui um pouco o ritmo e em seguida me preparei para achar uma descida, parar e mudar a posição da meia, foi o que fiz. Já estava terminando de amarrar os cadarços (1/5 m.) logo encostou um pelotão de 4 atletas. Diminuíram o ritmo e perguntaram se eu estava bem, respondi que sim, parei só para resolver um probleminha na meia. Eles então responderam: legal, então vamos nessa! Daí a diante fui com esse pelotão num ritmo de 5m. por km até o 28, éramos 2 cearenses, os outros do RN e Piauí. Durante esse trajeto só encontrávamos os fiscais, os postos de hidratação, a ambulância circulando e os organizadores motorizados registrando tudo com fotos.
Muito interessante o fato de que nas localidades residenciais as pessoas aplaudiam, olhavam o nome no peito e gritavam “vai Toin”, força, estamos torcendo por você, coragem, e aplaudiam como se nos conhecessem, muito legal mesmo! Nunca tinha corrido daquele jeito! (me sentia um atleta de elite na São Silvestre, risos!) Depois do Km 29 começamos a nos separar porque dali pra frente era a mente e a preparação, cada um tinha que cuidar da sua estratégia. Dois se distanciaram pra frente e dois para trás de mim, mas os da frente eu sempre os mantinha no ângulo da visão. Decidi não manter o ritmo deles porque poderia quebrar, preferi me poupar. Mais um posto de água, desta vez recusei o energético e tomei minha segunda cápsula de carboidrato.   
Dizem os especialistas e os atletas experientes que uma maratona começa a ser decidida no Km 32. E, de fato, foi o que senti. Quando passei do km 33 chegaram as dores na musculatura, parecia querer dar cãibra nas pernas e nos braços, músculo enrijecido, dores fortes em cada impacto no asfalto e começou a “grande prova”. O ritmo diminui porque cada pisada dói tudo e logo encontrei os primeiros atletas caminhando. A mente tinha que canalizar aquelas dores, afinal, li muito sobre a psicologia e a preparação mental de um corredor para uma maratona. A preparação psicológica para enfrentar os desconfortos é indispensável. O Nunes havia me dito: "Antonio, quando começar a doer a musculatura, caminhe no máximo 30 segundos e volte a correr, porque se passar disso os músculos podem travar, a dor aumenta e não conseguirás retomar. Volte a correr lentamente (trotanto), mas não pare de vez, só se vires que não dá mais!" Fiz isto do km 34 ao 38, corria 1 km, caminhava 30 segundos, hidratava-me, jogava água nos músculos e retomava a corrida mesmo tudo doendo. Não tinha noção de quantos atletas exatamente estavam à minha frente.
Quando passei do km 38, confesso, não sentia mais minhas pernas de tantas dores, mas as pessoas que assistiam a prova e os fiscais davam aquele incentivo parabenizando, dizendo pra ter coragem, ta perto, vamos lá, vamos lá! No Km 40 eu estava no limite, mas continuava correndo, dizendo pra mim mesmo: eu vou chegar! Não vou desistir! Tá perto do grande sonho, falta pouco Antonio Marcos, coragem! A partir do Km 40 ultrapassei ainda dois atletas bons dos que conheço, estavam exaustos e andavam, encontrei ainda forças para lhes dizer: vamos lá mano, falta pouco! Durante todos esses trajetos continuava olhando para o relógio e percebia que ainda estava dentro da possibilidade de chegar no tempo previsto ou aproximado.  
Veio a grande emoção, quando fiz a curva da avenida principal e avistei ao longo de 1km e 195 m. a linha de chegada, meu ritmo aumentou, tirei forças não sei da onde, via tão perto a realização do sonho, mas aquele km parecia interminável. Ao me aproximar da linha de chegada, faltando 300 metros um filme passava na minha cabeça: lembrava de todos os anos de corrida, os treinos, as alegrias, as dores, os amigos que me deram forças, as dificuldades superadas e os desafios vividos recentemente, mas, sobretudo, a certeza de que tudo valeu a pena. Quando entrei no funil de 50 metros e com aquela multidão de gente aplaudindo, fotografando, começei a chorar e ainda escutei algumas pessoas dizerem: “ele está chorando!” Ao cruzar a linha de chegada, o cronômetro marcava 03h e 38m, inacreditável! Coloquei as mãos no rosto e chorei de felicidade! Pensava comigo: sou um campeão, sou um homem feliz, eu completei uma maratona num tempo excelente! Obrigado meu Deus!
Logo uma moça da organização se aproximou, pegou no meu braço e perguntou se eu tava bem. Disse que sim! Ela me levou até uma cadeira, sentei, deu-me isotônico, água, retirou o chip do tênis e me colocou a linda medalha feita exclusiva para os atletas da maratona. Parabenizou-me e disse que depois eu fosse me alimentar.   Infelizmente não encontrei mais o Nunes e nem o Fábio para contar-lhes do meu excelente tempo e da minha felicidade, mas logo nos falaremos, pois trocamos contatos e assim nos encontraremos nas corridas da vida. Inclusive o Nunes me disse: "Antonio, quando você for correr a maratona de São Paulo no próximo ano, dar-lhe-ei hospedagem e todas as dicas da poderosa maratona de São Paulo!
Então, se você teve paciência para ler tudo isso, parabéns, você também é um campeão! (risos!) Corrida é um talento, uma arte e uma paixão, tem que amar mesmo, se não tudo é chato demais, inclusive ler um negócio desse tamanho! Eu amo correr! Tudo o que vivi até à Maratona do Sol Poente ficou expresso nas lágrimas de quando cruzei a linha de chegada dos 42km e 195m. Lágrimas de um corredor, de um homem que aprendeu que é sempre possível superar desafios!
Agradeço aos meus amigos e amigas! Ah, no dia posterior, Domingo, recebi uma mensagem do site oficial da Maratona me parabenizando pelo ótimo resultado e me passou os dados referentes à minha colocação: dos 200 atletas escritos na maratona, com o tempo de 03h 38m. fiquei na 34ª posição e o 13º na minha categoria por idade. Nossa, foi outra grande emoção! Na verdade, eu me superei, sou de fato um campeão! Tudo ainda dói muito, é verdade (risos!), mas já estou com vontade de correr! “Quem completa uma maratona – já dizia Emil Zatopek, a lenda do atletismo - começa a experiência de uma nova vida!”
Antonio Marcos