"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2010-09-30

Que a Sagrada Escritura seja para ti como os teus colares e brincos!


“Toda a vida de Jerônimo se distingue por um amor apaixonado pelas Escrituras, um amor que ele sempre procurou despertar nos fiéis: ‘Ama a Sagrada Escritura e a sabedoria amar-te-á; ama-a ternamente e ela guardar-te-á; honra-a a receberás as suas carícias. Que ela seja para ti como os teus colares e brincos’ (Ep. 130,20). E ainda: ‘Ama a ciência da escritura, e não amarás os vícios da carne’” (Ep. 125,11) (Papa Bento XVI, Catequese, 14 de novembro de 2007).

Significativa é a expressão de São Jerônimo: “Que a Sagrada Escritura seja para ti como os teus colares e brincos”. Por que fez São Jerônimo esta comparação? É mais provável que se referisse à importância do adorno para a mulher, para a beleza feminina (cf. I Tm 2,9: “As mulheres vistam-se decentemente e se adornem com modéstia e sobriedade”). Porém, aqui São Jerônimo nos leva a compreender que o adorno do nosso interior constitui a maior beleza que podemos expressar, pois, extraordinária beleza é sermos conhecedores e amantes das Escrituras. É de dentro que ecoa o que mais encanta e dignifica os outros (cf. I Pd 3,3). É uma pena que muitos tenham interpretado erroneamente o texto bíblico condenando os adornos femininos, o que não é isso que faz as Escrituras. Daí a comparação de São Jerônimo: “Que ela seja para ti como os teus colares e brincos”. Isto é lindo e profundo, pelo menos para mim!

Há mesmo uma carência em nossos dias por encontrarmos homens e mulheres que demonstrem com simplicidade conhecerem e amarem as Escrituras. Não falo de intelectualismo, conhecimentos acadêmicos puramente racionais, mas um conhecimento, sobretudo, de quem cultiva uma experiência de intimidade com Deus e com Sua Palavra. Daí que a maior força de orientação para as nossas vidas provém da nossa amizade com Deus e não simplesmente do grau de conhecimento intelectual. Conhecer, estudar, pesquisar, tudo isto é importante e necessário, mas não pode ser o parâmetro, inclusive para humilhar os outros e nos sentirmos mais santos. A beleza feminina é um dom de Deus e quando seus adornos são modestos e sóbrios ajudam na expressão dessa beleza; assim, quando uma alma se deixa alcançar pelas Escrituras, há mudança de vida, expressão de felicidade.

“Ama a ciência da escritura, e não amarás os vícios da carne”. A Palavra de Deus age em nós, penetra no mais profundo, é luz nas nossas trevas, é força e direção. A Palavra nos revela a vontade de Deus, Seus desígnios de amor a nosso respeito, Seu projeto de felicidade. Foi esta Palavra que trabalhou tanto o forte temperamento de São Jerônimo e o fez “sábio e sereno”. Deixemos que a Escritura trabalhe em nós os vícios da carne, nos ajude a vencer o pecado e a viver na força da graça; que a Escritura elimine o hiato que existe entre o que conhecemos e o que vivemos. É um processo, não desanimemos! É esta mesma Palavra Divina que nos ajudará na nossa lentidão e nos fará transbordar a verdadeira beleza.

Antonio Marcos

2010-09-29

Para o Paraíso te levem os anjos!



“Ó Deus, que organizais de modo admirável o serviço dos Anjos e dos homens, fazei sejamos protegidos na terra por aqueles que vos servem no céu” (Oração do Dia, Festa dos Arcanjos). É muito bonita e significativa a celebração dos Arcanjos de Deus, nossos protetores por excelência: Miguel, Gabriel e Rafael. Talvez não saibamos muita coisa sobre os anjos, tudo bem, o mais importante é que creiamos que eles existem, são criaturas de Deus, por isso são inteligentes e livres, adoram a Deus e são mensageiros de Seus desígnios aos homens. Mas podemos conhecer um pouco mais sobre a rica doutrina católica sobre os Anjos (cf. Catecismo 311, 328-336).
Cresci com o hábito de pedir à minha mãe a sua bênção quando saía e quando chegava em casa. Ainda hoje faço isso sempre. Ouvi tantas vezes sua resposta: “Deus te abençoe, filho, e que os anjos te guardem!” Quando cresci e comecei a estudar a fé, encontrei no Catecismo esta afirmação: “Desde a infância até a morte, a vida humana é cercada pela sua proteção e pela sua intercessão. Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida. Ainda aqui na terra, a vida cristã participa na fé da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus” (CIC, 336).
O Evangelho de hoje (Jo 1,47-51) evidencia o mistério e a grandeza da missão dos anjos. Natanael fica admirado pelo fato de Jesus mostrar conhecê-lo desde sempre e, para a sua tamanha surpresa, escuta esta profecia: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” (Jo 1, 51). Também os anjos estão a glorificar Jesus Cristo, Senhor do céu e da terra. Quando nos protegem não o fazem para si mesmos, mas para que sejamos conduzidos à vida, ao céu, à Cristo, o Filho de Deus. Assim reza a Liturgia dos defuntos: “Para o Paraíso te levem os anjos!” (CIC, 335). Meu Deus, criaste tudo com tanta beleza e perfeição, fazei que nós, os homens, protegidos pelos anjos e a exemplo deles, saibamos também conduzir os nossos irmãos ao Paraíso!
Antonio Marcos

2010-09-28

As horas em que a fé é provada


Não é tão difícil escutar alguém dizer - quase que batendo no peito - que se orgulha de ter fé, que “não é como aquele publicano” ou, quem sabe, como os tantos infelizes ateus ou ainda como os que desanimaram na fé. Alguns mais sarcásticos e provocadores, inclusive alguns que creem, agem como o tentador ao dizer ao Senhor, fazendo referência a Jó: “Ele te louva porque abençoastes seus empreendimentos, mas, retira o que ele tem e verás que sua fé será abalada e ainda te lançará no rosto as maldições!” (cf. Jó 1,10-12).  
Para a surpresa dos “sarcásticos crentes” a frustração é tamanha ao contemplarem àqueles que resistem à prova, e se assim se comportam não o fazem por si mesmos, mas porque “Aquele que está neles é maior do que Aquele que está no mundo” (cf. I Jo 4,4); porque fazem uso da graça e sabem que o Médico é para os doentes, e porque sabem reconhecer que a dor e as consequências deixadas pelo pecado podem ser oportunidades de conversão, de uma mudança de vida, de um retorno e reencontro, que o diga o filho pródigo.
Não há nenhuma derrota pelo fato de deixarmos transparecer que estamos como vasos quebrados dentro de nós, que há lágrimas e dores tantas vezes, mas que não podemos deixar que sufoquem em nós a esperança e a fé. É exatamente nessa hora que a fé deve ganhar um sentido ímpar e uma força incalculável. Nessas horas vemos que a fé está para além do ato litúrgico e para além, inclusive, das expectativas frustradas que nós e os outros lançamos sobre nós mesmos. Existe uma dimensão da fé que se manifesta incomparavelmente na hora da prova, da dor, da solidão e da purificação. Importa se interrogar em Deus, nunca sozinho, se esta ou aquela prova, este ou aquele erro serviu para o meu crescimento. “Só por ouvir dizer, te conhecia; mas agora, viram-te meus olhos” (Jó 42,5). Recomecemos tudo de novo quantas vezes for preciso! Isto é fé provada!
Antonio Marcos

Seja qual for a situação, o aborto deve ser evitado!


Na defesa suprema da vida, dizem as religiões, o aborto deve ser evitado em qualquer caso: é melhor alguma mulher ficar com o fruto indesejado do estupro ou da anencefalia do que introduzir na humanidade inteira a ideia de que algum momento um homem possa pôr as mãos sobre a vida de outro homem. O mesmo diga-se da eutanásia para fugir da dor: a Religião ensina o valor salvífico da dor. O mesmo diga-se da eliminação de embriões, que possuem um espírito imortal, o qual continua vivo no além após a morte em laboratório.
A Ética religiosa professa que, uma vez arranhada a lei suprema da vida por alguma razão aparentemente aceitável, o caminho fica aberto a outras milhares de razões para ofender milhões de vidas. Os países campeões em aborto, por exemplo, são também campeões em assassinatos diários de rua em humilhação econômica de milhões de seres viventes. Uma vez instaurado o círculo da morte, a vida fica golpeada em todos os níveis.
Fonte: Antonio Marchionni. Ética, a Arte do Bom, 2008.

Ninguém toque em Caim!


Deus é a vida que cria vida. E o homem, enquanto ser divino, é chamado a procriar e proteger a vida na família e no planeta. Celebração de uma Ética da Vida a partir da fundamentação religiosa é a Encíclica Evangelho da Vida, de João Paulo II (1995). Uma vida interpretada em sentido religioso constitui um poderoso antídoto contra o adoecimento cultural e físico.
A Vida está acima de tudo! Compreende-se por que as Religiões são defensoras extremas da vida: Deus é Vida. E Deus, cioso de sua criação, abomina qualquer matança da vida: eutanásia, o aborto, a eliminação de embriões, a violência ideológica, a discriminação econômica e física contra o corpo e a mente do outro, o desrespeito da natureza e dos animais.
A pena de morte, admitida durante séculos pela humanidade e pela Igreja, hoje é reprovada pela Religião, que evolui com o evoluir da sensibilidade humana. Se o assassino se manchou de sangue, o mesmo não pode fazer o Estado, que usará outros meios, entre eles o ensino da moral e a realização da racionalidade social, para coibir o assassinato. Diminuem, no mundo, os Estados com pena de morte e aumentam os grupos inspirados no lema “Ninguém toque em Caim!” (cf. Gn 4,15).
Fonte: Antonio Marchionni. Ética, a Arte do Bom, 2008.

Política: um problema de vida ou morte para o nosso tempo!


O problema da política cristã é um problema de vida ou morte para o nosso tempo. Os males que, hoje, afligem o mundo são precisamente o último resultado da ideia que dominou durante toda a idade clássica, segundo a qual a política não pode e não deve ser cristã, deve ser considerada como pura técnica, arte intrinsecamente independente da moral e da religião, cuja única lei é o sucesso material rapidamente obtido, por qualquer meio eficaz. Isto significa, na realidade, elevar em doutrina a perversão da política. Nós, ao contrário, pensamos que a política, por ampla que seja, há nela necessariamente uma parte de arte.
A política é, por sua essência, um ramo especial da ética, porque está destinada ao bem comum que é um bem essencialmente humano, um bem não só material, mas principalmente moral, que pressupõe a justiça e pede ser durável, por isso deve ser orientado para fomentar no homem o bem e a virtude. E se, por essência, ela é coisa moral, a política exige, dado o estado de fato em que se encontra a humanidade, ser auxiliada e fortificada a fim de não se desviar, alcançando um ponto suficiente de maturidade de tudo quanto o homem recebe na sua própria vida social, da revelação evangélica e da palavra de Deus, que nele opera.
Fonte: Jacques Maritain. Por um Humanismo Cristão, 1999.

2010-09-27

Não venda seu voto, mas também o dê a quem é digno do cargo!



Entramos na reta final da campanha eleitoral e já nos encaminhamos para o ato de eleger, para o dia da votação quando elegeremos àqueles que governarão o país pelo próximo quadriênio de anos, com exceção dos senadores que têm o mandato de oito anos. Sabemos que os candidatos ao Governo do Estado e à Presidência da República podem ir para o segundo turno, caso não atinjam no primeiro turno o percentual que lhes garantam já a vitória.

Nossas escolhas foram feitas a partir daquilo que lemos, estudamos, escutamos e refletimos. Essas nossas escolhas maturadas devem ser mais ainda sustentadas e protegidas dos que, imoralmente, podem tentar nos seduzir de tantas formas e meios. Isto acontece, de forma especial e lamentavelmente, com os eleitores menos instruídos quando recebem propostas para venderem o voto, mas também com os instruídos. As pesquisas mostraram que 80% dos eleitores cearenses não venderiam seu voto de última hora, no entanto, infelizmente, quando se trata de trocar esse voto por um tratamento de saúde ou por um emprego, os dados são alterados. O eleitor está mais consciente da importância da honestidade do seu voto, mas permanece vulnerável quando se trata daquelas necessidades e direitos que já deveriam ter sido sanados pelo Estado: o direito ao tratamento de saúde e ao emprego.

O povo brasileiro se encantou com o governo de Lula, e em parte com razão. Talvez isso explique o fato da candidata Dilma (PT) não ter caído nas pesquisas, mesmo após a forte campanha de grupos pró-vida e de um vasto seguimento da sociedade que defende os direitos fundamentais, a ordem moral e ética dos princípios, os quais não podem se deixar levar pelas ideologias e pelos interesses de um grupo minoritário. Muito se tem alertado dos perigos de se apoiar um governo que põe em cheque o direito à vida por parte do nascituro, ainda que não tenha sido desejada pelos progenitores, a salvaguarda do direito da complementaridade entre homem e mulher para o matrimônio e ainda o cultivo dos bons costumes de uma nação que tem suas raízes na fé cristã, sendo o seu exercício um direito assegurado, como também seus princípios pela Constituição Brasileira e pela Lei Canônica.

O povo tem consciência que a vida do brasileiro melhorou de alguma forma, mas existe “um mundo” a se progredir no processo para um Brasil justo e solidário, pois, muito mais graves são as questões éticas que devem ser revistas e outras asseguradas de forma incondicional, o que não tem acontecido no governo do PT, constituindo assim parte da sua vulnerabilidade. No entanto, o fato de ainda termos um eleitor que contempla o seu voto vulnerável às necessidades que lhe são negadas é preocupante. Não poucas são as deformações na consciência política dos brasileiros quando as questões éticas e morais são, tantas vezes, substituíveis por um salário melhor, uma consulta médica, um emprego, uns trocados por baixo dos panos. Louváveis são os trabalhos da Igreja, dos cidadãos conscientes e da Justiça Eleitoral nesse processo de conduzir o eleitor à sua responsabilidade. A reflexão crítica e a capacidade de influenciarmos positivamente as consciências de milhares de católicos e cidadãos no Brasil, não podem retroceder. Não venda seu voto, caro eleitor, mas também o dê a quem é digno do cargo e pode melhor representar não a si mesmo e seus interesses, mas às necessidades do povo brasileiro.

Antonio Marcos

Cultivar a fé em Deus e compartilhar a vida com alguém


Temos acompanhado na Liturgia da Igreja nesses últimos Domingos, leituras bastante favoráveis à uma reflexão concreta sobre a nossa relação com o dinheiro e os bens materiais. Estamos sendo convidados a refletir, sobretudo, no perigo do materialismo e do individualismo, como na loucura de colocarmos o sentido de nossa vida no dinheiro. O que temos visto é mesmo a obsessão pelo poder e pelo possuir em todos os âmbitos pessoais e coletivos, não somente no rico, mas também entre os menos favorecidos. Em nome do “deus mamona” (deus da riqueza), nós estamos nos irracionalizando e, o que é pior, satisfeitos conscientemente da sedução dos benefícios que nos traz rapidamente o dinheiro desonesto.

É inegável o orgulhar-se do homem pelo progresso, mas as máscaras vêm caindo e as frustrações são inevitáveis. Em um dos jornais escritos daqui de Fortaleza (domingo, 26 de setembro) constava no Caderno Economia, um artigo e uma pesquisa feita nos Estados Unidos e na Inglaterra baseada na pergunta: “O que faz você feliz?”. A discussão girava em torno da temática “dinheiro e felicidade”. A pesquisa dizia que a falta de saúde é causa de muita infelicidade, porém, em primeiro lugar, como fator máximo de infelicidade se observa ser a solidão. O dinheiro garante que a pessoa tenha o conforto em bens e serviços, mas o dinheiro não tem um significado na vida de alguém tão relevante quanto as relações que ela desenvolve.

Precisa-se, evidentemente do dinheiro, porém, - dizem os especialistas – não é preciso muito, mas o suficiente para se viver com dignidade. Para os americanos, o primeiro motivo para ser uma pessoa feliz é “ser religioso”, cultivar a fé em Deus. Já o primeiro motivo para a infelicidade é mesmo a “solidão”, não ter alguém com quem se possa dividir a vida, os sonhos, as alegrias, o afeto e as esperanças. Fica uma oportunidade de refletirmos sobre a nossa obsessão pelo dinheiro. Por outro lado se observa a distância e o desânimo com as realidades espirituais e relacionais, sem contar o pouco tempo que temos para a família, os filhos, o lazer e o cultivo da nossa relação com Deus e com os outros, os amigos, exatamente por dedicarmos nossas melhores energias simplesmente em trabalhar e ganhar dinheiro. A Igreja será sempre para nós como uma mãe a nos orientar e formar: “Aí onde está o teu coração, estará o teu tesouro!” “Só permanecerá o que construímos de bom na vida das pessoas”, diz o papa Bento XVI.

Antonio Marcos

2010-09-26

A diversidade de estilos numa tarde de sábado


Enquanto esperava o ônibus na tarde de ontem (sábado, 24 de setembro), dentro de um dos terminais de Fortaleza, tive a oportunidade de observar algo que me chamava a atenção. Trata-se da diversidade de estilos de vida desta nossa geração, especialmente entre os jovens e adolescentes. Depois dos anos 70, da liberação sexual que teve como símbolo o Festival de Woodstock, há tempo não se via algo tão aproximado e, sem dúvida, com alguns ingredientes culturais e ideológicos a mais.

Pois bem, o que então observei dessa diversidade de estilos? No meu ponto de ônibus estava a galera adolescente mais identificada com os EMOS. Sempre naquele jeito de se trajarem: a predominância da cor preta para as roupas, os cabelos pretos e rebelados sobre os olhos escuros, sombreados, as meias calças listradas com botas pretas ou o velho Al Star. Parece até que nada combina, e se abraçam, dividem os fones do MP4, óculos grandes e verdes, pulseiras coloridas, as grades servem como banco e todo mundo fala a mesma língua. Ah, alguns meninos pareciam tão meninas! Eu não julguei, apenas observei!

Já no ponto de ônibus ao nosso lado estava a galera do rock. Certamente eles estavam indo para outro lugar, um point ou para algum festival. Eram mais de dez jovens homens e poucas mulheres. Também a caráter: calça jeans ralada, tênis esportivo e a camisa preta com a sua banda preferida. Lembro ter visto nas camisetas as bandas: Pearl Jam e várias com a lenda do Rock inglês: Donzela de Ferro (Iron Maiden). As mulheres do Rock também andam no estilo, mas não perdem o jeito feminino de ser, geralmente são entendidas do assunto e namoram um roqueiro. Não são mulheres de um e de outro. Observei que eles fumavam, são mais interagidos, mais maduros e também escutam MP4, curtiam o rock e faziam os gestos com as mãos como se tocassem guitarra e balançavam a cabeleira.

Mas, essa diversidade não termina numa tarde de sábado. Na plataforma paralela estava um jovem pregador evangélico com bíblia na mão, calça social e camisa de botão, porém de chinelo, gritando a plenos pulmões: “Só Jesus Cristo Salva!” Alguns o olhavam cansado, suado e quase já sem voz, outros até riam. Os EMOS e a galera do Rock não se importavam e nem riam do pregador, apenas curtiam seus estilos. Percebi que eu também estava ali com o meu estilo de vida. Calça tactel, camisa da Mizuno, Boné e revista de atletismo na mão. Estava indo para o meu primeiro longão preparatório à maratona. Quando me dei conta do meu estilo logo o ônibus chegou e fomos todos para os nossos destinos, porém, não mais esqueci: quanta diversidade de estilos numa tarde de sábado!

Antonio Marcos

As nossas teias de relações


Ficamos sempre admirados a contemplar essa mística de estarmos ligados aos outros pelos laços de fraternidade e de amizade. Estes devem seguir o ritmo da natural expansão, desde que não nos isolemos e nos fechemos em nós mesmos. A convivência em determinado grupo social colabora nesse processo.

Observamos que as nossas relações formais ou informais, familiares, de trabalho ou de amizade são pontes para novas experiências. Penso que quase ninguém duvida da “química”, do “mistério” e da ação divina que ocorre quando nossas teias de relações se entrelaçam a outras e quase sempre por amigos e amigas nossas. Costumo dizer que a leitura de uma boa literatura é mesmo uma viagem pelo universo da cultura e a descoberta e participação de  uma nova pessoa nas nossas vidas é mais que cultura, é rejuvenescimento do corpo e da alma, é algo divino, feliz, construtivo. Claro, as boas relações superam as más, as que se aproveitam e que pensam somente em si mesmos, ou ainda as que não entendem de fidelidade, de respeito e desprendimento.

Por falar de desprendimento, louva-se aos amigos que sabem viver esse extraordinário dom, o despojar-se de seus interesses até lícitos, mas, principalmente, dos mesquinhos. Em tempo onde se cultiva tanto o individualismo e a posse de coisas e pessoas não é fácil viver essa liberdade nas relações de fraternidade e amizade, mas são possíveis e necessárias. Cada pessoa é única e irrepetível. Cada amigo tem seu valor, sua originalidade, seu lugar, seu encanto e o seu DNA de coração quando ama e quando manifesta o carinho na amizade. Essas teias, nossas teias de relações são universos que nos edificam e nos constroem. Essas teias, nossas teias de relações rompem o anonimato e evidenciam o que temos de melhor, a capacidade de amar e de recomeçar sempre.

Antonio Marcos

O confuso caminho dos maus


As Sagradas Escrituras falam muito claramente do mistério da impiedade (cf. IITs 2,7s) e não esconde que este tem na sua raiz a atividade de Satanás. Tal atividade é acompanhada por todo tipo de sedução à injustiça que nega o amor à verdade, única que pode salvar. Essa verdade é uma pessoa, Jesus Cristo.

Negar o amor à verdade parece mesmo uma das grandes seduções do nosso tempo. A pergunta de Pilatos a Jesus nunca esteve tanto em evidência: “o que é a verdade?" (Jo 18,38). Consequentemente dissimulamos a realidade pessoal e do contexto e simulamos ações que se aproximem da verdade. Ferir os outros, destruí-los fisicamente ou moralmente é para a consciência doentia de muitos apenas uma ação normal. Praticamos o mal como tomamos água quando estamos com muita sede e suspiramos aliviados, e até “dormimos em paz!”

Essa capacidade que temos de praticar o mal aos outros e a nós mesmos é assustadora. O mal que não quero, pratico; o bem que quero, não pratico, diz o apóstolo Paulo. É a dramaticidade da existência humana, a luta interior para não nos animalizarmos e cairmos na irracionalidade moral e ética. Por outro lado, mais assustadora é a nossa falta de espanto pelo fato de nos acostumarmos com o mal. Escutamos, falamos, queremos ver, saber, mas, fica somente nisto, plena curiosidade porque os sentidos e os sentimentos estão apodrecendo no conformismo com o mal. Sem dúvida, trata-se de uma cegueira seja espiritual, humana ou psíquica, mas é uma cegueira. O mal nunca pode ser para nós um aliado. Se assim acontece é porque estamos, de alguma forma, seduzidos por ele, seduzidos à injustiça e nesse sentido somente “o Senhor liberta os cativos e faz abrir os olhos aos cegos” (cf. Sl145/146).

Antonio Marcos 

Os despreocupados com a ruína de José precisam de uma resposta


Tão oportunas as leituras bíblicas que estamos meditando e refletindo nesse tempo em cada Domingo na Celebração Eucarística. Oportunas, especialmente, por ocasião do período eleitoral, no qual estamos acompanhando o perfil e as propostas dos candidatos aos cargos de governo. Os esforços da Comunidade Cristã não têm sido poucos, basta observarmos os esclarecimentos oficiais por parte da Igreja do Brasil e dos formadores de consciência quanto aos perigos de se eleger candidatos com história, perfil, ideias e propostas que vão contra os princípios da moralidade e da ética, ou seja, quando suas possíveis ações possam vir a ser contra valores fundamentais como a vida, a liberdade religiosa, a dignidade do matrimônio e da família etc.

Acreditamos que as pessoas, por mais simples que sejam, já não são mais tão bobas e descompromissadas com a questão política. Elas podem até não saberem argumentar, não saberem a linguagem política e sua estrutura de funcionamento, mas, certamente, reconhecemos que se encontram mais sensíveis em captar a mentira dos candidatos, a demagogia política e a insustentabilidade de certas propostas. No entanto, também não se nega de quantos continuam enganados com falsas promessas e por aqueles que desejam usufruir de uma vida confortável em nome do povo. Essa vida cômoda e as vantagens financeiras, contrastantes com o salário do trabalhador, têm tornado os cargos políticos mais cobiçados do que nunca no Brasil, daí que vale tudo pra se eleger! Até mesmo humoristas perdem a oportunidade de usarem o talento para uma crítica de desconstrução essa mentalidade do aproveitamento da ingenuidade das pessoas.

O profeta Amós (6,1a.4-7) exorta e adverte as autoridades judaicas quanto à afronta de gozarem à custa do povo de Deus, permanecendo acomodados e despreocupados com as causas do povo de Israel. O exílio da Babilônia será para todos eles a consequência humilhante. Já o nosso exílio pode ser também tão perigoso quanto o do povo de Israel. Não queremos ver nossas crianças abortadas e nem a banalização dos direitos fundamentais da cada pessoa humana. Queremos a preservação da dignidade humana e a promoção do Bem comum. Lamentamos que alguns dos nossos magistrados do Supremo Tribunal Federal julguem a Lei da Ficha Limpa como inconstitucional. É um absurdo! Desconfiamos que por trás existam sim, as influências, as regalias, a cumplicidade em dar brecha para que a corrupção e o descompromisso político continuem sendo moda no Brasil. “Aqueles que não se preocupam com a ruína de José” (Am 6,7) precisam de uma resposta nossa na hora de votarmos.

Antonio Marcos   

Dois extremos perigosos...


Uma pessoa me procurou aflita, após ouvir uma palestra sobre Falsas Doutrinas, e me confidenciou de sua angústia por considerar a Igreja omissa quando se trata de esclarecer as pessoas quanto às práticas de libertação, de exorcismo e cura interior. Os fieis – segundo ela – ficam expostos à sedução das seitas dissidentes do protestantismo, por sua vez tão numerosas no Brasil. Dei-lhe razão até certo sentido, mas lhe esclareci que a Igreja tem seus meios de tratar as questões, mas que não pode ceder às pressões de uma das formas errôneas de se viver hoje a relação com Deus.

E qual seria essa relação errônea de se viver a relação com Deus em nossos dias? Sem dúvida, a de espiritualizar todas as coisas e realidades, achando mesmo que isto ou aquilo ou vem de Deus ou de Satanás. Isto, evidentemente, toca a questão da responsabilidade da pessoa, inclusive em trabalhar as próprias fraquezas, as carências e os traumas. O que não pode é se deixar conduzir ao outro extremo de psicologizar todas as causas das ações humanas, ou seja, tudo considerando ser neurose ou psicose. Isto tem acarretado grandes prejuízos para o equilíbrio e maturidade espiritual na pessoa que crê.

Não nos faltam cristãos católicos bem intencionados, inclusive ministros ordenados, que agem desta forma, contando mais com os aspectos humanos e não ajudando a pessoa ao equilíbrio. Os escritores da espiritualidade moderna falam da crise da mística e também dos perigos de não se deixar ajudar pela ciência. Enfim, voltando para a responsabilidade da Igreja só posso lembrar com alegria que ela nos dá todos os meios de santificação: a vida de oração, a Palavra de Deus, os Sacramentos, de forma especial a Penitência e a Eucaristia, a orientação espiritual e todos os meios de esclarecimento e formação doutrinária.

Não considero que a Igreja esteja omissa quanto à questão me partilhada por esta pessoa, mas que ela deseja que o fiel católico faça uso consciente de todos os meios de santificação. Às vezes nossas missas de curas estão cheias na semana, mas quantos destes fieis vão à missa aos domingos, confessam-se, comungam, participam da comunidade? A vida cristã não é uma mágica ou uma seita, muito menos se concentra em apenas questões de “libertação”. Possessões existem porque Satanás existe; influências malignas existem porque Satanás continua a tentar os homens e a interferir nas suas decisões, mas o Sangue de Cristo é infinitamente mais poderoso e mais influente, sedutor e plenamente fonte de inteira libertação.

Sim, Jesus quer e está libertando por meio da Sua Igreja. A cura e o milagre não devem ser para o sensacionalismo e para a vanglória do pregador, muito menos para se tirar vantagens materiais. O que vemos na  televisão por parte das seitas é algo muito triste, mas, paciência! Vivamos a nossa fé, não buscando simplesmente “curas e milagres”, mas buscando a santidade na via da Igreja e, sobretudo, pela Caridade de Cristo. 

Antonio Marcos

2010-09-22

São Padre Pio: um pobre frade que reza!


A celebração da memória de São Padre Pio de Pietrelcina é de grande importância para um número considerável de fiéis católicos e não católicos em todo o mundo. Este humilde capuchinho de San Giovanni Rotondo nos deixou um testemunho de amizade com Deus, de humildade e serviço. exemplares. Quem conhece o mínimo da sua história sabe das horas em que se dedicava ao confessionário atendendo às pessoas, acolhendo-as, amando-as, exortando-as ao bem e dispensando-lhes a graça da misericórdia de Deus.

Este homem conheceu o sofrimento na sua própria experiência de vida e de decisão por Deus. “Ele procurou em toda a sua vida conformar-se cada vez mais com o Crucificado (…), pois, sem esta referência à Cruz não se compreende a sua santidade”, disse João Paulo II, na Homilia de Canonização de Padre Pio, em junho de 2002.

Pe. Pio recebeu os estigmas (chagas) de Cristo, a exemplo do seu pai seráfico, são Francisco de Assis, no entanto, tinha vergonha em mostrá-las porque imaginava que os outros “pensariam que ele era um santo”. Para ele era “humilhação” carregar as chagas do próprio Senhor. Este fato muito nos fala porque vemos a escolha de Deus gratuita nas nossas vidas. Ele nos concede as suas graças não mediante os nossos méritos, virtudes ou mesmo fraquezas, mas mediante os méritos de Cristo, mediante a sua incalculável bondade.

A atração que tiveram as pessoas pela vida de Padre Pio consistia na verdade, no fato de ser ele apaixonado por Jesus Cristo e tê-lo como único bem. Para manter essa comunhão de amor, a fonte e o segredo da sua fecundidade apostólica, da sua sabedoria no aconselhamento e no amor ao Mistério Eucarístico era, sem dúvida, o tempo que dedicava a estar com o Senhor. Ele mesmo costumava repetir quando definia a si mesmo e sem nenhuma presunção, mas confiança: “Sou um pobre frade que reza”.

Como rezava João Paulo II, nós também queremos expressar nossa gratidão a Deus por este santo homem humilde, por este homem santo. Em tempos como os nossos em que as pessoas estão desesperadas a correr contra o tempo nas suas muitas atividades, Padre Pio nos ensina o segredo e a força da oração, pois “rezar não é perder tempo”, diz o Papa Bento XVI (Deus Caritas Est). Oração e caridade caminhavam juntas na vida de Padre Pio, por isso sua própria vida se tornou uma “casa para aliviar o sofrimento de muitos que acorriam a ele”.

Rezar nunca deve ser um fechar-se egoisticamente, mas um estar a sós com o Senhor, ser preenchido do seu amor e transbordá-lo aos homens, especialmente aos mais necessitados. O Senhor nos conceda a graça de sermos também uma casa para aliviar o sofrimento de muitos. São Padre Pio de Pietrelcina, intercedei por nós!

Antonio Marcos

O céu que começa quando a caridade é realidade nas nossas vidas.


As nossas novas gerações trazem impregnadas nas suas consciências, certo determinismo e uma tendência às projeções e culpabilização dos nos nossos insucessos e infelicidades. Claro que existem as influências culturais, sociais e familiares, devido “determinismos biológicos” e a convivência, mas não os determinismos escravizantes e paralisantes de que pensou Freud, compreendendo que  “um acontecimento traumático gera sempre uma pessoa traumatizada”, não é bem assim! As influências da psicanálise freudiana deixaram  – para o Ocidente – sequelas na nossa maneira de também conceber a relação com Deus! O nome de Deus nunca foi tão machucado como nos nossos dias! Se algo dá errado conosco geralmente é Ele acusado da culpa. A própria crise do ateísmo moderno – segundo Ratzinger – chega a culpar Deus pelos males do mundo: a AIDS, a fome, as guerras, os pobres, a violência, o pecado e até o inferno.

Vem-nos assim a sempre necessidade fundamental de rezarmos mais, não como fuga e medo, como pensaram os “filósofos da suspeita”, mas como “estado interior místico, único capaz de colocar o homem na condição de amigo de Deus e de adentrar no coração do homem deste mundo secularizado”, pensava o teólogo Von Balthasar. Evidentemente isto não desconsidera as neuroses e psicoses que requerem terapia, ajuda de um profissional, mas, também não significa dizer que elas sejam as únicas soluções como pensa até mesmo certos formadores católicos. Rezar faz com que conheçamos o coração de Deus e nos deixemos purificar nas nossas falsas imagens que temos d’Ele. Rezar nos faz entender o fio condutor da nossa história, situando-a dentro do fio de ouro condutor de  que não foi um acidente este ou aquele acontecimento.

Rezar inocenta Deus da culpa que lhe projetamos por causa dos nossos fracassos, sejam quais forem. Rezar nos faz amigos e não desconfiados de Deus. A oração nos faz viver a graça da necessidade essencial de crermos que não é Deus um carrasco a contar os meus pecados e erros, mas um Pai amoroso e amigo. Rezar não me faz ter medo do inferno, e sim, e encoraja-nos a não ter medo de amar e perdoar a nós mesmos e os outros. Rezar me faz viver de fé, a querer ser santo e a desejar o céu que começa quando a caridade é realidade nas nossas vidas.

Antonio Marcos

2010-09-20

Continuam persistindo as amizades duradouras


Tristes tempos! Vivemos numa época de interesses recíprocos, atravessamos um período de pragmatismos mútuos, nos quais as regras da competitividade mortal e de uma base econômica idólatra e implacável nos mecanismos de exclusão, impõe valores gananciosos! Uma norma principal ganha corpo: é bom tudo o que for útil, é adequado tudo o que for lucrativo, é moralmente confortável tudo o que for vantajoso. O princípio central da convivência passa a ser o inesgotável “Uma mão lava a outra”.
A amizade também não conseguiu escapar muito dessa avassaladora pressão, poucas são as relações interpessoais que fogem ao utilitarismo das afetividades simuladas. Cada vez mais temos amizades fugazes, com data de validade restrita; as pessoas vão e vêm rapidamente, acumulando-se uma série de perdas sem que ganhos subjetivos se fortaleçam. Mais e mais conhece-se muita gente e sustenta-se com fragilidade o aprofundamento dessas relações; coloca-se como orientação básica do “mundo dos negócios” (a invadir o tecido social) a necessidade de ampliar ao máximo o número de contatos, sem que, de fato, essas aproximações signifiquem uma intenção de permanência e dedicação. Usa-se com facilidade a palavra “amigo”, em vez de, honestamente, fazer valer as expressões “colegas” ou “conhecido”.
Chega-se, inclusive, a uma situação mais defensiva: aqueles e aquelas que recusam qualquer forma de envolvimento nas afeições e na camaradagem, supondo, com densa carga de razão, ser difícil separar uma lealdade sincera e amiga de uma simpatia forjada e circunstancial. A própria ideia de fraternizar, isto é, de estar “entre fraternos”, fica sutilmente obscurecida pela concepção de que é fundamental fazer “network” para poder estar sempre entre os emergentes sociais e laborais, em vez de afundar no destino dos meros sobreviventes.
Sem desejar produzir um recurso à nostalgia tola, é saudável lembrar: bons tempos aqueles nos quais se podia acreditar no que Aristóteles, já no século 4 a.C., afirmava na Ética a Nicômaco: “a amizade é uma alma com dois corpos”. Parece que o ideal aristotélico vem sendo superado por uma perspectiva muito bem expressa pelo, eventualmente satírico, filósofo francês Montesquieu: “A amizade é um contrato segundo o qual nos comprometemos a prestar pequenos favores para que no-los retribuam com grandes”.
É claro que continuam persistindo as amizades duradouras, aquelas que, passados meses ou anos, tem-se a sensação de que a distância temporal não valeu, a intimidade permanece viva e o apoio irrestrito prossegue incólume; afinal, como refletia Jean Cocteau, sensível poeta e diretor de grandes clássicos do cinema francês, a “felicidade de um amigo deleita-nos, enriquece-nos, não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso é porque não existe”.
É por isso que Chamfort, em obra póstuma chamada Pensamentos, máximas e anedotas (publicada em 1975, pouco depois do suicídio em Paris), afirmava que “neste mundo temos três espécies de amigos: aqueles que nos amam, aqueles que não se preocupam conosco, e os que nos odeiam”. A mesma ideia desponta no século seguinte, com a característica ironia irlandesa de Oscar Wilde: “toda a gente é capaz de sentir os sofrimentos de um amigo. Ver com agrado os seus êxitos exige uma natureza muito delicada”.
Ainda tem de valeu o ditado italiano Amicizia que cessa non fui mai vera, isto é, em pura tradução mais livre, “Amizade que acaba nunca principiou”...
Fonte: Mário Cortella. Não nascemos prontos! Provocações Filosóficas, 2009.

2010-09-16

Deus nunca quer anular a liberdade do homem!


Sr. Cardeal Raztinger, muitos têm dúvidas quando pensam na ação de Deus e na ação do Homem no mundo: será que o mundo foi realmente redimido? Será que ainda se pode chamar anos de salvação aos anos depois de Cristo?

Julgo que em relação a essas questões, é preciso começar por dizer que a salvação, a salvação vem de Deus, não é nenhuma grandeza quantitativa e, por isso, nenhuma grandeza que se possa adicionar. No que diz respeito aos conhecimentos técnicos, poderá existir na humanidade um crescimento que talvez não seja contínuo, mas que, em geral, o é de fato. O que é meramente quantitativo pode-se medir, e então pode-se verificar se é mais ou menos. Pelo contrário, não pode existir um progresso do mesmo tipo, que seja quantificável, no que diz respeito à bondade do homem, porque há uma novidade em cada pessoa e porque, por isso, a História começa de novo, de certo modo, em cada nova pessoa.

É muito importante aprender a fazer essa distinção. A bondade do Homem, para usar esta expressão, não é quantificável. Não se pode partir do pressuposto de que um cristianismo que no ano zero começa como grão de mostarda no fim teria de ter forma de uma árvore enorme e que se poderia ver como foi melhorando de um século para outro; pode-se sempre desmoronar-se e interromper-se, porque a redenção está sempre confiada à liberdade do Homem e porque Deus nunca quer anular essa liberdade.

Fonte: Cardeal Raztinger. Sal da Terra,1997.

2010-09-15

Culpas nos paralisam; arrependimentos não!


Eu não sei se você se recorda do seu primeiro caderno. Eu me recordo do meu! Com ele eu aprendi muita coisa. Foi nele que eu descobri que a experiência dos erros, ela é tão importante quanto a experiência dos acertos, porque vistos de um jeito certo, os erros, eles nos preparam para as nossas vitórias e conquistas futuras, porque não há aprendizado na vida que não passe pela experiência dos erros. Caderno é uma metáfora da vida. Quando os erros cometidos eram demais, eu me recordo que a nossa professora nos sugeria que a gente virasse a página. Era o jeito interessante da gente descobrir a graça que há nos recomeços. Ao virar a página os erros cometidos deixavam de nos incomodar e, a partir deles, a gente seguia um pouco mais crescidos.

O caderno nos ensina que erros não precisam ser fontes de castigos. Erros podem ser fontes de virtudes! Na vida é a mesma coisa, o erro tem que estar a serviço do aprendizado, ele não tem que ser fonte de culpas e vergonhas. Nenhum ser humano pode ser verdadeiramente grande sem que seja capaz de reconhecer os erros que cometeu na vida. Uma coisa é a gente se arrepender do que fez, outra coisa é a gente se sentir culpado. Culpas nos paralisam; arrependimentos não! Eles nos lançam pra frente e nos ajudam a corrigir os erros cometidos. Deus é semelhante ao caderno. Ele nos permite os erros pra que a gente aprenda a fazer do jeito certo. Você tem errado muito? Não importa! Aceite de Deus esta nova página de vida que tem nome de “hoje”. Recorde-se das lições do seu primeiro caderno: quando os erros são demais, vire a página!

Fonte: Pe. Fábio de Melo. Cd Vida, música O Caderno (Toquinho).

O mundo sem Deus não se torna um paraíso, mas um inferno!


“Enraizados e fundados em Cristo... firmes na fé” (cf. Cl 2, 7). A Carta da qual é tirado este convite, foi escrita por São Paulo para responder a uma necessidade precisa dos cristãos da cidade de Colossos. Com efeito, aquela comunidade estava ameaçada pela influência de determinadas tendências culturais da época, que afastavam os fiéis do Evangelho. O nosso contexto cultural, queridos jovens, tem numerosas analogias com o tempo dos Colossenses daquela época. De fato, há uma forte corrente de pensamento laicista que pretende marginalizar Deus da vida das pessoas e da sociedade, perspectivando e tentando criar um “paraíso” sem Ele. Mas a experiência ensina que o mundo sem Deus se torna um “inferno”: prevalecem os egoísmos, as divisões nas famílias, o ódio entre as pessoas e entre os povos, a falta de amor, de alegria e de esperança. Ao contrário, onde as pessoas e os povos acolhem a presença de Deus, o adoram na verdade e ouvem a sua voz, constrói-se concretamente a civilização do amor, na qual todos são respeitados na sua dignidade, cresce a comunhão, com os frutos que ela dá. Contudo existem cristãos que se deixam seduzir pelo modo de pensar laicista, ou são atraídos por correntes religiosas que afastam da fé em Jesus Cristo. Outros, sem aderir a estas chamadas, simplesmente deixaram esmorecer a sua fé, com inevitáveis consequências negativas a nível moral.

Aos irmãos contagiados por ideias alheias ao Evangelho, o apóstolo Paulo recorda o poder de Cristo morto e ressuscitado. Este mistério é o fundamento da nossa vida, o centro da fé cristã. Todas as filosofias que o ignoram, que o consideram “escândalo” (1 Cor 1, 23), mostram os seus limites diante das grandes perguntas que habitam o coração do homem. Por isso também eu, como Sucessor do apóstolo Pedro, desejo confirmar-vos na fé (cf. Lc 22, 32). Nós cremos firmemente que Jesus Cristo se ofereceu na Cruz para nos doar o seu amor; na sua paixão, carregou os nossos sofrimentos, assumiu sobre si os nossos pecados, obteve-nos o perdão e reconciliou-nos com Deus Pai, abrindo-nos o caminho da vida eterna. Deste modo fomos libertados do que mais entrava a nossa vida: a escravidão do pecado, e podemos amar a todos, até os inimigos, e partilhar este amor com os irmãos mais pobres e em dificuldade.

Queridos amigos, muitas vezes a Cruz assusta-nos, porque parece ser a negação da vida. Na realidade, é o contrário! Ela é o “sim” de Deus ao homem, a expressão máxima do seu amor e a nascente da qual brota a vida eterna. De fato, do coração aberto de Jesus na cruz brotou esta vida divina, sempre disponível para quem aceita erguer os olhos para o Crucificado. Portanto, não posso deixar de vos convidar a aceitar a Cruz de Jesus, sinal do amor de Deus, como fonte de vida nova. Fora de Cristo morto e ressuscitado, não há salvação! Só Ele pode libertar o mundo do mal e fazer crescer o Reino de justiça, de paz e de amor pelo qual todos aspiram.

Fonte: Papa Bento XVI. Mensagem para a JMJ de Madri 2011, Parág. 3.

Apesar das dores da cruz, a ternura de Deus não muda para conosco!


Dentro de uma breve palavra na memória Litúrgica de Nossa Senhora das Dores, ressalto um dos aspectos de Maria na sua relação com o mistério da dor e do sofrimento pelo qual passara como pessoa humana, que foi, sem dúvida, a sua fé. Não uma fé, evidentemente, passiva, ou seja, de quem diz: tenho mesmo que sofrer, pois é vontade de Deus. Não foi esta a postura de Maria diante da dor. “Maria permanecia de pé diante da Cruz” (cf. Jo 19,25s), como sinal de fé e esperança que protegiam a sua dignidade de filha de Deus. Não precisamos nos desesperar na hora da dor e do sofrimento, pois essas experiências podem ser portas para um recomeço de vida e sentido, sobretudo, fazermos-nos mais confiantes de que Deus tirará um bem maior deste acontecimento.

Quando o velho Simeão diz a Maria: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muito em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma” (cf. Lc 2,33-35), Maria não se angustia, mas guarda em seu coração todas as profecias a seu respeito, ela é uma mulher de fé, “fé carismática”, que dialoga com Deus e consigo mesma, no entanto, a última palavra não é dos acontecimentos, mas a de Deus que lhe disse por meio do anjo: “Não temas, Maria! Encontraste graça junto de Deus. O menino que nascerá de ti será chamado Filho de Deus!” (cf. Lc 1,30-32).

Estar diante da dor e do sofrimento sem a fé é desesperador, é ter a cruz como sinal de ignomínia e não permitir que ela nos purifique, nos salve de nós mesmos. Manter a esperança em Deus de que tudo concorre para o bem dos que O amam deve ser a nossa resposta, pois, apesar das “dores da cruz”, a  ternura de Deus não muda para conosco. Concluo lembrando também neste dia das dores da Igreja nestes tempos de tantas turbulências, de acusações e perseguições contra ela, no entanto, é também a Igreja que nos ensina a estarmos de pé diante da cruz, porque a última palavra é a de Nosso Senhor Jesus Cristo que disse: Não temais! “Eu estarei convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!” (Mt 28,20). Como não acreditar que estás com os homens, Senhor, com a Igreja, com os teus filhos exatamente nas horas onde a cruz e a dor lhes parecem tão íntimas? Claro que estás! Nossa Senhora, Virgem das Dores, rogai por nós!

Antonio Marcos