2010-07-07

Papai, o meu ídolo agora é um bandido?


A velha questão da decepção dos ídolos de nossas crianças volta à tona no país. Imagine a dor para o coração dos pais ao ouvir do filho esta pergunta dilacerante: “Papai, o meu ídolo agora é um bandido?” O que dizer à criança? O que responder sem que a verdade seja omissa e sem que o ideal de se espelhar numa referência seja colocado em descrédito? Esta é uma questão delicada e que os pais não podem ignorar.
O certo é que quando isso acontece, as crianças ficam confusas, exatamente por se encontrarem nesse importante período da formação dos valores, do desenvolvimento das habilidades, do começo do cultivo dos sonhos do que querem ser quando crescerem, e por isso as referências que alimentam esses sonhos desempenham papel essencial. Para a criança não é somente o que o ídolo faz, mas há uma identificação com a pessoa. Muitas delas se sentem orgulhosas até em serem comparadas com o ídolo, e brincam de chamar pelo nome um e outro coleguinha. Quando, equilibradamente isso acontece, faz parte e faz bem à criança. O problema está exatamente quando esse ídolo se torna um mau exemplo, um escândalo, um criminoso, um bandido, uma pessoa cruel, capaz de chocar a opinião pública com atitudes bárbaras cometidas contra outro ser humano.
Dizem os profissionais no assunto que isso pode acarretar sérios problemas psicológicos para as crianças, especialmente se não forem auxiliadas pelas orientações dos pais. A criança não só fica confusa, mas há um sentimento de frustração diante dos pais, dos coleguinhas e da sociedade. Ela vive certa decepção por ver o seu ídolo envolvido em questões desaprovadas no ensinamento dos pais, da escola e dos coleguinhas. Eis um desafio para a nossa sociedade, para os pais, para cada um de nós. Eis uma questão que precisa urgentemente de uma reflexão dos formadores de consciência de nossa sociedade. Sabemos que a questão é complexa e envolve a formação da pessoa, os valores, a relação com o dinheiro e a fama, a história de vida, os traumas e as neuroses de cada um, mas, que se saiba, nada disto pode justificar plenamente as barbáries.
Os ídolos de nossas crianças devem responsabilidade à sociedade. Se eles são o que são é porque o talento foi reconhecido e valorizado pelos pais e filhos, educadores e pela própria sociedade. Infelizmente temos alguns indicadores negativos, aos quais todos estão sujeitos, que são essa promiscuidade promovida pela própria sociedade, a banalização dos valores morais e éticos, o uso da fama e do dinheiro para se conceder a si mesmo o direito de fazer o que bem entender de si e dos outros, ainda que seja matar, estuprar, esquartejar, desossar, carbonizar um ser humano e, detalhe, mãe do próprio filho ou esposa, mãe, pai, filho. Estamos cansados de uma sequência de fatos atrozes no Brasil. Mal tem terminado o choque de um, alastra-se outro. Daí que para uma maioria já não há qualquer reação de sensibilidade. Apenas seguimos o espetáculo da imprensa. Esta, por sua vez, também nos confunde, porque já não sabemos o que é profissionalismo, serviço de informação e denúncia à sociedade e o show de sensacionalismo.  Por fim, ajudemos nossas crianças nessas frustrações. As referências e os ídolos, exemplos no nosso país, são em número abundantemente superior aos que levam frustrações às crianças e que são causas de questionamentos, por parte delas, junto aos seus pais.
Antonio Marcos

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