2010-07-29

A dor e perda também fazem parte do amor!


Há poucos dias atrás meditamos no Evangelho da Santa Missa, o texto bíblico do cap. 10 do Evangelho de S. Lucas (Jesus acolhido na casa de Marta e Maria). Hoje a Igreja, mais especificamente através do Evangelista João (11, 19-27), nos oferece a feliz oportunidade de nos determos sobre a figura de Santa Marta, irmã de Maria e Lázaro. É surpreendente a personalidade de Marta e uma grande lição se pode extrair com sua vida e com sua amizade com o Senhor. Seu ímpeto e ousadia dentro da relação com o amigo Jesus me falam muito da missão e dos desafios que comporta o amor. Só quem ama sabe exigir sem sufocar, sem se desesperar, sem perder a fé e a confiança.

O que vemos então? Numa primeira situação Marta cobra de Jesus que não permita que ela faça as coisas de casa sozinha enquanto Maria parece não se importar, pois se encontra aos pés do Senhor a escutá-Lo. Jesus faz entender que as duas coisas são importantes, a oração e a ação, conjugam-se, mas quer falar sobre as preocupações excessivas de Marta que podem roubar dela a paz e não ajudá-la a contemplar o Senhor, mesmo nos seus afazeres.

Agora, numa situação ímpar, de dor e sofrimento por causa da morte do seu irmão Lázaro, Marta reclama a Jesus que “se tivesse estado ali, seu irmão não teria morrido” (cf. Jo 11,21). Ora, Marta era testemunha da amizade entre Jesus e seu irmão. Não entendia o fato d’Ele não ter chegado a tempo, já que o amor se apressa para amar, cuidar e salvar. A amizade verdadeira se revela exatamente nas adversidades. Será que Jesus não amava Lázaro e não era amigo de verdade? Inconcebível pensar assim, não é? Também Marta não queria dizer isto! Sua reação era muito mais de confiança. Marta tem a liberdade de “cobrar” do amigo porque Ele conhece a Deus. Quando cobramos de quem recebeu muito da parte de Deus não estamos incomodando, mas acreditando que ele pode fazer algo a mais. Quando Deus é vivo no outro, este outro não pertence mais a si mesmo, mas aos dramas da humanidade. Jesus “não só recebeu muito”, mas Ele era Deus, e Marta fez esta confissão: “(...) sei que o que pedires a Deus, ele te concederá (...), creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (cf. Jo 11, 24.27).

É bela a Cristologia através das verdades de fé que o evangelista João coloca na boca de Marta. No entanto, um detalhe que faz a grande diferença e nos ajuda a compreender a atitude de Jesus: Ele vive sempre conosco os nossos dramas porque "os viveu na cruz" e sabe que eles podem nos ajudar a crescer, inclusive quando se trata da perda de quem amamos. Daí que Marta precisava aprender com outra escola, a da dor e do sofrimento. Estes dramas existenciais nunca são impostos por Deus, mas pela própria condição limitada da vida humana. Nossa liberdade está sempre situada na fronteira das opções e renúncias pelo bem ou pelo mal.

“Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21). Marta ama demais Jesus e por isso sabe que pode “exigir”. Ela sabe o que é o sacrifício para servir e amar. No entanto, Jesus não foi negligente para com seu amigo Lázaro e nem insensível para com Marta, mas sabia que não há acidente na vida de quem tem fé, de quem ama a Deus e confia sempre. Os desígnios de Deus continuam em processo nas nossas vidas, mesmo quando a perda, a decepção e as frustrações cruzam o nosso caminho. Jesus sabia que a dor e o sofrimento também fazem parte do amor, e dessa escola Marta aprendeu com Jesus, e como aprendeu!

A fé não é um amuleto para nós, uma fuga, um consolo para o amanhã. “A fé é certeza de já possuir o que esperamos”, não simplesmente o que julgamos ser o melhor, mas o que Deus pensa ser o melhor para nós. A fé é ressurreição hoje, se não da carne - o que será um dia na parusia final -, mas da absoluta confiança de que Deus não nos abandona quando nos chegam a solidão e as lágrimas. Precisamos da ressurreição da certeza de que “foi Deus que nos amou primeiro e este amor é irrevogável, não passará jamais” (cf. I Jo 4, 10). Marta, somos gratos a ti que tiveste a coragem de nos ensinar, através da tua amizade com o Senhor, que a dor, a perda e o sofrimento não têm a última palavra nas nossas vidas. “Contemplai a sua face e alegrai-vos, e vosso rosto não se cubra de vergonha!” (Sl 33/34). Santa Marta, rogai por nós!


Antonio Marcos   

Um comentário:

  1. "Só quem ama sabe exigir sem sufocar, sem se desesperar, sem perder a fé e a confiança."
    Sei nao vio...mas tu antonio marcos...
    vou nem falar nada!
    vc escreve maravilhosamente tocante!

    Deus abençoe filho!

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