2010-07-31

Não acredito ser Deus um carrasco!


Das muitas questões me confidenciadas por pessoas com quem tenho tido contato ultimamente, muitas delas sinalizam para a crise da relação com Deus. Não diria que estejam perto de perderem completamente a fé, ameaçadas ao ateísmo, não! No entanto, quase todas reclamam do silêncio de Deus, de uma possível indiferença de Sua parte providencial e ainda do cruel esquecimento para consigo. Culpam-no até pelos próprios males! O que mais impressiona é que as perdas afetivas, religiosas e profissionais quase sempre tendem a provocar estranheza na nossa relação com Deus, o que não deveriam.
Em dias como os nossos em que a liberdade encontra sempre uma causa fora de nós para explicar as intempéries, não é de estranhar que Deus continua sendo o maior de todos os culpados. Talvez seja pelo fato de tudo o que é bom, o que produz felicidade, o que traz a natureza do verdadeiro amor sempre se identificar com Deus, então, consequentemente, vivemos dentro de uma lógica injusta: estou bem, logo minha relação com Deus é estável; estou mal, logo minha relação com Deus fica abalada. Estou sempre numa insustentabilidade emocional e espiritual, ou talvez, marcado pela regra do negócio: faço para Deus, portanto, Ele tem o dever de me corresponder! Se Deus se cala, logo duvido; logo ele não existe!
Nas relações humanas o drama da troca de acusação entre Adão e Eva continua. Alguém é responsável pela minha infelicidade; alguém é o culpado por eu estar ferido; alguém deve pagar por esta traição, por esta difamação e acusação! Reconhecer-se pecador e assumir o próprio pecado, ser o publicano no Templo ou David diante de Natan, tudo é graça de Deus. Eu mesmo venho aprendendo isto como nunca antes. Hoje mesmo vivo isto de forma surpreendente! Essa capacidade que temos para o mal é algo que nos espanta. Realmente, dizia-me a pouco tempo uma amiga, não sabemos o que as pessoas escondem nas intenções do coração.  
O certo é que Deus não é o culpado de nossas mazelas, sombras e pecados. Deus não pode sentar no banco dos réus do tribunal do nosso coração quando a nossa liberdade mal vivida é a responsável pelos danos. Também é verdade que podemos sofrer pelo mau uso da liberdade dos outros, pelas suas más ações e que podem nos atingir, especialmente quando estão ligadas a nós pelos laços afetivos. Deus é sempre o primeiro a se importar com nossas dores e fracassos, porque não é o autor deles, mas é amor (I Jo 4,8). Não há em Deus nenhuma sombra de trevas e nenhuma intenção de nos fazer sofrer. Não acredito ser “Deus um carrasco! Se estamos sofrendo ou sendo injustiçados temos de recorrer a Deus e suplicar a sua força, a sua graça, e não culpá-Lo por nossas chagas. Na verdade, Deus é o único justo na história. “No Seu Filho foi esmagado por nossas iniquidades!” Quando Deus parece calado, na verdade, é porque estamos ocupados demais com nossas coisas e questões, sejam as alegrias ou dores!
Antonio Marcos 

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