2010-09-20

Continuam persistindo as amizades duradouras


Tristes tempos! Vivemos numa época de interesses recíprocos, atravessamos um período de pragmatismos mútuos, nos quais as regras da competitividade mortal e de uma base econômica idólatra e implacável nos mecanismos de exclusão, impõe valores gananciosos! Uma norma principal ganha corpo: é bom tudo o que for útil, é adequado tudo o que for lucrativo, é moralmente confortável tudo o que for vantajoso. O princípio central da convivência passa a ser o inesgotável “Uma mão lava a outra”.
A amizade também não conseguiu escapar muito dessa avassaladora pressão, poucas são as relações interpessoais que fogem ao utilitarismo das afetividades simuladas. Cada vez mais temos amizades fugazes, com data de validade restrita; as pessoas vão e vêm rapidamente, acumulando-se uma série de perdas sem que ganhos subjetivos se fortaleçam. Mais e mais conhece-se muita gente e sustenta-se com fragilidade o aprofundamento dessas relações; coloca-se como orientação básica do “mundo dos negócios” (a invadir o tecido social) a necessidade de ampliar ao máximo o número de contatos, sem que, de fato, essas aproximações signifiquem uma intenção de permanência e dedicação. Usa-se com facilidade a palavra “amigo”, em vez de, honestamente, fazer valer as expressões “colegas” ou “conhecido”.
Chega-se, inclusive, a uma situação mais defensiva: aqueles e aquelas que recusam qualquer forma de envolvimento nas afeições e na camaradagem, supondo, com densa carga de razão, ser difícil separar uma lealdade sincera e amiga de uma simpatia forjada e circunstancial. A própria ideia de fraternizar, isto é, de estar “entre fraternos”, fica sutilmente obscurecida pela concepção de que é fundamental fazer “network” para poder estar sempre entre os emergentes sociais e laborais, em vez de afundar no destino dos meros sobreviventes.
Sem desejar produzir um recurso à nostalgia tola, é saudável lembrar: bons tempos aqueles nos quais se podia acreditar no que Aristóteles, já no século 4 a.C., afirmava na Ética a Nicômaco: “a amizade é uma alma com dois corpos”. Parece que o ideal aristotélico vem sendo superado por uma perspectiva muito bem expressa pelo, eventualmente satírico, filósofo francês Montesquieu: “A amizade é um contrato segundo o qual nos comprometemos a prestar pequenos favores para que no-los retribuam com grandes”.
É claro que continuam persistindo as amizades duradouras, aquelas que, passados meses ou anos, tem-se a sensação de que a distância temporal não valeu, a intimidade permanece viva e o apoio irrestrito prossegue incólume; afinal, como refletia Jean Cocteau, sensível poeta e diretor de grandes clássicos do cinema francês, a “felicidade de um amigo deleita-nos, enriquece-nos, não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso é porque não existe”.
É por isso que Chamfort, em obra póstuma chamada Pensamentos, máximas e anedotas (publicada em 1975, pouco depois do suicídio em Paris), afirmava que “neste mundo temos três espécies de amigos: aqueles que nos amam, aqueles que não se preocupam conosco, e os que nos odeiam”. A mesma ideia desponta no século seguinte, com a característica ironia irlandesa de Oscar Wilde: “toda a gente é capaz de sentir os sofrimentos de um amigo. Ver com agrado os seus êxitos exige uma natureza muito delicada”.
Ainda tem de valeu o ditado italiano Amicizia que cessa non fui mai vera, isto é, em pura tradução mais livre, “Amizade que acaba nunca principiou”...
Fonte: Mário Cortella. Não nascemos prontos! Provocações Filosóficas, 2009.

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