2010-07-27

O Mal tem raízes mais profundas que apenas encontrar os culpados pelas barbáries!


Quando as notícias trágicas são estampadas na mídia, o que acontece quase que diariamente, e chegam até nós, deve sim, nos chocar, sempre nos chocar! Também constitui uma tragédia nos acostumarmos com a barbárie, e isto já acontece com um número grande de pessoas. Sabemos que não podemos isentar o Estado e apenas culpar o bandido ou o policial, mas também não podemos esquecer de fazer aquela apelação à consciência humana que faz do homem, em primeira instância, responsável pelos seus atos.

Aqui no Ceará as informações veiculadas é que um policial “fica pronto” em seis meses. Apenas seis meses e o Estado já o considera preparado para enfrentar a criminalidade e para o tamanho da barbárie provocada pela violência. Será mesmo que um policial está pronto em seis meses? Sem comentário! Talvez o disparo pelas costas, feita por um desses policiais ao adolescente de 14 anos, que ia na garupa da motocicleta com o seu pai, possa explicar melhor a natureza fadada dessa formação, sem falar dos aspectos psicológicos e emocional.

Já a questão da sedução da “propina” virou vício em todo o país. Um jovem no seu tempo justo de lazer é surpreendido por um atropelamento provocado por um irresponsável, não é socorrido e quando chega a polícia tudo se resolve pela propina. Por outro lado o cidadão também se acostuma com o “jeitinho brasileiro”, quando já decorou a fórmula: “Ô seu guarda, deixa pra lá, eu te pago um bom dinheiro!”. Afinal, por que estamos tão desencantados com o bem, com a verdade e com a ética? Será que estes valores são hoje apenas discursos nos púlpitos da igreja, nas aulas de religião e teologia ou nas academias, inclusive, para formar o homem da lei e o cidadão profissional? Tragicamente parece que os valores de dissolvem diante da possibilidade de ter um pouco mais de dinheiro no meu bolso, ou, quando se trata da violência, ao menos pela sensação de vingança cumprida ou do simples extrapolar dos sentimentos de raiva.

O que sei é que Auschwitz tem hoje outras facetas, talvez aquelas percebidas pelo grande Viktor Frankl (pai da Logoterapaia), quando percebeu que “os homens de hoje estão correndo ao encontro de outras cercas elétricas”, não simplesmente para se suicidarem como acontecia nos campos de concentração pelo alto nível de desespero, mas pelo simples prazer de se aventurar para morrer ou para matar, não importa. Se a Máxima Filosófica de que “o agir segue o ser” é ainda verdade, então este “Ser” se encontra na maior de todas as suas crises. Quem somos afinal? Quem é outro? Respondam-nos os filósofos existencialistas cristãos da alteridade! Estamos quase desesperados!

É lamentável que os confortos, o consumo, os diplomas pendurados na vitrine do Ego, apenas sirvam como fachadas de que somos bons cidadãos. Não quero acreditar que estejamos apodrecendo no nosso comodismo e paralisados para as ações que construam o bem. Jamais quero generalizar minhas percepções, seria também uma tragédia, talvez a maior. Os homens de bem existem, os cidadãos, os bons e os cristãos também. Ah, preciso dizer que também muita gente não crê, mas se sente horrorizada com a barbárie dos que se dizem crer, e elas têm razão! Não, não estou desesperado, não perdi a esperança! Mas hoje, exatamente hoje, eu me lembrei tanto  do profeta Jeremias quando parecia desconsolado ao dizer: “Esperávamos a paz, e não veio a felicidade”. O profeta se livrou do desespero quando fez a feliz afirmação: “Senhor, nós pecamos contra ti, mas, lembra-te, não quebres a tua aliança conosco” (cf. Jr 14, 17-22). O profeta não isentou a responsabilidade de cada um e do seu povo, mas reconheceu que o mal tem raízes mais profundas que simplesmente encontrar os culpados pelas barbáries. 
 
Antonio Marcos

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